Embrapa Amazônia Oriental
Sistemas de Produção, 04
ISSN 1809-4325 Versão Eletrônica
Dez./2005
Sistema de Produção do Açaí
Sumário
Início

Apresentação
Introdução e importância econômica
Composição química do açaí
Sistema de produção
Cultivo de açaizeiro em terra firme
Irrigação
Modelos de manejo
Pragas e métodos de controle
Noções básicas para o uso de agrotóxicos
Colheita e pós-colheita
Processamento embalagem e conservação
Mercado e comercialização
Coeficientes técnicos, custos, rendimentos e rentabilidade
Referências
Glossário
Autores
Expediente
  Modelos de manejo
 

Modelos de manejo

É bastante enfatizada na Amazônia, a adoção de práticas de manejo sustentável de recursos naturais, como solução ecológica-econômica. Entretanto, considerando a facilidade quanto ao acesso a novos estoques de recursos naturais, o extrativismo em áreas não-manejadas tem apresentado, em curto prazo, maiores vantagens econômicas.

As florestas de várzea, em que o açaizeiro é um dos componentes mais importantes, são exploradas das mais variadas formas, principalmente, através de atividades extrativas (Anderson & Jardim, 1989; Oliveira Jr. & Nascimento, 1992; Anderson & Ioris, 1992; Brondizio et al. 1994). O diagrama da Fig. 1 representa o processo tradicional de exploração dessas florestas, com ênfase para o extrativismo do açaizeiro visando às produções de fruto e palmito.

A partir de resultados experimentais e de informações obtidas junto aos ribeirinhos, que se dedicam ao extrativismo do açaizeiro e de outras espécies; ao plantio de enriquecimento de áreas; e à coleta de frutos e extração de palmito, foram definidas algumas estratégias com vistas à melhoraria do rendimento dos sistemas de exploração das florestas de várzeas do estuário amazônico (Nogueira, 1997). Para que seja garantido o manejo de floresta, com rendimento sustentável e exploração de forma cíclica, no mínimo, deverão ser observados os aspectos de avaliação do estoque disponível, as taxas de incremento e a regeneração natural de cada espécie a ser explorada (Reis et al. 1993).

Ilustração: Oscar Lameira Nogueira

Fig. 1. Processo tradicional de uso do ecossistema de floresta de várzeas do estuário amazônico.

Considerando a forma como os açaizais vêm sendo explorados, e algumas práticas bem sucedidas realizadas pelos ribeirinhos, é possível propor, de modo racional e equilibrado, manejo de exploração de açaizais nativos, conciliando a proteção ambiental com o rendimento econômico. O pressuposto básico deve estar voltado para o estabelecimento de florestas diversificadas de várzeas , que possam proporcionar aos ribeirinhos rentabilidade maior que a obtida com a forma atual de exploração. Nesse contexto, deve ser considerado que o manejo e a exploração do maior número possível de espécies, constituirão em aspectos favoráveis para a manutenção da biodiversidade, evitando, com isso, o risco da formação de maciços homogêneos de açaizais (tendência atual), e também favorecer o ressurgimento de espécies vegetais nativas, que praticamente desapareceram da região.

O diagrama representado na Fig. 2, propõe o manejo e a utilização das florestas de várzeas, tendo o açaizeiro como componente principal, porém, consorciado com as espécies de ocorrência natural na própria área e com outras introduzidas, caracterizando dessa forma o enriquecimento e a manutenção da biodiversidade.

Ilustração: Oscar Lameira Nogueira

Fig. 2. Proposta de exploração do ecossistema florestal de várzea do estuário amazônico, com enriquecimento da biodiversidade na formação de florestas econômicas .

O processo consiste, basicamente, na eliminação das plantas de espécies consideradas de baixo valor comercial, cujos espaços livres surgidos são ocupados com o plantio de mudas de açaizeiro e de outras espécies com importância econômica. No caso específico do açaizeiro, também podem ser utilizadas plantas jovens. com 4 a 5 folhas e altura média de 50 cm, oriundas de germinação espontânea de sementes e transplantadas de áreas próximas (Fig. 3).

Foto: Oscar Lameira Nogueira
Fig. 3. Planta jovem de açaizeiro, provinda de germinação espontânea de semente, transplantada para o local de plantio .

A eliminação das plantas pode ser feita por anelamento, derruba ou ateando fogo no tronco, dependendo do porte e da altura. Dentre as espécies utilizadas no enriquecimento, em conjunto com o açaizeiro, há de ser destacado o aproveitamento do cupuaçuzeiro, cacauzeiro, mangueira (Mangifera indica L.), viroleira (Virola surinamensis L.), andirobeira (Carapa guianensis Aubl.) e pau-mulato (Calycophyllum spruceanum L.). As espécies, como o taperebazeiro (Spondias mombin L.), buritizeiro, jenipapeiro (Genipa americana L.) e seringueira (Hevea brasiliensis H.B.K.), são encontradas, espontaneamente, nessas áreas de várzeas, havendo, no entanto, a necessidade de compatibilizar a densidade em função da população total de plantas que possa ser ideal.

Nas Fig. 4 e 5, estão representados os detalhamentos dos procedimentos iniciais de raleamento da vegetação de várzea, com a eliminação de espécies consideradas de baixos valores comerciais, seguido do remanejamento do plantio do açaizeiro e de outras espécies, respectivamente. Essas práticas possibilitam disponibilizar, para a exploração racional, florestas de várzeas diversificadas e econômicas.

Foto: Oscar Lameira Nogueira

Fig. 4. Início do processo de raleamento da vegetação de várzea e enriquecimento com açaizeiro.

 

Foto: Oscar Lameira Nogueira

Fig. 5. Floresta de várzea com açaizeiro associado à outras espécies nativas .

A grande vantagem econômica do manejo de açaizais, para a produção de frutos, induz à implantação de sistemas direcionados, prioritariamente, para esse fim e devem levar em consideração todos os procedimentos mencionados anteriormente. Ao final do processo de implantação será possível dispor de sistema agroflorestal, caracterizado como açaizal de várzea enriquecido com espécies nativas e introduzidas, constituído de aproximadamente 400 a 500 plantas adultas de açaizeiro e 100 a 150 plantas de espécies frutíferas e árvores de essências florestais por hectare.

Quando o interesse pela exploração dos açaizais manejados for, essencialmente, para a produção de palmito é desaconselhável o plantio de outras espécies, mas é importante realizar o raleamento da vegetação, seguido do enriquecimento, nas áreas de baixa concentração, com mudas de açaizeiro.

Na implantação de sistemas diversificados são recomendadas, preferencialmente, as áreas de várzea alta, por causa das facilidades de desenvolvimento das operações necessárias ao estabelecimento e à manutenção desses sistemas. No caso de áreas de várzea baixa, cujos solos permanecem quase sempre inundados, é recomendado o enriquecimento por meio do manejo das touceiras de açaizeiro existentes, pois o plantio e a manutenção de outras espécies são praticamente inviáveis.

Operações necessárias ao manejo

Limpeza da área

A roçagem é o primeiro trabalho feito na área e consiste da eliminação das plantas de menor porte e de cipós, bem como da retirada de galhos, e visa facilitar o deslocamento de pessoas que implementarão as demais práticas.

Raleamento da vegetação

Nessa etapa são identificadas e eliminadas as árvores sem valor de mercado, mantendo aquelas produtoras de madeira, frutos, sementes, fibras, látex, óleos e fitoterápicos.

As árvores mais finas e as palmeiras podem ser eliminadas por meio de corte, e as mais grossas por anelamento, consistindo da retirada, em forma de anel de 25 a 100 cm de largura, de parte do córtex em torno do tronco, dependendo da espécie. As árvores preservadas devem estar bem distribuídas, permitindo a penetração da luz do sol na área, facilitando o crescimento e o aumento da produção de frutos do açaizeiro e das outras espécies.

Desbaste das touceiras

Nos açaizais não-manejados, geralmente, as touceiras apresentam número excessivo de estipes. A prática de desbaste visa eliminar o excesso de estipes, deixando de 3 a 4 em cada touceira, sendo eliminados aqueles muito altos, finos, defeituosos ou que apresentem pouca produção de frutos. Essa prática é realizada na entressafra, com aproveitamento dos palmitos.

Após o desbaste, são plantadas as mudas de açaizeiro nas áreas mais espaçadas, para que seja constituída a população aproximada de 400 touceiras por hectare.

Obtenção de mudas

As mudas de açaizeiro, para plantios nas áreas com baixa concentração dessa espécie, podem ser obtidas a partir de plantas jovens oriundas da germinação natural de sementes ou produzidas especificamente para esse fim. As mudas das outras espécies, que serão cultivadas em associação com o açaizeiro, também, podem ser produzidas às proximidades da área em manejo ou adquiridas junto a produtores credenciados.

Manutenção do açaizal

Anualmente é efetuada a eliminação das plantas de valor comercial desconhecido, para que o açaizal seja mantido limpo e mais produtivo. São eliminadas as brotações novas, deixando somente as que substituirão os açaizeiros grandes indesejáveis, com vistas a manter a população recomendada.

Para que os estipes do açaizeiro apresentem rápido crescimento em diâmetro, é indispensável a realização da limpeza das touceiras, que consiste da retirada das bainhas presas no estipe após a morte da folha. Essa prática é mais necessária nas plantas jovens, pois nas adultas as bainhas se desprendem, naturalmente, junto com as folhas.

Estimativas dos impactos positivos do manejo

Impactos econômicos

Os sistemas não-manejados propiciam a renda líquida de R$ 400,00/hectare. Com o manejado, a partir do 4º ano, é possível obter, ad infinitum, até

R$ 700,00/hectare, correspondendo a 75% de aumento. Os custos com a técnica de manejo são ressarcidos com a produção da primeira safra após o manejo.

Outro aspecto importante, para a valorização do mercado do fruto de açaí, foi o desestímulo para extração de palmito, nas áreas mais próximas a Belém, pela maior lucratividade proporcionada, quase o dobro nos açaizais manejados para fruto, com a vantagem de possibilitar, a cada 3 anos, a extração de palmito.

Considerando que 1 hectare de açaizal não-manejado produz, em média 4,2 toneladas de frutos, há indicativo que algo em torno de 37 mil hectares estejam sendo explorados, no Estado do Pará. Com as técnicas de manejo, a produtividade de frutos aumenta para 8,4 toneladas, indicando a existência de mais de 10 mil hectares de açaizais manejados, com o apoio de financiamento oficial. Com isso, houve o acréscimo de 42 mil toneladas de frutos, que representa R$ 48 milhões, sem a ocorrência de mudanças espaciais nas áreas às proximidades dos principais centros urbanos, reduzindo os impactos ambientais. Desse modo, houve substancial aumento da extração para atender o crescente mercado exportador e de consumo local.

Impactos sociais

Com o emprego da técnica de manejo, a produtividade da terra é dobrada para a produção de fruto, o que não ocorre com a mão-de-obra, pela impossibilidade de mecanização do processo de colheita, exigindo, dessa forma, o dobro da necessidade de esforço humano, em relação ao sistema não-manejado.

Como o sistema manejado implica no uso adicional de 46 dias/homem/hectare decorrente do aumento da produtividade e das técnicas de manejo, indica que pelo menos 2.000 empregos diretos tenham sido criados com os 15.000 hectares manejados.

A exploração do açaizeiro é de fundamental importância para a sustentação econômica das populações ribeirinhas dos Estados do Pará e Amapá. As atividades de extração, transporte, comercialização e beneficiamento de frutos e palmitos de açaizeiro são as responsáveis pela geração de 25 mil empregos diretos, injetando anualmente mais de R$ 40 milhões na economia regional.

Em 1999, as exportações de palmito do Estado do Pará, produziram a cifra

de aproximadamente US$ 7,5 milhões, mas em 1992 alcançou cerca de

US$ 29,3 milhões. Essa perda de participação, decorre da competitividade com a colheita de frutos, além da destruição dos açaizais. A produção de frutos no Estado do Pará cresceu de 91.581 toneladas, em 1994, para 156.046 em 2000, um aumento de aproximadamente 70%.

Impactos ambientais

O manejo dos açaizais nativos concilia a proteção ambiental com o rendimento econômico, de modo racional e equilibrado. O pressuposto básico é o estabelecimento de florestas de várzea diversificadas, proporcionando, aos ribeirinhos, maior rentabilidade que os açaizais nativos na forma como são explorados atualmente. Nesse contexto, o manejo e a exploração do maior número possível de espécies, são os aspectos favoráveis para a manutenção do equilíbrio da biodiversidade, evitando assim o risco da formação de maciços homogêneos de açaizais e favorecendo o ressurgimento de espécies vegetais nativas que praticamente desapareceram da região.

Alcance da tecnologia

No Estado do Pará, com a adoção das técnicas de manejo, estão sendo financiados mais de 6 mil pequenos produtores, correspondendo a mais de 15 mil hectares, para a extração de palmito e colheita de frutos.

Eficiência tecnológica

O emprego dessa técnica de manejo não requer o uso de insumos, como corretivos e fertilizantes, nem, tampouco, a utilização de recursos energéticos modernos. Sob o ponto de vista ecológico, as ações de manejo estão limitadas às áreas existentes, sem a possibilidade de se estender a novas áreas ou a de inserir novos recursos naturais.

 
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