Embrapa Amazônia Oriental
Sistemas de Produção, 4 - 2ª Edição
ISSN 1809-4325 Versão Eletrônica
Dez./2006
Sistema de Produção do Açaí
João Tomé de Farias Neto
Carlos Hans Müller
Antonio Agostinho Müller
José Edmar Urano de Carvalho
Ismael de Jesus Matos Viégas
Sumário
Início

Apresentação
Introdução e importância econômica
Composição química do açaí
Ambiente edafo climático
Cultivar e produção de mudas
Cultivo de açaizeiro em terra firme
Cultivo de açaizeiro em várzea
Manejo de açaizais nativos
Pragas e métodos de controle
Nocões básicas para o uso de agrotóxicos
Colheita e pós colheita
Processamento embalagem e conservação
Mercado e comercialização
Coeficientes técnicos, custos, rendimentos e rentabilidade
Referências
Glossário
Autores
Expediente
  Cultivar e produção de mudas
 

O açaizeiro, por ser espécie alógama (originária de cruzamentos), com ampla ocorrência na Amazônia Continental, apresenta grande variação de tipos para os mais diversos caracteres de interesse, como precocidade, produtividade de frutos, rendimento de polpa e época de produção. Os vários tipos de açaizeiro foram definidos de acordo com a coloração de frutos, formas de inflorescências e cachos, número de frutos por ráquila e diâmetro dos estipes. A partir dessas características resultaram, entre outras, as denominações de açaí-roxo ou preto, açaí-branco, açaí-açu, açaí-espada e açaí-sangue-de-boi.

O uso de cultivares adaptadas às diferentes condições de clima, solo e sistema de produção é o princípio fundamental para a obtenção de incrementos de produtividade e de qualidade de qualquer vegetal.

A partir da década de 1990, a produção de frutos de açaizeiro, até então proveniente da exploração extrativa, passou a contar, também, com a participação de açaizais nativos manejados e de cultivos, em várzea e terra firme, em sistemas solteiros e consorciados. Nesses cultivos foram usadas sementes de origem genética desconhecida, resultando em plantios heterogêneos quanto à produtividade e qualidade do fruto, em razão de não existir campos de produção de sementes, provenientes de matrizes selecionadas, obedecendo aos padrões técnicos exigidos para a certificação de sementes.

O programa de melhoramento genético da Embrapa Amazônia Oriental, com base na seleção fenotípica na coleção de germoplasma de açaizeiro, implantada em área de terra firme, no Município de Belém, PA, lançou, em 2004, a cultivar BRS-Pará, selecionada para as condições de terra firme, com bons níveis de produtividade de frutos.

A cultivar BRS-Pará (Oliveira & Farias Neto, 2005) resultou de 2 ciclos de seleção massal. O 1o visou à avaliação de 849 plantas da coleção de germoplasma, para a produção de frutos por 3 anos consecutivos. Nesse ciclo foram identificadas e selecionadas 25 plantas promissoras, com produção acima de 25 kg de frutos/planta/ano. De cada planta selecionada foram colhidas e misturadas quantidades iguais de sementes para a produção de mudas, plantadas num lote isolado, em área de terra firme no Município de Santa Izabel do Pará.

O 2o ciclo visou à seleção de plantas para as características de perfilhamento e vigor. Antes do florescimento das plantas (3o ano), ocorreu à eliminação daquelas com padrão de desenvolvimento vegetativo e perfilhamento (estipe único) indesejável, de forma a permitir o intercruzamento, por meio de polinização livre, apenas das plantas superiores. As sementes utilizadas para o lançamento da cultivar BRS-Pará foram provenientes desse plantio, transformado em área de produção de sementes (APS) ou de população melhorada.

A cultivar BRS-Pará, por resultar de plantas de polinização aberta ou cruzada, apresentará plantas que, obrigatoriamente, não reproduzirão as mesmas características das plantas matrizes. Aos 3 anos de idade, os valores médios de altura (4,2 m), circunferência do diâmetro à altura do colo (58 cm), número de cachos/planta (4,4) e altura do 1o cacho (112 cm) foram considerados vantajosos em relação à população de origem (Fig. 1).

Foto: João Tomé de Farias Neto

Fig. 1. Plantio de açaizeiro da cultivar BRS-Pará.

A produção de frutos tem início a partir do 3o ano, sendo possível obter, nas 2 primeiras safras, produtividades de aproximadamente 3 toneladas por hectare/ano. No período inicial de produção, é comum a desuniformidade de lançamento de cachos produtivos, mas com a tendência de uniformidade a partir do 5o ano, com maior concentração da produção de frutos no 2o semestre.

De modo geral, é estimado que, no 5o ano, a produtividade possa chegar a 4 toneladas e, a partir do 6o ano, ocorram aumentos progressivos que poderão alcançar a 10 toneladas de frutos no 8o ano. Vale ressaltar que as características produtivas da cultivar BRS-Pará, avaliadas em um único local (Santa Izabel do Pará), com tipo climático Ami, poderão sofrer algumas alterações em função da interação genótipo x ambiente.

Produção de mudas

O açaizeiro pode ser propagado pelas vias assexuada (retirada de perfilhos) e sexuada (germinação de sementes).

A produção de mudas, por meio de perfilhos, é indicada para a propagação, em pequena escala, de indivíduos que apresentem características desejáveis, como alta produtividade, elevado rendimento de polpa, maturação uniforme dos frutos no cacho e período de frutificação na entressafra. Esse processo deve ter o seu uso restrito aos trabalhos de melhoramento genético, pelas dificuldades de serem obtidos perfilhos em número suficiente, além de sua baixa taxa de sobrevivência em viveiro ou no campo.

A produção de mudas a partir de sementes é o processo mais indicado para o estabelecimento de cultivos comerciais, pois possibilita produzir grande número de indivíduos com menor custo, quando comparado com a propagação assexuada.

Propagação assexuada

Os perfilhos são emitidos na base do estipe do açaizeiro, em número variável, dependendo do genótipo e das condições ambientais. A extração de perfilhos tem uso restrito, por causa do pequeno número de plantas que podem ser obtidas por esse processo (Oliveira et al. 2000). Nesse processo de propagação, a taxa de multiplicação é baixa, quando comparada com a sexuada, sendo possível extrair de 5 a 10 perfilhos por touceira a cada ano, enquanto uma única planta pode produzir, anualmente, até 10 mil sementes.

A extração de perfilhos da planta-mãe é realizada no período mais chuvoso do ano, quando são observadas maiores taxas de sobrevivência no viveiro, porém, não ultrapassando os 60%. Os perfilhos devem ter a altura mínima de 50 cm e apresentarem, pelo menos, uma folha (flecha) ainda fechada.

Os perfilhos estão intimamente ligados à parte basal do estipe adulto e emitidos abaixo do coleto. Quando novos, os perfilhos não têm raízes em número suficientes que garantam o desenvolvimento normal das mudas. Assim, quando do desmembramento, esses são mantidos junto à planta-mãe por cerca de 60 dias, para o completo desenvolvimento do sistema radicular.

Essas mudas podem ser transplantadas para sacos de plástico preto (15 x 35 cm), contendo substrato orgânico, constituído de solo (60%) e matéria orgânica (40%), e mantidas em viveiro com interceptação de 50% da radiação solar direta, ou plantadas diretamente no campo, quando a área de cultivo estiver próxima ao campo de matrizes.

Propagação sexuada

A semente do açaizeiro é envolvida por uma camada de fibras, recoberta por fina cutícula oleosa, apresenta um embrião diminuto, com abundante tecido endospermático compacto, o perianto parcialmente fibroso, rico em sílica e pobre em lipídios (gorduras), proteínas e amido. O endocarpo é lenhoso, séssil, de forma arredondada, com diâmetro de 1 a 2 cm e peso de 0,8 a 2,3 g. O mesocarpo ou polpa tem a espessura de 1 a 2 mm e corresponde de 5% a 15% do volume do fruto (Carvalho et al. 1998; Rogez, 2000). O epicarpo corresponde à fina camada externa do fruto, com coloração que pode variar, quando maduro, de verde (açaí branco) a violáceo (açaí preto).

O endocarpo, estrutura utilizada na propagação sexuada do açaizeiro, representa cerca de 73% do peso do fruto.

Obtenção de sementes e preparo de mudas

A maioria dos plantios comerciais implantados no Estado do Pará foi feita, até recentemente, a partir de sementes com características desconhecidas e não-selecionadas. O açaizeiro por ser planta de fecundação cruzada (alógama) favorece a segregação de suas características morfológicas e produtivas, resultando na formação de plantios heterogêneos, com produções desuniformes e de baixo rendimento de frutos e polpa.

As sementes são obtidas de plantas-matrizes com características desejadas, com base no tipo de estipe (touceira), comprimento do entrenó (cicatriz foliar), número de cachos emitidos, produção de frutos, rendimento de frutos por cacho e de polpa por fruto. São bons parâmetros de avaliação e seleção de plantas-matrizes, para a obtenção de sementes, aquelas com produção de frutos superior a 5 latas/touceira e com o rendimento mínimo de 8 litros de polpa/lata com 14 a 15 kg de frutos.

Depois de colhidos, os frutos são submetidos ao processo de extração da polpa, com a ajuda de máquinas despolpadoras ou batedeiras de açaí. Após o despolpamento, e antes da semeadura, as sementes são lavadas com água potável. O despolpamento manual pode ser usado para pequenas quantidades de sementes e consiste da remoção, com o auxílio de um estilete, do mesocarpo e do epicarpo.

Acondicionamento de sementes

As sementes de açaizeiro perdem a viabilidade rapidamente, pois apresentam comportamento recalcitrante, não suportando a secagem nem o armazenamento a temperaturas abaixo de 15 oC. Por esse motivo, não podem ser conservadas pelos processos convencionais de armazenamento, cujos pressupostos básicos consideram a secagem e o armazenamento das sementes a baixas temperaturas. O ideal é que sejam semeadas logo após a colheita e o despolpamento, garantindo a germinação de aproximadamente 100%.

Na impossibilidade de realizar a semeadura de imediato, as sementes são estratificadas em serragem (curtida ou esterilizada em água fervente por duas horas), vermiculita ou carvão moído umedecidos previamente com água. A areia ou solo não são indicados para a estratificação das sementes do açaizeiro, por serem demasiadamente pesados, dificultando o manuseio das embalagens.

Alternativamente, as sementes de açaizeiro podem ser acondicionadas em sacos de plástico sem substrato, necessitando de tratamento prévio, por via úmida, com fungicida específico para sementes, seguido de secagem superficial mantendo o teor de umidade entre 25% e 30%. O modo prático de ser obtido esse nível de umidade é dispondo as sementes, em camada única, sobre papel jornal e mantê-las à sombra durante 24 horas.

Necessidade de sementes

A quantidade necessária de sementes para a produção de mudas, visando à implantação de 1 hectare, dependerá do espaçamento a ser adotado. Considerando que cada quilograma possui de 600 a 720 sementes e a necessidade de seleção de plântulas na sementeira e de mudas no viveiro, é recomendável a semeadura de aproximadamente 1.000 sementes (1,4 a 1,7 kg) para cada hectare a ser implantado no espaçamento 5 x 5 m (400 mudas/hectare).

Semeadura e Germinação de Sementes

A semeadura pode ser feita diretamente em sacos de plástico preto ou em sementeiras preenchidos com substrato orgânico. As sementes também podem ser colocadas para germinar em sacos de plástico, dispostas em camadas estratificadas em serragem ou ainda sem este substrato.

A emergência de plântula do açaizeiro é desuniforme, e se inicia por volta dos 22 dias após a semeadura e se estabiliza aos 48 dias. Em média, a germinação requer cerca de 30 dias e a aceleração do processo ocorre com a imersão das sementes em água morna durante 10 a 15 minutos (Carvalho et al. 1998).

As sementes germinadas são imediatamente repicadas para o viveiro. Quando a germinação das sementes é realizada em sementeira ou em sacos de plástico, com ou sem substrato, a repicagem das plântulas para o viveiro é efetuada antes da abertura do 1o par de folhas, no estádio denominado de "palito", normalmente com 5 a 7 cm de altura. Nessa condição, praticamente 100% das plântulas sobrevivem à repicagem e apresentam desenvolvimento normal. Quando necessário, é realizada a poda das raízes.

Semeadura direta em saco plástico com substrato

Este método é recomendado quando a quantidade de mudas a ser produzida é pequena, entre 500 a 1.000. A semeadura direta de 50.000 sementes, por exemplo, ocupará uma área de 500 m2 do viveiro, além disso, nem todas as sementes germinam, o que exigirá novas semeaduras. Por outro lado, a semeadura de duas ou mais sementes por saco implicará na eliminação das plântulas excedentes, onerando os custos operacionais. Os sacos de plástico devem ter dimensões mínimas de 15 cm de largura por 25 cm de altura. O substrato de enchimento dos sacos é constituído da mistura de 60% de solo, 20% de serragem e 20% de esterco curtido ou ainda da mistura de 60% de solo e 40% de cama de aviário.

É necessário umedecer o substrato antes da semeadura e depois, com ajuda com a ajuda de um bastão, são feitas pequenas covas com profundidade aproximadamente de 2 cm, onde as sementes são depositadas e cobertas por uma fina camada de substrato.

Semeadura em sementeira

Este método é indicado quando é grande a quantidade de mudas a serem produzidas, pois implica em considerável economia de mão-de-obra e possibilita a realização de criteriosa seleção de plântulas a serem transplantadas para os sacos de plástico com substrato. A área ocupada com a sementeira é bem pequena e permite o suprimento de água, em quantidade adequada, e o controle de plantas invasoras. A semeadura de 50.000 sementes ocupará somente 50 m2 na sementeira.

O substrato para o preparo da sementeira é constituído da mistura de areia lavada com serragem curtida, na proporção volumétrica de 1:1. As sementes são semeadas em sulcos distanciados de 4 cm, na profundidade de 1 cm, onde são distribuídas 40 sementes por metro linear, o que permite a concentração de 1.000 sementes por metro quadrado. A repicagem das plântulas para os sacos será efetuada, preferencialmente, no estádio "palito", antes da abertura do 1o par de folhas.

Pré-germinação de sementes estratificadas

As sementes são colocadas para germinar dentro de sacos de plástico transparentes, com dimensões compatíveis com a quantidade de sementes. A estratificação pode ser feita com serragem curtida, vermiculita ou carvão vegetal moído, previamente umedecido. Estes sacos devem ter o dobro do volume ocupado pelas sementes estratificadas mais o substrato, para que contenha oxigênio suficiente às necessidades respiratórias das sementes e serem hermeticamente fechados para evitar o dessecamento muito rápido do substrato. Os sacos são mantidos, até a germinação das sementes, protegidos da radiação solar direta e à temperatura ambiente.

Viveiro

O local para instalação do viveiro deve ser de fácil acesso e próximo de fontes de água, para a irrigação das mudas no período de menor pluviosidade. Deve ter boa drenagem e reduzida declividade, mas que permita o escoamento dos excedentes pluviométricos e, preferencialmente, estar situado próximo ao local do plantio definitivo. Esse procedimento minimiza o excesso de movimentação das mudas e diminui os custos de transporte.

A cobertura do viveiro pode ser feita com palhas de palmeiras (verdes, sadias e tratadas com mistura de inseticida e fungicida) ou sombrite (50% de interceptação da radiação solar) e com a altura mínima de 2 m. Essa cobertura é suportada por uma armação de colmos de bambu ou outro material de mais fácil obtenção no local, fixada com arame ou cordão de plástico. Os canteiros devem ter 1,5 m de largura por 20 m de comprimento, e distanciados entre si de 50 cm, para permitir a movimentação de pessoas.

Os sacos de plástico a serem utilizados devem medir 15 x 25 cm, se as mudas permanecerem no viveiro de 6 a 8 meses; ou de 17 x 27 cm, caso sejam mantidas por período superior àquele período. Esses sacos são perfurados no terço inferior para permitir a drenagem do excesso de água.

No viveiro, sempre que necessário, são realizados os seguintes tratos de manutenção: capinas manuais nos sacos (mondas), manutenção dos drenos, irrigação no período menos chuvoso, adubações (somente se o período de produção de mudas passar de 8 meses), manutenção da cobertura e seu gradual raleamento a partir do 8o mês, para permitir a adaptação das mudas à radiação direta.

As mondas periódicas são realizadas para eliminar as ervas invasoras, que exercem concorrência por água e luz. As mudas de açaizeiro necessitam de cerca de 2 litros de água por dia, assim, se as chuvas não forem suficientes (2 mm/dia), haverá a necessidade de irrigação, que deve ser realizada, preferencialmente, no início da manhã ou no final da tarde, evitando aplicar jato muito forte sobre as mudas ou substrato.

Quando o período de produção de mudas passar de 8 meses, é aplicada mensalmente, via foliar, solução de uréia a 0,5% (5 g de uréia para 1 litro de água). Para cada 100 mudas são necessários 2 litros dessa solução ou 20 mL por saco.

Antes do transporte das mudas para o plantio no campo, é realizado o toalete das mesmas, que consiste da eliminação de folhas secas e amarrio das folhas em torno da flecha.

A Comissão Estadual de Sementes e Mudas do Pará estabeleceu, para a produção de mudas fiscalizadas de açaizeiro obtidas de sementes, as seguintes normas e padrões:

- Apresentar altura uniforme, aspecto vigoroso, cor e folhagem harmônicas;

- Possuir, no mínimo, cinco folhas fisiologicamente ativas (maduras), pecíolos longos e as folhas mais velhas com folíolos separados. O coleto deve apresentar a espessura da base maior que a da extremidade das mudas;

- Ter de 4 a 8 meses de idade, a partir da emergência das plântulas;

- Apresentar altura de 40 a 60 cm, medidos a partir do colo da planta;

- Apresentar sistema radicular bem desenvolvido e ter suas extremidades aparadas quando ultrapassar o torrão;

- Isentas de pragas e moléstias (Regulamento da Defesa Sanitária Vegetal);

- A comercialização das mudas somente será permitida em torrões, acondicionadas em sacos de plástico, sanfonados e perfurados, ou equivalentes, com, no mínimo, 15 cm de largura e 25 cm de altura.

 
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