Embrapa Algodão
Sistemas de Produção, 1
ISSN 1678-8710 Versão Eletrônica
Jan/2003

Cultura do Algodão Herbáceo na Agricultura Familiar


Autores


Início

Importância econômica
Zoneamento Agrícola
Solos
Adubação
Cultivares
Sementes
Plantio
Plantas daninhas
Doenças
Pragas
Uso de agrotóxicos
Colheita e pós-colheita
Mercado e comercialização
Coeficientes técnicos
Subprodutos do Algodão
Referências bibliográficas
Glossário


Expediente

Colheita e Pós colheita


Sendo o algodoeiro uma cultura industrial,  as operações de colheita, armazenamento do algodão em caroço e o beneficiamento, são de suma importância para a obtenção de um produto de boa qualidade, necessário para a produção pela indústria de tecidos e  linhas de qualidade capazes de competir no mercado internacional. A qualidade global do algodão envolve vários aspectos, como as próprias características tecnológicas da fibra (comprimento, uniformidade do comprimento, finura, resistência, maturidade, brilho, cor, elasticidade, aderência etc.) que  dependem, potencialmente, da cultivar e recebem influência do manejo cultural e condições edafoclimáticas de cada região e da qualidade, aqui chamada extrínseca, que depende das condições da colheita, do armazenamento e do beneficiamento.


 

Por se tratar de uma cultura industrial, o algodoeiro é uma planta difícil de ser trabalhada, em especial pelos melhoristas, pois uma cultivar tem que ser produtiva, visto que este é o caráter desejado pelos produtores tendo, ainda, que apresentar elevada percentagem de fibra (no mínimo 37%) que é o interesse do maquinista ou beneficiador e tem, também,  que possuir boas qualidades tecnológicas de fibra, objetivo primordial do industrial; além disso, para se obter  bom produto final, é preciso que o algodão seja colhido com um mínimo possível de contaminantes além de  bem armazenado e beneficiado.


 

Principais Problemas Ligados à Qualidade do Algodão Nordestino


Qualidade  Intrínseca


De acordo com Freire et. al. (1982) a fibra do algodão produzida na região Nordeste já chegou a ser  comparada à obtida no Egito, em função de suas excelentes qualidades,  envolvendo as principais características tecnológicas (comprimento, finura, resistência e uniformidade de comprimento); no entanto, após a introdução, nesta região, de algodões dos tipos “Upland” e  “Sea Island”, na primeira metade do Século XIX, iniciou-se uma nova etapa na história da cotonicultura nordestina, com  aumentos da área plantada e produtividade (Braga Sobrinho & Freire, 1983) porém a região não estava preparada para uma mudança tão brusca, pois se plantavam tipos arbóreos consorciados com culturas alimentares e com o boi, e o resultado do plantio de vários tipos de algodão, sem um zoneamento definido e sem serviços de produção e manutenção das sementes, levou  o Nordeste a possuir um verdadeiro mosaico de diferentes tipos de algodão envolvendo os tipos introduzidos, tipos locais, híbridos e tipos asselvajados e selvagens.


 

Já em 1933, Harland, citado por Freire et. al. (1982)  denunciava o estado de mistura nas populações de algodão mocó, com variações no comprimento de fibra, de 20 a 40mm.


 

O tempo passou, a indústria têxtil nordestina se modernizou, mas a situação no setor primário não se modificou havendo muito, ainda hoje, um grande número de cultivares e tipos de algodão, o que colabora para a obtenção de fibra de qualidade inferior, pelo menos até a década de 70.  Como o algodão é uma planta tida como intermediária, ou seja, ela possui flores hermafroditas, logo autógama, mas em função da população de insetos polinizadores, ela pode apresentar até 90% de alogamia (cruzamento), as cultivares e tipos plantados juntos se cruzam produzindo, em geral, algodões de baixa qualidade de fibra e produção, embora mais adaptados à sobrevivência.  Este fato é chamado mistura genética.  Um outro tipo de mistura, ainda comum no Nordeste, é a mecânica, ocasionada a nível de usinas de beneficiamento onde, em geral, não se faz a limpeza prévia e correta das máquinas para descaroçar tipos diferentes de algodão. De acordo com Freire et. al. (1982) para beneficiar os algodões de tipos diversos, o maquinista deveria eliminar os dez primeiros sacos, isto no caso da semente ser destinada ao plantio. Como a maioria dos estados nordestinos ainda não está devidamente estruturada para produzir sementes fiscalizadas e básicas, o produtor planta sementes misturadas, conhecidas por “boca de máquina” que possuem baixa qualidade intrínseca e aqueles com maiores recursos, compram sementes do Centro-Sul e ou Centro-Oeste, de cultivares na maioria das vezes não tão adaptados ao Nordeste, como os criados na própria região. 


 

Embora haja, na atualidade, a obrigatoriedade de se usar sementes deslintadas, via Portaria do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA.  O correto é se usar sementes deslintadas e tratadas com fungicidas e inseticidas.


 

Qualidade Extrínseca

A qualidade extrínseca do algodão nordestino é baixa. Esta característica depende do grau de contaminação do produto, envolvendo: pena de aves, especialmente de galinha; juta, sisal;  retalho de tecidos;  polipropileno (plástico);  restos da cultura, como folhas, brácteas e galhos;  capulhos doentes e/ou praguejados;  sementes de plantas daninhas, como as de carrapicho (Cenchrus echinatus  L.);  umidade excessiva, acima de 12%;  pedras, entre outros, nas fases de colheita e armazenamento; e manchas de tinta e restos de sementes a nível de  beneficiamento. Tais defeitos, além de elevarem o custo de produção das indústrias, devido à necessidade de se fazer várias “catagens” dos contaminantes, depreciam o produto final, o tecido, que fica com diversas falhas, dificultando a sua comercialização no Brasil e no exterior.


 

O problema da contaminação da fibra do algodão nordestino é tão sério quanto o problema da entrada do bicudo (Anthonomus grandis Boheman) na região, só que com conotações diferentes.


 

A contaminação do algodão está ligada à qualidade do produto final obtido. A ABTT (1982) realizou estudos comparativos entre o algodão nordestino e o paulista constatando, em testes de quebras por 1.000 fusos/hora nos filatórios, que o algodão tipo sertão apresentou uma média de 189,68 quebras contra apenas 27,71 do algodão paulista, o que atestou o grau de contaminação com produtos estranhos do algodão nordestino. Em outro teste de defeitos de tecido, o produzido com algodão nordestino teve 31,4% de desclassificação, o que representa um grande prejuízo para os industriais da região. Deste modo, verifica-se que o problema da boa qualidade extrínseca do algodão nordestino é tão grave quanto o bicudo, que afeta a quantidade produzida. 


 


 

 Maneiras de se Melhorar a Qualidade Intrínseca do Algodão Nordestino

O primeiro passo para a melhoria qualitativa intrínseca do algodão nordestino, é a multiplicação e manutenção de sementes das cultivares  criadas na região e indicadas pelos órgãos de pesquisa.  É preciso que os Estados produtores de algodão criem e/ou ampliem os sistemas de produção de sementes, pois este é  o primeiro passo para a modernização do algodão, no seu setor primário, e a semente representa apenas 3% do custo total de produção.


 

Com o plantio de cultivares recomendadas para a região, o algodão nordestino poderá ser o melhor do País, visto que condições ecológicas para produzir um bom algodão existem em todos os Estados da região. Para resolver  tal problema, é necessária a participação de todos os segmentos ligados à produção, ao comércio e à industrialização do algodão.


 

Afora o fator semente, é preciso que o agricultor nordestino siga as recomendações tecnológicas para a região, envolvendo aspectos como espaçamento adequado, densidade de plantio, época de plantio, novos tipos de consórcio, adubação, manejo adequado de pragas, poda etc., para que a cultura atinja maiores níveis de produtividade e qualidade global.


 

Maneiras de se Melhorar a Qualidade Extrínseca do Algodão Nordestino


Condições da Colheita


A colheita é uma operação importantíssima, pois a  qualidade global do algodão depende muito da maneira como foi a mesma realizada.  É uma operação que pode ser feita manualmente (caso do Nordeste) ou a máquina. A colheita deve ser realizada por etapas, sendo que o agricultor deve proceder a primeira “apanha” quando 50 a 60% dos frutos já se encontrarem abertos (capulhos).


 

A colheita deve ser realizada em dia de sol e efetuada por camadas de planta do algodão (baixeiro, meio, ápice) visto que a qualidade dos capulhos depende, também, da sua posição na planta.


 

Recomenda-se colher os capulhos do terço inferior da planta separadamente, assim como das duas outras partes. É claro que isto vai depender  do tamanho final da planta, pois no Nordeste, em ano seco, o algodoeiro cresce pouco e não é possível se fazer tal separação, caso em que se recomenda uma a duas colheitas, no máximo, em se tratando do  algodão herbáceo.


 

Nas condições de São Paulo, um bom colhedor apanha cerca de 45kg de algodão por dia, porém os excepcionais chegam a colher de 100 a 150 kg/dia, mas é preciso se ter um equilíbrio entre quantidade e qualidade colhida, ou seja, colher o máximo sem prejuízo da qualidade. Neste caso, um bom colhedor chega aos 60 kg/dia.


 

A colheita  manual, quando bem feita, é melhor que a mecânica. O rendimento da colheita manual depende de vários fatores, destacando-se: idade e saúde do colhedor, estado de maturidade dos capulhos, tamanho dos capulhos, produtividade da cultura, tamanho da planta e altura, número de lojas por fruto (varia de 3 a 5 lóculos com 6-8 sementes por lóculo), estado de abertura dos capulhos e condições do ambiente, especialmente temperatura e umidade relativa do ar.


 

Para se realizar uma boa colheita e se obter algodão em caroço dos tipos 1 e 3, ou seja, “superior” e  “bom”,  além dos cuidados mencionados na lavoura, o produtor deve fazer o seguinte:  colher com as duas mãos, colocando rapidamente o produto no saco de colheita, que deve ser de tecido de algodão, não deixando o produto na mão  por muito tempo;  não colher capulhos doentes ou praguejados, pois reduziria o tipo;  colher no seco;  no caso de se ter, no campo, plantas daninhas cujas  estruturas se aderem à fibra, como carrapicho, pição preto (Bidens pilosa L.), limpar o campo antes da colheita;  usar amarras de algodão, evitando juta, sisal, plástico etc., que só fazem prejudicar a qualidade do algodão e nunca usar sacos de polipropileno para colher o algodão.  Recentemente, julho 2002, no Maranhão, os pequenos produtores de um assentamento, com orientação da Embrapa Algodão , estão usando cestas de fibra vegetal, não contaminante, para colher o algodão com elevada qualidade extrínseca.


 

Condições de armazenamento


No Nordeste, é comum o agricultor, após colher o algodão, colocá-lo em locais de fácil acesso aos animais (gatos, cachorros, aves etc.).  Tal fato promove um dos piores contaminantes do algodão; pelos e penas que passam pelas máquinas de beneficiamento e indústria têxtil, só aparecendo no final da industrialização, resultando em tecido defeituoso, sem valor  comercial.


 

Nas regiões em que ocorrem chuvas no final  do ciclo da cultura recomenda-se que, após a colheita, o algodão seja exposto ao sol para melhor secagem (a umidade máxima permitida é de 12% e a mínima de 7%;  Passos, 1977). Esta operação deve ser realizada numa área limpa, como terreiro, utilizando-se encerado ou pano para não sujar o algodão.


 

Após a secagem, que deve durar de um a dois dias, o produto deve ser colocado em sacos de algodão e com amarra de barbante de fibra de algodão, nunca de outros materiais, e não socar muito o algodão no saco, pois poderia quebrar as sementes, contaminando a fibra, o que também é prejudicial à qualidade.


 

Secagem do algodão em caroço é importante, pois além de baixar a umidade, melhora o grau de limpeza, a cor, e promove, quando do beneficiamento, maior eficiência nesta operação.


 

Condições de beneficiamento


O beneficiamento foi a mola propulsora de expansão da cultura do algodão no mundo (Passos, 1977). Esta cultura é, hoje, plantada em todos os continentes, por mais de 70 países, com uma área superior a 30 milhões de hectares.  Esta operação é realizada para separar as fibras das sementes do algodão em caroço e para eliminar a maior quantidade possível de impurezas trazidas do campo. Pode ser realizada por máquinas de serra ou máquinas de rolo.


 

O beneficiamento, de acordo com Berzaghi (1965) poder ser dividido em três fases: preparatória, que envolve o recebimento, a classificação e o armazenamento do algodão; a principal, que engloba a limpeza e o descaroçamento, e a complementar, que reúne a prensagem, o enfardamento e o armazenamento do produto. Os descaroçadores de serra  prejudicam a qualidade  intrínseca do algodão, reduzindo cerca de 1mm ou mais do comprimento da fibra e danos na finura de 4,6 a 8,6%, dependendo do local de produção do algodão com relação aos de rolo (Ferraz et. al. (1977).


 

Os algodões de fibra curta e média são, em geral, beneficiados em máquinas de serra que podem ser de escova ou pneumáticas e as de fibra longa e extra-longa são descaroçadas em máquinas tipo rolo que, praticamente, não existem mais no Nordeste.


 

No processo de beneficiamento é importante a operação de limpeza do algodão, para retirar as impurezas que vieram do campo, quando a colheita não tiver sido bem feita. A regulagem e a manutenção das máquinas são outro ponto vital para evitar que haja esmagamento de sementes, o que prejudicaria a qualidade do algodão, provocando mudança de cor e pegajosidade na fibra.


 

As impurezas se constituem defeitos e são divididas em dois grupos:  incontroláveis e controláveis, com relação ao processo de beneficiamento. No Estado de São Paulo, Passos (1977) informa que, em condições de grandes lavouras, tem-se 36% de pluma, 58% de sementes e 6% de quebra, que são as impurezas (carimã-capulhos mal formados, atacados de doenças e pragas, terra, detritos e resíduos). Este percentual é baixo devido à razoável educação do produtor na colheita e no armazenamento do algodão, além das técnicas de cultivo ali empregadas. No entanto, conforme salienta Berzaghi (1965) em algodão de fibra curta e média, como é o caso de tipos herbáceos, as impurezas podem chegar a representar 50%  da produção colhida, em função da maneira de colher e armazenar.


 

O beneficiador deve retirar o máximo possível de impurezas, especialmente do carimã, que possui fibras manchadas e sementes chochas, pois causam acentuada redução na qualidade do algodão, sementes de plantas daninhas, terra e areia.


 

Os chamados defeitos incontroláveis no beneficiamento, são manchas e descoramento da fibra, neps (minúsculos nós de fibras adelgaçadas e verdes), naps (detritos da calaza da semente, que ficam junto das fibras), motes (sementes abortadas, fibras verdes e imaturas), cordões de amarrar os sacos e sementes de plantas daninhas; podem ser reduzidos no processo de limpeza; já os controláveis, segundo Passos (1977) são: umidade excessiva, algodão carimado e corpos estranhos.


 

Para o bom funcionamento das usinas de beneficiamento, é necessário que o algodão venha do campo com o mínimo possível de impurezas; daí, a necessidade  de se atacar o problema a nível de agricultor, esclarecendo-lhes a importância de se fazer a colheita e o armazenamento do algodão com todo cuidado.


 

Manejo  pós-colheita


 


Após o término da cultura envolvendo a última colheita (caso da manual, que predomina no semi-árido nordestino) e a colocação do gado no rebanho caprino para se alimentar dos restos culturais, em  especial da folhagem, deve-se destruir o que sobrou, para evitar rebrotamento e manutenção de elevadas populações de pragas e doenças, em especial do bicudo (Anthonomus grandis, Boheman) cuja principal método cultural de controle é deixar o campo sem algodão por pelo menos 90 dias.  Os animais devem eliminar os restos no período, no máximo de 30 dias.


 

O arranquio e queima dos restos culturais do algodão logo após a colheita, são práticas recomendadas como controle cultural do bicudo, pois eliminam seu principal hospedeiro de reprodução e têm demonstrado reflexos importantes para a redução do nível populacional da praga, no período de entressafra.


 

Vários são os métodos que podem ser utilizados para a realização desta prática, com a incorporação de grade aradora, que apresenta capacidade de destruição de apenas 60% das plantas de algodão e 16% de rebrotamento após as primeiras chuvas. O roço, seguido da incorporação com arado, destrói em média 90% das plantas, sem apresentar rebrotos, mas é um método não muito adequado, por expor o solo às intempéries climáticas, além de ser caro e necessitar de uma outra aração quando da implantação da cultura. Um outro método é o arranquio manual, que apresenta eficiência de 100% de destruição, mas constitui prática onerosa e imprópria para grandes áreas.


 

Há, no mercado, alguns equipamentos desenvolvidos especialmente para esta prática. O “arrancado” tratorizado de discos”, semelhante a uma grade de secção única, apenas variando o peso e o ângulo horizontal de atuação,  opera em diagonal às fileiras do algodão, arrancando duas ou três linhas por passada.  O arrancador tratorizado tipo “Leme”, é constituído de duas lâminas montadas sobre hastes e uma mesa-suporte, que operam em posição diagonal a duas fileiras de algodão. Um protótipo semelhante ao do tipo ”Leme” foi  desenvolvido pelo CNPA, que apresenta uma estrutura mais robusta para se adequar às condições do Nordeste, atuando também sobre duas fileiras de algodão.  Esses equipamentos foram testados por pesquisadores do CNPA, em campo de algodão, em condições de sequeiro e, face às condições de dureza em que normalmente se encontra o solo após a colheita do algodão, os mesmos apresentaram eficiência de arranquio de 90%, com nível médio de rebrota de 8,5%  das plantas existentes na parcela.


 

Portanto e com base nos resultados, ainda não se dispõe de método mecânico plenamente eficiente para as condições edafoclimáticas  do Nordeste.
 


 

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