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Sendo o algodoeiro uma cultura industrial, as
operações de colheita, armazenamento do algodão em caroço e o
beneficiamento, são de suma importância para a obtenção de um
produto de boa qualidade, necessário para a produção pela indústria
de tecidos e linhas de qualidade capazes
de competir no mercado internacional. A qualidade global do algodão
envolve vários aspectos, como as próprias características tecnológicas
da fibra (comprimento, uniformidade do comprimento, finura, resistência,
maturidade, brilho, cor, elasticidade, aderência etc.) que dependem, potencialmente, da cultivar e recebem
influência do manejo cultural e condições edafoclimáticas de cada
região e da qualidade, aqui chamada extrínseca, que depende das
condições da colheita, do armazenamento e do beneficiamento.
Por se tratar
de uma cultura industrial, o algodoeiro é uma planta difícil de
ser trabalhada, em especial pelos melhoristas, pois uma cultivar
tem que ser produtiva, visto que este é o caráter desejado pelos
produtores tendo, ainda, que apresentar elevada percentagem de
fibra (no mínimo 37%) que é o interesse do maquinista
ou beneficiador e tem, também, que possuir boas qualidades
tecnológicas de fibra, objetivo primordial do industrial; além
disso, para se obter bom produto final, é preciso
que o algodão seja colhido com um mínimo possível de contaminantes
além de bem armazenado e beneficiado.
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Qualidade Intrínseca
De acordo com
Freire et. al. (1982) a fibra do algodão produzida na região Nordeste
já chegou a ser comparada à obtida no Egito, em função
de suas excelentes qualidades, envolvendo
as principais características tecnológicas (comprimento, finura,
resistência e uniformidade de comprimento); no entanto, após a
introdução, nesta região, de algodões dos tipos “Upland” e “Sea Island”, na primeira metade do Século
XIX, iniciou-se uma nova etapa na história da cotonicultura nordestina,
com aumentos da área plantada e produtividade
(Braga Sobrinho & Freire, 1983) porém a região não estava
preparada para uma mudança tão brusca, pois se plantavam tipos
arbóreos consorciados com culturas alimentares e com o boi, e
o resultado do plantio de vários tipos de algodão, sem um zoneamento
definido e sem serviços de produção e manutenção das sementes,
levou o Nordeste a possuir um verdadeiro
mosaico de diferentes tipos de algodão envolvendo os tipos introduzidos,
tipos locais, híbridos e tipos asselvajados
e selvagens.
Já em 1933,
Harland, citado por Freire et. al. (1982) denunciava
o estado de mistura nas populações de algodão mocó, com variações
no comprimento de fibra, de 20 a 40mm.
O tempo passou,
a indústria têxtil nordestina se modernizou, mas a situação no
setor primário não se modificou havendo muito, ainda hoje, um
grande número de cultivares e tipos de algodão, o que colabora
para a obtenção de fibra de qualidade inferior, pelo menos até
a década de 70. Como o algodão é uma planta
tida como intermediária, ou seja, ela possui flores hermafroditas,
logo autógama, mas em função da população de insetos polinizadores,
ela pode apresentar até 90% de alogamia (cruzamento), as cultivares
e tipos plantados juntos se cruzam produzindo, em geral, algodões
de baixa qualidade de fibra e produção, embora mais adaptados
à sobrevivência. Este fato é chamado mistura
genética. Um outro tipo
de mistura, ainda comum no Nordeste, é a mecânica, ocasionada a nível
de usinas de beneficiamento onde, em geral, não se faz a limpeza
prévia e correta das máquinas para descaroçar tipos diferentes
de algodão. De acordo com Freire et. al. (1982) para beneficiar
os algodões de tipos diversos, o maquinista deveria eliminar os
dez primeiros sacos, isto no caso da semente ser destinada ao
plantio. Como a maioria dos estados nordestinos ainda não está
devidamente estruturada para produzir sementes fiscalizadas e
básicas, o produtor planta sementes misturadas, conhecidas por
“boca de máquina” que possuem baixa qualidade intrínseca e aqueles
com maiores recursos, compram sementes do Centro-Sul e ou Centro-Oeste,
de cultivares na maioria das vezes não tão adaptados ao Nordeste,
como os criados na própria região.
Embora haja,
na atualidade, a obrigatoriedade de se usar sementes deslintadas,
via Portaria do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
– MAPA. O correto é se usar
sementes deslintadas e tratadas com fungicidas e inseticidas.
Qualidade Extrínseca
A qualidade
extrínseca do algodão nordestino é baixa. Esta característica
depende do grau de contaminação do produto, envolvendo: pena de
aves, especialmente de galinha; juta, sisal; retalho
de tecidos; polipropileno (plástico); restos da cultura, como folhas, brácteas e
galhos; capulhos doentes e/ou praguejados; sementes de plantas daninhas, como as de carrapicho
(Cenchrus echinatus L.); umidade excessiva, acima de 12%; pedras, entre outros, nas fases de colheita
e armazenamento; e manchas de tinta e restos de sementes a nível
de beneficiamento. Tais defeitos, além
de elevarem o custo de produção das indústrias, devido à necessidade
de se fazer várias “catagens” dos contaminantes, depreciam o produto
final, o tecido, que fica com diversas falhas, dificultando a
sua comercialização no Brasil e no exterior.
O problema
da contaminação da fibra do algodão nordestino é tão sério quanto
o problema da entrada do bicudo (Anthonomus
grandis Boheman) na região, só que com conotações diferentes.
A contaminação
do algodão está ligada à qualidade do produto final obtido. A
ABTT (1982) realizou estudos comparativos
entre o algodão nordestino e o paulista constatando, em testes
de quebras por 1.000 fusos/hora nos filatórios, que o algodão
tipo sertão apresentou uma média de 189,68 quebras contra apenas
27,71 do algodão paulista, o que atestou o grau de contaminação
com produtos estranhos do algodão nordestino. Em outro teste de
defeitos de tecido, o produzido com algodão nordestino teve 31,4%
de desclassificação, o que representa um grande prejuízo para
os industriais da região. Deste modo, verifica-se que
o problema da boa qualidade extrínseca do algodão nordestino é
tão grave quanto o bicudo, que afeta a quantidade produzida.
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Condições da Colheita
A colheita
é uma operação importantíssima, pois a qualidade
global do algodão depende muito da maneira como foi a mesma realizada. É uma operação que pode ser feita manualmente
(caso do Nordeste) ou a máquina. A colheita deve ser realizada
por etapas, sendo que o agricultor deve proceder a primeira “apanha”
quando 50 a 60% dos frutos já se encontrarem abertos (capulhos).
A colheita
deve ser realizada em dia de sol e efetuada por camadas de planta
do algodão (baixeiro, meio, ápice) visto que a qualidade dos capulhos
depende, também, da sua posição na planta.
Recomenda-se
colher os capulhos do terço inferior da planta separadamente,
assim como das duas outras partes. É claro que isto vai depender do tamanho final da planta, pois no Nordeste,
em ano seco, o algodoeiro cresce pouco e não é possível se fazer
tal separação, caso em que se recomenda uma a duas colheitas,
no máximo, em se tratando do algodão herbáceo.
Nas condições
de São Paulo, um bom colhedor apanha cerca de 45kg de algodão
por dia, porém os excepcionais chegam a colher de 100 a 150 kg/dia,
mas é preciso se ter um equilíbrio entre quantidade e qualidade
colhida, ou seja, colher o máximo sem prejuízo da qualidade. Neste
caso, um bom colhedor chega aos 60 kg/dia.
A colheita manual, quando bem feita, é melhor que a mecânica.
O rendimento da colheita manual depende de vários fatores, destacando-se:
idade e saúde do colhedor, estado de maturidade dos capulhos,
tamanho dos capulhos, produtividade da cultura, tamanho da planta
e altura, número de lojas por fruto (varia de 3 a 5 lóculos com
6-8 sementes por lóculo), estado de abertura dos capulhos e condições
do ambiente, especialmente temperatura e umidade relativa do ar.
Para se realizar
uma boa colheita e se obter algodão em caroço dos tipos 1 e 3, ou seja, “superior” e “bom”, além dos cuidados mencionados
na lavoura, o produtor deve fazer o seguinte:
colher com as duas mãos, colocando rapidamente o
produto no saco de colheita, que deve ser de tecido de algodão,
não deixando o produto na mão por muito tempo; não colher capulhos doentes ou praguejados, pois reduziria
o tipo; colher no seco;
no caso de se ter, no campo, plantas daninhas cujas estruturas se aderem à fibra, como carrapicho,
pição preto (Bidens pilosa L.), limpar o
campo antes da colheita; usar amarras
de algodão, evitando juta, sisal, plástico etc., que só fazem prejudicar
a qualidade do algodão e nunca usar sacos de polipropileno para
colher o algodão. Recentemente, julho
2002, no Maranhão, os pequenos produtores de um assentamento, com
orientação da Embrapa
Algodão , estão usando cestas de fibra vegetal, não contaminante,
para colher o algodão com elevada qualidade extrínseca.
Condições
de armazenamento
No Nordeste, é comum o agricultor, após colher o algodão, colocá-lo
em locais de fácil acesso aos animais (gatos, cachorros, aves
etc.). Tal fato promove um dos piores contaminantes
do algodão; pelos e penas que passam pelas máquinas de beneficiamento
e indústria têxtil, só aparecendo no final da industrialização,
resultando em tecido defeituoso, sem valor comercial.
Nas regiões em
que ocorrem chuvas no final do ciclo da
cultura recomenda-se que, após a colheita, o algodão seja exposto
ao sol para melhor secagem (a umidade máxima permitida é de 12%
e a mínima de 7%; Passos, 1977). Esta operação
deve ser realizada numa área limpa, como terreiro, utilizando-se
encerado ou pano para não sujar o algodão.
Após a secagem, que deve
durar de um a dois dias, o produto deve ser colocado em sacos
de algodão e com amarra de barbante de fibra de algodão, nunca
de outros materiais, e não socar muito o algodão no saco, pois
poderia quebrar as sementes, contaminando a fibra, o que também
é prejudicial à qualidade.
Secagem do
algodão em caroço é importante, pois além de baixar a umidade,
melhora o grau de limpeza, a cor, e promove, quando do beneficiamento,
maior eficiência nesta operação.
Condições
de beneficiamento
O beneficiamento foi a mola propulsora de expansão da cultura
do algodão no mundo (Passos, 1977). Esta cultura é, hoje, plantada
em todos os continentes, por mais de 70 países, com uma área superior
a 30 milhões de hectares. Esta operação
é realizada para separar as fibras das sementes do algodão em
caroço e para eliminar a maior quantidade possível de impurezas
trazidas do campo. Pode ser realizada por máquinas de serra ou
máquinas de rolo.
O beneficiamento,
de acordo com Berzaghi (1965) poder ser dividido em três fases:
preparatória, que envolve o recebimento, a classificação e o armazenamento
do algodão; a principal, que engloba a limpeza e o descaroçamento,
e a complementar, que reúne a prensagem, o enfardamento e o armazenamento
do produto. Os descaroçadores de serra prejudicam
a qualidade intrínseca do algodão, reduzindo cerca
de 1mm ou mais do comprimento da fibra e danos na finura de 4,6
a 8,6%, dependendo do local de produção do algodão com relação
aos de rolo (Ferraz et. al. (1977).
Os algodões
de fibra curta e média são, em geral, beneficiados em máquinas
de serra que podem ser de escova ou pneumáticas e as de fibra
longa e extra-longa são descaroçadas em máquinas tipo rolo que,
praticamente, não existem mais no Nordeste.
No processo
de beneficiamento é importante a operação de limpeza do algodão,
para retirar as impurezas que vieram do campo, quando a colheita
não tiver sido bem feita. A regulagem e a manutenção das máquinas
são outro ponto vital para evitar que haja esmagamento de sementes,
o que prejudicaria a qualidade do algodão, provocando mudança
de cor e pegajosidade na fibra.
As impurezas se constituem defeitos e são divididas
em dois grupos: incontroláveis e controláveis, com
relação ao processo de beneficiamento. No Estado de São Paulo,
Passos (1977) informa que, em condições de grandes lavouras, tem-se
36% de pluma, 58% de sementes e 6% de quebra, que são as impurezas
(carimã-capulhos mal formados, atacados de doenças e pragas, terra,
detritos e resíduos). Este percentual é baixo devido à razoável
educação do produtor na colheita e no armazenamento do algodão,
além das técnicas de cultivo ali empregadas. No entanto, conforme
salienta Berzaghi (1965) em algodão de fibra curta e média, como
é o caso de tipos herbáceos, as impurezas podem chegar a representar
50% da produção colhida, em função da maneira
de colher e armazenar.
O beneficiador
deve retirar o máximo possível de impurezas, especialmente do
carimã, que possui fibras manchadas e sementes chochas, pois causam
acentuada redução na qualidade do algodão, sementes de plantas
daninhas, terra e areia.
Os chamados
defeitos incontroláveis no beneficiamento, são manchas e descoramento
da fibra, neps (minúsculos nós de fibras adelgaçadas e verdes),
naps (detritos da calaza da semente, que ficam junto das fibras),
motes (sementes abortadas, fibras verdes e imaturas), cordões
de amarrar os sacos e sementes de plantas daninhas; podem ser
reduzidos no processo de limpeza; já os controláveis, segundo Passos
(1977) são: umidade excessiva, algodão carimado
e corpos estranhos.
Para o bom funcionamento
das usinas de beneficiamento, é necessário que o algodão venha
do campo com o mínimo possível de impurezas; daí, a necessidade de se atacar o problema a nível de agricultor, esclarecendo-lhes
a importância de se fazer a colheita e o armazenamento do algodão
com todo cuidado.
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Após o término da cultura envolvendo a última colheita (caso da
manual, que predomina no semi-árido nordestino) e a colocação
do gado no rebanho caprino para se alimentar dos restos culturais,
em especial da folhagem, deve-se destruir
o que sobrou, para evitar rebrotamento e manutenção de elevadas
populações de pragas e doenças, em especial do bicudo (Anthonomus grandis, Boheman) cuja
principal método cultural de controle é deixar o campo sem algodão por
pelo menos 90 dias. Os animais
devem eliminar os restos no período, no máximo de 30 dias.
O arranquio e
queima dos restos culturais do algodão logo após a colheita, são
práticas recomendadas como controle cultural do bicudo, pois eliminam
seu principal hospedeiro de reprodução e têm demonstrado reflexos
importantes para a redução do nível populacional da praga, no
período de entressafra.
Vários são os
métodos que podem ser utilizados para a realização desta prática,
com a incorporação de grade aradora, que apresenta capacidade de destruição
de apenas 60% das plantas de algodão e 16% de rebrotamento após
as primeiras chuvas. O roço, seguido
da incorporação com arado, destrói em média 90% das plantas, sem
apresentar rebrotos, mas é um método não muito adequado, por expor
o solo às intempéries climáticas, além de ser caro e necessitar
de uma outra aração quando da implantação da cultura. Um outro
método é o arranquio manual, que apresenta eficiência de 100%
de destruição, mas constitui prática onerosa e imprópria para
grandes áreas.
Há, no mercado,
alguns equipamentos desenvolvidos especialmente para esta prática.
O “arrancado” tratorizado de discos”, semelhante a uma grade de
secção única, apenas variando o peso e o ângulo horizontal de atuação, opera em diagonal às fileiras do algodão, arrancando
duas ou três linhas por passada. O arrancador
tratorizado tipo “Leme”, é constituído de duas lâminas montadas
sobre hastes e uma mesa-suporte, que operam em posição diagonal
a duas fileiras de algodão. Um protótipo semelhante ao do tipo ”Leme”
foi desenvolvido pelo CNPA,
que apresenta uma estrutura mais robusta para se adequar às condições
do Nordeste, atuando também sobre duas fileiras de algodão. Esses equipamentos foram testados por pesquisadores
do CNPA, em campo de algodão, em condições
de sequeiro e, face às condições de dureza em que normalmente
se encontra o solo após a colheita do algodão, os mesmos apresentaram
eficiência de arranquio de 90%, com nível médio de rebrota de 8,5% das
plantas existentes na parcela.
Portanto
e com base nos resultados, ainda não se dispõe de método mecânico
plenamente eficiente para as condições edafoclimáticas do Nordeste.
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