Embrapa Algodão
Sistemas de Produção, 1
ISSN 1678-8710 Versão Eletrônica
Jan/2003

Cultura do Algodão Herbáceo na Agricultura Familiar


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Doenças


Devido as condições climáticas predominantes nas áreas zoneadas para o cultivo do algodoeiro na região Nordeste em escala familiar (alta temperatura e baixa umidade relativa) serem restringentes ao desenvolvimento da maioria dos fungos e bactérias, a importância das enfermidades de plantas nesta cultura não é fator preponderante para sua produção no semi-árido, ao contrário de outras regiões produtoras nas quais predominam temperaturas amenas e umidade relativa ao ar alta. Todavia, algumas doenças merecem devida atenção, por serem potencialmente capazes de causar maiores prejuízos em condições climáticas excepcionais como, também , doenças causadas por fungos habitantes de solo.


 

·          Murcha de Fusarium.

·          Ramulose.

·          Mancha de Alternaria.

·          Falso oildio, Míldio areolado ou Mancha de ramularia.


 

Murcha de Fusarium


O primeiro relato da Murcha de Fusarium em algodoeiro no Brasil, foi em 1935, na região Nordeste,  no município de Alagoinha, PB (Grillo, 1935) tendo sido propagada  para as demais regiões produtoras, além de responsável por uma fase de decadência da cotonicultura paulista, sobretudo na Segunda metade da década de 50.  Este fato determinou a necessidade de obtenção de cultivares melhoradas com resistência à doença, visando substituir aquelas suscetíveis até então plantadas (Cavaleri, 1964) uma vez que este é o único método viável de controle da doença.


 

Agente causal, sintomas e epidemiologia


O agente causal da doença é o fungo Fusarium oxysporum f. sp. Vasinfectum (Atk.) Snyder & Hansen.


 

Os primeiros sintomas caracterizam-se pela murcha  de algumas folhas e ramos. Muitas plantas jovens podem morrer em poucos dias após os primeiros sintomas externos serem observados, comuns quando as plantas se encontram com aproximadamente seis semanas de idade.  Algumas plantas afetadas podem sobreviver à doença, emitindo novas brotações próximas ao solo mas, em geral, os ramos originados a partir desses novos brotos não são produtivos. No transcorrer do processo infeccioso, as planas mortas perdem todas as suas folhas e as pequenas brotações caem, permanecendo apenas o caule enegrecido.  A maioria das plantas que não morrem, fica enfezada e sofre severa redução de crescimento.


 

Os sintomas internos caracterizam-se pela  descoloração dos feixes vasculares.  O lume dos vasos é obstruído pela formação de tiloses, presença intensa de micélio e esporos do fungo, géis vasculares, entre outros fatores, induzindo à resistência ao ar livre,  fluxo da seiva ascendente, decorrendo os sintomas de murcha (Kimati, 1980).


 

O patógeno pode sobreviver por longos períodos no solo, na forma de estruturas de sobrevivência (clamidósporos). O movimento de partículas de solo contribui para a sua disseminação no campo aumentando,  de maneira gradual, as reboleiras características com plantas doentes.  As sementes infectadas são responsáveis pela  disseminação do patógeno a longas distâncias. A infecção inicial ocorre quando da penetração do patógeno em raízes secundárias.  Em seguida, o xilema é colonizado e obstruído, ocorrendo os sintomas de clorose e necrose  foliar, a partir do terço inferior da planta, queda de folhas e capulhos, murcha e redução no porte da planta.


 

Condições favoráveis ao desenvolvimento da doença


O desenvolvimento da murcha de Fusarium é favorecido em solos arenosos, úmidos, com baixos pH e fertilidade e baixo teor de potássio (Cia & Salgado, 1997).  A murcha também é favorecida quando em associação com nematóides, sobretudo dos gêneros Meloidogyne,  Pratylenchus  e  Rotylenchulus sendo a severidade incrementada, em função de ferimentos nas raízes e da debilitação da planta.


 

Controle


O controle da murcha de Fusarium é feito através  da rotação de culturas, uso de sementes sadias e do plantio de cultivares resistentes.


 

Ramulose


A ramulose é de ocorrência generalizada em todas as regiões produtoras do Brasil; entretanto,  na região Nordeste, sua ocorrência não é expressiva, sendo menos comum que a mancha de ramulária, sobretudo em função de que o agente causal da doença necessita  de água para sua disseminação.  Sua ocorrência é verificada nas áreas em que as chuvas são mais intensas e de maior duração e onde a umidade relativa do ar se mantém mais elevada por maior período de tempo.


 

Sintomas e agente causal


A doença é causada pelo fungo Colletotrichum gossypii  var. cephalosporioides  e se caracteriza por ocasionar encurtamento dos internódios e superbrotamento da região apical, dando aspecto de vassoura aos ramos terminais.  Os sintomas têm início nas folhas novas, em forma de manchas necróticas   mais ou menos circulares, quando localizadas no limbo foliar, apresentando reentrâncias que aparentam o formato de uma estrela, cujo centro normalmente se torna quebradiço; quando se localizam nas nervuras ou  no pecíolo apresentam, em geral, formato alongado ou elíptico e, quando nas primeiras, provocam  o enrugamento da superfície foliar. O fungo provoca necrose do meristema apical e, deste modo, estimula o desenvolvimento de brotos laterais, para onde  é carreada a produção de assimilados da planta,  promovendo o superbrotamento e o envassouramento.  As plantas doentes apresentam porte reduzido e poucos capulhos.


 

Condições favoráveis ao desenvolvimento da doença


A ramulose apresenta-se  mais severa quando afeta a planta mais jovem, com menos de 60 dias, uma vez que as gemas terminais dos ramos extranumerários, surgidos a partir da quebra de dominância apical, podem sofrer novas infecções e, quando morrem, estimulam o surgimento de novas gemas, acentuando o superbrotamento e o envassouramento da planta (Watkins et. Al., 1981;  Kimati, 1980).  Alta pluviosidade e fertilidade do solo, temperaturas entre 25 e 30ºC   e umidade relativa do ar acima de 80%, favorecem a ação do fungo. Um dos aspectos importantes para a propagação da doença, é a disseminação do patógeno através das sementes infectadas, sendo  esta uma das principais fontes de inóculo primário. Após o estabelecimento do patógeno, sua disseminação pode ocorrer através do vento e da chuva.


 

Controle


· 
Cultural

a.      Rotação de culturas em ciclos de 3 a 5 anos.

b.      Queima de restos culturais em áreas afetadas.

c.      Utilização de sementes sadias.

d.      Inspeção permanente do plantio, visando localizar focos e promover sua erradicação.


 

·Cultivares resistentes

Representa a medida de controle mais eficiente e econômica e tem sido um dos pressupostos do programa de melhoramento genético do algodoeiro; entretanto, dadas as condições desfavoráveis à doença no semi-árido, mesmo cultivares com resistência ou suscetibilidade moderadas, tais como a BRS 201 e BRS 187 8H, podem ser recomendadas para o plantio nesta região.


 

·Químico

Os fungicidas Carbendazin + Trifenil hidróxido de estanho (0,5 + 0,4kg do produto comercial/ha);  Trifenil acetato de estanho + Tiofanato metílico (1,0 + 0,7 kg); Tebuconazole + Tiofanato metílico (0,5 + 0,75 kg);  Azoxystrobin (0,2 kg/ha)   Clorotalonil  + Tiofanato metílico (1,5 kg do produto comercial/ha)  apresentam eficiência no controle da ramulose, sendo que apenas o Carbendazin tem registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, para controle de doenças  da parte aérea do algodoeiro.


 

Mancha de Alternária


· 
Sintomas e agentes causais


 

Caracteriza-se por apresentar  manchas foliares necróticas de formato circular, coloração parda e em cujo centro podem ser vistas zonas concêntricas.  A doença é causada por quatro espécies de Alternaria:  A   tenuis  ou   A.  alternata,  A. gossypium,  A.  gossypina e  A. macrospora.   Os  sintomas têm início com pequenas manchas circulares que evoluem para manchas maiores, podendo atingir 1cm de diâmetro; as manchas maduras apresentam-se necróticas, com centro cinzento, que pode quebrar e cair, permanecendo uma perfuração no limbo foliar e as manchas mais podem podem coalescer e provocar áreas necróticas irregulares. Muitas vezes, é possível observar-se massa de esporos em cadeia, formando zonas concêntricas nas lesões. 


 

Condições favoráveis ao desenvolvimento da doença


Existem poucos estudos a respeito dos fatores que determinam a incidência e a severidade de manchas causadas por fungos do gênero Alternaria  em algodoeiro.  Estudos com   A. macrospora,  determinam que o fungo pode germinar com um mínimo de 5ºC, ótimo entre 26-27ºC  e máximo de 35ºC. O período de molhamento foliar exigido é de 6 horas, com temperatura entre  15 e 35ºC;  a infecção nesta temperatura é incrementada com aumento do período de molhamento foliar por 24 horas (Rotem, 1994).  O molhamento foliar ocorre sob condições de alta umidade relativa.  A sobrevivência de Alternaria  pode ocorrer por períodos prolongadas sob altas temperaturas, especialmente sob condições secas.  No campo, o fungo é protegido pela cobertura foliar do algodoeiro e seus  esporas são expostos à luz solar, por curtos períodos de tempo, suficientes para sua dispersão;  deste modo, o patógeno não sofre ação direta significativa de raios ultravioletas, que são extremamente danosos à sua sobrevivência.  Alguns fatores predispõem o hospedeiro à ação de Alternaria e incluem as aberturas nos tecidos, ocasionadas por insetos, deficiências nutricionais e seca.  Alta densidade de planta também pode favorecer a ação do patógeno, pelo aumento dos níveis de umidade relativa do ar na parte aérea.


 

Controle


·
Cultural

As manchas causadas por Alternaria  sp., não têm ocorrido com grande severidade nas regiões tradicionalmente produtoras de algodão do semi-árido; entretanto, quando as chuvas ocorrem com maior intensidade e freqüência, é possível a ocorrência de surto epidêmicos desta doença. Práticas culturais raramente são empregadas apenas quando podem promover incrementos significativos na produção (Rotem, 1994).  Essas práticas incluem modificação nos métodos e na freqüência de irrigação, rotação de culturas, destruição de restos culturais e manejo da adubação.


 

·Variedades  resistentes

A obtenção de culturas resistentes à  Alternaria,  nunca foi considerada prioridade dentro do programa de melhoramento genético, visando resistência a doenças do algodoeiro. Cultivares BRS 201 e BRS 187 8H, apresentam resistência à mancha de alternária.


 

·Químico

Pulverizações com  Mancozeb 0,2% i.a.  a intervalo de 10 dias, e Trifenil hidróxido de estanho 0,2 kg/ha  do produto comercial, apresentam bons resultados no controle da mancha de alternária.


 

Falso oídio, míldio areolado ou mancha de ramulária


É de ocorrência comum na região semi-árida, porém de intensidade variável, na maioria das vezes, com níveis de severidade que não exigem medidas de controle. A ocorrência da doença está associada, sobretudo, às condições de clima favorável, tendo em vista a ocorrência de noites frias seguidas de dias secos, fator importante para o desenvolvimento da doença. Também quando ocorrem períodos com alta pluviosidade e umidade relativa elevada, em anos chuvosos, são verificados surtos de mancha de ramulária.


 

Agente  causal e sintomas


O agente causal da doença é o fungo Mycosphaerela aerola  Ehrlich & Wolf, cuja forma assexuada, Ramularia areola Atk., é responsável pela doença em campo. Caracteriza-se por apresentar  manchas esbranquiçadas,  de formato anguloso em ambas as superfícies foliares ocorrendo, normalmente, no final do ciclo vegetativo da cultura; entretanto, sob condições de alta umidade e ambientes  sombreados, sobretudo no terço inferior da planta, pode afetar o algodoeiro ainda precoce e ocasionar queda de folhas.  Lesões com as mesmas características daquelas ocasionadas nas folhas, pode ocorrer nas brácteas;  não é comum sobre plântulas, em especial nos cotilédones, porém quando ocorrem, os  cotilédones se tornam cloróticos e avermelhados e há queda de folhas (Watki8ns,  1981).


 

Condições favoráveis ao desenvolvimento da doença


As condições mais favoráveis à doença são alta umidade e ambiente sombreado (Kimati, 1980). Em geral, o fungo sobrevive sobre lesões em restos de cultura e os esporos produzidos nestas condições constituem o inóculo primário; é comum o fungo sobreviver sobre variedades de algodão perene.  Vento, água da chuva ou de irrigação, pessoas e máquinas que passam repetidamente sobre a área cultivada, constituem fatores de disseminação do inóculo para infecções secundárias.  Os esporos de R. areola  germinam em água a temperaturas que variam de 16 a 34 ºC, sendo 25-30 ºC  a temperatura ótima (Watkins, 1981).  A infecção é mais intensa sob ciclos de noites frias seguidas de dias secos.


 

Controle


· 
Cultural

Plantios menos adensados e conduzidos de forma a evitar o sombreamento excessivo entre plantas, criam condições menos favoráveis à infecção por R. areola.


 

·  Variedades resistentes

Não existem variedades com boa resistência e a essas doenças; entretanto,  algumas variedades apresentam bons níveis de tolerância, podendo produzir mais que as cultivares suscetíveis, com o mesmo nível de doença.  As cultivares recomendadas para o semi-árido, pela Embrapa, são a BRS 201 e a BRS 187 8H.


 

·Químico

Os fungicidas Carbendazin 0,7 kg do produto comercial/ha ou  Carbendazin + Trifenil hidróxido de estanho 0,5 + 0,4kg do produto comercial/ha e  Azoxystrobin 0,2 kg/ha, têm sido empregados no controle da doença, embora apenas o  azoxystrobin tenha registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, para uso em pulverização.  A primeira aplicação deve ser feita antes que os sintomas do terço inferior da planta atinjam 20% de área foliar infectada.  


 

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