Embrapa Algodão
Sistemas de Produção, 1 - 2a. edição
ISSN 1678-8710 Versão Eletrônica
Set/2006

Cultivo do Algodão Herbáceo na Agricultura Familiar

Joffre Kouri

Sumário

Apresentação
Importância econômica
Solos
Adubação
Cultivares
Plantio
Plantas daninhas
Doenças
Pragas
Uso de agrotóxicos
Colheita e pós-colheita
Mercado e comercialização
Coeficientes técnicos
Subprodutos do algodão
Referências
Glossário

Expediente


Importância econômica

No Brasil, desde o período em que o país era colônia de Portugal (1500 a 1822), a cultura do algodoeiro vem sendo explorada comercialmente. No Século XVIII, ainda no período colonial, o Maranhão se destacou como um grande fornecedor de fibras para as fiações inglesas que dominavam o mercado mundial de tecidos.

No Maranhão a cultura se estendeu e a produção se organizou no semi-árido do Nordeste, tornando os Estados da Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte grandes produtores, onde eram cultivados principalmente o algodão arbóreo, especialmente o mocó na região climática do Seridó do RN e da PB. Foi o algodão que fixou o homem no semi-árido nordestino e proveu essa região de uma riqueza singular durante quase todo o Século XX (TAKEYA, 1985).

Durante toda a história do Brasil o algodão se fez presente como uma cultura de exportação, tendo piques de retomadas de crescimento sempre que havia problemas na produção norte-americana, como durante sua Guerra de Independência, sua Guerra de Secessão e durante as grandes Guerras Mundiais (MENDONÇA, 1973; TAKEYA, 1985).

Somente a partir de 1890, com o crescimento e consolidação da Indústria têxtil no Brasil, é que a produção nacional se torna firme e crescente, com o algodão assumindo a condição de principal cultura agrícola dos estados nordestinos (TAKEYA, 1985), produzindo de 10% a 20% de excedentes para exportação e tornando o Brasil um dos principais produtores e exportadores do mundo (BELTRÃO, 1996).

O Brasil chegou a ter 3,5 milhões de hectares de algodão plantados na safra 1973/1974, sendo a maior parte cultivada com algodão arbóreo. Dadas as dificuldades ecológicas em que a cultura era cultivada e a falta de adoção de tecnologias apropriadas, a produtividade se situava em torno de 150 kg/ha de algodão em caroço, muito baixa e sem competitividade. Destaque-se que mesmo na safra 1973/1974, o algodão herbáceo, com maior produtividade, já ocupava uma área de 1.723,2 mil hectares, produzindo 844,5 kg/ha de algodão em caroço, com produção total de 522,5 mil toneladas de algodão em pluma (IBGE, 1974).

No Nordeste, o algodão herbáceo foi cultivado em 809,1 mil hectares na safra 1973/1974, ocasião em que a Bahia contribuiu com 36,9% da área plantada, especialmente na zona produtora da região de Guanambi (IBGE, 1974). Essa produção era feita em moldes tradicionais, no âmbito da agricultura familiar, baseada em pequena escala de produção e baixo padrão tecnológico.

Mesmo sendo baixo o padrão tecnológico, o cultivo do algodoeiro no Nordeste sempre teve papel de grande relevância, tanto como cultura de reconhecida adaptabilidade às condições edafoclimáticas da região, como fator fixador de mão-de-obra, gerador de emprego e de matéria prima indispensável ao desenvolvimento regional e nacional.

Apesar da importância econômica e social, nas duas últimas décadas, observou-se um declínio drástico na atividade algodoeira nordestina.

Diversos problemas concorreram para inviabilizar a produção algodoeira no Nordeste, sobressaindo-se a incapacidade de convivência com o bicudo (Anthonomus grandis Boheman), preços subsidiados no mercado internacional, a abertura do mercado brasileiro (o governo facilitou a importação de fibras subsidiadas do exterior) e as atrativas condições de financiamento externo do produto.

Com o desmantelamento da cadeia produtiva do algodão no Nordeste, o Brasil passou da condição de um dos maiores exportadores de algodão para a de maior importador.

Diante deste cenário, a partir de meados dos anos 90 passou-se a observar mudanças drásticas na cotonicultura brasileira, como o deslocamento dos plantios das tradicionais áreas de cultivo em agricultura familiar da região Nordeste, Sudeste e Sul para as áreas dos cerrados brasileiros do Centro-Oeste e Oeste do estado da Bahia e o uso de novas práticas culturais. O cultivo do algodão nos cerrados brasileiros passou a ser uma atividade de elevado nível tecnológico, explorado em grandes módulos de produção. Com a ocupação dessa nova fronteira agrícola para o cultivo do algodão, houve uma grande recuperação da cotonicultura nacional. Atualmente, os cerrados brasileiros, especialmente da região Centro-Oeste e do Oeste do Estado da Bahia, contribuem com mais de 85% do algodão produzido no país. A Região Centro-Oeste e o Oeste da Bahia têm se consolidado como locais de produção tecnificada, moderna e empresarial o que confere ao algodão brasileiro qualidade superior ou equivalente aos melhores algodões do mundo.

Apesar dos esforços para recuperar a produção do algodão herbáceo no semi-árido nordestino, na safra 2004/2005 a área colhida e a produção foi de apenas 75 mil hectares e 71 mil toneladas de algodão em caroço (um rendimento médio de aproximadamente 950 kg/ha).

Por outro lado, a indústria têxtil, tem se deslocado para o Nordeste. O Nordeste detêm o segundo maior parque industrial têxtil do Brasil, o qual passou a consumir, a partir de 1997, mais de 300 mil toneladas anuais de pluma, especialmente no Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Na América Latina, apenas o México tem capacidade instalada maior do que a existente no Nordeste do Brasil, a qual vem sendo ampliada com a transferência de novas plantas industriais para essa região em razão do baixo preço da mão-de-obra local. Em Campina Grande, PB, está localizada a maior fiadora do mundo, pertencente ao grupo Coteminas, empresa que vem investindo fortemente também no Rio Grande do Norte, Minas Gerais e outros estados. A pluma consumida nessa indústria (mais de 23 mil t só no Rio Grande o Norte) é quase toda proveniente do Oeste da Bahia e de outras regiões brasileiras. Vale ressaltar que o transporte dessa matéria-prima até à indústria tem enfrentado transtornos devido às más condições das estradas, às longas distâncias percorridas e ao elevado custo do transporte rodoviário no Brasil.

Os industriais brasileiros já se conscientizaram de que uma indústria têxtil forte, com crescimento sustentado, capaz de se manter competitiva em nível mundial e garantir a entrega das encomendas no mercado, precisa de uma base de produção local para não ficar sujeita aos transtornos e incertezas de um adequado fornecimento de pluma oriunda do exterior. Portanto, é do interesse da indústria a produção local do algodoeiro, aproveitando-se de vantagens como a proximidade dos plantios e o baixo custo do transporte, dentre outras. O algodoeiro é a mais tradicional das culturas do semi-árido nordestino, havendo na região crescentes estoques de conhecimentos e tecnologias desenvolvidas para o seu cultivo. Existe também uma grande quantidade de produtores tradicionais da cultura que podem ser motivados com políticas sérias para revitalização da produção. É hora, pois, de se adotarem medidas em conjunto com vistas ao fortalecimento de todos os elos da cadeia produtiva do algodão no Nordeste e, nesse contexto, devem os agricultores se organizarem em defesa de seus direitos, e os governantes adotarem mecanismos de incentivo e apoio à produção.

Finalmente, cumpre destacar a importancia dos empregos gerados pelo cultivo do algodão herbáceo no âmbito da agricultura familiar. Com base em coficientes técnicos dos sistemas de produção de algodão herbáceo, praticados no semi-árido nordestino, estimou-se que a cada 3 hectares plantados é ofertado um emprego direto. Em 2005, no semi-árido nordestino, o cultivo do algodão herbáceo alcançou uma área de plantio de aproximadamente 75 mil hectares, resultando na ocupação direta de 25 mil trabalhadores.


 

Todos os direitos reservados, conforme Lei n° 9.610.

Topo da Página