Embrapa Algodão
Sistemas de Produção, 2
ISSN 1678-8710 Versão Eletrônica
Jan/2003

Cultura do Algodão no Cerrado

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Adubação e correção .


Considerando que a quantidade de nutrientes exportados da lavoura pela fibra e semente é relativamente pequena, comparada a outras culturas de importância econômica, o algodoeiro não seria considerado uma planta esgotante do solo. Contudo, nos casos em que é adotada a prática de arrancar e queimar a soqueira, como medida de controle de doenças e pragas, em cultivo convencional, ocorre perda de parte dos nutrientes que poderiam retornar ao solo. Este método de destruição dos restos culturais associado ao revolvimento intensivo do solo durante seu preparo faz com que as recomendações de adubação sejam superiores ao que é retirado pela fibra e semente para compensar as perdas e evitar o empobrecimento gradual do solo.

Uma maneira de minimizar estas perdas seria através da implantação de sistemas agrícolas sustentáveis que sejam produtivos, conservem os recursos naturais, protejam o ambiente e melhorem as condições de saúde e segurança a longo prazo. Neste sentido, as práticas culturais e de manejo, como a rotação de culturas, a reciclagem de nutrientes e o preparo conservacionista do solo são muito aceitáveis pois, além de controlarem a erosão do solo e as perdas de nutrientes, mantêm e/ou melhoram a produtividade do solo. Em muitos solos, a matéria orgânica humificada do horizonte superficial é o principal fator responsável pela "capacidade de troca de cátions" (CTC), verdadeira despensa de nutrientes, que podem ser liberados progressivamente à disposição dos cultivos; logo, pode-se deduzir que a matéria orgânica tem papel fundamental na ciclagem e manutenção dos nutrientes, evitando as perdas por lixiviação. Os resíduos dos cultivos deixados na superfície pelos sistemas de plantio direto (Figura 1) e/ou semi direto oferecem a melhor forma de se restaurar a produtividade dos solos agrícolas degradados. 

Figura 1. Cobertura do solo (palhada de milho e soja).

O planejamento de um sistema sustentável, como o citado anteriormente, requer uma série de etapas preliminares como histórico da área, complexo florístico de ervas daninhas, pesquisa de mercado, estudo do perfil do solo e etc.


Análises do Solo

Como seguimento importante desta última, estão as amostragens de solos para análises de fertilidade que servirão como base para recomendação de calagem e  adubação. Por essa razão as amostras coletadas devem ser representativas da área a ser cultivada. Para isso, a área a ser amostrada deve ser dividida em talhões de até 20 ha, homogêneos quanto à topografia, cor e textura do solo, cobertura vegetal anterior, histórico de uso e drenagem. Em cada talhão, toda a área deve ser percorrida em zigue-zague, retirando-se 15 a 20 subamostras simples, de mesmo volume. As subamostras simples deverão ser misturadas em um recipiente limpo para formar uma única amostra composta, da qual são retirados cerca de 500 a 600 g de terra, identificados e enviados ao laboratório.

Em áreas sob cultivo convencional as amostras de solo devem ser coletadas nas camadas 0-20 e 20-40 cm. No sistema de Plantio Direto nos três primeiros anos segue-se o mesmo procedimento do convencional, sendo que a partir do quarto ano é recomendável retirar amostras nas camadas 0-10, 10-20 e 20-40 cm de profundidade.

Quanto à época de amostragem, é conveniente retirar amostras com bastante  antecedência do plantio, uma vez que a recomendação de adubação e calagem depende dos resultados da análise do solo. No caso do manejo convencional, convém coletar as amostras antes da aração para permitir a aplicação de calcário antes dessa operação. O ideal seria repetir a amostragem e análise de solo anualmente, visando assegurar o acompanhamento das condições de fertilidade do solo e recomendação de adubação adequada. Que pode ser complementada pela análise foliar.


Análises Foliares

A análise foliar é uma ferramenta essencial para a avaliação do estado nutricional do algodoeiro que deve ser considerada como complementar à análise do solo e nunca como substituta. Quando usada em conjunto com os resultados de análise do solo e o histórico de uso da área, permite acompanhar o equilíbrio nutricional das culturas, tendo-se a recomendação de adubação mais consistente.

A época correta de amostragem é no período do florescimento, 80 a 90 dias após a emergência. Deve-se coletar a 5ª folha totalmente formada a partir do ápice da haste principal, num total de 30 folhas por área homogênea. Recomenda-se evitar folhas que apresentem danos causados por pragas e doenças sintomas de doenças. Após a coleta, as folhas devem ser colocadas em sacos de papel, identificadas e enviadas ao laboratório, se possível no mesmo dia.


Calagem

Por ser o algodoeiro pouco tolerante à acidez e à presença de alumínio trocável e ser exigente em cálcio, elemento importante na germinação e desenvolvimento inicial das raízes, a correção da acidez é essencial para a obtenção de boa produtividade. A calagem é a aplicação de corretivo da acidez (geralmente calcário) no solo e tem o objetivo de corrigir a acidez, neutralizar o alumínio trocável, elevar a saturação de bases e fornecer cálcio e magnésio para as plantas. Além desses efeitos diretos, com a calagem a cultura é beneficiada indiretamente pelo aumento da capacidade de troca de cátions (CTC) e da disponibilidade de N, S, P, B e Mo, melhoria do desenvolvimento do sistema radicular, que permite exploração de maior volume de solo e conseqüentemente maior eficiência na absorção de nutrientes do solo pela planta.


Recomendação de calagem

São vários os métodos usados para cálculos da necessidade de calcário, sendo a mais usada para a cultura do algodão aquele baseado na CTC e SATURAÇÃO DE BASES, o qual  aplica a seguinte fórmula:

 

NC (t/ha) = CTC (V2-V1)/100, sendo:

 NC = necessidade de calcário em t/ha

CTC (mmolc/dm3) = capacidade de troca cátions do solo a pH 7,0 (Ca2+ + Mg2+ + K+ + H+ +Al3+)

V2 = porcentagem de saturação por bases recomendada para a cultura (60-70%)

V1 = porcentagem de saturação por bases atual do solo, calculada pela fórmula: 100 x SB/CTC

SB = soma de bases trocáveis (Ca2++Mg2++ K+, em cmolc/dm3).

A quantidade de calcário recomendada é para aplicação do produto em uma superfície (S) de um hectare (10.000 m2), a uma profundidade de incorporação (PI) de 20 cm e usando calcário com PRNT igual a 100 %. Caso haja diferença em qualquer desses critérios é necessário fazer uma correção na quantidade aplicada:

Quantidade de calcário (t/ha) = NC x S/10.000 x PI/20 x 100/PRNT,

onde PRNT = Poder Relativo de Neutralização Total do calcário utilizado.

A calagem deve ser feita a pelo menos dois meses do plantio e em área total com posterior incorporação com aração e gradagem. Caso seja usado o plantio direto, deve ser aplicado na superfície ½ da dosagem recomendada até o limite de 2,5 t/ha em solos argilosos e 2,0 t/ha em solos arenosos.

A correção da acidez e dos teores tóxicos de Al na subsuperfície pode ser feita com gesso agrícola. O seu uso é recomendado quando na camada subsuperficial (20-40) a saturação por alumínio for superior a 20% e/ou a saturação de cálcio for menor que 60% da CTC efetiva. De modo geral, a quantidade de gesso (QG) a ser aplicada no solo pode ser calculada pela fórmula:

QG (kg/ha) = 50 x %argila  

Ou ainda: 

Solos arenosos (< 15% de argila)

Até 700 kg/ha

 

Solos de textura média (15 – 35% de argila)

Até 1.200 kg/ha

 

Solos argilosos (35 – 60% argila)

Até 2.200 kg/ha

 

Solos muito argilosos (> 60% argila)

Até 3.200 kg/ha

 

Para o algodoeiro, sugere-se a observação das seguintes condições destacadas por Medeiros et al. (2002):

 I) Em solos argilosos, porém com baixos teores de potássio, a gessagem pode ser efetuada desde que seja feita adubação com potássio.

II) Em solos argilosos com teores médios ou altos de potássio, o gesso pode ser usado sem restrições.

III) A quantidade de gesso a ser aplicada não deve ultrapassar 1.500 kg/ha.

IV) O gesso pode ser usado como fonte de enxofre e nesse caso a quantidade deve ser calculada para fornecer 20 a 30 kg/ha desse nutriente.

Vale salientar que o solo corrigido pode voltar a ficar ácido porque os fatores que causam a acidez continuam atuando ao longo do tempo, por exemplo:

· perdas de bases (Ca, Mg e K) por lixiviação, que é aumentada na presença dos ânions sulfato, cloreto e nitrato fornecidos nas adubações, com conseqüente redução do pH.

· utilização de adubos nitrogenados, como sulfato de amônio e uréia, que acidificam o solo.

· processo de nitrificação (transformação de amônio em nitrato) que ocorre após a mineralização do nitrogênio da matéria orgânica, cuja reação provoca  acidificação do solo.

· extração de cátions (Ca, Mg, K) pelas culturas.

· Por isso, é conveniente monitorar, anualmente, a fertilidade do solo através de análises laboratorias para que se identifique alterações na reação do solo e a necessidade de sua correção.


Adubação


Para se fazer uma adubação equilibrada, é muito importante conhecer a quantidade total de nutrientes extraídos, exportados (fibra e sementes) e quanto retornou ao solo através dos restos culturais. Porém, além das exigências nutricionais, vários fatores determinam a resposta das culturas à adubação, tais como: a dinâmica  dos nutrientes no solo, o histórico de uso da área (principalmente, cultura anterior, correções e adubações aplicadas) e, a disponibilidade de água, dentre outros. O fósforo, por exemplo, embora seja o macronutriente menos absorvido pelo algodoeiro, é usado em maior proporção nas formulações de adubação devido à sua fixação no solo, especialmente na regiões de cerrado. De qualquer forma
os teores de nutrientes no solo devem ser manejados de modo a se construir sua fertilidade até os níveis considerados altos ou adequados. Desse ponto em diante, a adubação deve objetivar manter a fertilidade e o nível da produtividade alcançada.

· O fósforo e o potássio são recomendados em função da análise do solo, considerando as tabelas de recomendação de adubação de cada estado ou região.

· A recomendação de nitrogênio é baseada na produtividade esperada e no potencial de resposta da cultura associado ao histórico de uso da área.

· Não se espera resposta à adubação potássica quando o teor de potássio no solo for superior a  2,5 mmolc/dm3 ou quando a relação (Ca + Mg)/K < 20.

· O enxofre, assim como o nitrogênio, não é recomendado pela análise do solo. Nos casos em que se espera resposta a esse nutriente, a aplicação de 25 a 30 kg/ha usando gesso tem sido suficientes  para o algodoeiro.

· É recomendável o uso de fontes solúveis de fósforo e de formulações NPK que contenham sulfatos, seja como sulfato de amônio e/ou superfosfato simples, que além de N e P também fornecem enxofre.

A adubação de plantio deve ser feita no sulco de semeadura, ao lado e abaixo da semente, com pequena proporção de nitrogênio (10-15 kg/ha), fósforo em dose total, metade ou um terço da dose recomendada de potássio e micronutrientes.

A adubação de cobertura pode ser única ou parcelada, se necessário. A primeira cobertura deve ser feita entre 30 a 35 dias após a emergência, com N, K, S e B (1/2 da dose), caso esses dois últimos não tenham sido aplicados na semeadura. A segunda cobertura com N e K (se necessário) deve ser feita cerca de 20-30 dias após a primeira. Este parcelamento aumenta a eficiência da adubação pois assegura o fornecimento desses nutrientes na fase de maior absorção pelas plantas e evita perdas por lixiviação, sobretudo em solos arenosos. Além disso, a aplicação de quantidades elevadas de adubo potássico na semeadura pode prejudicar a emergência das plantas devido ao aumento da pressão osmótica no meio, uma vez que o cloreto de potássio tem elevado índice salino.

Resultados de pesquisas recentes têm indicado que:

· A aplicação de nitrogênio em cobertura em doses acima de 120 kg/ha não são econômicas,

· As aplicações tardias de nitrogênio (após 80 dias de emergência) promove o crescimento vegetativo, prolongamento do ciclo da cultura, aumento da queda de botões florais e aumento da intensidade de ataques de pragas e doenças, sem que ocorra aumento da produtividade.

· Respostas a doses elevadas de nitrogênio em cobertura (acima de 140 kg/ha) estão associadas à compactação do solo e/ou à presença de nematóides.

Quanto aos micronutrientes, a adubação via solo tem se mostrado mais eficiente do que a adubação foliar. Em áreas com histórico favorável para a deficiência desse micronutriente, recomenda-se a aplicação de até 1,2 kg/ha na semeadura, ou em cobertura junto com N e K. Como o limite entre a deficiência e a toxicidade de boro é muito estreito, aplicações acima de 2 kg/ha podem causar prejuízo na produção. Em solos de cerrado, na fase de correção, recomenda-se aplicar 3 kg/ha de Zn se o teor no solo for inferior a 0,6 mg/dm3, para prevenir deficiências.

Os resultados de pesquisa mostram que a adubação foliar é menos eficiente do que a adubação tradicional, via solo. Por isso, a pulverização foliar é recomendada apenas para corrigir deficiências detectadas durante o desenvolvimento da cultura. Entretanto, quando essas deficiências ocorrem parte da produção potencial da planta já está comprometida e a correção apenas diminui a intensidade das perdas.

No caso de solos corrigidos e com uso de elevadas adubações com NPK, visando altas produtividades, é conveniente o uso de formulações NPK de plantio contendo micronutrientes, para prevenir possíveis deficiências. Nessas formulações é comum o uso de fritas como fonte de todos os micronutrientes. As fritas são relativamente baratas e de lenta solubilização no solo, assegurando liberação gradual dos micronutrientes sem causar toxicidade.


Sintomas de deficiências


Nitrogênio –
Redução do crescimento vegetativo e amarelecimento uniforme da planta. Os sintomas são mais acentuados nas folhas mais velhas, nas quais surgem manchas avermelhadas ou pardas que secam e provocam a queda prematura das folhas. As plantas apresentam-se pouco desenvolvidas, com número reduzido de ramos vegetativos e botões florais.

Fósforo – Ocorre atraso no desenvolvimento e as folhas apresentam coloração verde escuro intensa e manchas ferruginosas no limbo. Esses sintomas são difíceis de serem detectados no campo.

Potássio – Amarelecimento das margens das folhas mais velhas, que avança entre as nervuras. Com o agravamento da deficiência, a superfície das folhas passam para uma coloração bronzeada. A clorose se desloca gradualmente para as folhas mais novas e as mais velhas morrem e caem, provocando a maturação prematura dos frutos e causando prejuízo na produtividade e na qualidade do produto. 

Cálcio – Sintomas de deficiência de cálcio são difíceis de serem encontrados no campo. Sob condições severas de deficiência o sistema radicular é prejudicado, o crescimento é paralisado e ocorre murchamento e queda das folhas. As folhas que não caem tornam-se avermelhadas.

Magnésio – O sintoma bem característico é a clorose internerval das folhas mais velhas, que evolui para a coloração vermelho-púrpura, formando um contraste nítido com o verde das nervuras. As folhas deficientes e as maçãs se desprendem com facilidade.

Enxofre – Clorose do ponteiro, caracterizado pela coloração verde-limão típica que atinge as folhas mais velhas, causando sua queda prematura.

Boro – O algodoeiro é uma das plantas mais exigentes em Boro. Os principais sintomas de deficiências são:

· folhas novas amareladas e enrugadas, contrastando com o verde normal das folhas mais velhas.

· flores defeituosas e aumento da queda de botões florais e dos frutos, os quais apresentam escurecimento interno na sua base.

· aparecimento de anéis verde-escuros nos pecíolos.

· superbrotamento e morte dos ponteiros, quando a deficiência é muito severa.

Zinco – Clorose internerval nas folhas novas, que se apresentam com as bordas voltadas para cima e lóbulos alongados no formato de “dedos”.

Manganês – Clorose internerval das folhas novas dos ponteiros, contrastando com o verde das nervuras.

Cobre – as folhas novas apresentam nervuras tortas e salientes. São sintomas de difícil ocorrência no campo.

Ferro – Sintomas semelhantes aos da deficiência do manganês. Não se espera deficiência de ferro no Brasil, a não ser em condições de elevada disponibilidade de manganês, devido ao antagonismo entre eles, ou em solos alcalinos.

 

 

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