Embrapa Algodão
Sistemas de Produção, 2
ISSN 1678-8710 Versão Eletrônica
Jan/2003

Cultura do Algodão no Cerrado

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Importância econômica
Clima
Manejo de solos
Adubação e correção
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Sementes
Plantio
Tratos culturais
Plantas daninhas
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Glossário


Expediente

Pragas


A cultura do algodão é de grande expressão socioeconômica para os setores primário e secundário do Brasil. Todavia, as pragas constituem-se um dos fatores limitantes para sua exploração, caso não sejam tomadas medidas eficientes de controle. Dentre as pragas que atacam o algodão cultivado no cerrado, destacam-se: as brocas (
Eutinobothrus brasiliensis e Conotrachellus denieri), a lagarta rosca (Agrotis spp.), os pulgões (Aphis gossypii e Myzus persicae), o tripes (Frankliniella spp.), o percevejo de renda (Gargaphia torresi), o curuquerê (Alabama argillacea), o bicudo (Anthonomus grandis), a lagarta-das-maçãs (Heliothis virescens), as lagartas do gênero Spodoptera (S.frugiperda e S. eridania), a lagarta rosada (Pectinophora gossypiella), os ácaros (Tetranychus urticae, Polyphagotarsonemus latus), os percevejos (Horcias nobilellus e Dysdercus spp.) e a mosca branca (Bemisia tabaci).


Para o controle de pragas a Embrapa preconiza o uso do sistema de manejo integrado de pragas – MIP, o qual é constituído de várias estratégias de controle. Todavia o sucesso no emprego dessas estratégias dependem da utilização de métodos de amostragens, para determinação dos níveis de controle das pragas e da ação dos inimigos naturais, visando otimizar o emprego de inseticidas.
 

Amostragem de pragas


Tomadas de decisões que visem aumentar e preservar as populações de inimigos naturais dentro do agroecossistema algodoeiro, são ações promissoras, técnica e ecologicamente viáveis, que poderão resultar em grande economia para os cotonicultores, na melhoria da qualidade do meio ambiente e na redução dos problemas de saúde pública decorrentes do uso indiscriminado de produtos químicos. Portanto, é necessário que o cotonicultor esteja apto em reconhecer as pragas e seus inimigos naturais que, porventura, venham a ocorrer durante o ciclo da cultura, realizando amostragens periódicas na lavoura para uma tomada de decisão inteligente e que seja econômica, social e ecologicamente indicada para as condições de sua empresa.


Geralmente, as amostragens deverão ser feitas em intervalo de cinco dias, tomando-se aleatoriamente 100 plantas em talhões com até 100 ha, área homogênea, através do caminhamento em ziguezague, dentro da cultura de tal maneira que se observem plantas que estejam bem distribuídas na cultura. Para amostrar o curuquerê em cada planta deve-se examinar a terceira folha, contada a partir do ápice para a base. No caso do bicudo, deve-se observar um botão floral de tamanho médio, tomado aleatoriamente, na metade superior da planta, a fim de se verificar a presença ou não de orifícios de oviposição e\ou alimentação. As amostragens visando o bicudo, deverão ser feitas a partir do surgimento dos primeiros botões florais até o aparecimento do primeiro capulho na cultura.


Estratégias de controle


O manejo integrado de pragas tem como base fundamental a integração de várias estratégias de controle de pragas, tais como: manipulação de cultivar, controle cultural (plantio, conservação do solo e adubação, densidade de plantio, catação de botões florais e maçãs caídas no solo, destruição dos restos de cultura e rotação de cultura), controle climático, controle biológico e controle químico. A seguir, serão apresentadas as principais estratégias para o controle das pragas do algodoeiro.


Manipulação de cultivar e plantio


Sugere-se a utilização de cultivares produtivas de algodão de ciclo curto  resistentes a virose e uniformidade da época de plantio, sempre que possível, em áreas e períodos comprovadamente com menor incidência de pragas, visando quebrar a sincronia entre a fonte alimentar da praga e sua ocorrência, além de possibilitar a antecipação da colheita e, conseqüentemente, a destruição precoce dos restos de cultura.


Conservação do solo e adubação


A utilização correta do solo, baseada em recomendações técnicas de preparo e adubação, constitui-se em ferramenta indispensável para manutenção da sua fertilidade e estrutura, contribuindo diretamente para a formação de plantas vigorosas e, portanto, menos vulneráveis ao ataque de pragas.


Densidade de plantio


A densidade de plantio deverá ser constituída de tal maneira que se evite o adensamento excessivo da cultura, facilitando a penetração dos raios solares e o deslocamento de gotas da calda do inseticida até o alvo biogico.


Controle climático


Nas regiões brasileiras cujas condições edafoclimáticas são caracterizadas por insolação excessiva, tem exercido um papel preponderante na redução populacional de pragas. A insolação aumenta a taxa de evaporação da água presente no solo e nos insetos, funcionando como fator limitante para a sua sobrevivência, principalmente da broca e do bicudo.


Controle Biológico


Sugere-se efetuar, uma vez por semana, liberações inundativas de 100.000 ovos parasitados/ha, pela vespinha Trichogramma pretiosum no momento do aparecimento na lavoura de lepidópteros-praga, como: curuquerê, lagartas do gênero Spodoptera spp., lagarta rosada e lagarta-das-maçãs. A liberação deverá ser feita com 15 cartões de 2 pol2 contendo ovos parasitados distribuídos em 15 pontos equidistantes entre si por ha. Outra alternativa é efetuar pulverizações com o inseticida microbiológico a base de Bacillus thuringiensis, na dosagem comercial de 8-16 e 16-32 g.i.a./ha, respectivamente, quando o curuquerê e a lagarta-das-maçãs atingirem o nível de controle. Deve-se ter bastante atenção para a presença de predadores (joaninhas, sirfídeos, bicho-lixeiro e aranhas) e parasitóides (vespinha: Lysiphlebus testaceipes) do pulgão na lavoura, obedecendo ao nível de ação desses inimigos naturais (Tabela 1). A tecnologia da produção  de Trichogramma pretiosum encontra-se à disposição de cotonicultores, na Embrapa Algodão .


Controle Químico


O controle químico das principais pragas do algodoeiro somente deverá ser efetuado quando necessário, ou seja, quando a praga atingir o nível de controle (Tabela 1). Até o aparecimento das primeiras maçãs firmes (cerca de 70 dias), não devem ser utilizados inseticidas piretróides. A escolha dos inseticidas químicos deverá contar com a participação efetiva de um agronômo, sendo então, levado em consideração a eficácia, a seletividade, a toxicidade, o poder residual, o período de carência, o método de aplicação, a formulação e o preço.

Tabela 1. Pragas e inimigos naturais, nível de controle, ingrediente ativo, dosagem e nível de ação sugeridos para o controle das principais pragas do algodoeiro.

Pragas e inimigos naturais

Nível de controle

Ingrediente ativo

Dosagem

(g.i.a.\ha)

Nível de ação

Brocas

-

Carbofuran

Dissulfanl

3.000,0 a 4.000,0

16.600,0

-

Lagarta rosca

-

Carbaril

960,0

-

Tripes

70% de plantas atacadas

Tiometon

Dimetoato

Monocrotofos

175,0

126,0

250,0

-

Pulgão

10% ou 70% de plantas atacadas com colônia, respectivamente, suscetíveis ou tolerantes a virose

Pirimicarb

Tiometon

Monocrotofos


37,5 a 50,0

65,5

120,0

-

Percevejo de renda

53% das plantas com colônia

Tiometon

125,0

-

Curuquerê

22% ou 53% das plantas atacadas por lagartas > ou < 15mm, respectivamente

Diflubenzuron

Clofluazuron

Tefluazuron

Tefubenozide

Endosulfan

12,5

25,0 a 37,5

7,5

300,0

350,0

-

Bicudo

10% das plantas com botões florais danificados

Endosulfan

Phosmet

Carbaryl

525,0

750,0

1.400,0

-

Lagarta das maçãs

13% de plantas com lagartas

Endosulfan

Carbaryl

525,0 a 700,0

1.200,0

-

Spodoptera spp.

13% de plantas com lagartas

Endosulfan

Carbaryl

525,0 a 700,0

1.200,0

-

Lagarta rosada

11% das plantas com macas danificadas

Carbaryl


1.200,0


-

Ácaros

40% de plantas com colônia

Abamectin

Propargite

7,2

681,0

-

Percevejos

20% de plantas atacadas

Endosulfan

Dimetoato

525,0

126,0

-

Mosca branca

-

Endosulfan

Dimetoato

525,0 a 700,0

126,0

-

Predadores e parasitóides

-

-

-

71% de plantas c/ predadores e/ou múmias

1/ Fonte: Silva & Almeida (1998)


Destruição dos restos de cultura


Imediatamente após a colheita, deve-se proceder à destruição dos restos de cultura, tais como: raízes, caules, botões florais, flores, maçãs, carimãs e capulhos não colhidos, respectivamente, através do arranquio e/ou coleta, para destruição e incorporação no solo. A destruição dos restos de cultura no final da safra visa quebrar o ciclo biológico das pragas, através da eliminação dos sítios de proteção, alimentação e reprodução.


Rotação de cultura


O cultivo alternado do algodoeiro com outras culturas, em sucessões repetidas, adotando-se uma seqüência definida, além de contribuir para a redução de pragas específicas associadas a uma delas, concorre favoravelmente para a melhoria das condições físicas e químicas do solo.

Considerações importantes


O MIP baseia-se em amostragens periódicas na cultura. Assim, o cotonicultor poderá decidir qual a estratégia correta que deverá ser aplicada para o controle de determinada praga.

O cotonicultor deve aprender a tolerar a presença de insetos na sua lavoura, enquanto esses não atingirem o nível de controle.

Lavouras de algodão de diferentes idades, em uma mesma região, favorecem a sobrevivência e o surgimento precoce de pragas, aumentando o custo de produção.

A destruição de restos de cultura na lavoura algodoeira é obrigatória por lei e seu descumprimento é crime.

A adoção desses critérios de seleção conduzirá a diversos benefícios, tanto para o agricultor, como para a sociedade. Para o agricultor, a utilização do MIP resultará em economia nos custos de produção, melhoria na sua qualidade de vida, garantia de que esta atividade agrícola permanecerá viável economicamente por muito tempo, enquanto para a sociedade a garantia de preservação da biodiversidade, dos mananciais hídricos (lençóis, poços, açudes e rios) e à certeza da redução de resíduos nos subprodutos do algodão.

 

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