Embrapa Algodão
Sistemas de Produção, No. 7
ISSN 1678-8710 Versão Eletrônica
Dez/2006

Cultivo do Amendoim

Nelson Dias Suassuna
Wirton de Macedo Coutinho
Roseane Cavalcanti dos Santos
Taís de Moraes Falleiro Suassuna

Sumário

Apresentação
Importância econômica
Clima
Solos
Adubação
Cultivares
Mudas e sementes
Plantio
Irrigação
Tratos culturais
Plantas daninhas
Doenças
Pragas
Uso de agrotóxicos
Colheita e pós-colheita
Mercado e comercialização
Coeficientes técnicos
Referências
Glossário

Expediente


Doenças

Doenças foliares

As principais doenças foliares do amendoim são a mancha castanha e a pinta preta. Apesar da semelhança, as manchas causadas pelo fungo Cercospora arachidicola, agente causal da mancha castanha, são geralmente circundadas por um halo de coloração amarelada (Figura 1a e 1b) a esporulação é observada na face adaxial dos folíolos. A pinta preta é causada pelo fungo Cercosporidium personatum, com lesões mais escuras, bem definidas e com esporulação abundante na face abaxial dos folíolos (Figura 2a e 2b). Geralmente, a mancha castanha ocorre no início do florescimento, enquanto que a pinta preta é mais freqüente a partir do final do período de florescimento. As duas doenças são conhecidas como cercosporioses em função da semelhança das manchas foliares características. As perdas causadas por estas doenças são estimadas em torno de 50% quando não controladas eficientemente, havendo relatos de perdas de 70% no nordeste do Brasil. As perdas são decorrentes da desfolha precoce provocada, principalmente em cultivares suscetíveis plantadas em regiões onde as condições ambientais são favoráveis ao desenvolvimento de epidemias.

Foto: Nelson Suassuna.

Fig. 1a. Sintoma de mancha castanha na face superior do folíolo





Foto: Nelson Suassuna.

Fig. 1b. Sintoma de mancha castanha na face inferior do folíolo. 




Foto: Nelson Suassuna.
Fig. 2a. Sintoma de pinta preta na face superior do folíolo

Foto: Nelson Suassuna.
Fig. 2b. Sintoma de pinta preta na face inferior do folíolo.

O manejo das cercosporioses é implementado visando a redução do inóculo inicial, retardando o início da epidemia e a diminuição da taxa de progresso da doença, mantendo a severidade abaixo de níveis que causem perdas econômicas.

As táticas de manejo para redução do inóculo inicial afetam principalmente a fase de sobrevivência dos patógenos. Portanto, a rotação de culturas, eliminação de partes vegetativas após o cultivo e de plantas voluntárias de amendoim são medidas que impedem o aumento de inóculo na área de cultivo e contribuem para o retardamento do início da epidemia.

Embora as táticas de redução de inóculo inicial sejam implementadas, o inóculo externo à área, advindo de outras regiões por via aérea poderá atingir a lavoura. Nesse caso, deverão ser adotadas medidas para a redução do progresso da doença, como o uso de cultivares com resistência genética e a aplicação de fungicidas.

O conhecimento do nível de resistência das cultivares é fundamental para êxito no manejo das cercosporioses. Níveis satisfatórios de resistência implicam em menor número de aplicações de fungicidas.

Embora os programas de melhoramento genético de amendoim visem o desenvolvimento de cultivares resistentes às manchas foliares, o uso de fungicidas tem sido necessário nas principais regiões produtoras no Brasil, todavia essa prática é pouco usada no Nordeste  Brasileiro.

Não existe no mercado cultivar de amendoim com resistência completa às cercosporioses, contudo, as cultivares BR-1 e BRS 151 L7 foram tolerantes, ou seja, apesar da presença da doença, a produtividade não foi muito afetada, quando cultivadas no Recôncavo baiano, no Agropólo Cariri (CE), no Agreste paraibano e no Sertão pernambucano. Nas condições de Zona da Mata e Brejos nordestinos, as cercosporioses são mais severas, sobretudo entre 65 e 70 dias de cultivo, auge do desenvolvimento vegetativo das plantas que geralmente coincide com o maior período chuvoso da região. Por serem de ciclo curto todavia, o controle químico não tem sido adotado pelos agricultores. No caso de cultivares com ciclo superior a 100 dias, especialmente cultivares ramadoras (tipo runner) convém proceder ao  controle químico para evitar perdas na produção.

Fungicidas de diversos grupos químicos, e portanto, com diferentes modos de ação são registrados para uso em amendoim no controle das cercosporioses. O uso racional de fungicidas implica na rotação, no tempo e no espaço, de diferentes grupos químicos, visando dirimir o surgimento de isolados resistentes a fungicidas, principalmente àqueles de modo de ação específico. O uso de misturas pré-formadas é desejável por aumentar o espectro de ação da calda (atingindo outros patógenos) como por ser uma tática anti-resistência.

O momento da primeira aplicação de fungicidas é fator fundamental para o sucesso no controle químico dentro de um programa de manejo, pois em baixa pressão de inóculo a dispersão de esporos é branda e haverão poucas novas infecções. Retardando-se a primeira aplicação haverá maior número de propágulos do patógeno na área de cultivo e, em conseqüência, após o período residual do fungicida, surgirão novas infecções com maior intensidade. Portanto, assim que forem constatadas as primeiras lesões e, dependendo das condições ambientais, é oportuno realizar a aplicação.

O intervalo entre aplicações é dependente do fungicida em uso (sistêmico, contato ou mistura) e das condições ambientais. Apenas com base na precipitação pluvial registrada é possível racionalizar o uso de fungicidas. O sistema consiste na captação pluvial diária e o alerta é dado quando nos últimos 5-7 dias anteriores, em três hajam registros acima de 2,5 mm. O sistema foi validado para a pinta preta usando a cultivar IAC-Caiapó, com resistência parcial à doença, no Estado de São Paulo (municípios de Campinas e Pindorama), reduzindo o número de aplicações tanto de fungicida sistêmico (Tebuconazole) quanto de contato (Clorotalonil) (Moraes et al., 2002). Todavia, esse sistema ainda não foi validado para as condições ambientais do Nordeste com as cultivares desenvolvidas para essa região.

No Nordeste, não tem sido observada a ocorrência de outras doenças de folhagens afetando a produção de amendoim porém, a cultivar BRS 151 L7 é suscetível à Mancha variegada (Cowpea aphid-borne virus, CABMV) (Figura 3). Cuidados especiais devem ser tomados, visto que podem ser transmitidas viroses pela cigarrinha (Empoasca kraemeri (Ross & Moore, 1957) (Homoptera, Cicadelidae) e o tripes do folíolo (Enneothrips flavens Moulton, 1941 (Thysanoptera, Tripidae) e do prateamento - Caliothrips brasiliensis (Morgan, 1929) (Thysanoptera, Tripidae)

Foto: Genira P. Andrade/UFRPE 
Fig. 3. Sintoma de mancha variegada.

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Contaminação por aflatoxina

Micotoxinas

As micotoxinas são metabólitos tóxicos produzidos por algumas espécies de fungos, principalmente dos gêneros Aspergillus e Penicillium. Muitas delas com efeitos tóxicos e degenerativos no consumidor, sendo nefrotóxicas e possivelmente carcinogênicas e teratogênicas.

No caso específico do amendoim, a micotoxina mais importante é a aflatoxina (dos tipos B e G ), produzida por Aspergillus flavus e A parasiticus. O A. flavus produz apenas a aflatoxina B, sendo que aproximadamente 40 % das cepas são produtoras; já o A. parasiticus produz tanto a aflatoxina B como a G, sendo que 100% das cepas isoladas do ambiente são produtoras.

Essas duas espécies são relacionadas morfologicamente, tanto que a maioria dos autores não as diferenciam. Porém, são bastante distintas no comportamento ecológico e biológico. A. parasiticus é mais adaptado ao ambiente terrestre, sendo mais comum em amendoim, enquanto que A. flavus adapta-se melhor em ambientes aéreos, ocorrendo com maior freqüência em culturas como milho, algodão, arroz e nozes. Em conseqüência, aflatoxinas do tipo G raramente são encontradas em análises realizadas em milho, arroz e caroço de algodão, sendo freqüentemente encontradas em análises feitas em amendoim, estando presentes também as do tipo B.

Muitos fatores, desde a produção até o armazenamento, contribuem para a contaminação por aflatoxina no amendoim. O primeiro ponto de controle encontra-se na produção, monitorando a umidade do solo, pragas e doenças que causem estresse às plantas, favorecendo a infecção por Aspergillus. Na colheita, a seleção de material danificado, atacado por insetos, vagens chochas, com bolores, é um dos pontos de controle mais importantes para prevenir a contaminação por aflatoxina. A manutenção das vagens com umidade inferior a 10% é uma garantia de que o fungo produtor de aflatoxina não terá chance de desenvolver-se. As condições de colheita, transporte e armazenamento deverão ser rigorosamente controladas; variações na temperatura e nos teores de umidade relativa nos armazéns poderão possibilitar a reidratação das vagens e o desenvolvimento dos fungos contaminantes (Figura 4). Assim sendo, o monitoramento das condições ambientais durante o transporte e o armazenamento do amendoim, constitui-se num importante ponto crítico de controle. 




Foto: Wirton Coutinho.

Fig. 3. Aspergillus flavus em grãos de amendoim colocados em meio BDA salino.







Contaminação pré-colheita

O controle pré-colheita da contaminação por aflatoxina no amendoim compreende cuidados como a escolha da área para o plantio e do cultivar, controle de pragas, da umidade no solo no período que antecede a colheita, entre outros. Basicamente, são considerados os fatores agronômicos e ambientais que favorecem a infecção das vagens e sementes com o fungo produtor de aflatoxina. Em função da variação desses fatores, escolhe-se a área a ser cultivada e as práticas agrícolas a serem adotadas para reduzir a contaminação por aflatoxinas.

A rotação de culturas é uma prática recomendada, pois tem o propósito de reduzir a população de A. flavus e A. parasiticus. Em regiões semi-áridas, onde a população destes patógenos tende a ser mais alta, essa prática tem pouco efeito.

Solos arenosos são mais suscetíveis a estresse hídrico que os solos argilosos, que retêm mais água. O cultivo nesses solos mais vulneráveis requer maior cuidado. Se necessário, deve-se garantir umidade para a cultura com irrigação suplementar, para que as plantas não sofram estresse hídrico no período de 4 a 6 semanas antes da colheita. Esse é considerado um período crítico para infecção por Aspergillus no campo.

A escolha do cultivar também é um fator fundamental para controlar a contaminação por aflatoxina. O ideal seria escolher cultivares resistentes à produção de aflatoxina, adaptados às condições edafoclimáticas da região de cultivo. No Brasil, apenas um cultivar, lançado pelo IAC apresenta resistência, o IAC-Caiapó. Desenvolvido para o estado de São Paulo, o IAC-Caiapó atende ao mercado interno de grãos maiores e de cor bege e indústria de óleo. Cultivares resistentes a insetos também são desejáveis, pois as plantas sofrem menos estresse e danos mecânicos, especialmente nas vagens, que favorecem a infecção e proliferação de Aspergillus.

Além da resistência ao Aspergillus e insetos, outros atributos dos cultivares são importantes e podem contribuir muito para reduzir a contaminação por aflatoxina no amendoim. A adaptação à região de cultivo é importante por submeter à planta a menos estresse em condições adversas de fertilidade do solo e disponibilidade de água, por exemplo. Os cultivares BR-1 e L-7 foram desenvolvidos pela Embrapa Algodão e são adaptados às regiões do Nordeste onde se cultiva amendoim. Por terem ciclo mais curto, de 89 dias, são mais resistentes a estresses hídricos. Também produzem bem em cultivo irrigado, mas ainda não foram testados em outras regiões do país, como no cerrado. A escolha de um cultivar com ciclo compatível com o regime de chuvas é fundamental. No cultivo amendoim, deve-se evitar que ocorra estresse hídrico nas últimas 4-6 semanas, pois essa condição é altamente favorável a infecção das vagens e sementes pelo Aspergillus. Caso o ciclo da cultivar seja mais longo que o período das chuvas, deve-se providenciar irrigação complementar.

De maneira geral, deve-se evitar todo tipo de estresse que favorece a infecção por Aspergillus. Cuidados como seguir a recomendação de adubação, respeitar a época de plantio e o espaçamento adequado, controles eficientes de insetos e plantas daninhas são fundamentais para prevenir a contaminação por aflatoxina antes da colheita.

Contaminação durante a colheita e pós-colheita

A colheita de amendoim deve ser planejada para ser realizada no ponto ótimo de maturidade, uma vez que a colheita precoce ou tardia aumenta a proporção de vagens imaturas ou que passaram do padrão de maturidade, aumentando a contaminação por aflatoxina.

Plantas que morreram devido ao ataque de pragas ou patógenos devem ser colhidas separadamente, pois provavelmente suas vagens terão altos índices de aflatoxina. Áreas que não foram irrigadas também devem ser colhidas separadamente, pelo mesmo motivo explicado anteriormente. A seleção de vagens danificadas também deve ser feita, para evitar misturar material infectado com Aspergillus do material sadio. Além disso, deve-se reduzir ao máximo a mistura de amendoim com material estranho – plantas daninhas, solo, pedras – promovendo assim melhor aeração e condições de secagem para as vagens. O manuseio com as vagens após a colheita deve ser feito cuidadosamente, para evitar que se quebrem ou que sofram danos que favoreçam a infecção por Aspergillus.

Após colher, deve-se determinar a umidade dos grãos, realizando amostragem em locais diferentes. Esse procedimento permite separar a colheita em lotes de acordo com a umidade dos grãos, permitindo a secagem de maneira mais eficiente. É importante especialmente se a área cultivada for irregular, oferecendo oportunidades para ocorrer diferentes níveis de umidade no solo.

As vagens devem ser colocadas para secar o mais rápido possível. Habitualmente isso é feito invertendo-se a planta no campo, expondo as vagens ao sol e vento. A taxa de secagem durante a cura deve ser a mais alta possível, para reduzir a atividade de água, prevenindo o crescimento de microrganismos como o Aspergillus. A utilização de calor suplementar durante a fase de cura deve ser feita com cuidado, pois aquecimento excessivo acarreta perda de sabor e despeliculamento, reduzindo a qualidade das amêndoas. Após a fase de cura, a umidade deve ser mantida em níveis inferiores a 10 %, para prevenir o crescimento de fungos como o Aspergillus.

Considerando que no amendoim a infecção primária por Aspergillus ocorre no solo, a realização do descascamento e a manutenção da umidade em níveis baixos previnem o crescimento do fungo e o acúmulo indesejável da sua toxina. Após o descascamento, a umidade recomendada é entre 5-7 %. Preferencialmente, essa operação deve ser feita 48 horas após a colheita.

Transporte

Os grãos devem ser transportados para o local próprio de armazenamento ou processamento logo após a cura. Os vagões, containers, caminhões devem estar limpos, secos e livres de insetos e roedores, sem crescimento visível de fungos antes de serem utilizados ou reutilizados.

Durante o transporte, é essencial evitar flutuações de temperatura, para não condessar água em torno da carga e o re-umedecimento dos grãos.

Armazenamento

O ponto-chave para prevenir contaminação por aflatoxina durante o armazenamento é evitar a reidratação dos grãos.

O local deve ser ventilado, seco, com boa cobertura, de preferência com paredes duplas, e piso de concreto. Deve ter estruturas de ventilação, ser protegido de chuva e de insetos, pássaros e roedores, com flutuação mínima de temperatura. Os grãos devem ser distribuídos de maneira uniforme, favorecendo a dispersão do calor e umidade. Dessa forma, há redução das áreas favoráveis a proliferação de insetos, que causam picos de aquecimento e umidade, favorecendo o crescimento do fungo que produz a aflatoxina. Umidade relativa do local menor que 70% e temperatura entre 0 e 10oC propiciam ótimas condições de armazenamento.

Recomenda-se medir a temperatura em intervalos fixos, para monitorar a ocorrência de temperaturas altas, que indicam atividade microbiana ou de insetos.

Fungicidas e inseticidas registrados para a cultura devem ser utilizados, porém respeitando os prazos de carência e as recomendações para consumo dos grãos.

O monitoramento do nível de aflatoxina pode ser feito com análises químicas. Lotes com contaminação devem ser separados dos livres ou com pouca contaminação. Considerando que a distribuição da aflatoxina em um lote é heterogênea, a seleção de grãos e vagens danificados e com crescimento do fungo, começando na colheita e cura, constituem as medidas que mais impacto causam no controle e prevenção da contaminação por aflatoxina.

Vale ressaltar que a ausência do controle da umidade dos grãos após a colheita invalida os cuidados adotados anteriormente.




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