Embrapa Clima Temperado
Sistemas de Produção, 6
ISSN 1806-9207 Versão Eletrônica
Nov./2005

Produção de mudas de amora-preta por meio de cultura de tecidos

Autores

Sumário
Início
 
Introdução
Situação da produção de mudas
Mudas certificadas
Cultivares
Produção de mudas por cultura de tecidos
Considerações finais
Referências
Autores
 
Expediente 
 
Produção de mudas por cultura de tecidos
     
     
     
     
     
 

Há dez anos, a Embrapa Clima Temperado vem aprimorando protocolo para a micropropagação de cultivares de amora-preta. Nesse período, dezenas de milhares de mudas foram produzidas por meio desse sistema e disponibilizadas a produtores de diferentes Estados. Atualmente, com base nos trabalhos de pesquisa realizados e na experiência obtida, recomenda-se o seguinte sistema de produção:

Fontes de explantes

O ideal consiste na utilização de explantes provenientes de plantas matrizes ou básicas. Caso não existam para a cultivar desejada, os explantes devem ser coletados de plantas morfologicamente caracterizadas e adequadamente cultivadas, de preferência no interior de casa-de-vegetação.

Pré-tratamento das plantas

As plantas fornecedoras de explantes devem ser tratadas com o fungicida Benomil (1,0 g L-1) e o bactericida Agrimicina (2,4 g L-1), quinzenalmente, por pelo menos três vezes, para a minimização das contaminações.

Termoterapia

Trata-se de metodologia aconselhável, complementar à cultura de meristema, quando não se dispõem de plantas matrizes ou básicas da cultivar desejada, sendo realizada para eliminar viroses, viróides, micoplasmas e assemelhados. O tratamento térmico deve ser realizado cultivando as plantas doadoras de explantes em câmara incubadora à 38ºC, por um período de cinco semanas (Sobcykiewicz, 1979).

Época de coleta

As brotações devem ser coletadas nos períodos do ano em que ocorre maior desenvolvimento vegetativo da cultivar de amora-preta de interesse. A brotação nova e vigorosa proporciona menor risco de contaminação e maior resposta in vitro, em função do balanço hormonal dos tecidos ser favorável à multiplicação celular.

Tamanho e tipo de brotações

As porções terminais de brotações tenras devem ser coletadas com 5 cm de comprimento. Em seguida, devem ser acondicionadas em papel toalha umedecido ou em béquer contendo água destilada e esterilizada, sempre ao abrigo da luz. As cultivares devem ser adequadamente identificadas.

Desinfestação das brotações

Esta etapa deve ser realizada em laboratório. Inicialmente, as brotações devem ser lavadas em água corrente. Em seguida, devem ser desinfestadas, mergulhando-as completamente em soluções à base de álcool 70%, por 15 segundos, e de hipoclorito de sódio 1%, por 10 minutos. Finalmente, sob condições assépticas, no interior de câmara de fluxo laminar, deve-se proceder a lavagem das brotações com água destilada autoclavada, por três vezes, para a completa remoção dos resíduos de cloro.

Tipos de explantes

Em se tratando de material vegetal proveniente de plantas matrizes ou de plantas básicas, pode-se utilizar segmentos nodais e ápices caulinares como explantes (Fernadez & Clark, 1991). No caso de não haver disponibilidade desses materiais certificados, deve-se utilizar meristemas.

A extração dos explantes deve ser realizada com auxílio de pinça e bisturi, utilizando-se lupa estereoscópica no caso dos meristemas.

Tamanho dos explantes

Os meristemas extraídos devem apresentar um tamanho de 0,2 a 0,3 mm e os segmentos nodais e ápices caulinares de 3 a 5 mm. Explantes menores são muito difíceis de serem extraídos e apresentam baixa porcentagem de pegamento. Explantes maiores aumentam os riscos de contaminação por fungos e bactérias.

Estabelecimento in vitro

* Meio de cultura: macronutrientes, micronutrientes e vitaminas do meio MS (Murashige & Skoog, 1962) suplementado com 1 mg L-1 de BAP

(benzilaminopurina), 0,01 mg L-1 de ANA (ácido naftalenoacético), 0,1 mg L-1 de GA3 (ácido giberélico), 30 g L-1 de sacarose e 7 g L-1 de agar. O pH do meio de cultura deve ser ajustado para 5,8, antes da autoclavagem. A composição do meio MS é descrita na Tabela 1.

* Tipos de frasco: a introdução in vitro dos explantes deve ser feita em recipientes individuais, pois o risco de contaminação nessa fase é bastante alto. Recomenda-se utilizar tubos de ensaio de 15 mm de diâmetro por 150 mm de altura, contendo 6 mL de meio de cultura.

* Condições de autoclavagem: 121°C por 15 minutos.

* Condições de cultura: cultivo no escuro, nas primeiras 48 horas, para minimizar a oxidação dos explantes. Nos 28 dias restantes do subcultivo, recomenda-se utilizar intensidade luminosa de 20 mE m-2 s-1, temperatura de 25 ± 2oC e fotoperíodo de 16 horas.

Multiplicação in vitro

* Meio de cultura: macronutrientes, micronutrientes e vitaminas do meio MS suplementado com 0,8 mg L-1 de BAP, 30 g L-1 de sacarose e 7 g L-1 de agar. O pH do meio de cultura deve ser ajustado para 5,8, antes da autoclavagem.

* Tipos de frasco: vários tamanhos e formatos de frasco de vidro ou de plástico podem ser utilizados. Um dos tamanhos recomendados é o de 60 mm de diâmetro por 140 mm de altura. Deve-se buscar um equilíbrio em relação ao tamanho do frasco, sabendo-se que os frascos maiores comportam maior número de plântulas, sendo mais econômicos, porém apresentam maior risco de contaminação. A quantidade de meio de cultura por frasco varia em função de seu tamanho. No frasco recomendado, deve-se utilizar 40 mL de meio de cultura.

* Condições de autoclavagem: 121°C por 15 minutos.

* Condições de cultura: cultivo sob intensidade luminosa de 20 mE m-2 s-1, temperatura de 25 ± 2oC e fotoperíodo de 16 horas.

* Tipo e tamanho dos explantes: a repicagem deve proporcionar explantes com tamanho de 4 a 6 mm, contendo de 2 a 3 gemas.

* Número de subcultivos: na literatura ainda não existem dados sobre variantes somaclonais resultantes da cultura de tecidos de amora-preta, provavelmente pelo assunto ainda não ter sido extensivamente estudado. Com base na experiência de outras culturas (Oliveira & Silva, 1997), recomenda-se que sejam utilizados no máximo seis subcultivos de 40 dias do explante originalmente introduzido in vitro.

* Sistemas alternativos: com a finalidade de reduzir custos durante a fase de cultivo in vitro, alguns autores recomendam o uso parcial ou total de iluminação natural na sala de cultivo (Kodym & Zapata-Arias, 1999), a substituição da sacarose por açúcar cristal e do agar por amido de batata ou de milho (Kodym & Zapata-Arias, 2001).

Enraizamento in vitro

* Meio de cultura: metade da concentração dos macro e micronutrientes do MS, vitaminas do MS, 0,5 mg L-1 de ANA, 30 g L-1 de sacarose e 7 g L-1 de agar, sendo o pH do meio de cultura ajustado para 5,8, antes da autoclavagem.

* Tipos de frasco, condições de autoclavagem e de cultura: idem ao item multiplicação in vitro.

* Tipo e tamanho dos explantes: a repicagem deve ser conduzida de forma a proporcionar a individualização das plântulas, que serão dispostas no meio de cultura para alongarem e emitirem raízes.

* Qualidade esperada: plântulas adequadamente alongadas e enraizadas com altura maior do que 30 mm, raízes curtas e abundantes.

Transplantio em casa-de-vegetação

Terminada a fase de enraizamento in vitro, as plântulas devem ser removidas dos frascos, lavadas e, cuidadosamente, separadas umas das outras. Em seguida, devem ser classificadas por tamanho e transplantadas em recipientes contendo substrato com características químicas e físicas favoráveis ao desenvolvimento das plantas. Bandejas plásticas ou de isopor, ou ainda saquinhos de polietileno de diferentes tamanhos podem ser utilizados como recipientes. O substrato deve ser isento de patógenos e de propágulos de plantas daninhas, podendo ser adquirido de empresas especializadas ou produzido no próprio viveiro, a partir de casca de arroz carbonizada, casca de pinos, serragem, vermiculita, perlita, turfa, dentre outros materiais.

As mudas em formação devem ser dispostas sobre bancadas de, no mínimo, 30 cm de altura em relação ao solo, sendo mantidas no interior de ambiente protegido. Recomenda-se que este seja coberto com filme de polietileno transparente ou outro material, para evitar a entrada de água das chuvas, e possua lateral revestida com tela anti-afídica, para impedir a entrada de vetores de doenças.

Aclimatização

A passagem das plantas do ambiente in vitro, que apresenta alta umidade relativa do ar, completa assepsia e iluminação, temperatura e fotoperíodo controlados, para o ex vitro deve ser gradual. Isto é conseguido por meio da disposição das plantas sob túnel plástico, com luminosidade, temperatura (20-28oC) e irrigação controladas, simulando a condição do laboratório. Em seguida, deve-se proceder a remoção gradual do plástico, de forma a permitir que as plantas passem do estado heterotrófico, no qual dependiam de um suprimento externo de energia, no caso a sacarose, para o estado autotrófico, em que se faz necessária a realização de fotossíntese para sobreviver (Grattapaglia & Machado, 1990).

As plântulas de amora-preta são de fácil aclimatização quando comparadas às de outras fruteiras. Por isso, deve-se obter uma porcentagem de pegamento maior do que 90% com a metodologia descrita.

Formação das mudas

* Nutrição: durante e após a fase de aclimatização, as mudas devem ser irrigadas, semanalmente, com solução nutritiva composta por nitrogênio, fósforo e potássio (Fórmula 10:10:10).

* Irrigação: deve ser realizada diariamente em função da necessidade das plantas.

* Controle de pragas: deve ser preventivo, por meio do uso de fungicidas, inseticidas e acaricidas.

* Monitoramento de plantas atípicas: milhares de mudas foram produzidas utilizando o presente protocolo na Embrapa Clima Temperado, não sendo observadas plantas com características morfológicas que não fossem próprias das cultivares. Evidentemente, a ausência de plantas atípicas deve ser confirmada à campo, principalmente após a frutificação, pois as mutações mais freqüentes em fruteiras ocorrem no porte das plantas e nas características dos frutos (Israeli et al., 1991). O fato do sistema de propagação proposto não passar pela fase de calo, utilizar baixas doses de reguladores de crescimento e um número reduzido de subcultivos contribui para a minimização do surgimento de variantes somaclonais (Swartz et al., 1981; Oliveira et al., 2000).

Padrão de comercialização

Em média, nas condições citadas, as mudas estão aptas ao transplantio no campo ou em recipientes maiores a partir de 60 a 90 dias do início da aclimatização, quando apresentam uma altura superior a 10 cm e pelo menos quatro folhas maduras.

Obrigatoriamente, as mudas certificadas de amora-preta devem apresentar tolerância zero para mistura varietal, plantas atípicas e presença de viroses e assemelhados, Agrobacterium spp., Phytophthora spp. e nematóides (Eppo, 2004).

Eficiência do sistema

Nas condições propostas e utilizando a metodologia descrita, pode-se obter um rendimento de 400 a 1.200 mudas por explante inicial, em um ciclo de produção de aproximadamente 12 meses.

Análise de viabilidade econômica

As cultivares de amora-preta recomendadas pela Embrapa Clima Temperado são bastante responsivas in vitro, apresentando taxas de multiplicação superiores às de outras fruteiras, tais como as de banana e de abacaxi, para as quais já existem empresas de produção de mudas micropropagadas estabelecidas no mercado.

Basicamente, para produzir mudas por meio de cultura in vitro de tecidos são necessários: infra-estrutura física para o laboratório e de casas-de-vegetação, equipamentos, vidraria, reagentes e mão-de-obra treinada (Oliveira, 1998). Segundo este autor, a mão-de-obra representa de 40% a 70% do custo de produção.

O custo de produção das mudas micropropagadas é variável em função da escala de produção, do nível tecnológico empregado, da remuneração local paga à mão-de-obra, da distância do laboratório dos centros fornecedores de insumos e equipamentos, da qualidade das estruturas do laboratório e da casa-de-vegetação e das estratégias utilizadas para a minimização de despesas, tais como iluminação natural, açúcar cristal ao invés de sacarose, amido de batata ou de milho ao invés de agar, dentre outras. A instalação do laboratório na zona rural também contribui para a redução do custo de produção, pois a energia elétrica é subsidiada e a mão-de-obra normalmente menos onerosa.

Como vários fatores estão envolvidos, o custo da muda apresenta uma grande variação. Em termos médios, considerando-se um laboratório com capacidade de produção de 100 mil mudas de amora-preta por ano, nas condições do Estado do Rio Grande do Sul, pode-se estimar o custo da muda em aproximadamente R$ 0,80.

Atualmente, as mudas de amora-preta estão sendo vendidas a R$ 1,20 cada uma, havendo muita procura em função da potencialidade da cultura e do fato dos produtores estarem buscando as novas cultivares desenvolvidas pela Embrapa Clima Temperado. Desta forma, a atividade apresenta-se como uma oportunidade atraente de investimento. Nesse aspecto, recomenda-se que o viveirista também utilize a estrutura do laboratório para a produção de mudas e matrizes de outras fruteiras, como morango, batata, banana, abacaxi, dentre outras, visando maximizar o uso dos meios de produção e aumentar a competitividade.

 

Todos os direitos reservados, conforme Lei n° 9.610.