Embrapa Clima Temperado
Sistemas de Produção, 12
ISSN 1806-9207 - Versão Eletrônica
Setembro/2008
Sistema de Produção da amoreira-preta
Dori Edson Nava
Marcos Botton
Cristiane Muller
Eduardo Pagot
Mirtes Mello
Sumário

Importância
Introdução
Condições climáticas
Classificação botânica, origem e cultivares
Nutrição e adubação
Produção de mudas
Plantio e tratos culturais
Irrigação e cultivo protegido
Doenças fúngicas
Insetos pragas e seu controle
Nematóides fitoparasitas
Manejo e conservação pós-colheita
Caracteristicas funcionais
Custos e coeficientes técnicos de produção
Referências
Glossário
Expediente
 
Insetos pragas e seu controle

Dentre os fatores que comprometem a produção de amora-preta na região Sul do Brasil destacam-se os insetos-praga. No entanto, a implementação do Manejo Integrado de Pragas nesta cultura ainda não é possível devido a carência de trabalhos com informações sobre a entomofauna dos pomares, tanto sobre insetos-praga quanto inimigos naturais; informações sobre bioecologia; estabelecimento de formas de monitoramento e níveis de controle, estudos sobre manejo e métodos de controle.
Desta forma, as alternativas disponíveis aos produtores e técnicos para o manejo de pragas tornam-se restritas e baseadas no conhecimento prático, com poucas informações geradas pela pesquisa. No caso do controle químico, embora em outros países existam vários iseticidas autorizados, no Brasil todo uso é ilegal.
Neste capítulo, constam informações sobre as principais pragas da amoreira-preta, visando auxiliar os técnicos e produtores na identificação das espécies e no estabelecimento de estratégias de manejo.

Broca-da-amora - Eulechriops rubi Hespenheide, 2005 (Coleoptera: Curculionidae).

Descrito recentemente, este curculionídeo é conhecido pelos produtores como broca-da-amoreira. Seu surgimento como praga da cultura se deve provavelmente à implantação de pomares em novas áreas, usadas anteriormente com campo nativo. É considerada a principal praga da cultura na região dos Campos de Cima da Serra, comprometendo significativamente a produção.
Descrição: Os adultos medem cerca de 3mm de comprimento e possuem coloração preta com manchas brancas e marrons. A larva do tipo curculioniforme possui coloração esbranquiçada e cabeça distinta do corpo, com coloração geralmente marron (Figura 1).

Crédito: Cristiane Muller Ana Paula Cristiane Muller
Figura 1: Estágios do ciclo biológico de Eulechriops rubi. (A) Larva; (B) Pupa; (C) Adulto.

Bioecologia: No campo, os adultos podem ser visualizados principalmente na face abaxial das folhas da amoreira, onde se alimentam deixando pontos que necrosam e formam numerosos orifícios circulares (Figura 2).

Crédito: Cristiane Muller
Figura 2: Danos causados pelos adultos de Eulechriops rubi. (A) Adultos alimentando-se. (B) Folha onde podem ser visualizados orifícios deixados pela alimentação dos adultos.

A reprodução é sexuada dos insetos, e não apresentam horário específico para acasalamento. Após a cópula a fêmea deposita os ovos nos tecidos das plantas (postura endofítica) de forma individualizada, em locais tenros como inserção de folíolos e brotações novas. Neste local, a larva eclode e inicia sua alimentação, causando o amarelecimento das folhas. Este sintoma pode ser facilmente confundido com a senescência natural das folhas (Figura 3).

Crédito: Cristiane Muller
Figura 3: Folíolos amarelados (sintoma inicial de ataque de Eulechriops rubi..

Ao se alimentar, a larva se dirije em direção a haste principal onde permanece até a emergência do adulto, que abre um orifício circular no lenho possibilitando sua saída e completando o ciclo biológico.
A presença dos adultos no campo começa a ser observada nas plantas na fase de floração (outubro), estendendo-se até março. Durante o inverno, as larvas se refugiam no interior dos ramos do ano, que serão responsáveis pela produção na próxima safra, em restos culturais deixados no pomar. Este fato dificulta o manejo da praga e permite ao inseto sobreviver durante o inverno.
Dano: A formação das galerías nos ramos destrói os tecidos internos da planta, dificultando a translocação de seiva. As plantas crescem com menos vigor e os ramos começam a secar, culminando com a morte da planta (Figura 4). É na fase de larva que a praga causa o maior dano à planta, pela abertura de galerias que percorrem o interior da haste em sentido descendente (Figura 5). As galerias são resultante da alimentação e deslocamento das larvas. Não foi observado ataque do inseto nas raízes.

Crédito: Cristiane Muller
Figura 4: Ramos secos devido ao ataque de Eulechriops rubi.

Crédito: Cristiane Muller
Figura 5: Galerias provocadas por larvas de Eulechriops rubi, nas hastes.

Monitoramento e manejo: O monitoramento da praga no pomar deve ser realizado através da observação da presença de galerias nas hastes, ou de adultos na face abaxial de folhas jovens. Não há nível de controle estabelecido para a praga. Porém devido ao potencial de dano, recomenda-se o manejo quando o inseto for observado nos pomares.
Uma das principais medidas indicada para o controle é a realização da poda pós-colheita, retirada dos ramos do local e posterior queima deste material, com a finalidade de reduzir a população da praga. Outro fator importante para diminuir o dano é a realização de adubação adequada, aumentando o vigor das plantas.
Os inseticidas químicos malationa, fenitrotiona, clorpirifós e deltametrina tiveram seu efeito avaliado em laboratório, através de pulverização sobre adultos, proporcionando um controle acima de 90%. No entanto, quando aplicados em pomares comerciais, devido à dificuldade para atingir os insetos adultos, que se abrigam sob as folhas e às larvas, protegidas dentro das hastes, o emprego dos inseticidas não foi eficaz.
Uma medida importante na implementação dos pomares é a utilização de mudas procedentes de viveiros que utilizem materiais vegetativos de pomares sem a presença da praga.
Em casos de alta infestação, uma medida drástica que pode ser adotada é a colheita antecipada e roçada total da área, com eliminação do material cortado. Desta forma, ocorre uma redução da fonte de inócuo e a planta neste mesmo ano emitirá novos ramos para a produção do ano seguinte com menor infestação.

Mosca-das-frutas sul-americana - Anastrepha fraterculus (Wiedemann, 1830) (Diptera: Tephritidae)

As variedades de amoreira-preta cultivadas atualmente são resultado de um processo de melhoramento vegetal, e os frutos quando maduros, apresentam características como alto teor de açúcar, baixa acidez e elevada presença de aroma. Desta forma, os frutos maduros tornam-se atrativos à mosca-das-frutas, sendo Anastrepha fraterculus a espécie mais comum associada à amoreira-preta. O ataque desta praga tem aumentado nos últimos anos causando grandes perdas na produção.

Descrição: Os adultos são vistosos medindo cerca de 8 mm de comprimento, coloração amarelada e asas maculadas (Figura 6). Os ovos são postos no interior dos frutos, são fusiformes, levemente curvados e de coloração branca. Geralmente são postos de 1 a 3 ovos por cavidade. As larvas são do tipo vermiforme, ou seja, ápodas, com coloração branco-amarelada. As pupas desenvolvem-se no solo.

Crédito: Dori Nava
Figura 6: Adulto de Anastrepha fraterculus.

Dano: O principal dano causado é devido à oviposição realizada nos frutos. Neste local, ocorre extravasamento do líquido, escurecimento e apodrecimento, o que inviabiliza o consumo.
Além disso, quando a amora-preta é colhida contendo larvas de mosca, estas tendem a deslocar-se para a superfície no fruto em baixas temperaturas (câmaras-frias de transporte, por exemplo). A presença das larvas pode comprometer não só o produto onde estão presentes, mas também toda a carga, principalmente quando destinado ao mercado internacional.
Monitoramento e manejo: O monitoramento pode ser realizado por meio de armadilhas bola contendo suco de uva ou proteína hidrolisada (5%) como atrativo (Figura 7). Caso não haja disponibilidade de tais armadilhas, estas podem ser confeccionadas pelo produtor com garrafas PET perfuradas.

Crédito: Cristiane Muller
Figura 7: Armadilha bola para captura de mosca-das-frutas.

Ao se constatar a presença de mosca-das-frutas nas armadilhas, uma das medidas de controle é a utilização de isca tóxica na vegetação que circunda os pomares. A isca deve ser preparada com proteína hidrolisada a 5% associada a um inseticida fosforado. A isca é aplicada com gotas grossas, principalmente nos troncos das árvores e vegetação que circunda o pomar.
A principal medida para o manejo da mosca nos pomares é a prevenção, ou seja, a realização da colheita dos frutos na idade fisiológica recomendada e nas primeiras horas do dia, considerando que o ataque se dá em frutos muito maduros presentes no poma.
Em anos chuvosos a atenção deve ser maior, pois os frutos tornam-se mais sensíveis ao rompimento, devido à maior umidade, o que aumenta a atratividade para as moscas. Além disso, o mau tempo pode dificultar a colheita e aumentar o número de frutos muito maduros no pomar.
Outra medida indicada é aplicação de cálcio com o objetivo de tornar a epiderme do fruto mais resistente, diminuindo assim a ocorrência do extravasamento natural da polpa devido ao excesso de líquido presente no fruto.

Besouros desfolhadores

Neste grupo de insetos destacam-se Maecolaspis spp. (Coleoptera: Chrysomelidae) e Diabrotica speciosa (Germar, 1824) (Coleoptera: Chrysomelidae).
Descrição: D. speciosa é um pequeno coleóptero de coloração verde, com três manchas amarelas em cada élitro, o que lhe confere o nome vulgar pelo qual também é conhecida, “brasileirinho”. Possui em média 5-6mm de comprimento e cabeça de cor castanha (Figura 8). A fêmea põe cerca de 420 ovos que se desenvolvem em 6 a 8 dias. As larvas possuem corpo vermiforme (fino e alongado) com cabeça e escudo anal marrons. Atingem até 12mm de comprimento quando completamente desenvolvidas e passam por três ínstares (Figura 9).

Crédito: Dori Nava
Figura 8: Adulto de Diabrotica speciosa.


Crédito: Dori Nava
Figura 9: Larva de Diabrotica speciosa.

O gênero Maecolaspis compreende várias espécies, sendo que as mais comuns associadas à cultura da amoreira-preta são Maecolaspis trivialis (Boheman, 1858) e Maecolaspis aenea (Fabricius, 1801). Os adultos são pequenos besouros de aproximadamente 7-8 mm de comprimento, com coloração verde-metálica brilhante nos élitros e azul escuro brilhante no protórax.

Bioecologia: A fêmea de D. speciosa realiza postura no solo em fendas ou junto às raízes. Cerca de 13 dias após a postura eclodem as larvas, que também se desenvolvem no solo.

Dano: Tanto D. speciosa quanto Maecolaspis são insetos polífagos de importância econômica em várias culturas. Na amoreira, o dano é causado pelos adultos que ao se alimentarem das folhas (Figura 10) causam destruição do limbo foliar e, conseqüentemente, redução da área fotossintética da planta. Mesmo sendo característica da planta o alto vigor, em ataque intenso tais insetos podem causar prejuízos consideráveis. Não há registro das larvas atacando as raízes da planta, como ocorre em outras culturas.

Crédito: Cristiane Muller
Figura 10: Dano provocado por desfolhadores em folhas de amoreira-preta.

Monitoramento e Manejo: Para o monitoramento e manejo de D. speciosa podem ser utilizadas armadilhas contendo o atrativo cucurbitacina. As armadilhas podem ser confeccionadas com garrafa plástica (PET) transparente, descartável, fazendo perfurações de 0,5 cm de diâmetro em toda garrafa, com distância de 2 cm entre furos, preservando apenas a parte do fundo da garrafa com 5 cm de altura. Coloca-se no fundo da garrafa água com detergente, para a captura dos insetos que entrarem na armadilha. O atrativo pode ser adquirido em saches e pendurado no lado de fora da armadilha (Figura 11).

Crédito: Maurício Ventura
Figura 11: Desenho esquemático de armadilha para captura de Diabrotica speciosa.

Formigas Cortadeiras

As formigas cortadeiras, tanto as saúvas (Atta spp.) quanto as quenquéns (Acromyrmex spp.), são pragas importantes para a cultura na fase de implantação do pomar. Neste período, quando as mudas são transplantadas e o solo permanece descoberto devido ao preparo, em poucas horas o ataque das formigas pode consumir completamente a reduzida área foliar das plantas.

Bioecologia: São insetos sociais, que vivem em formigueiros subterrâneos constituídos de câmaras e galerias. Cortam as partes verdes das plantas e as transportam até o interior dos ninhos, onde as utilizam como substrato para o desenvolvimento de determinados fungos, utilizados para a alimentação da colônia.

Monitoramento e manejo: algumas espécies de quenquéns têm o hábito de forragear à noite, não deixando trilha que leve até os ninhos como fazem as saúvas. Estas formigas são mais facilmente controladas quando se localiza o ninho, porém, muitas vezes, como os mesmos não estão acompanhados dos montículos de terra, torna-se difícil a aplicação de formicidas de forma localizada. Desta forma, o monitoramento deve ser realizado através de observações diárias do produtor, verificando a presença de formigas, trilhas, plantas danificadas ou formigueiros.
Dentre os principais métodos de controle de formigas, destacam-se as iscas formicidas e o emprego de inseticidas em pó. As iscas formicidas (Tabela 1) devem ser utilizadas diretamente da embalagem, distribuindo os grânulos ao lado dos carreiros, próximo aos olheiros. A aplicação deve ser realizada com tempo seco para evitar que ocorra degradação dos grânulos devido à umidade. As iscas não devem ser armazenadas com outros produtos químicos nem tocadas diretamente com as mãos, sob o risco de perda de atratividade (formiga não carrega). Os inseticidas em pó (Tabela 1) devem ser aplicados diretamente nos ninhos, através de insufladores.
Passado este período inicial, quando a cobertura vegetal já está estabelecida e as plantas adquirem porte maior, não é mais observado o ataque de formigas aos pomares de amora.


Tabela 1: Inseticidas empregados no controle de formigas cortadeiras.

Ingrediente Ativo

Nome Comercial

Dose

Formulação

Sulfluramida

 Mirex S

S=8-10g/m2 formigueiro

Isca

QQ=10-12g/formigueiro

 Fluramim

S=6-10g/m2 formigueiro

Isca

QQ=10-30g/formigueiro

 Formicida Gran.Dinagro-S

S=6-10g/m2 formigueiro

Isca

 Formicida Gran.Pikapau-S

S=6-10g/m2 formigueiro

Isca

 Isca Formicida Atta Mex-S

S=6-10g/m2 formigueiro

Isca

 Isca Tamanduá Bandeira-S

S=6-10g/m2 formigueiro

Isca

Fipronil

 Blitz

S=10g/m2; QQ=5g/form.

Isca

Clorpirifós

 Isca Formicida Landrin

QQ=8-10g/formigueiro

Isca

 Isca Formicida Pyrineus

S=5-10g/m2 formigueiro

Isca

 Isca Formifos

S=10g/m2 formigueiro

Isca

Deltametrina

 K-Othrine 2 P

S e QQ=10g/m2 formigueiro

S = Saúva
QQ = Quem Quem

Ácaros

Os ácaros fitófagos são pragas importantes de várias culturas. Nas pequenas frutas, destacam-se o ácaro-branco [Polyphagotarsonemus latus (Banks, 1904)] (Figura 12) e o ácaro-rajado [Tetranychus urticae (Koch, 1836)] (Figura 13). Embora não existam relatos de ataque intenso de ácaros por parte dos produtores da região, levantamentos sistemáticos em pomares de amora-preta no município de Ilópolis, RS, comprovaram a presença de ácaros fitófagos em maior proporção em relação aos predadores.

Descrição: As fêmeas do ácaro-branco são brancas ou amareladas, não tecem teia e apresentam 4 pares de pernas, sendo o quarto par atrofiado. Medem cerca de 0,2 mm de comprimento. Os machos são menores e o quarto par de pernas termina em uma clava, servindo para auxiliá-los a carregar as pupas de fêmeas. Os ovos medem cerca de 0,1 mm de comprimento, são esbranquiçados, com manchas brancas e pegajosos. Dos ovos eclodem as larvas, com três pares de pernas e de coloração branco-leitosa. No final da fase, as larvas permanecem em repouso, estágio de pupa.
O ácaro rajado produz teia aonde realiza a postura entre os fios na página inferior das folhas. Os ovos são esféricos e de tonalidade amarelada. As fêmeas possuem duas manchas verde-escuras no dorso, uma de cada lado. Existe um acentuado dimorfismo sexual, sendo as fêmeas ovaladas e os machos com a extremidade posterior do abdome mais estreita.

Crédito: Heraldo Negri de Oliveira
Figura 12: Adulto de Polyphagotarsonemus latus.


Crédito: Heraldo Negri de Oliveira
Figura 13: Adulto do Tetranychus urticae.

Bioecologia: O ciclo biológico (ovo-adulto) do ácaro branco varia de 4 a 7 dias e o seu desenvolvimento é favorecido nos períodos mais quentes e úmidos do ano. Para o ácaro rajado, o ciclo biológico dura em média 20 dias e prefere períodos mais secos. Devido ao seu hábito característico, há o aparecimento de manchas avermelhadas nos locais opostos aos das colônias, que vivem na página inferior das folhas.

Controle: Embora não haja muitos problemas com altas populações de ácaros fitófagos, é importante atentar para a preservação das populações de ácaros predadores presentes nos pomares, de forma a garantir o equilíbrio, evitando que ácaros fitófagos atinjam níveis que causem prejuízos à cultura. Este equilíbrio pode ser facilmente comprometido por aplicações excessivas de inseticidas e fungicidas prejudiciais às espécies predadoras. Caso a população aumente e cause dano econômico, recomenda-se a aplicação de acaricidas específicos (registrados).
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