Embrapa Clima Temperado
Sistemas de Produção, 3
ISSN 1806-9207 Versão Eletrônica
Nov./2005

Cultivo do Arroz Irrigado no Brasil

Autores

Sumário
Início
 
Importância Econômica,
Agrícola e Alimentar do Arroz
Condições Climáticas Para o
Cultivo do Arroz no Brasil
Solos Cultivados com Arroz
Irrigado na Região Subtropical
do Rio Grande do Sul
Manejo da Adubação Mineral e da Calagem para a Cultura do Arroz Irrigado
Cultivares de Arroz Irrigado para
o Brasil
Produção de Sementes de Arroz
Sistemas de Cultivo - Plantio Direto e Cultivo Mínimo en Arroz Irrigado
Sistemas de Cultivo - Convencional
Sistemas de Cultivo - Pré-germinado Transplante de Mudas em Arroz Irrigado
Manejo da Água em Arroz Irrigado
Plantas Daninhas em Arroz Irrigado
Doenças do Arroz Irrigado e seus Métodos de Controle
Pragas do Arroz Irrigado
Uso de Agrotóxicos
Colheita do Arroz Irrigado
Pós-Colheita e Industrialização
de Arroz
Cultivo da Soca de Arroz Irrigado
Consumo, Mercado e Comercialização do Arroz no Brasil
Coeficientes Técnicos do Arroz Irrigado no Rs
Referências
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Expediente
Manejo da Água em Arroz Irrigado

O cultivo do arroz irrigado, por submersão do solo, necessita em torno de 2000 L (2 m3) de água para produzir 1 kg de grãos com casca, estando entre as culturas mais exigentes em termos de recursos hídricos. Embora esta alta exigência, a manutenção de uma lâmina de água sobre a superfície do solo traz uma série de vantagens para as plantas de arroz.

O manejo de água na cultura do arroz irrigado compreende um conjunto de procedimentos, todos considerados importantes, seja do ponto de vista econômico, ou do crescimento e desenvolvimento das plantas. A captação e distribuição, a necessidade de água para irrigação, o período de submersão do solo, a altura da lâmina de água e a drenagem do solo, são aspectos importantes a serem considerados

Elevação e condução da água em lavouras de arroz irrigado

A água necessária para a cultura do arroz irrigado deve ser captada das fontes (rios, lagoas, barragens, etc.) de suprimento e conduzida até as fontes consumidoras (lavouras). Estes procedimentos assumem um papel importante, tanto para a garantia da produtividade, por meio de um correto manejo da água, quanto para a composição dos custos de produção.

A diferença de nível entre as duas fontes, em algumas condições especiais, permite a distribuição da água por gravidade. Todavia, a situação mais comum caracteriza-se por ser o nível da água inferior à cota da localização da lavoura. Neste caso, a água a ser distribuída deve antes ser elevada por meio mecânico (bombeamento).

Rede de condução da água

O canal principal de irrigação deve ser localizado na parte mais alta do terreno, não havendo a obrigatoriedade de ser retilíneo, nem de seguir as cotas mais elevadas em sua totalidade. O traçado deve buscar sempre o menor volume de aterro e ter uma forma trapezoidal para que não haja queda das paredes laterais.

A velocidade média da água no interior do canal varia, em função da natureza das paredes, de < 0,25 m s-1 para solos soltos a <1,00 m s-1 para solos compactados. A declividade para canais grandes, com vazão superior a 10.000 L s-1, pode variar entre 0,01 a 0,03 m 100 m-1, enquanto que para canais pequenos, com vazão menor que 100 L s-1, pode variar de 0,1 m a 0,4 m 100 m-1.

Os canais secundários de irrigação, para que ocorra um adequado manejo de água, devem ser demarcados, quando possível, a cada 400 ou 500 m de distância, com uma faixa de abrangência de 200 a 250 m para cada lado, intercalados por uma estrada, com seus respectivos drenos.

Controle da água nas lavouras de arroz

AA maior eficiência do controle da água, nas lavouras de arroz irrigado, está associada à forma de adequação da superfície do solo. No Sul do Brasil, o arroz irrigado vem sendo cultivado em condições de terreno sistematizado e aplainado. Na primeira condição, a área de cada quadro pode variar entre 1 a 2 ha, ou pode atingir até 40 ha, na condição de solo aplainado. Os quadros devem ser isoladas por taipas (marachas), na maioria das vezes paralelos entre si, com dimensões que variam na base de 1,0 a 1,5 m e na altura, de 0,3 a 0,6 m, apresentando condições de serem irrigados e drenados independente, com sistema próprio de acesso.

A construção das taipas (marachas), em curvas de nível, no sistema convencional de cultivo do arroz, ocorre, anualmente, logo após a semeadura. O desnível vertical, entre uma taipa e outra, pode variar de 0,05 a 0,15 m, dependendo do menor ou maior desnível do terreno. Intervalos menores podem ser utilizados em solos com superfícies mais planas, visando reduzir o tamanho dos quadros. Em casos especiais, os intervalos verticais podem ser maiores que 0,15 m, de forma que seja mantida condição necessária para que as máquinas e implementos sejam operacionalizadas.

A sistematização da superfície do solo, mais utilizada nos sistemas pré-germinado e transplante de mudas, possibilita um manejo mais eficiente de água na lavoura, dispensando a construção de taipas internas aos quadros, enquanto que no aplainamento, mais utilizado no sistema convencional, embora o controle não seja tão eficiente, verifica-se menor mobilização de solo, menor custo de implantação e, quando bem executado, pode proporcionar melhores condições de drenagem.

Quando a semeadura é realizada após a construção das taipas e sobre estas (plantio direto), elas devem apresentar um perfil mais suave, de forma a facilitar a passagem de máquinas, como a própria semeadora. Neste caso, a base da taipa deve ser um pouco mais larga, em torno de 2,80 m, e a altura em torno de 0, 3 m.


Necessidade de água para o arroz irrigado

OO volume de água requerido pelo arroz irrigado representa o somatório de água necessária para atender às demandas decorrentes da saturação do solo, formação da lâmina de água, evapotranspiração (ET) e repor as perdas por infiltração lateral e por percolação. No RS, tradicionalmente, a necessidade máxima estimada pelos orizicultores, corresponde a 2 L s-1 ha-1 (17,3 mm dia-1). Todavia, informações mais recentes indicam que esta necessidade pode ser inferior, variando em torno de 1 L s-1 ha-1, no sistema convencional, a 0, 72 L s-1 ha-1, no sistema pré-germinado.

As perdas de água por evapotranspiração que ocorrem nos canais de irrigação, consideradas significativas, principalmente em regiões onde os canais de irrigação apresentam grande extensão, como no sul do RS, podem ser minimizadas através da limpeza dos canais.

A água perdida por infiltrações laterais é aquela que flui sobre a superfície do solo, ou através de canais e rios, enquanto que o fluxo de percolação move-se usualmente para o lençol freático. Em função de ocorrerem simultaneamente, tais perdas são consideradas de forma conjunta e podem atingir valores entre 2 a 6 mm dia-1, sendo que, em condições desfavoráveis, tais valores podem chegar a 20 mm dia-1.

Eficiência do uso da água

A eficiência do uso da água no sistema de irrigação por submersão do solo depende das características físicas e topográficas, de um adequado planejamento no que diz respeito à locação, construção de drenos e canais de irrigação e de cuidados operacionais. Pode atingir valores da ordem de 50 a 60%.

No RS, considerando que a ET média da lavoura de arroz irrigado anda em torno de 7,2 mm dia-1 e que o consumo de água, historicamente estimado, corresponde, em média, 2,0 L s-1 ha-1 (17,3 mm dia-1), a EI corresponderia a apenas 42%. Em SC, onde predomina o sistema pré-germinado, a EI tem sido comprovadamente maior.

Qualidade da água de irrigação

A importância da qualidade da água para irrigação do arroz está mais diretamente relacionada à salinidade e à toxicidade. A salinidade é avaliada pela condutividade elétrica (CE), em função do que, a água é classificada em: sem restrição ao uso - CE < 0,7 ds m-1 , com restrição ligeira ou moderada - CE variando de 0,7 - 3,0 ds m-1 e com restrição severa - CE >3,0 ds m-1.

A toxicidade decorre da absorção pela planta de certos íons, como o cloro (Cl), o boro (B) e carbonatos. A severidade dos danos depende da concentração, da sensibilidade e da fase de desenvolvimento da cultura. Águas com teores de Cl, e de carbonatos acima de 10 e 8,5 meq L-1, respectivamente, apresentam sérias restrições ao uso para irrigação do arroz. Enquanto para o B estes valores se situam a cima de 2 mg L-1. Águas com teores de NaCl igual ou superiores a 0,25% (2500 ppm), aplicadas a partir do início da fase reprodutiva, podem provocar reduções de produtividade superior a 50%.

Início e término da irrigação e altura da lâmina de água

O início da submersão do solo pode ocorrer até 30 dias após a emergência das plântulas. Este adiamento no início da inundação do solo deve estar associado a um controle eficiente das plantas daninhas, o que normalmente se verifica, por períodos mais longos, quando são utilizados, na lavoura, herbicidas com ação residual mais prolongada.
A supressão do fornecimento de água pode ser realizada a partir de uma semana até 10 dias após a floração (50%), e a drenagem uma semana mais tarde (duas semanas após a floração). Este procedimento pode concorrer para reduzir problemas relacionados a retirada da produção da lavoura e à degradação do solo.

No sistema pré-germinado a submersão do solo, inicia-se antes da semeadura, em uma área previamente sistematizada e preparada, o que pode ser feito na presença de água ou em condições de solo seco. No renivelamento e alisamento final alaga-se o quadro utilizando-se a água como referência para as operações. Posteriormente, a lâmina de água é elevada até atingir, no máximo, 10 cm de altura, realizando-se, após 20 a 30 dias a semeadura com as sementes pré-germinadas.

Após a semeadura, a lâmina de água deverá ser retirada em 01 a 03 dias, deixando-se o solo em estado de saturação permanente (solo encharcado) durante 03 a 06 dias. A drenagem mais intensa do solo favorece a germinação e o desenvolvimento de plantas daninhas e, ao mesmo tempo, ocasiona perdas de N por desnitrificação. A reposição da água ocorre em função do desenvolvimento das plantas de arroz.

A altura da lâmina de água deve variar entre 7,5 e 10 cm. Lâminas da água mais altas (>10 cm), aumentam o consumo de água, reduzem o número de perfilhos, as plantas de arroz se tornam mais altas, o que facilita o acamamento, aumentam as perdas de água por percolação e infiltração lateral e requerem maior consuma de água (> 10 mil m3 ha-1, para um período de 90 dias de irrigação).

Na fase reprodutiva das plantas de arroz, independentemente de sistema de cultivo, a altura da lâmina de água pode ser elevada até 15 cm, por um período de 15 a 20 dias, em regiões onde possam ocorrer temperaturas abaixo de 15°C, agindo a água como um termorregulador.

Drenagem da lavoura

A rede que viabiliza a retirada da água da lavoura é tão importante como a rede de distribuição. Deve ser estabelecida quando da realização da rede de irrigação, ou logo após. O canal principal de drenagem deve passar pela parte mais baixa do terreno e seguir as mesmas recomendações para o canal principal de irrigação, visando, entretanto, ao menor volume de escavação.

Os canais secundários e terciários de drenagem devem ser localizados nos pontos médios, entre os canais secundários de irrigação, com semelhante espaçamento. Durante o inverno a rede de drenagem deve permanecer ativa, o que concorrerá para reduzir problemas de toxicidade por ferro no arroz, além de permitir a emergência de plantas daninhas e controlar pragas do solo.

 

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