Embrapa Arroz e Feijão
Sistemas de Produção, No. 7
ISSN 1679-8869 Versão eletrônica
Setembro/2006
Cultivo do Arroz de Terras Altas no Estado de Mato Grosso

Valácia Lemes de Silva Lobo
Marta Cristina de Filippi
Anne Sitarama Prabhu

Importância econômica
Clima
Solos
Preparo do solo e semeadura
Correção da acidez e fertilização do solo
Cultivares
Produção de sementes
Irrigação
Manejo de plantas daninhas
Doenças e métodos de controle
Pragas e métodos de controle
Normas gerais sobre o uso de agrotóxicos
Colheita
Pós-colheita
Mercado e comercialização
Coeficientes técnicos, custos de produção e rendimentos
Referências
Glossário
Autores

Expediente

 

Doenças e Método de Controle

O arroz, durante todo o seu ciclo, é afetado por doenças que reduzem a produtividade e a qualidade dos grãos. A intensidade das doenças depende da ocorrência do patógeno virulento, do ambiente favorável e da suscetibilidade da cultivar. O controle das doenças do arroz visa minimizar os prejuízos na produtividade, com a redução da taxa de infecção a níveis toleráveis. No arroz de terras altas, as medidas de controle integrado aumentam a produtividade levando em conta os custos de produção e a redução dos impactos ambientais das medidas adotadas.
As principais doenças de arroz de terras altas no Estado de Mato Grosso, que causam prejuízos significativos na produção e na qualidade dos grãos, em ordem decrescente de importância, são: brusone (Magnaporthe oryzae), mancha parda (Bipolaris oryzae), mancha-de-grãos (complexo de patógenos) e escaldadura (Monographella albescens Thümen). Para cada doença, aqui relacionada, serão abordados os seguintes aspectos: os sintomas, o patógeno causador da enfermidade, os fatores que favorecem sua ocorrência e as opções de medidas de controle.
Entende-se que os aspectos mencionados são indispensáveis para a correta implementação do manejo integrado de doenças, o qual consiste em um conjunto de medidas preventivas, cujos componentes são a resistência genética, as práticas culturais e o controle químico. A escolha correta da cultivar para cada região e os tratos culturais mais indicados maximizarão o efeito do controle químico, o qual deve ser adotado como uma medida preventiva.

Brusone
Sintomas
Controle
Mancha parda
Sintomas
Controle
Mancha-de-grãos
Sintomas
Controle
Escaldadura
Sintomas
Controle

Brusone
A brusone, causada pelo fungo Magnaporthe oryzae, é a doença de maior importância na cultura do arroz, não somente no Estado de Mato Grosso como em todas as áreas produtoras de arroz do Brasil e do mundo. A doença causa perdas significativas no rendimento das cultivares suscetíveis, principalmente quando as condições ambientais são favoráveis ao seu desenvolvimento. Os prejuízos diretos e indiretos ocasionados pela brusone, nas folhas e nas panículas, são maiores no arroz de terras altas cultivado na Região Centro-Oeste brasileira, podendo chegar, em determinadas situações, a 100% de perda. Cada ponto percentual de aumento da severidade da doença resulta na diminuição da produtividade - em média, de 1,5% para cultivares tardias e 2,7% para cultivares de ciclo precoce.

Sintomas
A doença ocorre desde o estágio de plântula até a fase de maturação da cultura. Os sintomas nas folhas iniciam-se com a formação de pequenas lesões necróticas de coloração marrom, que evoluem, aumentando em tamanho, tornando-se elípticas, de margens marrons e com centro cinza ou esbranquiçado (Figura 1). Em condições favoráveis, as lesões coalescem, causando a morte das folhas e, muitas vezes, da planta inteira. Os sintomas nos nós e entrenós geralmente aparecem na fase de maturação. A infecção no primeiro nó, abaixo da panícula, é referida como brusone no pescoço (Figura 2). Diversas partes da panícula, como ráquis, as ramificações primárias e secundárias e os pedicelos também são infectados. Quando a infecção ocorre antes da fase leitosa do grão, a panícula inteira pode morrer, apresentando uma coloração amarelo-palha. A infecção mais tardia das panículas causa perdas somente nas partes infectadas.
A doença é transmitida por sementes infectadas, consideradas como fonte de inóculo primária, mas essas sementes não provocam epidemias em plantios bem-conduzidos. Outras fontes de inóculo são os restos culturais e os esporos transportados pelos ventos, de uma lavoura a outra, vizinhas ou distantes, plantadas mais cedo.

Fig. 1. Brusone nas folhas.
Foto: Embrapa Arroz e Feijão
Fig. 2. Brusone na panícula.
Foto: Embrapa Arroz e Feijão

Controle
Os danos causados pela brusone podem ser reduzidos pelo uso de cultivares resistentes, pelas práticas culturais e pelo uso de fungicidas, utilizados de forma integrada no manejo da cultura, quais sejam: bom preparo do solo; adubação equilibrada; uso de sementes de boa qualidade sanitária e fisiológica; incorporação dos restos culturais; plantios com profundidades uniformes, evitando, assim, focos de infecção; e plantio coincidindo com o início do período das chuvas. A proteção contra a brusone na panícula é feita por meio de pulverizações com fungicidas sistêmicos, sendo feita uma aplicação no final do período de emborrachamento, e a segunda, na emissão de panículas, com 1% a 5% de emissão.

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Mancha parda
A mancha parda, causada pelo fungo Bipolaris oryzae, é uma doença comum em arroz, e vem assumindo grande importância econômica em todo território nacional. Esse fungo é o principal agente causador da mancha-de-grãos. A doença afeta as , principalmente em lavouras semeadas em outubro, e as plantas adultas próximas à maturação, provocando perdas de 12% a 30% no peso dos grãos. As sementes infectadas por B. oryzae sofrem uma redução significativa na germinação. Em geral, os grãos manchados causam perdas também no rendimento de engenho.

Sintomas
A mancha parda ataca o coleóptilo, folhas, bainha, ramificações das panículas, glumelas e grãos. Os sintomas geralmente manifestam-se nas folhas logo após a floração e, mais tarde, nas glumelas e grãos. Nas folhas, os sintomas são lesões circulares ou ovais, de coloração marrom, com centro acinzentado ou esbranquiçado, com margens pardas ou avermelhadas (Figura 3). As lesões nas bainhas são semelhantes às lesões típicas nas folhas. Nos grãos, as manchas têm coloração marrom-escura e, muitas vezes, juntam-se, cobrindo-os completamente. Quando a doença se manifesta logo após a emissão das panículas, a infecção das espiguetas provoca a sua esterilidade.
As sementes infectadas e os restos culturais constituem uma das fontes de inóculo primário. O fungo localiza-se dentro da semente, causando descoloração e enrugamento da mesma. A doença é favorecida por temperaturas entre 20°C e 30°C e por alta umidade relativa do ar, maior que 89%. O estresse por excesso ou falta de água, a baixa fertilidade do solo - principalmente em relação à adubação com potássio - e o uso de nitrogênio em níveis muito altos ou muito baixos aumentam a suscetibilidade da planta à mancha parda.

Fig. 3. Mancha parda nas folhas.
Foto: Embrapa Arroz e Feijão

Controle
O tratamento de sementes com fungicidas reduz o inóculo inicial, controlando efetivamente a infecção primária nas plântulas. A aplicação foliar com fungicidas de ação protetora não tem se mostrado eficaz, mas o uso de fungicidas sistêmicos, aplicados no início da emissão das panículas, protege os grãos e melhora a qualidade dos mesmos. Lavouras destinadas à produção de sementes requerem duas aplicações, sendo a primeira antes da emissão das panículas, e a segunda, de sete a dez dias após a primeira aplicação. O uso de adubação com silicato de cálcio pode reduzir a incidência da doença.

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Mancha-de-grãos
As manchas de grãos são causadas por um complexo de patógenos, de origem fúngica ou bacteriana, e vem sendo considerada um dos principais problemas no arroz de terras altas. A queima-das-glumelas é uma das doenças mais importantes do complexo mancha-de-grãos, podendo reduzir a produção e a qualidade dos grãos. A diminuição do peso de panículas varia de 22% a 45%, e o rendimento de engenho pode ser reduzido em até 14%, em anos de epidemia.

Sintomas
As manchas aparecem desde o início da emissão das panículas até o amadurecimento. Os sintomas são muito variáveis dependendo do patógeno predominante, do estágio de infecção e das condições climáticas. A queima-das-glumelas manifesta-se durante a emissão das panículas, com manchas nas espiguetas de coloração marrom-avermelhada. As manchas ovais, com centro esbranquiçado e bordas marrons, aparecem quando a infecção ocorre nas fases leitosa e pastosa, após a emissão das panículas (Figura 4).
Os principais causadores da mancha-de-grãos são Bipolaris oryzae e Phoma sorghina, e, entre as bactérias que causam descoloração de grãos, estão a Pseudomonas fuscovagina e Erwinia sp. É difícil identificar, apenas pelos sintomas, qual ou quais microrganismos estão causando a mancha-de-grãos. Assim, torna-se necessário fazer uma análise em laboratório para obter uma identificação precisa de quais patógenos estão presentes.
A doença é favorecida por chuvas e alta umidade relativa durante a formação dos grãos; pelo acamamento das plantas, que favorece o contado das panículas com o solo; e pela presença do percevejo-dos-grãos, Oeabalus poecillus, o qual facilita a entrada de microrganismos manchadores de grãos.

Fig. 4. Mancha-de-grãos.
Foto: Embrapa Arroz e Feijão

Controle
Deve-se fazer uso de sementes sadias. O tratamento das sementes com fungicidas aumenta o vigor e o estande, além de diminuir o inóculo inicial. O controle químico deve ser feito de maneira preventiva, com uma ou mais aplicações, dando preferência aos fungicidas de ação sistêmica. A primeira aplicação deve ocorrer no final da fase de emborrachamento e início da emissão de panículas, e a segunda, 10 dias após.

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Escaldadura
A escaldadura, causada pelo fungo Monographella albescens (Thümen), vem se manifestando em níveis significativos, principalmente na Região Centro-Oeste. É uma enfermidade típica de locais que apresentam temperaturas elevadas acompanhadas por períodos prolongados de orvalho ou chuvas contínuas. As perdas resultam da redução da fotossíntese e da paralisação do crescimento das plantas. Geralmente, ocorre em plantios de arroz de primeiro ano, em solos de Cerrado e na região pré-amazônica, como também em áreas de rotação com a soja e em lavouras conduzidas com irrigação suplementar.

Sintomas
Os sintomas típicos iniciam-se pelo ápice das folhas ou pelas bordas das lâminas foliares. As manchas não apresentam margens bem definidas e são, inicialmente, de cor verde-oliva (Figura 5). Em seguida, as áreas afetadas apresentam sucessões de faixas concêntricas. As lesões coalescem, provocando a necrose e morte das folhas infectadas. A lavoura atacada pela doença apresenta um amarelecimento generalizado, com as pontas das folhas secas. Quando as condições ambientais não favorecem o desenvolvimento da doença, as folhas apresentam inúmeras pontuações pequenas, de coloração marrom-clara, sendo normalmente confundidas com outras doenças. Sintomas semelhantes são produzidos nas bainhas. Nos grãos, os sintomas são pequenas manchas do tamanho da cabeça de alfinete; em casos severos, pode-se observar uma descoloração marrom-avermelhada das glumelas.
As principais fontes de inóculo primário da doença são as sementes infectadas e os restos culturais. O desenvolvimento da doença é favorecido pelo molhamento das folhas, seja por chuvas ou por períodos prolongados de orvalho, durante as fase de perfilhamento máximo e emborrachamento, bem como pelos plantios adensados e adubação nitrogenada em excesso.

Fig. 5. Escaldadura nas folhas.
Foto: Embrapa Arroz e Feijão

Controle
As medidas de controle incluem o uso de sementes de boa qualidade fisiológica e sanitária. A rotação de culturas e o manejo adequado da irrigação - quando for o caso - reduzem a incidência da doença. Quanto ao controle químico, não se tem informação quanto à viabilidade econômica de seu uso.
A adoção de práticas culturais, combinada com o uso de cultivares resistentes, reduz o uso de produtos químicos e, consequentemente, os danos ambientais e o custo de produção. Essa é uma tecnologia que deve ser considerada na condução das lavouras, para proporcionar um manejo eficaz da doença, com reflexo na produtividade e qualidade do produto final, e reduzir o custo de produção em uma matriz ambientalmente segura.

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Doenças do arroz e seu controle.

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