Embrapa Arroz e Feijão
Sistemas de Produção, No. 7
ISSN 1679-8869 Versão eletrônica
Setembro/2006
Cultivo do Arroz de Terras Altas no Estado de Mato Grosso

Tarcísio Cobucci

Importância econômica
Clima
Solos
Preparo do solo e semeadura
Correção da acidez e fertilização do solo
Cultivares
Produção de sementes
Irrigação
Manejo de plantas daninhas
Doenças e métodos de controle
Pragas e métodos de controle
Normas gerais sobre o uso de agrotóxicos
Colheita
Pós-colheita
Mercado e comercialização
Coeficientes técnicos, custos de produção e rendimentos
Referências
Glossário
Autores

Expediente

 

Manejo de Plantas Daninhas

Por muito tempo não se deu importância ao controle de plantas daninhas em arroz de terras altas por ser esse cultivado quase sempre em áreas de abertura, ainda livres de invasoras, situação em que nenhuma medida de controle é necessária. Em conseqüência disso, há carência de produtos e tecnologias para o controle de plantas daninhas em arroz, em rotação com culturas comerciais – como, por exemplo, soja e milho- e de cobertura – por exemplo, milheto e braquiária -, problema que, somado à baixa capacidade de competição do arroz com plantas daninhas, constitui um dos principais obstáculos para a introdução dessa cultura em sistemas agrícolas já instalados há várias safras de grãos em solos corrigidos.
O controle de plantas daninhas consiste na adoção de procedimentos que resultam na redução da infestação, mas não, necessariamente, na sua completa eliminação, e tem como objetivos evitar perdas de produção devido à competição por água e nutrientes, beneficiar as condições de colheita e evitar o aumento da infestação das plantas daninhas na área.
A associação de métodos de controle deve ser utilizada sempre que possível, sendo conveniente que a estratégia de controle – o melhor método no momento oportuno - esteja adaptada às condições locais de infra-estrutura, à disponibilidade de mão-de-obra e implementos e à análise de custos.
Dentre os métodos de controle de plantas daninhas destacam-se os controles cultural, preventivo, mecânico e químico. Recentemente, o controle químico, por meio de herbicidas, passou a ser a prática mais utilizada, por apresentar menor custo e maior eficiência, quando comparado a outros métodos de controle - razão pela qual decidiu-se por apresentar, neste capítulo, informações mais detalhadas sobre o mesmo.

Estratégias de controle químico de plantas daninhas
Seletividade
Controle de plantas daninhas de folhas estreitas
Controle de plantas daninhas de folhas largas
Controle de infestações mistas
Principais herbicidas registrados

Estratégias de controle químico de plantas daninhas
Com o advento das cultivares modernas para as condições de terras altas, o arroz passou a ser cultivado em rotação com a soja e em áreas com irrigação suplementar, sob pivô central. Tradicionalmente, essas áreas apresentam alta diversidade de infestação de plantas daninhas.
Pelo fato de a maioria das cultivares modernas de arroz apresentar baixa taxa de crescimento inicial e porte menor que as cultivares tradicionais, uma boa cobertura do solo pelas plantas só ocorre aos 40 a 50 dias após a semeadura. Para diminuir ao máximo a interferência das plantas daninhas na produtividade do arroz, a cultura deve permanecer protegida da infestação de plantas daninhas entre 15 e 45 dias após a emergência.
Para alcançar uma boa eficiência de controle das plantas daninhas, recomenda-se a aplicação associada de dois ou mais herbicidas com características diferentes, visando controlar um grande número de espécies e manter a área limpa por um longo período. Dessa forma, a aplicação seqüencial de um herbicida em pré e outro em pós-emergência, ou aplicações associadas de dois pós-emergentes, com diferentes espectros de ação, resulta num controle final mais eficiente.
Antes de proceder ao controle químico de plantas daninhas, deve-se estar atento à seletividade dos herbicidas, ao tipo de planta daninha – de folhas estreitas ou largas – e ao tipo de infestação.

Seletividade
Para fazer o controle químico de plantas daninhas é importante conhecer, primeiramente, a seletividade dos herbicidas no arroz. A produtividade final do arroz é definida pelo balanço dos componentes da produtividade: número de perfilhos por m-2, número de panículas por m-2, grãos componentes da produtividade: número de perfilhos por m-2, número de panículas por m-2, grãos por panícula e massa, em gramas, de 100 grãos. Em geral, a aplicação do herbicida é realizada da semeadura até 30 dias após a germinação, época em que é determinado o número de perfilhos por m2 - componente chamado de “caixa de produção” do arroz porque é ele quem determina o potencial de produção da lavoura. Se houver danos no arroz devido à aplicação de herbicida, o número de perfilhos por m-2 pode ser diminuído, reduzindo o potencial de produção.
A seletividade dos herbicidas para a cultura do arroz é decorrente de alguns fatores. Nas aplicações em pré-emergência, a seletividade se deve à posição do herbicida com relação à semente de arroz no solo. Já nas aplicações em pós-emergência, a seletividade é principalmente de natureza fisiológica, através de mecanismos de degradação que evitam injúrias às plantas. Isso sugere que a sensibilidade do arroz aos herbicidas varia de acordo com as cultivares, as quais possuem mecanismos diferenciados de metabolização das moléculas dos herbicidas.
Os herbicidas pendimethalin e o trifluralin são do grupo das dinitroanilinas, que não possuem seletividade metabólica para a cultura do arroz. Devido à baixa solubilidade em água e à alta capacidade de adsorção nos colóides do solo, os produtos permanecem até os 2 cm de profundidade, e a seletividade ocorre pela localização da semente. Esse é um dos motivos para se recomendar a semeadura de 3 cm a 5 cm de profundidade. Se, por algum motivo - tais como: semeadura rasa, precipitação pluvial acima de 75 mm ou doses altas de herbicidas em solos arenosos - as plântulas de arroz entrarem em contato com o herbicida, o desenvolvimento radicular será afetado e, com isso, aparecerão sintomas de amarelecimento das plantas e as raízes ficarão mais curtas e grossas.
Para o clomazone, herbicida que inibe a síntese de clorofila em cultivares suscetíveis, o sintoma é o branqueamento das folhas. A variabilidade genética da tolerância ao herbicida é nítida, e a cultivar de arroz mais sensível ao produto é a BRS Primavera. Alguns safeners, ou protetores, ainda em estudo, têm promovido menor toxicidade às cultivares sensíveis.
A seletividade do arroz ao metilsulfuron-metil depende da cultivar e do estádio da planta na época da aplicação. A pulverização aos dez dias após a emergência (DAE) diminuiu em 17% a produtividade de grãos da cultivar BRS Primavera, em relação à testemunha.
O perfilhamento das gramíneas, em geral, está diretamente ligado à relação dos hormônios citocinina e auxina na planta. Quanto menor a relação, maior a dominância apical e menor o perfilhamento. O herbicida 2,4-D é uma auxina, e sua aplicação aumenta a concentração do hormônio na planta, incrementa a dominância apical e, conseqüentemente, diminui o perfilhamento, quando se faz aplicação no perfilhamento do arroz. Por essa razão, recomenda-se que a aplicação desse herbicida seja feita após o final do perfilhamento do arroz. Aplicações precoces, de 10 a 20 DAE, de graminicidas pós-emergentes também podem causar diminuição do perfilhamento do arroz, sendo, por isso, recomendável aplicar tais produtos após o perfilhamento do arroz.

Topo da Página

Controle de plantas daninhas de folhas estreitas
Seguem algumas opções de controle de plantas daninhas de folhas estreitas:

  • pré-emergência - fundamental em áreas que, pelo histórico de utilização em anos anteriores, sabe-se que são infestadas;
  • aplicação seqüencial em pré-emergência e, após 30 dias, aplicação de pós-emergência - recomendável para áreas que possuem infestação acentuada de braquiária e timbete. É necessário reduzir as doses em pré-emergência e pós-emergência;
  • aplicação somente em pós-emergência - indicada para áreas que não possuem histórico de infestações expressivas;
  • aplicação seqüencial em pós-emergência, sendo a primeira, aos 10 DAE, e a segunda, aos 30 DAE - necessária quando não se aplicam herbicidas em pré-emergência e, com isso, observa-se uma alta infestação inicial, que não pode ser controlada apenas com uma aplicação em pós-emergência. Na pulverização inicial devem ser utilizadas doses menores que as indicadas, ou com safeners, para evitar toxicidade à cultura, a qual também estará no seu estádio inicial. Essa modalidade de aplicação justifica-se, também, pelo fato de os herbicidas de pré-emergência, no caso do plantio direto, geralmente não conseguirem ultrapassar a cobertura morta e atingir o alvo;
  • aplicação precoce aos 10 DAE de produto de pré-emergência, adicionado a um outro, de pós-emergência - modalidade utilizada quando, por opção ou desconhecimento, deixou-se de aplicar os herbicidas de pré-emergência e, logo após a emergência da cultura, verifica-se a ocorrência de alta infestação de invasoras. Com a mistura dos dois herbicidas, o de pós-emergência controla as plantas daninhas existentes e o de pré-emergência possibilita um maior período de controle.

Cabe ressaltar que a escolha da melhor modalidade de controle irá depender do custo dos herbicidas, do preço do arroz, da população e tipo de plantas daninhas e do sistema de cultivo.

Topo da Página

Controle de plantas daninhas de folhas largas
As plantas daninhas mais prejudiciais à cultura do arroz de terras altas possuem folhas estreitas, entretanto, podem ocorrer situações que infestações de plantas com folhas largas necessitam ser controladas. Nesse caso, as aplicações são feitas em pós-emergência, apesar de alguns herbicidas aplicados em pré-emergência, visando ao controle de plantas daninhas de folhas estreitas, possuírem ação sobre algumas das de folhas largas. Para o controle de plantas daninhas de folhas largas, são utilizados os herbicidas metilsulfuron-metil (Ally) e 2,4-D, aplicados em épocas diferentes.
O metilsulfuron-metil apresenta melhor eficiência de controle quando aplicado no estádio inicial das plantas daninhas, ou seja, quando elas estão com duas a quatro folhas - como é o caso do amendoim-bravo, trapoeraba, corda-de-viola e, principalmente, erva-de-touro. Assim, esse herbicida pode ser pulverizado de 15 dias após a emergência do arroz até os estádios indicados das plantas daninhas, com adição de 0,2% v/v de óleo mineral. Apesar de o metilsulfuron-metil ser menos exigente que o 2,4-D, com relação aos estádios da cultura na época da aplicação, alguns cuidados devem ser tomados, dependendo da cultivar e do estádio da cultura.
O 2,4-D, por suas características de seletividade com relação ao arroz de terras altas e por ter melhor eficiência em plantas daninhas mais desenvolvidas que o metilsulfuron-metil, é também indicado para aplicações mais tardias. Normalmente, é utilizado em infestações nas quais o metilsulfuron-metil somente controla as plantas daninhas nos estádios iniciais, como, por exemplo, a erva-de-touro.
Do ponto de vista prático, a cultura do arroz deve ficar livre da interferência de plantas daninhas a partir de 15 dias após a emergência. Em áreas altamente infestadas, onde a emergência das plantas daninhas pode ocorrer junto com a do arroz, é imperativo que o controle seja feito antes dos 35 dias, o que inviabiliza a aplicação de 2,4-D.


Controle de infestações mistas
Há situações de infestação mista - plantas daninhas de folhas estreitas e de folhas largas - que necessita ser controlada em pós-emergência. As pulverizações, entretanto, devem ser separadas por um período de sete dias, já que o latifolicida, ou herbicida de folha larga, se misturado ao graminicida, prejudica sua ação. Nesse caso, o primeiro produto a ser aplicado é aquele que controla as plantas daninhas que apresentam infestação mais intensa, respeitando-se os princípios de seletividade.

Topo da Página

Principais herbicidas registrados
Na Tabela 1 são listados os principais herbicidas registrados para o manejo de áreas no sistema plantio direto ou cultivo mínimo, e na Tabela 2, os herbicidas seletivos para a cultura do arroz. Vale lembrar que, para a escolha do herbicida, devem-se considerar as espécies infestantes na área, a época em que se pretende fazer as aplicações, as características físico-químicas do solo - especialmente, a textura e o teor de carbono no solo -, o método de preparo do solo, o tipo de cultivo, irrigado ou terras altas, a disponibilidade do produto no mercado e o custo.

Topo da Página

Tabela 1. Alternativas para manejo de plantas daninhas, em pré-semeadura, no sistema plantio direto e/ou cultivo mínimo, para a cultura de arroz de terras altas.

Nome t écnico
(nome comercial)
Concent.
(g ingred. ativo/L)
Doses
Observação
(kg ingr. ativo/ha)
(L prod. com./ha)
Paraquat*
(Gramoxone 200)
200
0,2-0,4
1,0-2,0
Controle de monocotiledôneas anuais.
2,4-D amina/éster**
(diversos)
-----
0,7-1,1
-----
Controle de dicotiledôneas e ciperáceas.
Paraquat + diuron*
(Gramocil)
200 + 100
0,4-0,6+0,2-0,3
2,0-3,0
Controle de monocotiledôneas anuais e dicotiledôneas sem a presença de guanxumas, leiteiro, buva (Conyza bonariensis), poaia- do-campo (Spermacoce latifolia), maria-mole (Senecio brasiliensis) e poaia-branca.
Glifosate
(Zapp Qi)
480
0,48-1,92
1,0-4,0
Controle de monocotiledôneas anuais e/ou perenes, ciperáceas e dicotiledôneas sem a presença de trapoeraba e poaia-do-campo.
Glifosate
(Roundup e OM***)
480
0,48-1,92
1,0-4,0
Controle de monocotiledôneas anuais e/ou perenes, ciperáceas e dicotiledôneas sem a presença de trapoeraba e poaia-do-campo.
Paraquat + diuron* com 2,4-D
(Gramocil)
(diversos)


200 + 100
------


0,4-0,6+ 0,2-0,3
0,4-0,8


2,0-3,0
------
Controle de monocotiledôneas anuais, dicotiledôneas e ciperáceas.
Glifosate com 2,4-D
(Zapp Qi)
(diversos)

480
-----

0,48-1,92
0,4-0,8

1,0-4,0
-----
Controle de monocotiledôneas anuais e/ou perenes, dicotiledôneas e ciperáceas.
Glifosate Com 2,4-D
(Roundup)
Diversos

480
-----

0,48- ,92
0,4-0,8

1,0-4,0
-----
Controle de monocotiledôneas anuais e/ou perenes, dicotiledôneas e ciperáceas.
* Acrescentar 0,1% de surfactante não aniônico.
** A formulação éster é considerada volátil; por isso, deve-se tomar cuidado especial na sua aplicação, não utilizar em áreas onde haja culturas que sejam suscetíveis e quando estiver ventando, pois a deriva de vapores podem atingir quilômetros de distância.
*** Outras marcas.

Topo da Página

Tabela 2. Principais herbicidas registrados para o controle de plantas daninhas na cultura do arroz de terras altas.

Nome técnico
(nome comercial)
g ingr. .ativo/L
ou /kg
Dose (kg ou L
do prod. com.)
Plantas
controladas
Época de
aplicação
Observação
Oxadiazon
(
Ronstar 250BR)
( Ronstar SC)

250
400

3,0-5,0
2,5

Gramíneas e algumas folhas largas

Pré
Pós-inicial
Aplicar em solo úmido ou irrigar logo após. Não usar em solo muito arenoso, também pode ser aplicado em pré-semeadura (benzedura) para controle de arroz daninho
Pendimethalin
(
Herbadox 500CE)

500

2,5 a 3,5

Gramíneas e algumas folhas largas

Pré
Aplicar um solo úmido ou irrigar logo após.
Oxyfluorfen
(
Goal BR)

240

1,0

Gramíneas e algumas folhas largas

Pré
Aplicado em benzedura (pré) proporciona controle de arroz daninho
2,4-D
(
vários)

Amina 720
Amina 670
Amina 400
Éster 400

0,7-1,4
0,75-1,5
0,25-2,5
0,6-1,2

Folhas largas

Pós
Pós
Pós
Pós
Aplicar entre o perfilhamento e o início da diferenciação do primórdio floral do arroz
Bentazon
( Basagran)

600
480

1,2-1,6
1,5-2,0

Folhas largas

Pós
Aplicar com as plantas daninhas no início do desenvolvimento. Adicionar adjuvante
Fenoxaprop-p-ethyl
( Starice)
(Whip S)

69
69

0,8-1,0
0,6

Gramíneas

Pós
Aplicar com as plantas daninhas com bom vigor vegetativo
Trifluralin
( Premerlin 600 CE)

600

4,0

Gramíneas

Pré
Somente para arroz de terras altas
Clomazone
( Gamit 500 CE)

500

1,0-1,2

Algumas gramíneas e folhas largas

Pré


------

Metsulfuron
( Ally)

600

0,0033

Folhas largas

Pós

------
Clefoxydim
( Aura)

200

0,6-0,8

Gramíneas

Pós

------
Cyhalofop-butyl
( Clincher)

180

1,0-1,75

Gramíneas

Pós

------
Ethoxysulfuron
( Gladium)

600

0,1-0,133

Ciperáceas

Pós

------
Fonte: adaptado de Sosbai (2003).

 

 

Todos os direitos reservados, conforme Lei nº 9.610.

Topo da Página