Embrapa Arroz e Feijão
Sistemas de Produção, No. 7
ISSN 1679-8869 Versão eletrônica
Setembro/2006
Cultivo do Arroz de Terras Altas no Estado de Mato Grosso

Humberto Gonçalves dos Santos
Elaine Cristina Cardoso Fidalgo
Maurício Rizzato Coelho
Mário Luiz Diamante Áglio

Importância econômica
Clima
Solos
Preparo do solo e semeadura
Correção da acidez e fertilização do solo
Cultivares
Produção de sementes
Irrigação
Manejo de plantas daninhas
Doenças e métodos de controle
Pragas e métodos de controle
Normas gerais sobre o uso de agrotóxicos
Colheita
Pós-colheita
Mercado e comercialização
Coeficientes técnicos, custos de produção e rendimentos
Referências
Glossário
Autores

Expediente

 

Solos

O Estado de Mato Grosso é bastante diversificado quanto à natureza dos solos, conforme constatado em estudos realizados pela Embrapa, RADAMBRASIL e, mais recentemente, pela Secretaria de Estado de Planejamento e Coordenação Geral de Mato Grosso (Seplan-MT). As escalas cartográficas de publicação, desde 1:1.000.000 (RADAMBRASIL), 1:1.500.000 (Zoneamento Ecológico Econômico – ZEE/MT) até 1:5.000.000 (Mapa de Solos da Brasil – IBGE/Embrapa Solos) são indicadas para o planejameno regional.
Apresentam-se, neste capítulo, as descrições sucintas das classes de solos predominantes no Estado de Mato Grosso com aptidão para arroz, baseadas em material descritivo do ZEE/MT, disponível em http://www.zsee.seplan.mt.gov.br e complementadas pelo Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (SiBCS). O mapa generalizado dos solos desse Estado pode ser visualizado na Figura 1.

Classes de solos: características, ocorrências, limitações e potenciais
Latossolos Vermelhos Distroférricos (LVdf)
Latossolos Vermelhos Distróficos (LVd)
Latossolos Vermelho-Amarelos (LVA)
Latossolos Amarelos (LA)
Nitossolos Vermelhos (NV)
Chernossolos Argilúvicos (MT)
Argissolos Vermelho-Amarelos (PVA)

Classes de solos: características, limitações, potenciais e ocorrências
A espacialização das principais classes de solos do Estado de Mato Grosso mostra grande variabilidade da cobertura pedológica, mesmo em uma escala regional, como a apresentada aqui.
As áreas de solos mais adequadas à cultura do arroz de terras altas no Mato Grosso compreendem os Latossolos, Argissolos, Nitossolos e Chernossolos, argilosos ou muito argilosos, com boa capacidade de retenção de umidade - considerando que o arroz de terras altas é inteiramente dependente de precipitação pluvial como fonte de água. Outros solos que ocorrem no Estado, como os Plintossolos, Gleissolos, Neossolos Flúvicos e Quartzarênicos, Planossolos e Vertissolos, ocupam áreas sedimentares baixas, de várzeas ou terraços, conferindo-lhes condições mais apropriadas ao cultivo do arroz irrigado. Os Cambissolos e Luvissolos são menos indicados devido à sua ocorrência em relevos acidentados e à presença de pedregosidade e cascalhos no perfil.
A seguir são descritas as principais classes de solos com melhor aptidão agrícola para o Estado de Mato Grosso.

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Latossolos Vermelhos Distroférricos (LVdf)
Solos bem drenados, derivados de rochas básicas, contendo teores elevados em Fe2O3, MnO e, normalmente, TiO2, com forte atração magnética. Até 1999 eram classificados como Latossolos Roxos.
São muito profundos, friáveis ou muito friáveis quando úmidos, argilosos ou muito argilosos. Possuem baixa densidade aparente, de 0,92 g a 1,15 g/cm3, e porosidade alta a muito alta, 60% a 69%, indicando boas condições físicas.
Têm como principal limitação a baixa fertilidade natural, pois são solos distróficos, com baixa saturação por bases. De modo geral, são bem providos de micronutrientes, o que não acontece com a maioria dos Latossolos.
São bastante resistentes à erosão laminar, devido às suas características físicas de boa permeabilidade e porosidade, quando em condições naturais ou quando bem manejados.
Submetidos a cultivos intensivos pela aração, ou sucessivas gradagens, sofrem uma compactação subsuperficial – pé-de-arado ou pé-de-grade -, favorecendo o encrostamento superficial, o que aumenta consideravelmente a suscetibilidade à erosão e diminui a produtividade. Em condições de manejo inadequado, desenvolvem-se ravinas e pequenas voçorocas com facilidade.
Ocorrem nas bordas do Planalto dos Parecis, estendendo-se por aproximadamente 1.700 km2 em partes dos municípios de Tangará da Serra, Santo Afonso, Arenápolis e Nortelândia.
 
Fig. 1. Distribuição espacial das classes de solos predominantes no Estado de Mato Grosso.
Fonte: compilado de IBGE/Embrapa Solos (2001).

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Latossolos Vermelhos Distróficos (LVd)
Solos minerais com teores de Fe2O3 entre 8% e 18%, nos solos argilosos ou muito argilosos, e normalmente inferiores a 8% nos solos de textura média. Anteriormente eram classificados como Latossolos Vermelho-Escuros.
São muito profundos, bem drenados, friáveis ou muito friáveis, de textura argilosa ou muito argilosa e média. Os solos mais oxídicos, de textura argilosa ou muito argilosa, possuem baixa densidade aparente, de 0,84 g a 1,03 g/cm3, e porosidade muito alta ou alta.
Possuem excelentes condições físicas, as quais, aliadas ao relevo plano ou suavemente ondulado onde ocorrem, favorecem sua utilização com as mais diversas culturas climaticamente adaptadas à região.
Esses solos, por serem ácidos e distróficos requerem correção de acidez e adubação.
Os solos argilosos e muito argilosos têm melhor aptidão agrícola que os de textura média, tendo em vista que esses últimos são mais pobres e podem ser degradados mais facilmente por compactação e erosão, quando é feito uso inadequado de equipamentos agrícolas, como, por exemplo, freqüente preparo do solo com implementos muito pesados, como a grade aradora, ou aração e gradagem no sentido do declive.
Distribuem-se por, aproximadamente, 53.000 km2, com predominância na Chapada dos Parecis. Ocorrem também no sul do Estado, sobre os Planaltos de Itiquira e Guimarães e em manchas esparsas na Planície do Araguaia.

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Latossolos Vermelho-Amarelos (LVA)
Solos com teores de Fe2O3 iguais ou inferiores a 11% e, normalmente, acima de 7%, quando os solos são argilosos ou muito argilosos e não-concrecionários. Mantêm o mesmo nome da classificação anterior a 1999.
São profundos ou muito profundos, bem drenados, com textura argilosa, muito argilosa ou média. Os solos de textura argilosa ou muito argilosa e de constituição mais oxídica possuem baixa densidade aparente, de 0,86 g a 1,21 g/cm3, e porosidade total alta a muito alta. São solos ácidos a muito ácidos, com saturação por bases baixa (distróficos) e, por vezes, álicos - nesses casos, com alumínio trocável maior que 50%.
Esses Latossolos também possuem boas condições físicas que, aliadas ao relevo plano ou suavemente ondulado, favorecem a utilização com diversas culturas adaptadas ao clima da região.
Suas principais limitações são a acidez elevada e a fertilidade química baixa. Requerem um manejo adequado com correção da acidez, adubação fertilizante e controle de erosão - como, por exemplo, terraceamento -, especialmente nos solos de textura média, que são os mais pobres e suscetíveis à erosão. A deficiência de micronutrientes pode ocorrer sobretudo nos solos de textura média.
São os solos de maior ocorrência no Estado de Mato Grosso, estendendo-se por cerca de 262.000 km2, principalmente em sua porção centro-norte, no Planalto dos Parecis, desde Brasnorte a oeste até São Félix do Araguaia e Cocalinho a leste; e de Peixoto de Azevedo a norte até Nova Mutum e Diamantino, a sul. Ocorrem também no Planalto dos Guimarães, na região de Campo Verde, Primavera do Leste, Novo São Joaquim e General Carneiro, estendendo-se para leste até Barra do Garças e Araguaiana. Distribuem-se em manchas no extremo noroeste do Estado, na Chapada dos Dardanelos, entre Juína e Aripuanã; no noroeste de Aripuanã e em Apiacás, entre os rios Juruena e Teles Pires; além de manchas esparsas na região do Pantanal, como em Cáceres e Poconé.

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Latossolos Amarelos (LA)
Apresentam baixos teores de Fe2O3, em sua maioria, abaixo de 7%.
São solos bem drenados, profundos e muito profundos, com predominância de textura média, baixa relação textural e pouca diferenciação entre os horizontes. Apresentam baixa saturação e soma de bases, enquanto os teores de saturação por alumínio são altos, o que lhes confere caráter álico.
Uma de suas características mais marcantes é a coesão – quando secos, apresentam-se duros ou muito duros.
Suas principais limitações decorrem de forte acidez, alta saturação com alumínio extraível e baixa fertilidade química natural. São, portanto, solos muito pobres em nutrientes, o que exige um investimento inicial bastante alto, com o uso intensivo de adubação fertilizante. A prática de calagem objetiva a neutralização do efeito tóxico do alumínio para as plantas e também o fornecimento de cálcio ou magnésio.
Diferenciam-se dos demais Latossolos por ter permeabilidade mais lenta, devido à coesão que lhe é característica, favorecendo os processos erosivos.
Ocorrem no sudoeste do Estado, na Depressão do Guaporé, ocupando uma extensão aproximada de 7.100 km2.

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Nitossolos Vermelhos (NV)
Solos de argila de atividade baixa, originados de rochas básicas, com teores relativamente elevados de Fe2O3, maiores que 15%. Antes de 1999 eram conhecidos como Terra Roxa Estruturada.
São solos profundos ou de profundidade média, bem drenados, com textura argilosa ou muito argilosa ao longo do perfil e reduzido gradiente textural. A saturação por bases é baixa, sendo predominantemente distróficos, com pequenas ocorrências de solos eutróficos e álicos. São solos com boas condições físicas.
Apresentam como principais limitações a baixa saturação por bases e, no caso de relevo ondulado, a suscetibilidade à erosão e a presença de pedregosidade e rochosidade.
As áreas mais expressivas estão localizadas nas regiões norte e sudoeste do Estado, com aproximadamente 1.200 km2.

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Chernossolos Argilúvicos (MT)
Caracterizam-se por apresentar argila de atividade alta e saturação por bases alta, maior que 50%. Até 1999 eram designados de Brunizens Avermelhados.
São moderadamente profundos a rasos, com distinta diferenciação entre os horizontes, normalmente com textura média nos horizontes superficiais, e argilosa, nos subsuperficiais. Apresentam permeabilidade moderada no horizonte superficial, e lenta, no horizonte Bt, sendo, portanto, muito suscetíveis a processos erosivos.
Suas características químicas são excelentes para o uso agrícola, principalmente o seu elevado potencial nutricional, alta saturação por bases e a capacidade de troca de cátions (CTC), além de apresentarem acidez praticamente nula.
Por ocorrerem em locais onde o relevo é mais acidentado, prevalecem as limitações devidas aos fortes declives, com alto risco de erosão. São mais usados para pastagens.
Sua área se distribui em estreitas faixas de direção noroeste-sudeste, numa extensão de 1.700 km2, nas bordas da escarpa do Planalto dos Parecis, no sudoeste do Estado.

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Argissolos Vermelho-Amarelos (PVA)
Caracterizam-se por apresentarem gradiente textural, com nítida separação entre horizontes quanto à cor, estrutura e textura. Os teores de Fe2O3 normalmente são menores que 11%.
São profundos a pouco profundos, moderadamente a bem drenados, com textura muito variável, mas com predomínio de textura média na superfície, e argilosa, em subsuperfície, com presença ou não de cascalhos.
Apresentam porosidade total baixa a média e densidade aparente com valores compreendidos entre 1,32 g e 1,63 g/cm3.
Quanto à saturação por bases, há uma grande variação, ocorrendo solos eutróficos, V > 50%, distróficos, V < 50%, e também álicos, nos quais a saturação com alumínio trocável é maior que 50%.
Devido à grande diversidade de características que interferem no uso agrícola, além da ocorrência nos mais variados relevos, é difícil generalizar, para a classe como um todo, suas qualidades e limitações ao uso agrícola. De uma maneira geral, pode-se dizer que os Argissolos são muito suscetíveis à erosão, sobretudo quando o gradiente textural é mais acentuado, à presença de cascalhos e sob relevo mais movimentado com fortes declives. Nesse caso, não são recomendáveis para agricultura, prestando-se para pastagem e reflorestamento ou preservação da flora e fauna.
Quando localizados em áreas de relevo plano e suavemente ondulado, esses solos podem ser usados para diversas culturas, desde que sejam feitas correções da acidez e adubação, principalmente quando se tratar de solos distróficos ou álicos.
Quando localizados em áreas de relevo plano e suavemente ondulado, esses solos podem ser usados para diversas culturas, desde que sejam feitas correções da acidez e adubação, principalmente quando se tratar de solos distróficos ou álicos.
Distribuem-se numa extensão aproximada de 208.000 km2, predominantemente no norte do Estado, desde Aripuanã e Juína, onde ocorrem em maior área, até Santa Teresinha a leste. Ocorrem também na região de Água Boa, Campinápolis e Paranatinga, estendendo-se para sudoeste, na região da Baixada Cuiabana, até Cáceres e, para o sul, na área do Pantanal. Surgem ainda na região das nascentes do Rio Paraguai, nas bordas do Planalto dos Parecis, além do extremo sudoeste, entre Vila Bela da Santíssima Trindade e Cáceres.

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