Embrapa Clima Temperado
Sistemas de Produção, 10
ISSN 1806-9207 - Versão Eletrônica
Novembro/2007
Sistema de Produção da Batata-Doce
Luis Antonio Suita de Castro

Importância
Introdução

Características gerais

Cultura de tecidos e indexagem

Multiplicação de mudas
Canteiros de multiplicação e plantio comercial
Procedimentos básicos

Plantio comercial de batata-doce
Referências
Glossário

Expediente 

Canteiros de multiplicação e plantio comercial


A utilização de canteiros de multiplicação na produção de batatas com elevados padrões fitossanitários, visa a obtenção de ramas de batata-doce para plantio comercial.
Nesta etapa do processo de multiplicação do material básico adquirido pelo produtor, alguns fatores devem ser considerados para que as batatas que originarão as ramas e mudas para plantio comercial apresentem qualidade adequada, não acarretando comprometimento da produção esperada.



Material de origem ou básico


O aspecto fundamental a ser considerado na aquisição do material básico, utilizado na formação do canteiro de multiplicação para produção de raízes ou mudas, é a sua obtenção de fornecedores idôneos, capazes de fornecer garantias quanto a identidade do material, no que se refere a espécie, cultivar e estado sanitário. Sempre que for possível é aconselhável recorrer a entidades oficiais para a aquisição de matrizes e, no caso de haver necessidade de importar material vegetal de outros países, devem-se seguir rigorosamente as normas legislativas existentes, garantindo dessa forma que doenças e pragas, não existentes em nosso País, venham a ocasionar sérios prejuízos, muitas vezes irreparáveis, à cultura.
Após a aquisição do material básico, há necessidade de mantê-lo adequadamente para que conserve suas características iniciais, fornecendo mudas com a mesma qualidade da planta que a originou. Portanto, há necessidade que sejam seguidos alguns padrões na escolha do local para implantação do canteiro de multiplicação, levando em consideração, principalmente, o isolamento e a não existência anterior de plantio semelhante na área escolhida. Devem ser seguidas as normas gerais para implantação de lavouras, no que se refere à exposição solar, existência de fonte de água, facilidade de acesso, fertilidade do solo, profundidade, ausência de nematóides fitopatogênicos, preparo do solo, adição de corretivos e fertilizantes, plantio e tratos culturais (Figura 10).

Foto: Luis Antônio Suita de Castro

Fig. 1 Característica das plantas de batata-doce após o plantio nos canteiros de multiplicação.

Sempre que possível, é aconselhável manter as plantas o mais distante possível, utilizando-se espaçamentos maiores que os recomendados, procurando-se evitar o contato entre raízes e entrelaçamento de ramas, não descuidando em momento algum dos tratamentos fitossanitários. Todas as cultivares devem ser adequadamente identificadas, com placas colocadas em local de fácil visualização.
Outro fator a considerar é a utilização de máquinas agrícolas e de instrumentos manuais como tesouras e facas, utilizados na retirada de material para propagação (raízes, ramas e estacas de folhas), que deverão ser sistemática e adequadamente desinfectados com álcool 70% ou solução com sabão, antes da utilização em cada planta, evitando que eventuais enfermidades sejam transmitidas mecanicamente, originando mudas com mau estado sanitário.


Época de plantio e preparo do solo

A melhor época para plantio das mudas de batata-doce, em condições de campo, corresponde aos meses de outubro, novembro e dezembro, entretanto, a utilização de material com alta sanidade depende da multiplicação vegetativa de matrizes oriundas de plantas de laboratório (cultura de meristemas) que só estão adequadas para plantio no final do mês de novembro até o início do mês de dezembro, devendo o plantio a campo ocorrer durante estes meses ou no máximo até o início de janeiro.
O sucesso no cultivo da batata-doce depende muito de sua localização. A escolha de local impróprio é um erro sério, que, geralmente, não pode ser corrigido sem grandes perdas. A instalação requer um cuidadoso exame da infra-estrutura existente e das condições ambientais. Entre as condições ambientais, o clima, o solo e sua topografia são fatores determinantes.
Na escolha do local para implantação do canteiro de multiplicação deve-se levar em consideração a declividade do terreno, sua exposição solar, a disponibilidade de água, as características do solo e o isolamento da área. Como norma geral, a batata-doce se desenvolve em qualquer tipo de solo. Entretanto, são considerados ideais os solos mais leves, areno-argilosos, soltos, bem estruturados, com média ou alta fertilidade, bem drenados e com boa aeração. O excesso de matéria orgânica e nitrogênio, assim como de umidade, provocam o desenvolvimento de ramas e pouca formação de raízes. Solos compactados ocasionam queda de produtividade. Os níveis de pH considerados ótimos estão entre 5,6 e 6,5. Tolerante à acidez, não exige calagem, a não ser em casos extremos. (Filgueira, 1987; Lemos et al., 1992). Deve-se considerar também a sua profundidade, que não deve ser inferior a 30 centímetros, Uma boa exposição solar é fundamental, evitando-se locais sujeitos ao sombreamento ou com ventos fortes, capazes de causar sérios prejuízos às mudas. É importante utilizar locais onde não se tenha plantado batata-doce. A proximidade de alguma fonte de água é de fundamental importância, devido à necessidade freqüente de irrigações na etapa inicial de desenvolvimento das mudas, principalmente em locais onde as chuvas são irregulares.
É recomendável que, após a escolha do local de plantio, seja realizada uma análise do solo em laboratório especializado, adotando medidas de conservação do solo, relacionadas à declividade do terreno e índice pluviométrico. Em terrenos que necessitem correção, a calagem deve ser realizada cerca de 90 dias antes do plantio, após a lavração e antes da gradagem. A adubação com P2O5 deve ser feita 50-60 dias após a calagem. Aproximadamente cinco dias antes do plantio, deve-se fazer nova aração e gradagem.
Quando o solo é trabalhado em condições ideais, isto é, em estado friável, uma gradagem é suficiente para se desmancharem os torrões formados durante a lavração; entretanto, é aconselhavel que o solo fique bem destorroado mesmo que a operação de gradagem necessite ser repetida (Figura 11). Deve-se evitar a utilização da enxada rotativa, para que não haja uma pulverização do solo, com prejuízo de sua estrutura física.

Foto: Luis Antônio Suita de Castro

Fig. 2 Preparo do solo para plantio das mudas de batata-doce com alta sanidade mostrando a formação dos canteiros de multiplicação.


Espaçamento e plantio


Os espaçamentos mais utilizados para produção de raízes são de 0,80 a 1,00 m entre leiras e 0,25 a 0,50 m entre plantas. Cultivares que produzam raízes grandes devem ser plantadas com espaçamentos menores.
Durante a operação de plantio, deve-se evitar a exposição das mudas ao sol. As covas devem ser de tamanho suficiente para acomodar todas as raízes, sem dobras e bem distribuídas. Deverão ser feitos sulcos na terra previamente preparada, com profundidade de 10 cm e no espaçamento desejado. O adubo deve ser distribuído e incorporado no sulco. O plantio das mudas sobre as leiras ou camaleões é o método mais indicado e recomendado. A leira deve ter de 0,30 a 0,40 m de altura. Durante o plantio, as mudas devem ser retiradas dos vasos onde ocorreu o desenvolvimento inicial, fazendo-se a poda das raízes enoveladas que se formaram na base, caso contrário ocorrerá menor formação de batatas ou batatas mais alongadas. Colocada a muda na cova, com uma enxada ou com as mãos, adiciona-se terra até a cobertura total do sistema radicular (Figura 12). É recomendável fazer o plantio nas horas mais amenas do dia, pois temperaturas altas podem ocasionar danos a muda. Após o plantio, o solo deve ser umedecido, para facilitar o pegamento das plantas (Figura 13).

Foto: Luis Antônio Suita de Castro

Fig. 3 Plantio das mudas de batata-doce.

Foto: Luis Antônio Suita de Castro

Fig. 4 Umedecimento do solo após o plantio, para facilitar o pegamento das plantas de batata-doce.


Adubação


As exigências minerais da cultura envolvem o potássio, nitrogênio, fósforo, cálcio e magnésio. De forma geral, em solos férteis, pode-se usar 500 kg ha-1 (NPK) da fórmula 4 -14 -8. Em solos já cultivados com hortaliças há possibilidade de não adubar, utilizando-se os nutrientes residuais da cultura anterior. A adubação nitrogenada deve ser realizada 50% no plantio e o restante em cobertura, aos 30 e 45 dias após (Figuras 14 e 15). A adubação orgânica pode ser utilizada como complementar à adubação mineral e para melhorar as condições físicas do solo. O nitrogênio é importante, mas se aplicado em excesso pode haver crescimento da parte aérea, em detrimento da formação de raízes. O fósforo é indispensável durante o desenvolvimento das raízes e o potássio oferece maior resistência aos tecidos, evitando a formação de raízes muito compridas (Lemos et al., 1992).

Foto: Luis Antônio Suita de Castro

Fig. 5 Adubação de cobertura em batata-doce, realizada 45 dias após o plantio.

Foto: Luis Antônio Suita de Castro

Fig. 6 Processo de incorporação da adubação de cobertura em batata-doce.

A análise visual das plantas é um valioso instrumento para o diagnóstico de deficiências ou de toxidez nutricionais. A deficiência indica uma condição aguda de falta de nutriente, já que os sintomas somente se evidenciam quando esta se encontra em estágio avançado, ocasionando, nesse caso, um retardamento do crescimento e prejuízos à produção e à qualidade das raízes comercializadas, entre outros problemas.
Quando a observação das folhas revela determinadas características, pode se suspeitar de uma deficiência nutricional. Tais padrões são mais ou menos específicos para cada nutriente. No entanto, os sintomas carenciais podem variar de acordo com a cultivar e fatores ambientais. Até o momento, ainda não são conhecidos os sintomas carenciais para todos os nutrientes desta cultura. Em outras espécies cultivadas, às vezes acontece que os sintomas visuais de dois nutrientes são idênticos.
Certas viroses e infestações provocadas por insetos podem produzir sintomas similares aos de uma deficiência nutricional. Entretanto, o padrão com que se apresentam nas folhas permite fazer a distinção.
Quando os sintomas são bem conhecidos, esse método de diagnose nutricional, sem dúvida, é o mais rápido, fácil e barato que se conhece.


Controle de plantas invasoras


Herbicidas de contato ou sistêmicos podem ser utilizados antes do plantio, quando o solo é previamente preparado e deixado em repouso por alguns dias, evitando que ocorra a germinação das sementes das plantas invasoras existentes no solo (Figura 16). O plantio das mudas de batata-doce pode ser realizado alguns dias depois. Posteriormente a capina é geralmente realizada manualmente, no início do aparecimento das plantas invasoras,uma vez que não existem herbicidas registrados para essa cultura (Figuras 17).
O local deve ser mantido limpo até 60 dias após o plantio, período durante o qual ocorre cobertura total do terreno pelas ramas da batata-doce, impedindo o crescimento de plantas invasoras (Figura 18).

Foto: Luis Antônio Suita de Castro

Fig. 7 Herbicidas de contato ou sistêmicos podem ser utilizados antes do plantio, evitando o crescimento de invasoras no início do desenvolvimento das plantas de batata-doce.
Foto: Luis Antônio Suita de Castro

Fig. 8 Capina manual para manutenção do canteiro de multiplicação livre de plantas invasoras até 60 dias após o plantio das mudas de batata-doce.

Foto: Luis Antônio Suita de Castro

Fig. 9 Antes da cobertura total do terreno pelas ramas da batata-doce, as invasoras que vierem a se desenvolver nos canteiros de multiplicação, podem ser eliminadas por arranquio manual.

Irrigação

Em regiões onde a precipitação é insuficiente para atender a demanda de água ao crescimento e desenvolvimento da planta e das batatas, ou ainda, precipitações mal distribuídas, há necessidade de se utilizar a irrigação (Figura 19). Em caso de ocorrência de estresse hídrico, pode ocorrer redução na produção.

Foto: Luis Antônio Suita de Castro

Fig. 10 Processo de irrigação dos canteiros de multiplicação, visando suprir a carência de chuvas durante o início do estabelecimento das plantas de batata-doce.

Em épocas secas, as irrigações devem ser feitas duas vezes por semana até os 20 dias e uma vez por semana, dos 20 aos 40 dias. A partir desse período, pode ser realizada uma irrigação em intervalos de 15 dias. O excesso de água provoca desenvolvimento da parte aérea e diminuição da produção de batatas.


Colheita


Como a batata-doce se constitui em uma raiz, na realidade, não ocorre maturação, não resultando em modificações drásticas na parte aérea das plantas. A colheita é realizada quando as raízes estão no tamanho desejado, normalmente entre 110 e 160 dias após o plantio, entre os meses de fevereiro a março, podendo ser mecanizada ou manual (Figura 20). Antes da colheita, deve-se cortar a rama com enxada, retirando-se as raízes no mesmo dia ou no dia seguinte. As batatas devem ficar expostas ao sol para secar por um período entre 30 minutos e três horas, dependendo da temperatura do dia. Posteriormente, são levadas para local abrigado, classificadas por tamanho e armazenadas em caixas. Essas caixas devem ficar em ambiente com temperatura amena, alta umidade relativa do ar e boa aeração. A prática de lavagem da batata-doce para armazenamento não é recomendada, porque prejudica a conservação. O melhor método de limpeza constitui na escovação para retirada da terra aderida.
A colheita é uma operação muito importante e delicada. Os dois aspectos mais importantes a considerar são: realizar a colheita de forma cuidadosa e identificação correta das cultivares, impedindo que ocorram misturas. A experiência local do agricultor é muito importante na forma de realizar a colheita.
É importante que a colheita seja uma operação muito bem programada. Deve ser enfatizado o manejo cuidadoso, evitando golpes, batidas e feridas que poderão resultar em perdas do produto.
Logo após a colheita, as raízes devem ser selecionadas e classificadas (Figura 21). Chama-se seleção e classificação ao ato de separar as raízes segundo forma, aspecto e dimensão. Este processo pode-se iniciar na colheita, quando devem ser separadas ou descartadas as raízes esverdeadas, manchadas, muito pequenas, na chamada colheita seletiva. Entretanto, o galpão de classificação é onde esta operação deve ser realizada de forma adequada.

Foto: Luis Antônio Suita de Castro

Fig. 11 Colheita de batata-doce obtidas de plantas cultivadas em canteiros de multiplicação a partir de mudas de alta sanidade.

Foto: Luis Antônio Suita de Castro

Fig. 12 Na colheita seletiva da batata-doce, devem ser separadas ou descartadas as raízes esverdeadas, manchadas e muito pequenas.
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