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Embrapa Amazônia Oriental
Sistemas de Produção, 3
ISSN 1809-4325 Versão Eletrônica
Dez./2006
Criação de Bovinos de Corte no Estado do Pará
Sumário
Início
Apresentação
Análise retrospectiva, situação anual e visão prospectiva
Alimentação e nutrição do rebanho
Manejo de plantas daninhas de áreas de pastagens cultivadas
Estratégias de recupação de pastagens no estado do Pará
Reprodução animal
Manejo reprodutivo de bovinos de corte
Melhoramento animal
Manejo sanitário
Instalações zootécnicas
Coeficientes técnicos, custos, rendimentos e rentabilidade
Mercado e comercialização
Cadeia produtiva da pecuária de corte no estado do Pará
Referências

Glossário

Autores
Expediente

  Estratégias de recuperação de pastagens no estado do Pará
 

As estratégias de recuperação de pastagens degradadas, em regiões dentro do Trópico Úmido Brasileiro, não seriam muito diferentes daquelas que poderiam ser empregadas em outros ecossistemas tropicais, como o ecossistema de cerrados, no Brasil Central. Segundo Dias-Filho (2003), podem-se considerar três estratégias principais para esse fim:

• Renovação da pastagem.

• Implantação de sistemas agroflorestais e agrícolas.

• Pousio da pastagem.

A escolha de cada uma dessas estratégias estaria condicionada a diversos
fatores de natureza econômica, agronômica e ecológica. Esses fatores, por sua
vez, seriam influenciados pelo capital disponível pelo produtor, pela localização
geográfica da área, pelo estádio e forma de degradação e, principalmente, pelo preço do boi (ou do leite) e a disponibilidade de caixa, além do preço da terra e a sua importância do ponto de vista agrícola e ecológico.

A seguir, serão descritas e comentadas essas estratégias de recuperação,
conforme apresentadas em Dias-Filho (2003).

Renovação da pastagem


Em situações em que a proporção de capim e de leguminosas forrageiras na
biomassa aérea total da comunidade de plantas da pastagem é muito baixa ou
inexistente, qualquer esforço direcionado para a reutilização da área como pasto deve ser visto como processo de renovação da pastagem (Dias-Filho, 1986), isto é, novo processo de formação (estabelecimento) da pastagem terá que ser desenvolvido.

As estratégias de renovação da pastagem degradada estarão condicionadas a
fatores como o tamanho (pequenas ou grandes propriedades) e o tipo (sistema
familiar ou empresarial) da área a ser recuperada, os tipos e estádio de
desenvolvimento das plantas daninhas (se predominantemente herbáceas ou
lenhosas de médio ou grande portes) e ao capital disponível para o processo de renovação.

Em pequenas propriedades, com características de agricultura familiar e onde as plantas invasoras da pastagem degradada sejam predominantemente de porte baixo, o processo de renovação poderia constar de práticas simples, como o plantio manual do capim nas áreas de solo descoberto e, opcionalmente, alguma forma de controle manual das plantas daninhas.

Dependendo da agressividade do capim e da sua capacidade de propagação natural, o processo de recuperação da pastagem poderia ser alcançado em tempo relativamente curto. Porém, nessas pastagens renovadas, o equilíbrio entre a produtividade e a degradação seria, de certa forma, tênue. Isso se deveria à ausência da aplicação de insumos, como adubos e herbicidas e a não-utilização de estratégias de manejo mais agressivas no controle das invasoras, como a gradagem do solo, que aumentaria a velocidade de estabelecimento do capim e interromperia o ciclo de proliferação das plantas daninhas na área. Esse sistema de renovação de pastagem degradada foi testado por Mitja et al. (1998), na região de Marabá, Estado do Pará, utilizando o capim andropógon (Andropogon gayanus). Os resultados mostraram que esse capim foi eficiente em recuperar a produtividade da pastagem invadida por plantas daninhas herbáceas. Os autores relatam, ainda, que o percentual do capim andropógon na área subiu de 3% para 70%, no primeiro ano, após a implantação, permanecendo com valores próximos a 70%, nos anos subseqüentes.

Em áreas mais extensas, destinadas à pecuária empresarial e onde haja alto
percentual de plantas daninhas de grande porte, a renovação da pastagem
degradada normalmente envolve o enleiramento, utilizando trator (quando exista
grande percentual de plantas daninhas lenhosas e resíduos da vegetação original, de difícil remoção, como tocos e troncos), a gradagem do solo, a adubação e a semeadura. Dependendo da situação, o processo de renovação pode também ser precedido apenas da roçagem, ou da roçagem seguida da queima das plantas daninhas, antes da semeadura e adubação da nova pastagem.

Por causa do preparo mais cuidadoso da área, visando à renovação da
pastagem, pode-se supor que as pastagens recuperadas, pelo processo descrito acima, apresentem estabelecimento mais uniforme e rápido e,
conseqüentemente, maior longevidade produtiva do que a de novas pastagens,
formadas após a derrubada e queima da floresta (Dias-Filho, 2003).

Diversos estudos desenvolvidos no Estado do Pará têm mostrado que, para
essa região, a adubação necessária para a renovação de pastagens degradadas seria, basicamente, a fosfatada, utilizando-se quantidades relativamente baixas desse nutriente (normalmente, doses menores do que 500 kg de superfosfato simples por hectare) por ocasião da semeadura do capim (Serrão et al. 1979; Dias-Filho, 1986; Dias-Filho & Serrão, 1987; Dias-Filho & Simão Neto, 1992). Normalmente, a prática da calagem precedendo a adubação fosfatada é necessária para a renovação de pastagens em solos de cerrado (no Brasil Central, por exemplo). No entanto, no Trópico Úmido, em solos originalmente sob floresta, que sofreram queima durante o processo de abertura, sua importância é diminuída. Tal fato se deve aos níveis relativamente satisfatórios de cátions básicos e dos baixos teores de alumínio, normalmente encontrados nesses solos, principalmente naqueles de textura mais argilosa.

Essas características são, principalmente, decorrentes do efeito residual no solo das cinzas e do calor do fogo, causados pela queima da vegetação original.

Embora do ponto de vista puramente biológico, a adubação da pastagem
renovada seja prática normalmente necessária, independente do ecossistema em que ela foi originalmente formada, do ponto de vista econômico, ainda existem restrições por parte de alguns produtores para a sua utilização. De fato, a economicidade da adubação de pastagens é tema complexo, dependente de
diversos fatores. Por exemplo, em estudo econômico feito sobre a adubação de pastagens (Nehmi Filho, 2002), concluiu-se que a rentabilidade dessa prática estaria atrelada ao preço do boi e a disponibilidade de caixa. Em virtude disso, adubações iniciais leves, quando comparadas a adubações intensivas, seriam mais eficientes por necessitarem de menor aporte de capital para a expansão do rebanho (necessária por causa do aumento na produção de forragem, após a adubação). Segundo o mesmo estudo, na eventual melhoria das condições de caixa e do preço do boi gordo, adubações complementares de manutenção poderiam ser feitas.

Um detalhe importante que deve ser considerado quando se adubam pastagens, diz respeito ao manejo pós-adubação. Esse manejo deve incluir práticas que diminuam as perdas excessivas de forragem, causadas pelo rápido aumento na produção do capim, bem como o declínio do seu valor, causado pelo aumento na taxa de crescimento da pastagem. Segundo Corsi et al. (2001), em situações cuja taxa de crescimento da pastagem seja muito alta, o pastejo rotativo, quando comparado ao pastejo contínuo, é a alternativa mais
apropriada para utilizar, mais eficientemente, o aumento de produção de
forragem provocado pela adubação.

Uma das fases mais importantes do processo de renovação (ou formação) de
pastagens é a semeadura do capim. A qualidade das sementes utilizadas e a
taxa de semeadura empregada são muito importantes para o sucesso dessa
atividade. O percentual de pureza (que indica o percentual de contaminação do
lote de sementes, por sementes de outras espécies ou resíduos inertes) e o
percentual de germinação do lote de sementes devem ser levados em
consideração na decisão da taxa de semeadura. Portanto, para o cálculo da taxa de semeadura, deve-se conhecer o percentual de sementes puras que podem germinar em um lote de sementes. Para esse cálculo, deve-se conhecer o valor cultural (v.c.%) do lote de sementes. O v.c.% é calculado pela fórmula: v.c.% = (% P × % G) ÷ 100, na qual %P é o percentual de pureza e %G é o
percentual de germinação. Assim, o valor cultural representaria a percentagem
de sementes viáveis, isto é, que seriam capazes de germinar, caso
encontrassem condições favoráveis no solo (Dias-Filho, 1986). Por exemplo,
se um lote de sementes de B. brizantha tivesse valor cultural de 25%, então,
em 20 kg dessas sementes, apenas 5 kg seriam compostos por sementes de B. brizantha capazes de germinar; os outros 15 kg seriam formados por sementes mortas de B. brizantha, sementes de outras espécies ou impurezas como solo, palha e outros resíduos orgânicos e inorgânicos.

Embora o problema da baixa proporção de sementes viáveis em um lote com
baixo valor cultural possa ser parcialmente contornado pelo aumento na taxa de
semeadura, o perigo em utilizar sementes de baixo valor cultural seria a
possibilidade de está colocando no solo sementes de plantas daninhas e ovos
de insetos, como a cigarrinha das pastagens, que poderiam fazer parte das
impurezas do lote.

Qualquer atividade de manejo, desenvolvida após a semeadura da pastagem,
deve visar à consolidação do processo de formação. O pastejo no ano do
estabelecimento da pastagem deve apenas ter o objetivo de ajudar a formação da pastagem, não devendo ser dada grande prioridade para a utilização do pasto na alimentação do gado. Portanto, o primeiro pastejo deve ser adiado ao máximo, objetivando o desenvolvimento do sistema radicular do capim plantado.

Implantação de sistemas agroflorestais e agrícolas

Os sistemas agroflorestais e agrícolas têm sido apontados como alternativas
ecologicamente mais apropriadas para recuperar a produtividade de áreas
tropicais degradadas, ou para manter a produtividade econômica dessas áreas, sem causar a degradação do solo e dos recursos hídricos (Lal, 1991). A
implantação desses sistemas, em atividades de exploração pecuária, tem sido
apontada como fator importante de intensificação da atividade de criação de
ruminantes, na América Latina (Ibrahim et al. 2001) e, particularmente, na
Bacia Amazônica (Loker, 1994).

Existem diversos sistemas agroflorestais e agrícolas relacionados à produção
animal, em uso na América Latina. Poder-se-ia considerar dois sistemas como
alternativas para a recuperação de pastagens degradadas no Estado do Pará:

• Sistemas silvipastoris plantados ou com manejo da vegetação secundária.

• Sistemas agropastoris.

Sistemas silvipastoris

A integração de árvores com pastagens (sistema silvipastoril) tem sido
recomendada para diversos ecossistemas da América Latina (Ibrahim et al.
2001) e, particularmente, para a Região Amazônica (Montagnini, 2001). Essa prática pode trazer vários benefícios para o meio ambiente, quando comparados à pastagem tradicional, sem a presença de árvores. Alguns desses benefícios, listados por Ibrahim et al. (2001), seriam:

• Conservação do solo.

• Conservação dos recursos hídricos.

Em alguns casos, os sistemas silvipastoris podem também ter como objetivo
principal a suplementação da dieta do gado, durante períodos de baixa
produtividade do pasto, por meio do consumo da folhagem e frutos produzidos
pelas árvores (Casasola et al. 2001).

Os benefícios para o solo, decorrentes da implantação de sistemas silvipastoris
resultariam da melhoria, em médio e longo prazos, na ciclagem de nutrientes,
causada pela absorção desses elementos pelas raízes das árvores, de camadas mais profundas do solo e a posterior deposição no solo superficial de parte desses nutrientes, por meio da decomposição de folhas, raízes, etc. Sem a intervenção das raízes das árvores, atuando como “rede de retenção”, parte
desses nutrientes seriam perdidos por lixiviação. Sistemas silvipastoris
possuem também a capacidade de utilizar a água das camadas mais profundas do solo, a qual seria normalmente perdida em sistemas tradicionais de pastagens (Gyenge et al. 2002). Outro beneficio é a melhoria na atividade
biológica do solo, principalmente se a árvore for capaz de associar-se a
microrganismos que fixem o nitrogênio do ar, como ocorre com certas
leguminosas.

Assim, a recuperação de pastagens degradadas, por meio da implantação de
sistemas silvipastoris, isto é, onde a pastagem fosse reimplantada, em conjunto
com o plantio de árvores para fins agrícolas (como para produção de frutos) ou
unicamente florestais (para a produção de madeira, carvão, etc.), ou, ainda,
onde fosse incentivada a regeneração natural de espécies florestais (manejo da
vegetação secundária), dentro da pastagem, poderia ser uma alternativa viável o crescimento da eficiência econômica e agronômica, aumentando a diversidade biológica e promovendo a conservação dos nutrientes e da água nessas áreas improdutivas, do ponto de vista agronômico ou biológico.

Informações publicadas a respeito de técnicas de implantação e de manejo para a manutenção de sistemas silvipastoris, em áreas degradadas, são raras.

Para o Estado do Pará, por exemplo, estudos sobre a implantação de sistemas
silvipastoris, especificamente para a recuperação de pastagens degradadas, não têm sido divulgados na literatura especializada.

As maiores dificuldades operacionais na implantação de sistemas silvipastoris,
em pastagens degradadas, são a formação das mudas das árvores e o plantio
dessas na pastagem recuperada. A razão disto é que ambas atividades
demandariam mão-de-obra mais intensa e relativamente mais qualificada do que a que seria empregada apenas no processo tradicional de renovação da
pastagem. No entanto, a aquisição de sementes para a formação das mudas das árvores, ou mesmo a aquisição das mudas já prontas, poderiam ser fatores mais limitantes na fase de implantação do sistema em algumas regiões. Tais
problemas poderiam ser parcialmente diminuídos se, com popularização do
sistema, entidades governamentais, ou mesmo particulares, fornecessem mudas ou sementes de árvores a baixo custo. Em alguns locais, no entanto, a
produção das mudas das árvores onde o sistema seria implantado, poderia ser a forma mais adequada de viabilizar a adoção do sistema silvipastoril, pois
diminuiria os custos com o transporte das mudas.

No período de estabelecimento de sistemas silvipastoris, o maior desafio de
manejo seria proteger as árvores em fase inicial de desenvolvimento do excesso de radiação solar direta, do excesso de vento, da baixa umidade do ar, do pisoteio e da herbivoria pelo gado e animais silvestres, da competição pelas plantas daninhas e plantas forrageiras e do fogo acidental. O ataque de pragas, como as saúvas, por exemplo, pode também limitar o estabelecimento das árvores em sistemas silvipastoris.

Uma das formas de proteção de árvores em sistemas silvipastoris seria a
construção de cercas temporárias de madeira, arame, ou de tela, ao redor das
árvores.

Após a implantação do sistema silvipastoril, algumas práticas de manejo,
normalmente comuns em pastagens tradicionais, como o uso do fogo e a
aplicação de herbicidas, teriam que ser evitadas ou utilizadas sob maior
controle, por possíveis danos causados às árvores.

A probabilidade de sucesso de sistemas silvipastoris pode ser aumentada com
o uso de espécies mais adaptadas. Assim, tanto as árvores como as forrageiras teriam que ser tolerantes aos estresses inerentes a esse sistema.

No caso das forrageiras, aquelas com maior tolerância ao sombreamento são as mais adequadas. Estudos sobre o desempenho de capins em sistemas silvipastoris, mostram que tanto a Brachiaria humidicola, quanto a B. brizantha apresentam desenvolvimento satisfatório nessa condição (Carvalho, 1998; Ibrahim et al. 2001). De fato, sob sombreamento contínuo, ambas as espécies são capazes de promover ajustes fenotípicos, que parcialmente compensam a capacidade de crescimento sob estresse de luz (Dias-Filho, 2000). Para as árvores, a espécie ideal teria que ter crescimento inicial relativamente rápido, para facilitar o estabelecimento, copa reduzida e fuste longo, para diminuir o sombreamento na pastagem e a capacidade de regeneração rápida, quando parcialmente danificada. Para o Estado do Pará, algumas das espécies que poderiam, pelo menos parcialmente, preencher esses requisitos, seriam o paricá (Schizolobium amazonicum), o mogno africano (Khaya ivorensis), o mogno brasileiro (Swietenia macrophylla) e a andirobeira (Carapa guianensis) (Dias-Filho, 2003).

Por causa da maior complexidade de implantação e de manutenção, aos maiores custos e à maior necessidade de mão-de-obra e de infra-estrutura, a adoção, em larga escala, de sistemas silvipastoris, para a recuperação de pastagens degradadas, ainda não é prática comum no Brasil. No Estado do Pará, por exemplo, além da falta de informações tecnológicas e da necessidade de maior quantidade de mão-de-obra e infra-estrutura para a implantação e manutenção, outros fatores de natureza socioeconômica também seriam responsáveis pela baixa taxa de adoção dos sistemas silvipastoris, na recuperação de pastagens degradadas. Dentre estes fatores, estariam o preço relativamente baixo da terra e a grande extensão dessas áreas. Tais fatores contribuiriam para que as atividades que demandassem maior aporte de recursos financeiros não fossem economicamente viáveis, pois o retorno do investimento poderia ser reduzido em curto ou médio prazo. Por sua vez, muitos produtores locais de carne e leite geralmente não têm tradição e experiência para lidar com atividades que sejam diferentes da pecuária tradicional.

Já em locais mais próximos a centros urbanos, onde a maior pressão
populacional causaria a diminuição relativa do tamanho da propriedade rural e
incentivaria a melhoria na qualidade de estradas ou outras formas de infraestrutura pública, o preço da terra e a facilidade de escoamento e comercialização da produção poderiam ser relativamente maiores. Nessa situação, o incentivo seria maior para a adoção, em maior escala, de sistemas que demandassem maior investimento de dinheiro e tempo, aumento da produtividade por área e diversificação de produção, como os sistemas silvipastoris.

Sistemas agropastoris
A utilização de sistemas agropastoris na recuperação de pastagens consiste no plantio de culturas anuais (de ciclo curto), como o milho, o arroz, a soja, etc.
nessas áreas. Um dos principais objetivos dessa prática seria viabilizar
economicamente o processo de renovação da pastagem degradada,
amortizando parte dos custos de recuperação, pela comercialização da produção da cultura anual.

Segundo Dias-Filho (2003), a viabilidade econômica desse sistema estaria
condicionada aos seguintes fatores:

• A existência de mercado para a comercialização dos grãos produzidos, com
preço que justifique economicamente o uso dessa prática.

• A disponibilidade de mão-de-obra ou de máquinas agrícolas, para o plantio da cultura e para a colheita dos grãos.

• A existência de infra-estrutura para o armazenamento e o posterior transporte
dos grãos, para o local de comercialização.

Basicamente, existem duas formas de promover a recuperação de pastagens
degradadas com o plantio de culturas anuais:

• Plantio consorciado da cultura anual com a pastagem.

• Plantio exclusivo da cultura anual, durante determinado período, e plantio da
pastagem após a colheita da última safra da cultura.

No primeiro caso, o plantio da cultura de ciclo curto (milho ou arroz, por
exemplo) é feito em conjunto com o plantio do capim e a adubação da cultura.
Normalmente, a cultura é plantada em linhas, juntamente com a adubação, e o
capim é plantado entre as linhas da cultura. Em locais onde exista sementeira
do capim (sementes do capim no solo, oriundas da pastagem original), como
normalmente ocorre no Brasil Central, não haveria necessidade da semeadura
do capim, que seria estabelecido naturalmente, pela germinação das sementes
existentes no banco de sementes do solo. Nesse sistema, a pastagem estaria
apta para ser utilizada após a colheita da cultura anual.

No sistema de consórcio da cultura de ciclo curto com a pastagem existe certo
atraso no tempo de formação da pastagem e queda na produtividade da cultura, decorrente da competição, quando comparados aos desempenhos destes, separadamente. Porém, normalmente, a baixa produtividade que poderia ser obtida com a cultura anual, associada à pastagem, seria compensada pelo barateamento do custo de renovação da pastagem, que é o objetivo final do processo.

A outra forma de integrar práticas agrícolas com a pecuária, objetivando a
recuperação da pastagem, é a implantação de culturas anuais como soja, arroz,
milho, sorgo ou girassol, ou, preferencialmente, a rotação destas em locais
originalmente sob pastagem degradada, por determinado período (normalmente, de um a três anos), implantando-se a pastagem, geralmente, em sistema de plantio direto, somente após a colheita da última lavoura. Uma das maiores dificuldades para a implantação desse sistema seria o controle do capim, tanto na forma de plantas já estabelecidas, oriundas da pastagem degradada original, como as plantas formadas espontaneamente, a partir do banco de sementes do solo; essas plantas teriam que ser controladas pela aplicação de herbicidas. Em grande parte do Estado do Pará, onde a produção natural de sementes de várias espécies do gênero Brachiaria é normalmente baixa, ou mesmo inexistente, por causa do efeito da latitude baixa, que não estimula a formação de sementes dessas plantas, a infestação da lavoura por essas gramíneas poderia ser menor, pois novas plantas do capim não seriam formadas a partir das sementes existentes no solo. Essa condição diminuiria os custos de implantação do sistema. De fato, levantamento feito no banco de sementes de pastagens de B. humidicola e B. brizantha, no Nordeste do Estado do Pará (Silva & Dias-Filho, 2001), revelou que não existiam sementes viáveis dessas espécies no solo. No Nordeste do Estado do Pará (Região Bragantina), o plantio do feijão caupi (Vigna unguiculata), em sistema de plantio direto, seria uma das alternativas para recuperar pastagens degradadas de Brachiaria humidicola. Nesse caso, estaria sendo utilizada uma cultura de ciclo curto, adaptada à região, muito bem aceita no mercado e com necessidade relativamente baixa de insumos (adubos e defensivos) para alcançar produtividades satisfatórias.


Pousio da pastagem para a recuperação da vegetação secundária

Formação natural da vegetação secundária

Geralmente, por razões econômicas ou logísticas, ou ainda, para recuperar áreas que não deveriam ter sido desmatadas, como aquelas localizadas em encostas de morros, ou ao longo de cursos d’água, algumas pastagens degradadas podem ser simplesmente abandonadas, por tempo indefinido, podendo ou não ser reutilizadas, no futuro, para nova formação (renovação) da pastagem, ou para outro fim agropecuário ou florestal. No caso de pastagens formadas em áreas originalmente sob floresta, após o abandono, o local passa a ser paulatinamente invadido por arbustos e árvores, que, com o decorrer do tempo, podem levar à formação de vegetação característica de capoeira.

Os fatores que influenciam a taxa de formação da floresta secundária, em
pastagem abandonada, ainda são pouco entendidos. No entanto, a baixa
disponibilidade no solo de sementes e propágulos, a alta taxa de predação de
sementes e plântulas, a baixa fertilidade do solo e a competição com o capim
remanescente têm sido propostas como as principais barreiras para a formação da floresta secundária, em pastagens abandonadas. Pastagens que sofreram formas mais agressivas de utilização, como aquelas causadas pelo emprego de queimas freqüentes, superpastejo, aplicação sistemática de herbicidas ou uso freqüente de mecanização, para o controle de plantas daninhas, quando abandonadas, apresentariam taxa de ocupação pela vegetação secundária mais lenta do que as pastagens que foram utilizadas com menor intensidade. A razão de tais barreiras é que nas pastagens que sofreram utilização agressiva, haveria menos sementes no solo do que nas áreas utilizadas menos intensamente.

Entretanto, nesses locais, outras formas de regeneração da vegetação
secundária, como a rebrota de raízes, bulbos ou de outras estruturas
vegetativas, teriam sofrido maior taxa de esgotamento, pela ação mais intensa
de formas de controle, como a aplicação de herbicidas, queima e roçagens
freqüentes. Finalmente, em muitas dessas áreas, os níveis de fertilidade do solo
seriam relativamente baixos e a compactação do solo seria grande. Essas
características atrasariam a taxa de ocupação e a velocidade de
desenvolvimento da vegetação secundária.

Manejo da vegetação secundária

O processo natural de sucessão da vegetação secundária, em pastagens
degradadas abandonadas, poderia sofrer intervenções, por controle seletivo
(por exemplo, por meio do raleamento) da vegetação secundária natural,
visando dificultar o desenvolvimento de plantas indesejáveis e facilitar o
estabelecimento das plantas consideradas desejáveis.

Outra forma de manejo da vegetação secundária, para a recuperação de áreas
degradadas, seria o plantio estratégico de espécies com superior capacidade de crescimento e acúmulo de biomassa e de nutrientes, ou de maior valor
econômico, em sistemas conhecidos, respectivamente, por “melhoramento” ou
“enriquecimento” da vegetação secundária (Sanchez, 1999). Esses sistemas de manejo vêm sendo recomendados e utilizados em várias regiões tropicais e
subtropicais, sendo ainda indicados como formas de superar as barreiras
naturais para a regeneração da floresta, em pastagens abandonadas ou para
restabelecer composição da floresta primária em florestas secundárias.

No caso de pastagens degradadas abandonadas, os objetivos do melhoramento e do enriquecimento da vegetação secundária são:

• Aumentar a velocidade e a eficiência do processo de sucessão, pelo plantio
de espécies de crescimento rápido, com alta capacidade de acúmulo de
biomassa, capazes de atrair animais dispersores de sementes e de propiciar
condições ambientais que possam facilitar o desenvolvimento das demais
espécies vegetais, no processo de sucessão da floresta.

• Agregar valor econômico à área, pelo plantio de espécies com potencial para
exploração agrícola, como espécies frutíferas ou medicinais, ou para a
exploração de madeira, como espécies florestais.

Esse sistema de manejo da vegetação secundária foi testado em pastagens
degradadas e abandonadas em Paragominas, no Estado do Pará (Nepstad et al. 1991; Pereira & Uhl, 1998; Uhl et al. 1991). Os resultados preliminares
destacaram algumas espécies como promissoras para esse fim, como as
florestais, de crescimento rápido, mogno (Swietenia macrophylla) e taxi-branco
(Sclerolobium paniculatum) e as frutíferas murucizeiro (Byrsonima crassifolia) e
cajueiro (Anacardium occidentale). Outras espécies com potencial para
utilização nesse sistema, na Região do Trópico Úmido, seriam o paricá (Schizolobium amazonicum) e a pupunheira (Bactris gasipaes), consideradas
como de boa regeneração natural, em ecossistema de floresta tropical
(Mostacedo & Fredericksen, 1999).

A adoção, pelos produtores, do sistema de pousio em pastagens degradadas,
dependeria, no entanto, da disponibilidade de terra (pelo fato de a área em
pousio ter que ficar temporariamente indisponível para a atividade agrícola), de
mão-de-obra (para a implantação e a manutenção do sistema de manejo da
vegetação secundária) e reserva de capital (já que, pelo menos temporariamente, a área ficaria economicamente improdutiva). Uma aplicação
prática desse sistema seria a recuperação de áreas que não deveriam ter sido
originalmente desmatadas, como aquelas situadas às margens de cursos
d’água, ou sob relevo muito declivoso, como em encostas de morros.

Custos

O grande desafio, em termos econômicos, para a adoção de tecnologias de
recuperação de pastagens degradadas no Estado do Pará é que a implantação dessas tecnologias é normalmente mais cara do que os procedimentos tradicionais de abertura de novas pastagens em locais sob vegetação natural, como florestas primárias, não obstante as vantagens em produtividade em médio e longo prazo da pastagem recuperada.

Por exemplo, as grandes distâncias entre os centros de produção de adubos e
sementes, nas Regiões Central e Sudeste do Brasil, e a Região Norte, elevam os custos dos fertilizantes e sementes e, conseqüentemente, da recuperação de pastagens no Estado do Pará e outros locais da Região Norte, quando
comparados a outros locais do Brasil. Normalmente, nas áreas mais distantes
de mercados importantes, ou de difícil acesso, os custos são maiores. Esse fato seria causado pelas variações nos preços do aluguel de máquinas agrícolas, do frete para o transporte de adubos e sementes e da mão-de-obra.

Em virtude de tais dificuldades econômicas, em curto prazo, a recuperação é
normalmente mais cara do que a abertura de áreas naturais. De acordo com
Valentim et al. (2000) e Smith et al. (1995), o custo financeiro para a
recuperação de pastagens degradadas, no Estado do Acre, na Amazônia
Ocidental, pode ser de três a quatro vezes maior do que o de formação de
pastagens em áreas recém-desmatadas. Em outros locais da Amazônia, essa
relação seria semelhante, uma vez que os gastos com a mecanização de preparo da terra e, principalmente, com a adubação são inexistentes, ou relativamente bem inferiores, no caso de formação da pastagem em áreas recém-desmatadas.

Do ponto de vista ecológico, no entanto, o custo ambiental e social da
recuperação de pastagens degradadas é bem menor, por estar indiretamente
preservando ecossistemas naturais complexos, como florestas e cerrados,
trazendo com isso benefícios, em termos globais, à biodiversidade, ao ciclo do
carbono e às taxas de mudanças climáticas (Dias-Filho, 2003). No entanto, por
intermédio da recuperação de pastagens reutilizar-se-ia área já desmatada e
improdutiva, do ponto de vista agrícola. Além disso, espera-se que uma
pastagem renovada (recuperada) seja mais produtiva, em médio e longo prazo,
do que uma pastagem, de igual tamanho, recém-formada, após a derrubada da
floresta. Por exemplo, estudo de Mattos & Uhl (1994), conduzido na Região
de Paragominas, Estado do Pará, mostra que, embora o investimento para
recuperar pastagens degradadas seja considerável, os retornos desse
investimento são de três a dez vezes maiores do que aqueles oriundos de
atividades mais extensivas de manejo de pastagem.

A recuperação de pastagens degradadas seria possível, tanto para pequenas,
médias e grandes propriedades criadoras de gado que enfrentam esse problema.

A redução de desmatamentos e queimadas, na Amazônia, está diretamente
relacionada à possibilidade de intensificar as áreas de pastagens na fronteira
interna já aberta. Portanto, como medida de política pública, algumas práticas
relacionadas a investimentos para a recuperação de pastagens degradadas
deveriam ser motivo de linha de crédito específico, pelos seus altos benefícios
social e ambiental (Dias-Filho, 2003).

Em pastagens em que o processo de degradação seja caracterizado pelo
aumento no percentual de plantas daninhas, como geralmente ocorre no Estado
do Pará, o percentual de biomassa dessas plantas seria o fator determinante na quantidade de mão-de-obra empregada e, conseqüentemente, no tempo e
dinheiro gastos, no processo de recuperação (Dias-Filho, 1998).

 
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