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Embrapa Amazônia Oriental
Sistemas de Produção, 3
ISSN 1809-4325 Versão Eletrônica
Dez./2006
Criação de Bovinos de Corte no Estado do Pará
Sumário
Início
Apresentação
Análise retrospectiva, situação anual e visão prospectiva
Alimentação e nutrição do rebanho
Manejo de plantas daninhas de áreas de pastagens cultivadas
Estratégias de recupação de pastagens no estado do Pará
Reprodução animal
Manejo reprodutivo de bovinos de corte
Melhoramento animal
Manejo sanitário
Instalações zootécnicas
Coeficientes técnicos, custos, rendimentos e rentabilidade
Mercado e comercialização
Cadeia produtiva da pecuária de corte no estado do Pará
Referências

Glossário

Autores
Expediente

  Manejo sanitário
 

Introdução
A atividade pecuária evoluída e com boa rentabilidade está fundamentada em
três principais pilares, saúde animal, boa alimentação e melhoramento
genético.Caso haja desequilíbrio entre estes itens, certamente o sistema de
produção estará fadado a não proporcionar retorno econômico ao proprietário.
De nada adianta, portanto, pastagem de boa qualidade e rebanho de alto valor
zootécnico, se os animais não se encontrarem com boa saúde.

O manejo sanitário consiste num conjunto de atividades veterinárias
regularmente planejadas e direcionadas para a prevenção e manutenção da
saúde dos rebanhos. Quando se objetiva prevenir a ação dos agentes
patogênicos sobre os animais, utiliza-se as medidas de higiene e de profilaxia
sanitária (limpeza e higienização das instalações zootécnicas, desinfecção
umbilical do recém-nascido, ingestão precoce do colostro). Por sua vez, quando
se pretende manter os animais aptos a resistir à ação dos patógenos, são
utilizadas as medidas de profilaxia médica (vacinação, vermifugação e banho
carrapaticida). As duas modalidades se completam entre si, entretanto, em
sistemas de produção extensiva de gado de corte, a maior ênfase é dada à
profilaxia médica
.

Vacinações

Vacinar é um dos principais procedimentos do manejo sanitário, pois se trata de um ato inteligente e prudente, com boa relação custo-benefício. A função das
vacinas é propiciar a proteção dos animais contra as enfermidades naturalmente ocorrentes na região onde o rebanho se encontra. As vacinações devem ser encaradas como parte de um programa global de manejo sanitário e devem ser planejadas para o atendimento das necessidades específicas de cada rebanho.

Fatores como idade, sexo, espécie, região geográfica e tipo de manejo
determinam as vacinas a serem utilizadas. Após o estabelecimento de um
programa de vacinação, ele deverá ser regularmente avaliado para se assegurar que suas metas estão sendo atingidas. Animais com histórico de vacinação desconhecido, devem ser imediatamente submetidos a uma vacinação inicial, seguida de uma revacinação quatro semanas após.

Principais vacinas

No Brasil, existem vários tipos de vacinas para uso em bovinos de corte, sendo
algumas contra enfermidades causadas por vírus, bactérias e protozoários.

Existem vacinas recomendadas para uso rotineiro (Tabela 1) e as utilizadas em
condições específicas (Tabela 2). Ambos os tipos têm dose e vias de aplicação
próprias e tempo de duração da imunidade diferenciados. O tempo de
imunidade define o período para revacinação.

As vacinas de uso rotineiro são aquelas programadas para controlar as doenças sabidamente existentes na região onde os animais estão sendo criados. Por outro lado, as utilizadas em condições específicas são aquelas necessárias somente quando for detectada a possibilidade de ocorrência das doenças no local de criação.

A utilização das vacinas varia conforme a categoria animal existente no rebanho
(Tabela 3), umas são altamente recomendadas para uma determinada categoria animal, outras não. A ocorrência da doença, mesmo em animal vacinado, pode acontecer por causa da conservação inadequada da vacina, uso de doses menores que a preconizada, vacina de má qualidade ou quando o animal é infectado ainda no “período negativo” da vacina, ou seja, no período em que o nível de proteção formado pela vacina ainda não é suficiente para impedir que o animal adoeça.


Tabela 1. Vacinas recomendadas para uso rotineiro.
Vacina / Sigla
Dose/Via de aplicação
Duração de imunidade
Clostridiose (C) 2ml/ subcutânea 12 meses
Febre aftosa (FA) 5ml/ subcutânea 6 meses
Brucelose (Br) 2ml/ subcutânea 72 meses

Tabela 2. Vacinas recomendadas para uso em condições específicas.
Vacina / Sigla
Dose/ Via de aplicação
Duração da imunidade
Contra botulismo (Bo)
5 ml / subcutânea
12 meses
Contra raiva (Ra)
2 ml / intramuscular
12 meses
Contra ceratoconjutivite (Ce)
2 ml / subcutânea
9 meses
Contra gangrena gasosa (GG)
2 ml / subcutânea
12 meses
Contra carbúnculo hemático (CH)
1 ml / subcutânea
12 meses
Contra leptospirose (Le)
2 ml / subcutânea
12 meses
Contra pasteurelose (Pa)
2 ml / subcutânea
6 meses

Tanto as vacinações subcutâneas como as intramusculares podem ser
efetuadas no pescoço do animal (tábua do pescoço), e todos os cuidados de
higiene devem ser tomados com o animal, agulhas e seringas.

Tabela 3. Utilização das vacinas conforme a categoria animal.
Vacina (Sigla)
Categoria animal
Período Negativo (Dias)
Reprodutor
Vaca
Bezerro
C
X
X
X
13
Fa
X
X
X
12
Br
15
CH
X
X
8
DVB
X
X
X
7
RBI
X
X
X
2
Bo
X
X
14
Ra
X
X
X
6
Ce
X
X
12
GG
X
14
Le
X
X
X
10
Pa
X
X
21
X¹ = bezzeras

Vermifugações


As vermifugações são realizadas visando ao tratamento, controle e prevenção
das infestações endoparasitárias. Convencionalmente, os medicamentos antihelmínticos são aplicados com função terapêutica (quando o animal apresenta sintomas de parasitismo) ou profilático, buscando minimizar a morbidade ou a mortalidade associada ao parasitismo. Atualmente, os programas de controle parasitário visam maximizar a saúde dos rebanhos, a produtividade e o retorno econômico do sistema de produção. As perdas econômicas ocasionadas pela ausência ou aplicação inadequada de vermífugos podem ser altamente significativas, reduzindo o desenvolvimento ponderal, principalmente em animais jovens, podendo chegar até a morte desses animais.

A importância da infestação parasitária varia, amplamente, conforme a região
geográfica e o tipo de sistema de produção, portanto, é desaconselhável a
fixação de esquemas rígidos de administração de vermífugos. Os melhores
programas de vermifugação são aqueles delineados, considerando-se as metas do produtor, os custos e retorno econômico das vermifugações, além das variáveis climáticas e geográficas. Um programa de vermifugação eficaz, em uma determinada região, nem sempre é eficiente em outro local.

Tabela 4. Principais vermífugos usados em bovinos na Amazônia.
Vermífugo (princípio ativo) Dose
Ivermictina 200 mcg / Kg
Tiabendazol 440 mcg / Kg
Mebendazol 8,8 mcg / Kg
Cambendazol 20 mcg / Kg
Oxfendazol 10 mcg / Kg
Fembendazol 10 mcg / Kg
Oxibendazol 10 mcg / Kg
Levamisol 1 mcg / 20 Kg
Febantel 6,6 mcg / Kg
Doramectina 200 /mcg / Kg
Pirantel 6,6 mcg / Kg


De uma maneira geral, na Amazônia, aconselham-se três aplicações de antihelmíntico durante o ano, isto é, no início e no fim do período chuvoso e
terço final do período seco, sempre se usando vermífugos de largo espectro
(Tabela 4).

A prática de rotação de pastagem e acesso à água para consumo, em
abundância e de boa qualidade, é fundamental para se evitar uma grande
população de parasitas no ambiente e, conseqüentemente, nos animais.
Permite, ainda, interromper o ciclo vital dos parasitas.

Controle de carrapatos

Para que haja o controle efetivo da infestação por carrapatos, é necessário
conciliar o uso correto do banho carrapaticida com o manejo dos animais e da
pastagem. A tentativa de controlar o carrapato apenas por meio de banhos
carrapaticidas não oferece resultado eficaz, pois age somente sobre os
carrapatos que estão parasitando os animais, ou seja, somente 5% da
população total de carrapatos existentes no rebanho. Os outros 95% estão sob
forma de vida livre na pastagem.

Como a temperatura e a umidade possuem grande influência no
desenvolvimento das diversas fases de vida livre dos carrapatos, no período
seco, as temperaturas elevadas, tendem a diminuir a velocidade de
desenvolvimento dos parasitas que se encontram na pastagem, alongando o
seu ciclo vital. Ao contrário, no período chuvoso, ocorre um rápido
desenvolvimento de carrapatos na pastagem, e o ciclo fica mais curto. Em
função disso, ocorrem altas e rápidas infestações nos animais no período
chuvoso e baixas e lentas infestações no período seco. A rotação e descanso
das pastagens devem ser de maior tempo no período seco e de menor tempo
no período chuvoso.

Uma carrapata adulta pode sugar 200 vezes o seu peso, em sangue do animal
parasitado, causando enormes prejuízos, em espoliação sangüínea, em casos de infestação severa, além da transmissão de doenças infecciosas (piroplasmose e anaplasmose) e irritação, danificando o couro.

Deve-se considerar, ainda, que quanto mais animais azebuados no rebanho,
menor é a infestação por carrapatos na pastagem. Dessa maneira, a criação
desses animais certamente contribuirá para o controle dos parasitas. Os banhos carrapaticidas, por sua vez devem ser em número de 3 ou 4, sempre
intercalados de 21 dias, tanto no período seco como no chuvoso.

Principais carrapaticidas

Existem no mercado vários grupos químicos de carrapaticidas (Tabela 5).
Todos eles mostram alta eficácia, quando utilizados corretamente. O uso
incorreto é a principal causa do aumento da resistência dos parasitas ao
inseticida.


Tabela 5. Principais carrapaticidas utilizados em bovinos na Amazônia.
Princípio ativo
Modo de aplicação
Diluição em água
Outras indicações
Cipermetrina
Pulverização
20 ml/20 litros
-
Cyhalotrin
Pulverização
50 ml/20 litros
-
Deltametrina
Pulverização
Pour-on
20 ml/20 litros
10 ml/100 kg de p.v.
Mosca-do-chifre
Fipronil
Pour-on
10 ml/100 lkg de p.v.
Berne
Mosca-do-chifre
Flumethrin
Pulverização
Pour-on
10 ml/20 litros
1 ml/10 kg de p.v.
Berne
Lambdacyhalotrin
Pulverização
Pour-on
20 ml/20 litros
10 ml/100 kg de p.v.
Mosca-do-chifre
Metriphonato
Pulverização
20 ml/20 litros
-
p.v. = Peso vivo

Controle da mosca do chifre
Praga denominada Haematobia irritans, encontrada no Brasil inteiro, onde
ocorram bovinos, são reproduzidas nas fezes frescas dos bovinos. O ciclo de
vida em clima tropical úmido é de 7 dias, praticamente todo no animal
parasitado. Alimentam-se cerca de 20 vezes ao dia, além de espoliação
sanguínea, dor e incômodo, causando perda de peso e depreciação do couro.

O controle é relativamente fácil, pois a maioria dos carrapaticidas é eficaz no
combate à mosca. Em criações extensivas, utilizam-se esfregadores dorsais
impregnados com inseticidas, estrategicamente colocados em locais de maior
concentração dos animais. Outros inseticidas são ministrados como aditivos
alimentares que atuam sobre as larvas depositadas nas fezes. Também são
utilizados brincos impregnados com inseticidas piretróides ou organofosforados.

Utiliza-se, ainda, um controle biológico por intermédio dos besouros africanos,
conhecidos vulgarmente como “rola-bosta”, que destroem as fezes.

Para evitar o aumento de resistência das moscas aos inseticidas, devem-se
alternar os princípios ativos e utilizá-los somente nas infestações severas.

Doenças reprodutivas

As doenças infecciosas e/ou contagiosas como febre aftosa, brucelose e
tuberculose, que, atualmente, têm sido motivo de preocupação dos governos
federal e estadual, representam grande problema para a reprodução dos animais.

A leptospirose tem crescido nos rebanhos, principalmente os suplementados
com misturas múltiplas, resíduos ou grãos, armazenados inadequadamente,
expostos a roedores vetores das enfermidades e posteriormente ministrados aos animais. A doença, uma vez presente no rebanho, se propaga rapidamente.

Outras doenças consideradas emergentes, IBR ou BVD têm merecido cuidados especiais, principalmente por parte dos selecionadores e produtores de leite. Também, as doenças sexualmente transmissíveis, trichomonose e
campilobacteriose, principais responsáveis pelos abortos precoces, em sistema de monta livre, têm contribuído significativamente para a redução da eficiência reprodutiva do rebanho.

Relação ambiente/enfermidade

Modernamente, a enfermidade em um agroecossistema é considerada uma
variável “entrante” ou “resultante”. No primeiro caso, elas surgem no sistema
de produção trazidas por um agente transmissor externo (Ex. febre aftosa). No
segundo caso, elas são geradas dentro do próprio sistema de produção (Ex.
carência nutricional). Em ambos os casos, para que ocorram e se mantenham,
dependem de fatores de risco presentes no ambiente de criação dos animais.
Fator de risco é, portanto, uma inadequação do próprio sistema de produção e
podem ter suas origens na alimentação, nas instalações rurais, nos animais e no manejo, itens que devem permanecer sempre em interação dinâmica entre si.

Qualquer desequilíbrio entre eles é motivo de aparecimento de um estado
mórbido dentro do sistema de produção como um todo.

No que se refere à alimentação, os principais fatores de risco de uma
enfermidade é a inadequação quantitativa e/ou qualitativa das pastagens e/ou
da mineralização. A alimentação tem interferência direta nos animais e indireta
no manejo, e qualquer desequilíbrio entre eles poderá acarretar o surgimento de
uma enfermidade.

Quanto às instalações, é a ausência ou a inadequação delas que favorece o
aparecimento de problemas sanitários no rebanho. Esse item tem interferência
direta na alimentação, nos animais e no manejo. Podemos citar, como exemplo,
a ausência ou inadequação de cochos de sal, que fatalmente provocarão o
surgimento de enfermidades carenciais no rebanho. Outro exemplo, é a
inadequação ou ausência de cercas de contenção que podem provocar alteração no manejo das pastagens e, conseqüentemente, na alimentação dos animais.

Sob o ponto de vista dos animais, deve ser considerado, principalmente, a
espécie, a raça e a aptidão dos mesmos. Caso hajam inadequações nesses três itens, certamente haverá problemas sanitários entre os animais. Um exemplo é a tentativa de criação de raças européias, no Trópico Úmido Amazônico ou manejo de gado leiteiro como se fosse gado de corte. Dentro de um sistema de produção, o item animal interfere diretamente na alimentação, no manejo e nas instalações.

Finalmente, temos o manejo que, como já vimos, deve ser perfeitamente
coerente com os princípios de higiene e de profilaxia, próprios para cada tipo
de sistema de produção. O manejo interfere diretamente nos animais e na
alimentação e indiretamente nas instalações.

Como se pode ver, a relação entre o ambiente onde os animais são criados e as enfermidades é bastante intima. Assim, a melhor maneira de se evitar as
enfermidades em um rebanho é manter em equilíbrio todos os componentes
ambientais do sistema de produção: a alimentação, as instalações, os animais e o manejo. Entretanto, no tratamento de uma enfermidade já ocorrente, não se
deve pensar somente na eliminação do agente patogênico causador do mal
(vírus, bactéria, e parasito), mas também e, principalmente, na eliminação do
fator de risco responsável pelo aparecimento de tal agente.

Síntese

São abordadas neste capítulo as principais práticas de manejo sanitário que
devem ser levadas em consideração em um sistema de produção de bovinos de corte, as quais, em grande parte, respondem pelo êxito do empreendimento.
São analisadas, ainda, de forma sucinta e objetiva, as interações entre os
principais componentes de um sistema de produção, todos responsáveis pelo
surgimento de enfermidades, quando em desequilíbrio entre si.

A saúde, perfeitamente interagida com a alimentação e a genética, forma a base sobre a qual se sustenta qualquer tipo de atividade pecuária.

Vacinar é um dos mais nobres procedimentos do manejo sanitário, pois se trata
de um ato inteligente, prudente e de visão de custo-benefício.

São significativas as perdas econômicas, decorrente da ausência ou aplicação
inadequada de vermífugos. Os melhores programas de vermifugação são
aqueles delineados, considerando-se as metas do produtor, os custos e retorno
econômico das vermifugações, além das variáveis climáticas e geográficas.

De maneira geral, na Amazônia, aconselha-se três aplicações de anti-helmíntico durante o ano: no início e fim do período chuvoso e terço final do período seco, sempre se usando vermífugos de largo espectro.

A tentativa de controlar carrapatos, apenas por meio de banhos carrapaticidas,
não oferece resultado eficaz, por agir somente sobre os carrapatos que estão
parasitando os animais (5% da população). Os outros 95% estão sob forma de
vida livre na pastagem. Integrar o manejo das pastagens com o uso de
carrapaticida é o caminho para alcançar maior eficiência no controle.

Os métodos de controle da mosca de chifre são eficazes e melhoram a eficiência produtiva do rebanho.

A adoção de medidas profiláticas e sanitárias aumenta consideravelmente a
eficiência produtiva do sistema de criação.

A relação entre o ambiente onde os animais são criados e as enfermidades é
bastante íntima. Assim, a melhor maneira de se evitar as enfermidades em um
rebanho é manter em equilíbrio todos os componentes ambientais do sistema
de produção, ou seja: a alimentação, as instalações, os animais e o manejo
animal, em harmonia com o ambiente.

 
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