Embrapa Pecuária Sudeste
Sistemas de Produção, 2
ISSN 1679-1495 Versão Eletrônica
Jul/2003
Criação de Bovinos de Corte na Região Sudeste
Joaquim Bartolomeu Rassini
 
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Irrigação de Pastagens

A distribuição de água de maneira artificial em pastagens por meio de irrigação é a garantia para se produzir como planejado, sem que a falta de chuvas altere os índices de produtividade e de rentabilidade previamente estabelecidos. Entretanto, a utilização dessa tecnologia para exploração de pastagens no Brasil ainda é bastante empírica, sendo às vezes até casual, como o surgimento de projetos na região Centro-Oeste, em decorrência do fracasso de outras explorações agrícolas, como soja, milho, feijão ou tomate. Nesses casos, a opção pela pecuária ocorreu pela busca de alternativas de uso do equipamento de irrigação, normalmente pivô central (Rentero, 1998). Esse fato se deve, basicamente, aos trabalhos sobre irrigação de pastagens desenvolvidos entre 1966 e 1978, que expressavam aumentos de produção entre 20 e 70% ao se utilizar irrigação por 150 dias nas estações de outono e inverno.
Quando comparadas com a produção total do ano, as produções da safra (primavera e verão) e da entressafra (outono e inverno) não se equilibravam, não solucionando um dos maiores problemas da bovinocultura no Brasil, que é a estacionalidade de produção dos pastos. Porém, a partir da década de 80, os trabalhos passaram a comparar as produções de entressafra com as da safra, mudando os valores e os números quanto à técnica de irrigação em pastagens. Em Minas Gerais (Coronel Pacheco), a irrigação de 11 espécies forrageiras promoveu produção na entressafra de 30% da produção anual (5,6 e 18,3 t MS/ha), mas de 44% quando relacionada com a da safra (5,6 e 12,7 t MS/ha) (Alvim et al., 1986). No triângulo mineiro (Uberlândia), a irrigação do capim-tanzânia evidenciou acúmulo de forragem na entressafra de 57% do acúmulo da safra (Benedetti et al., 2000). Na região central do Estado de São Paulo (São Carlos), a produção de forragem na entressafra correspondeu a 53 e 68% da produção da safra, para o capim-tanzânia e o capim-elefante, respectivamente, com aplicação de água de maneira complementar por irrigação, podendo-se diminuir a produção de alimentos de entressafra para os animais, como silagem de milho e de capim, fenos, cana-de-açúcar, aveia e outros (Rassini, 2002a).

Deve-se salientar contudo, que a irrigação é uma tecnologia agrícola final, ou seja, o pecuarista que pretende utilizá-la deve também, ser um bom agricultor. Antes de irrigar o pasto, deve aplicar tecnologias que promovam altas produções de forragem, como preparo do solo, correção da fertilidade do solo com base em análise química, escolha da melhor espécie e cultivar, semeadura em nível a fim de evitar erosões, adubações de manutenção e cobertura para as plantas, e combate a pragas e doenças, especialmente formigas no caso de pastagens.

O manejo da irrigação é um recurso para racionalizar a aplicação de água às culturas de maneira complementar. Requer certos procedimentos para determinar o turno de rega (freqüência), bem como medir a quantidade de água da próxima irrigação (lâmina de água). No Brasil, as dificuldades para utilizar as inúmeras fórmulas para determinar a perda de água das plantas por evapotranspiração, por meio de vários métodos (balanço de água, empíricos de Thorntwaite e Blaney-Criddle e outros), têm levado os irrigantes a fazer o manejo de água com o maior erro do ponto de vista técnico, econômico e ecológico, que é o predeterminado, ou seja, a aplicação de 5, 8, 11, 12, 15 ou "n" mm de água (lâmina de água), a cada 3, 5, 6, 7, 8 ou "n" dias sem chuvas (freqüência).

Para evitar essa prática, foi desenvolvido o método EPS (Evaporação, Precipitação, Solo) para se manejar a água de irrigação, em vista de sua praticabilidade e, principalmente, facilidade de uso. Apesar de empírico, como os demais, envolve apenas dois parâmetros climáticos, mas que respondem por mais de 90% da demanda hídrica das plantas: evaporação e precipitação pluvial. Nesse manejo da água de irrigação, quando a diferença entre a evaporação do tanque do tipo classe A (ECA) e a precipitação pluvial (PRP), durante o desenvolvimento da pastagem, atingir valor de 25 a 30 mm (ECA – PRP = 25 a 30 mm), deve-se aplicar água de maneira complementar às plantas forrageiras, determinando-se a freqüência de irrigação. Para Latossolos de textura média, a quantidade de água a ser aplicada deve ser de 16 a 21 mm nos primeiros 20 cm de profundidade, que é a capacidade de armazenamento de água desses solos, determinando-se a lâmina de água. Deve-se ressaltar que os Latossolos de textura média compõem grande parte dos solos brasileiros (Rassini, 2002 b).

No Brasil, o uso da água foi institucionalizado pela lei Federal 9984/00, criando-se a Agência Nacional das Águas (ANA), cuja missão é implementar políticas, bem como criar resoluções sobre o gerenciamento dos recursos hídricos. Dentre essas, o aproveitamento da água para irrigação, quando essa atividade gerar concorrência entre os usuários, ou mesmo cause impactos ambientais, torna-se necessário a emissão de "outorga". A outorga, nada mais é do que o instrumento necessário para assegurar ao usuário o efetivo direito de acesso à água, bem como realizar os controles quantitativo e qualitativo dos recursos hídricos. A ANA é a responsável pela análise dos pleitos e da emissão de outorgas de direito de uso de recursos hídricos de domínio da União (rios ou lagos que banham mais de uma unidade federada, ou que sirvam de fronteira entre essas unidades, ou de fronteira entre o território do Brasil e o de um país vizinho). Em corpos hídricos de domínio dos Estados e do Distrito Federal, a solicitação de outorga deve ser feita às respectivas autoridades outorgantes estaduais. Atualmente, 20 unidades da Federação possuem legislações sobre recursos hídricos.

De acordo com a cobertura vegetal da superfície do solo pelas pastagens, recomenda-se utilizar a irrigação por aspersão. É um sistema, basicamente composto por tubulações, aspersores e conjunto motobomba, para captar água de determinada fonte (rios, lagos, represas e outras) e conduzi-la até as plantas. É mais indicado para solos de boa infiltração (franco-arenosos), que requerem irrigações mais constantes e em menor quantidade, a fim de não exceder a capacidade de armazenamento de água (Figura 8.1).

Figura 8.1. Modelo esquemático de diversos sistemas de irrigação por aspersão utilizados no Brasil.

Os sistemas por aspersão mais utilizados no Brasil são os convencionais (primeiro a ser utilizado e ainda o mais empregado) e os não-convencionais (utilizados em situações especiais de solo, topografia, tamanho da área e outros).

Na aspersão convencional, aplica-se a água à cultura por meio de aspersores instalados ao longo de uma tubulação. É portátil, quando as tubulações de distribuição e as linhas laterais são transportadas para várias posições na área irrigada. É fixa, quando as tubulações de distribuição e as linhas laterais cobrem toda área irrigada.

Atualmente, especificamente para pastagens, foi desenvolvido um sistema de aspersão em malha, em que os pontos de subida da água são distribuídos geometricamente em toda área, interligados pela tubulação (Drumond, 2002). É um sistema fixo, em que se mudam de lugar apenas os aspersores. As tubulações são fixas a 30 – 50 cm abaixo da superfície do solo e os pontos de subida são também de tubos de PVC tipo "caps". A linha lateral é constituída de tubos com 25 mm de diâmetro, enquanto que a linha principal é de tubos de 50 mm de diâmetro Por se tratar de material de baixo custo (baixa pressão), estima-se que, para 10 hectares, o custo desse sistema atinja aproximadamente R$ 1.500,00.

Os sistemas não-convencionais são empregados em condições especiais e dependem da capacidade de investimento do produtor. Nesse grupo, destacam-se o canhão hidráulico e o pivô central. O canhão hidráulico é um equipamento de irrigação normalmente utilizado de forma portátil, instalado sobre linhas laterais, funcionando com pressões que variam entre 40 metros de coluna de água (mca) a 100 mca, cujo raio de ação está entre 30 e 100 metros. Já o pivô central, fundamentalmente, é constituído de uma tubulação metálica que se apoia em várias torres triangulares (o número de torres depende do tamanho da área), em que são instalados os aspersores, promovendo irrigação uniforme em uma área de superfície circular. Essa tubulação recebe água de uma adutora subterrânea, que vai até o "ponto pivô" (dispositivo central), de onde o sistema se move continuamente por dispositivos elétricos ou hidráulicos instalados nas torres. Como salientado anteriormente, esses sistemas não-convencionais são de alto custo, variando de R$ 2.500,00 a R$ 4.000,00 por hectare.

No Estado de Goiás, foi desenvolvido um projeto de irrigação em pastagens para gado de corte, com área de 100 hectares, formada por Panicum maximum cvs. Tânzania e Mombaça, irrigada por um sistema pivô central com 11 torres, num raio irrigado de 564,19 metros. Nessas condições e durante 6 meses, foram terminados 1100 animais, ou seja, 11 animais por hectare. Na Tabela 8.1, encontram-se as variáveis de investimento, custo operacional e receita do referido projeto (Jacinto, 2001). Com base nesses resultados, observa-se que a irrigação em pastagens para gado de corte é uma técnica viável economicamente.
 

Tabela 8.1. Irrigação de pastagens: planilha de viabilidade econômica para gado de corte.
 

I) Investimentos
a) Formação da pastagem Quantidade R$/unidade R$
Calcário 4 t/ha 35,00/t 14.000,00
Super simples 1000 kg/ha 345,00/t 34.500,00
Sementes 20 kg/ha 4,00/kg 8.000,00
Aração 2 h/ha    
Gradagem 1 h/ha    
Plantio 1 h/ha    
hora trator   25,00/h  
Despesa preparo e plantio     10.000,00
Subtotal     66.500,00
b) Valor da Terra      
área total 100 ha 1200,00 /ha 120.000,00
Subtotal     120.000,00
c) Cercas      
Piquetes 20    
Arame (1000 m) = 14773,83 m 90,00/1000m 2.659,29
Postes cerca 590 6,00 3.545,72
Eletrificador 1 1100,00 1.100,00
mão-de-obra     2.200,00
Subtotal     9.505,01
d) Montagem pivô central      
Abertura valeta     1.726,42
Construção casa de bomba     5.500,00
Construção base do pivô     1.900,00
Subtotal     9.126,42
Total do item     4.54131,43
       
II) Custo Operacional
a) Compra de animais      
No animais/ha: 11 1.100 470,00 517.000,00
Subtotal     517.000,00
b) Despesas com o Rebanho      
Mistura mineral: 0,06 kg/animal/dia   0,70 kg 8.454,60
Vacinas e medicamentos *: 9,50/animal      
Despesas diversas     5.225,00
Subtotal     13.679,60
c) Custo operacional - Pivô      
Consumo diesel/h: 27,11   0,88 26.242,48
Subtotal     26.242,48
d) Custo manutenção - Pivô      
Troca de óleo     3.630,00
Materiais elétricos     650,00
Mão-de-obra     400,00
Manutenção de bomba/ 2 anos     485,00
Troca de kits aspersão/5 anos     812,44
Peças diversas     145,00
Subtotal     3.061, 22
e) Custo - Adubação e mão-de-obra      
Vaqueiros - projeto 1 650,00  
Uréia: 60 kg/ha   520,00/t  
Cloreto de potássio: 30 kg/ha   550,00/t  
MAP: 25 kg/ha   510,00/t  
Calcário (via pivô)/30 dias: 100 kg/ha   45,00/t  
Salários no período     3.900,00
Aplicação via pivô (adubos)     38.970,00
Subtotal     42.870,00
f) Remuneração do Capital Investido      
Custo operacional (período)     44.457,26
Valor do rebanho     517.000,00
Valor investimento     454.131,43
juros equivalentes: 12%      
Subtotal (custo financeiro)     60.935,33
       
Total do item     663.788,63
       
III) Receita Projeto: 6 meses
Animais 1100    
Média de peso de venda: 15,8@      
Valor @: 43,00      
Receita total     747.340,00
       
LUCRO LÍQUIDO     155.160,54

* 2 x aftosa + 3 x dectomax + 1 x sintoxan + 4 x butox.

Adaptado de Jacinto (2001).



 


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