Embrapa Tabuleiros Costeiros
Sistemas de Produção, 1
ISSN 1678-197X Versão Eletrônica
Nov/2007
A Cultura do Coqueiro
Humberto Rollemberg Fontes

Sumário

Importância econômica da cocoicultura no Brasil
Exigências climáticas do coqueiro
Solos
Adubação do coqueiro
Cultivares de coqueiro Produção e obtenção de mudas
Plantio
Irrigação
Tratos culturais
Manejo de plantas infestantes
Doenças e métodos de controle
Pragas e métodos de controle
Normas gerais para uso de defensivos agrícolas na cultura do coqueiro
Colheita e pós-colheita do coco
Aspectos da comercialização e mercados do coco
Coeficientes técnicos e custos de produção da cocoicultura irrigada no Brasil

Referências
Expediente

Tratos culturais

Durante a fase jovem, que corresponde em média aos três e/ou quatro primeiros anos de cultivo, os cuidados dispensados às plantas deverão se refletir na precocidade de produção e produtividade do coqueiral. Da mesma forma, durante a fase adulta, a adoção de tratos culturais adequados, constitui-se em fator fundamental para que se obtenha produção regular de frutos durante o ano.

 

Roçagem mecânica das entrelinhas

Quando o objetivo é o plantio de coqueiros anões, visando o mercado de água de coco, ou mesmo de coqueiros híbridos, para atender a indústria de alimentos, na maioria das situações, a irrigação constitui-se numa prática de fundamental importância para que se obtenha bons resultados. Considerando-se que neste caso, as exigências de água e nutrientes são devidamente supridas, a roçagem da vegetação natural nas entrelinhas de plantio dos coqueiros, pode ser utilizada como um dos principais métodos de controle das plantas infestantes.
Em áreas não irrigadas, o uso freqüente da roçagem mecânica não deve ser recomendada, uma vez que pode favorecer a infestação de gramíneas, como por exemplo o “capim gengibre” (Paspalum maritimum L) espécie largamente encontrada nas regiões tradicionais de cultivo do Nordeste do Brasil, a qual, por apresentar pontos de crescimento abaixo do nível de corte da roçadeira, expande-se rapidamente, competindo com o coqueiro por água e nutrientes, prejudicando seu desenvolvimento e produção.

 

Gradagem do solo

O uso da grade de discos nas entrelinhas de plantio dos coqueiros cultivados em sequeiro, constituiu-se ao longo dos anos, como uma das principais práticas culturais, utilizada largamente entre médios e grandes produtores dedicados ao cultivo do coqueiro da variedade Gigante, para produção de coco seco destinado a indústria de alimentos e/ou mercado de frutos para consumo doméstico.. Seus resultados positivos estão relacionados à sua maior eficiência de controle das plantas infestantes, consequentemente reduzindo a competição por água e nutrientes, beneficiando assim o coqueiro. Deve-se ressaltar no entanto, que a longo prazo, o uso freqüente desta prática, poderá provocar danos às raízes dos coqueiros, favorecendo o processo de erosão e lixiviação de nutrientes, além de proporcionar degradação das propriedades físicas, químicas e biológicas do solo. No caso de solos de tabuleiros o efeito desta prática é ainda mais drástico devendo ser evitada em função dos problemas relacionados com a ocorrência de camadas coesas, comuns neste tipo de solo.

A utilização da gradagem deverá restringir-se portanto, àquelas regiões mais secas, preferencialmente realizada entre o final do período chuvoso e início do período seco, proporcionando assim a incorporação da vegetação de cobertura ao solo, não devendo ultrapassar no entanto 20cm de profundidade. Deve-se observar uma distância mínima de 2m de raio a partir do coleto e/ou estipe do coqueiro, evitando-se assim corte excessivo de raízes do coqueiro.

Em plantios irrigados e/ou em regiões que não apresentam déficit hídrico, não é aconselhável o emprego da gradagem, em função dos aspectos comentados anteriormente.

 

Consorciação nas entrelinhas de plantio

As entrelinhas de plantio, constituem-se nas áreas situadas entre as linhas de plantio dos coqueiros, as quais, são utilizadas para cultivo com outras culturas, principalmente durante a fase que antecede ao início da produção, que corresponde em média aos quatro primeiros anos de cultivo. São utilizadas principalmente por pequenos produtores durante o período chuvoso do ano, para plantio de culturas de subsistência tais como milho, feijão e mandioca entre outras, as quais, podem favorecer indiretamente o desenvolvimento do coqueiro. Esta prática deve ser utilizada durante a fase jovem que vai até o terceiro ou quarto ano de idade, ou após 20 anos, quando a cultura permite maior passagem de luz. Quando comparado a outros sistemas de manejo, a consorciação é considerada como uma prática recomendável de onde se tem obtido resultados bastante satisfatórios. Além de proporcionar receita suficiente para cobrir ou amenizar os custos de implantação do coqueiro, vários outras vantagens podem ser considerados tais como: maior proteção do solo, reciclagem de nutrientes, benefícios indiretos proporcionados pelos tratos culturais dispensados à cultura consorciada, maior eficiência de uso do solo etc.

Quando comparada às práticas de roçagem e/ou gradagem comentadas anteriormente, a consorciação apresenta vantagens, tanto no que se refere ao aspecto técnico como no econômico. Com relação às dificuldades de manejo das áreas consorciadas, recomenda-se o plantio em linhas alternadas, viabilizando assim o trânsito de máquinas e equipamentos que se fizerem necessários.

A cultura a ser selecionada para a consorciação com o coqueiro, deve levar em consideração os aspectos relacionados com a adaptabilidade às condições de clima e solo locais, as questões de mercado e as características da cultura que se quer implantar. Recomenda-se de maneira geral, a manutenção de um raio de aproximadamente 2m a partir do coleto das plantas, como forma de evitar excesso de competição entre as culturas consorciadas, e facilitar o manejo da cultura principal.

 

Consorciação nas faixas de plantio

A faixa de plantio, corresponde a área de maior influência das raízes do coqueiro, apresentando largura de 4m equivalente ao diâmetro da zona do coroamento e que apresenta comprimento variável em função do espaçamento adotado. Em plantios irrigados, durante a fase inicial de plantio, esta área pode ser utilizada para plantio com outras culturas, em geral frutíferas, as quais têm como função o melhor aproveitamento da água de irrigação disponível na região de abrangência dos microaspersores.

A cultura do mamoeiro tem se constituído uma das principais alternativas de consórcio, podendo ser plantada entre coqueiros na mesma linha de plantio. Nesse caso, aproveita-se a existência de dois microaspersores/planta, originalmente dimensionados para a irrigação do coqueiro, para que façam a irrigação concomitante dos mamoeiros. O ciclo produtivo da cultura do mamoeiro é de aproximadamente três anos, e, ao final do mesmo, inicia-se a fase produtiva do coqueiro, permitindo assim ao produtor a obtenção de receita desde a implantação do projeto. Segundo opinião de produtores que adotam esse sistema de plantio, os maiores benefícios foram obtidos quando se utilizam quatro mamoeiros entre dois coqueiros, nesse caso, deslocando-se um microaspersor para o meio da linha, garantindo assim o fornecimento de água à cultura consorciada. Outras alternativas, como por exemplo o consórcio com a bananeira, encontra-se ainda em fase avaliação não apresentando portanto resultados conclusivos.

Em áreas não irrigadas, o consórcio na faixa de plantio apresenta limitações em função das questões relacionadas com a competição por água e nutrientes.

 

Cobertura do solo com leguminosas

As leguminosas destacam-se pela capacidade de fixação de nitrogênio por meio da associação das suas raízes com bactérias do gênero Rhizobium, o qual é incorporado ao solo e disponibilizado às plantas cultivadas, proporcionando ainda melhoria das propriedades físicas, químicas e biológicas do solo quando da incorporação da biomassa produzida.

Entre as espécies de ciclo curto, o feijão-de-porco (Canavalia ensiformis L.) é considerado uma das principais espécies utilizadas como adubação verde na região dos tabuleiros costeiros do Nordeste do Brasil, tendo em vista a sua grande capacidade de produção de biomassa e fixação de nitrogênio. As sementes devem ser implantadas em covas ou a lanço e posteriormente incorporada ao solo com gradagem leve. No período de floração, recomenda-se a realização da roçagem manual ou mecânica, permanecendo a biomassa na superfície do solo.

A utilização de leguminosas perenes como cobertura de solo, além de apresentar maior aporte de nitrogênio para o coqueiro, apresenta também como vantagem a elevação dos teores de matéria orgânica, maior proteção contra a erosão e redução da amplitude térmica do solo. A utilização dessa prática em regiões que apresentam déficit hídrico elevado, pode elevar significativamente a competição por água entre coqueiros e plantas de cobertura.

Em regiões que apresentam condições de clima e solo favoráveis, como ocorre na região Norte do Brasil, a utilização da Pueraria phaseoloides, Centrosema pubescens e Calopogonium muconoides têm apresentado resultados bastante favoráveis, uma vez que proporciona cobertura adequada do solo e melhoria da nutrição nitrogenada do coqueiro.

 

Associação com animais

A criação extensiva de bovinos em áreas cultivadas com coqueiros no Nordeste do Brasil é uma prática bastante utilizada. Tem como objetivo proporcionar melhor aproveitamento do espaço disponível no coqueiral, utilizando-se a pastagem nativa para a produção de carne e/ou leite. A implantação de pastagens artificiais à base de gramíneas, sobretudo do gênero Brachiaria, como o B. humidicola L., constitui-se todavia em prática não recomendável, considerando-se o aumento da competição por água e nutrientes que poderá estabelecer-se com os coqueiros, a qual será tanto maior quanto mais elevado for o déficit hídrico da região.

Eventuais problemas de compactação poderão ser contornados desde que mantida uma carga animal adequada às características do solo em uso. Por outro lado, os benefícios obtidos estão relacionados com a redução dos custos com limpeza e pela produção de esterco, o qual, poderá ser utilizado para adubação dos coqueiros, assim como pela possibilidade de aumento de receita da propriedade em função da produção adicional de carne e/ou leite.

Em áreas irrigadas, a associação com animais de grande porte como bovinos poderá ocasionar danos ao sistema de irrigação devendo portanto ser evitada. No caso de ovinos, este problema tem sido contornado, sendo que sua utilização tem crescido significativamente. Resultados obtidos pela Embrapa Tabuleiros Costeiros, utilizando-se uma área de baixada litorânea implantada com coqueiros da variedade gigante com idade aproximada de 20 anos, com predominância de capim gengibre (Paspalum maritimum L) espécie nativa da região e que apresenta muito bom valor forrageiro, demonstraram que a recria/engorda de carneiros da raça Santa Inês, à taxas de 2,4 cabeças/há/ano, associada à prática sistemática de vermifugação, mineralização e controle de mosquitos, permitiu produção adicional da ordem de 30 kg/ha de peso vivo, com redução de custos de duas roçagens, sem alterar a produção de coco, desde que mantida a prática de coroamento dos coqueiros.

 

Aproveitamento dos restos culturais

Quando se realiza a colheita dos frutos é comum proceder-se a limpeza da copa das plantas, quando são retiradas folhas e cachos secos, material este que juntamente com as cascas de coco é geralmente queimado, sendo utilizado esporadicamente as cinzas para aplicação na zona de coroamento do coqueiro. É comum também observar-se a permanência das cascas de coco em campo, expostas às intempéries, o que provoca a perda do seu valor como fonte de nutrientes. Essa prática decorre não só do desconhecimento sobre a importância desse material, como também pelo sistema de produção adotado na maioria das propriedades, onde o coco é colhido e transportado com casca para a sede da fazenda, onde então se procede ao descascamento, amontoamento e queima das mesmas.

Nas áreas de cultivo em sequeiro onde todos os esforços devem ser envidados no sentido de conservar a umidade do solo, este material é de grande valia, uma vez que apresenta alta capacidade de retenção de água, estimada em seis vezes o seu peso, levando em média seis anos para completar a sua decomposição. Poderá ser utilizado como cobertura morta, enterrado em valas ou utilizado em covas de plantio. Constitui-se também em importante fonte de potássio e cloro, elementos estes de grande importância na nutrição do coqueiro, os quais são lixiviados quando as cascas são deixadas a campo, expostas às chuvas. Estima-se que até o sexto mês 77% destes elementos tenham sido perdidos por lixiviação.

Recomenda-se portanto, evitar a queima de folhas e cascas, devendo este material ser distribuído nas entrelinhas para posterior trituração com roçadeira, ou amontoamento nas linhas de plantio dos coqueiros. Sua utilização como cobertura morta na zona do coroamento seria também uma opção a ser utilizada devendo-se observar no entanto que neste caso, poderia dificultar o trabalho de adubação e coleta de frutos caídos.

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