Embrapa Arroz e Feijão
Sistemas de Produção, No.5
ISSN 1679-8869 Versão eletrônica
Dezembro/2005
Cultivo do Feijão Irrigado na Região Noroeste de Minas Gerais
Morel Pereira Barbosa Filho
Tarcísio Cobucci
Patrícia Neves Mendes

Introdução e Importância Econômica
Clima
Solos
Adubação
Cultivares
Produção de Sementes
Plantio e Tratos Culturais
Irrigação
Manejo de Plantas Daninhas
Doenças e Métodos de Controle
Pragas e Métodos de Controle
Normas Gerais para o Uso de agrotóxicos
Colheita
Pós-Colheita
Mercado e Comercialização
Coeficientes Técnicos, Custos, Rendimentos e Rentabilidade
Referências
Glossário
Autores

Expediente

Adubação

Nas regiões tropicais, os solos são, na sua maioria, ácidos e pobres em nutrientes essenciais ao crescimento e desenvolvimento das culturas, tornando, assim, a calagem e a adubação indispensáveis à prática da agricultura. Por muito tempo, essas tecnologias foram adotadas mas, frequentemente, desconsiderando a importância da matéria orgânica - principal fonte de nitrogênio para as culturas - e dos resíduos vegetais para a sustentabilidade produtiva dos solos e das culturas.
Entre os macronutrientes essenciais, os mais limitantes ao crescimento do feijoeiro nos solos brasileiros são o nitrogênio e o fósforo. Muitos trabalhos de pesquisa publicados sobre adubação do feijoeiro comum demonstram que a resposta dessa cultura à aplicação de fertilizantes nitrogenados e fosfatados é alta, comparada a outros nutrientes. A necessidade de fósforo do feijoeiro é baixa, se comparada à de nitrogênio e potássio, cerca de 10-20 kg de P ha-1 e de 130 kg a 200 kg de N e K ha-1. A exportação de fósforo situa-se em torno de 60% do total de fóforo absorvido pelas plantas.
À medida que os agricultores vêm aderindo cada vez mais a sistemas de produção menos impactantes ao ambiente, utilizando plantio direto, cultivo mínimo e rotação de culturas, urge redefinir alguns critérios relacionados ao manejo da adubação, principalmente a de nitrogênio, em que, além das perdas por volatilização de NH3, pode haver intensa imobilização do nitrogênio durante a decomposição dos resíduos vegetais deixados na superfície do solo pela cultura antecedente.

Adubação
Adubação nitrogenada
Aplicação de N-mineral
Aplicação de N-orgânico
Efeito do cultivo anterior na resposta do feijoeiro ao nitrogênio
Aplicação de N-mineral de cobertura com auxílio de sensor portátil
Aplicação antecipada do nitrogênio
Adubação fosfatada
Manejo do fósforo no solo
Adubação potássica
Manejo do potássio no solo
Acidez do solo: como corrigir
Aplicação de micronutrientes

Adubação
A prática da adubação depende de vários fatores, os quais devem ser previamente analisados no sentido de aconselhar aos agricultores a praticarem uma adubação mais adequada, tanto sob o ponto de vista agronômico, para obter maior eficiência dos fertilizantes, quanto econômico, para propiciar uma maior renda líquida ao produtor. A recomendação de adubação que atenda a esses princípios deve ser fundamentada nos seguintes aspectos:

  1. resultados de análises de solo complementada pela análise de planta;
  2. análise do histórico da área, incluindo o sistema de cultivo, ocorrência de doenças e plantas daninhas;
  3. conhecimento agronômico da cultura;
  4. comportamento ou tipo da cultivar;
  5. comportamento dos fertilizantes no solo;
  6. disponibilidade de capital do agricultor para aquisição de fertilizantes;
  7. expectativa de produtividade; e
  8. custo do produto.

Fica claro, assim, que a recomendação de adubação para o feijoeiro, bem como para qualquer outra cultura, depende da análise cuidadosa de todos esses fatores.

Adubação nitrogenada

Aplicação de N-mineral
A aplicação de nitrogênio no plantio pode ser feita no sulco ou a lanço, com posterior incorporação. Contudo, devido ao comportamento do nitrogênio no solo, que apresenta várias possibilidades de perdas, o método mais comumente utilizado tem sido a aplicação de parte no sulco, junto com o fósforo e o potássio, por ocasião do plantio, e parte, em cobertura. Ainda não existe um método que permita avaliar satisfatoriamente a capacidade do solo em fornecer nitrogênio para as plantas. Isso porque a maior parte do nitrogênio do solo está sob formas orgânicas, que devem ser mineralizadas para liberá-lo e torná-lo aproveitável pelas plantas.
Em geral, o sulfato de amônio e a uréia são consideradas as fontes mais vantajosas economicamente para quase todas as culturas, não havendo diferença entre elas, na maioria dos casos. O uso de formas nítricas tem-se mostrado eficiente, mas a forma amoniacal é a mais usada, talvez por ser mais facilmente encontrada no mercado.
A aplicação de nitrogênio em cobertura para diferentes culturas tem-se revelado, em geral, uma prática de manejo muito eficiente, considerando-se o rendimento por unidade de nitrogênio aplicado. Várias publicações têm divulgado que a eficiência dos fertilizantes nitrogenados, entretanto, tem sido menor quando aplicados na superfície, sem a sua imediata incorporação ao solo. A explicação é fundamentada nos processos de perdas do nitrogênio por volatilização da amônia. Por outro lado, inúmeros trabalhos de pesquisa têm demonstrado que, quando se compara a eficiência dos fertilizantes nitrogenados, principalmente uréia e sulfato de amônio, quanto à produtividade - e não em relação às perdas por volatilização de NH3 para a atmosfera -, a uréia em cobertura pode ser tão eficiente quanto outras fontes de nitrogênio.
Vários fatores concorrem para que isso aconteça. Primeiro, é necessário que o nitrogênio seja aplicado na época mais apropriada e de maior exigência pelas plantas, pois o nitrogênio que não é absorvido pelas plantas é perdido de alguma forma, seja por lixiviação ou volatilização. Segundo, a presença das plantas na época de aplicação pode também reduzir as perdas por volatilização devido à arquitetura da planta do feijoeiro que, ao permitir a perfeita cobertura da superfície do solo, favorece a absorção do NH3 presente na atmosfera abaixo das folhas inferiores das plantas. Terceiro, deve-se considerar que a eficiência da adubação nitrogenada é maior quando ocorre precipitação ou é feita irrigação logo após sua aplicação. Uma prática como essa, que favorece a penetração do nitrogênio no solo, é perfeitamente factível nas condições de cultivo do feijoeiro irrigado no inverno.
Além da possibilidade de irrigação imediata após a adubação de cobertura, e não havendo diferença de eficiência, no que se refere ao rendimento de grãos, entre a uréia e o sulfato de amônio aplicados na superfície do solo, a opção pelo uso da uréia - menor custo em relação a outros nitrogenados - pode garantir ganho econômico considerável ao produtor. Ademais, uma das dificuldades de se fazer a adubação nitrogenada em cobertura é a incorporação do adubo ao solo abaixo da camada de resíduos deixados pelas culturas anteriores.

Aplicação de N-orgânico
A matéria orgânica melhora a estrutura do solo e, por conseqüência, diminui a sua densidade, aumenta a porosidade e a aeração, facilitando a infiltração de água, a penetração de raízes e a emergência das plântulas. No Brasil Central, em muitas áreas, a agricultura tem sido praticada de forma intensiva, com uso de corretivos, fertilizantes e herbicidas, com produtividade mantida em altos níveis. Em outras áreas, a exploração contínua dos solos para produção de grãos e de pastagens tem resultado em algum tipo de degradação do solo, seja química, física ou biológica. Uma das causas dessa situação está relacionada com a matéria orgânica e o seu manejo no solo nos diferentes sistemas agrícolas. No que se refere ao aspecto químico, a matéria orgânica funciona como fonte de nutrientes, principalmente de carbono, nitrogênio, fósforo, potássio, enxofre, e de cargas negativas, contribuindo para aumentar a capacidade de troca de cátions (CTC).
No aspecto físico, a matéria orgânica melhora a estrutura do solo, aumentando a retenção de água e facilitando o desenvolvimento do sistema radicular das plantas. Além desses aspectos, a matéria orgânica afeta as características biológicas do solo através dos processos de mineralização - conversão do nitrogênio, fósforo e enxofre orgânico em nitrogênio, fósforo e enxofre mineral - e de imobilização - conversão do nitrogênio, fósforo e enxofre mineral em nitrogênio, fósforo e enxofre orgânico - dos nutrientes no solo, durante os processos de transformação da matéria orgânica no solo.

Efeito do cultivo anterior na resposta do feijoeiro ao nitrogênio
O entendimento do processo de decomposição dos resíduos vegetais é muito importante e tem implicações práticas quanto ao manejo da adubação nitrogenada das culturas. Pode-se inferir, por exemplo, que resíduos de espécies de gramíneas deixados na superfície do solo exercem função importante na conservação da umidade do solo, mas contribuem muito pouco com nitrogênio para a cultura subseqüente, em razão da alta relação C/N.
Nas situações de cultivo de plantas com relação C/N elevada, principalmente nos primeiros anos de adoção do sistema plantio direto (SPD) e quando se usam pequenas doses de nitrogênio, o rendimento do feijoeiro tem sido menor que aquele obtido em solos arados. Uma das explicações para esse caso refere-se ao potencial de imobilização do nitrogênio na superfície do solo sem revolvimento, ou seja, sem preparo. Atualmente, em função da imobilização, que se tornou um processo importante no SPD, há uma tendência para recomendar a aplicação antecipada do nitrogênio de cobertura e/ou aumentar a dose de nitrogênio na semeadura.
Apesar da baixa capacidade de conservar água no solo dos resíduos de leguminosas, a capacidade de absorção de nitrogênio e o rendimento das culturas que sucedem as leguminosas são, em geral, mais elevados do que as que sucedem as gramíneas. Assim, pode-se inferir que, quando os resíduos culturais forem de difícil decomposição (relação C/N superior a 30:1), como os das gramíneas, a necessidade de nitrogênio para a adubação de cobertura do feijoeiro cultivado sob SPD, deve ser maior que após leguminosas. Resultados de pesquisa têm mostrado que, nessas condições, a dose de nitrogênio deve ser maior que 80 kg ha-1. A influência dos resíduos culturais deixados na superfície do solo sobre o rendimento das culturas é bastante reconhecida na literatura, inclusive com indicações de que a quantidade de nitrogênio nessas condições, num mesmo solo, deva ser da ordem de 20% a 25% superior em relação às áreas onde ainda se utilizam aração e gradagem.
A aplicação de fertilizantes nitrogenados minerais pode interferir profundamente nas reações de transformação do nitrogênio no solo. Em geral, as plantas e os microorganismos competem pelo nitrogênio aplicado na forma de fertilizantes minerais, podendo, em alguns casos, resultar no aparecimento de deficiência de nitrogênio para as plantas, principalmente na fase inicial de crescimento da cultura (Figura 1).

Fig. 1. Deficiência de nitrogênio, causada pela imobilização de nitrogênio pelos microorganismos, em plantas de feijão, na fase inicial de crescimento, em área após cultivo de milho.
Foto: Michael Thung

Aplicação de N-mineral de cobertura com auxílio de sensor portátil
A eficiência dos fertilizantes nitrogenados utilizados na produção das culturas no Brasil ainda é muito baixa, apesar da ênfase que se dá à pesquisa com nitrogênio. A taxa de uso do nitrogênio não ultrapassa 50% para a maioria das culturas, e uma das causas para tanto está relacionada à dose e época adequadas de aplicação.
Entre as várias técnicas de aplicação de nitrogênio que buscam melhorar o sincronismo entre a época de aplicação do nitrogênio e a época de maior demanda pela planta, o clorofilômetro portátil, utilizado inicialmente para a cultura do arroz, é reconhecido, em vários países, como instrumento confiável para monitorar o status de nitrogênio e determinar a época mais adequada para a sua aplicação em diversas culturas. Os resultados obtidos com o uso desse aparelho são positivos, apresentando, em geral, maior eficiência agronômica do nitrogênio aplicado do que as práticas convencionais baseadas em épocas prefixadas para a aplicação do nitrogênio em cobertura.
Além das leituras obtidas diretamente no clorofilômetro, utiliza-se, também, o Índice de Suficiência de Nitrogênio (ISN), o qual é calculado a partir das leituras do clorofilômetro em relação às parcelas de referência, bem fertilizadas. A quantidade de nitrogênio utilizada na parcela de referência representa, geralmente, duas vezes mais a dose recomendada para garantir o não aparecimento de deficiência de nitrogênio. Segundo os pesquisadores que sugeriram esse índice, a aplicação de nitrogênio em cobertura deve ser efetuada sempre que o ISN for menor que 90% do tratamento de referência.
Em experimento conduzido em Unaí, MG, a produtividade de grãos no tratamento baseado no ISN menor que 90%, como indicativo da necessidade de adubação de cobertura, foi semelhante ao tratamento normalmente recomendado aos produtores no cultivo do feijoeiro irrigado. Com base nesse índice, a adubação de cobertura representou 60 kg ha-1 a menos, comparada à técnica convencional de aplicação de nitrogênio, que é baseada em épocas prefixadas para a aplicação de nitrogênio em cobertura. Com isso, a eficiência agronômica do nitrogênio (EA = kg de grãos/kg de N aplicado) no tratamento baseado no ISN menor que 90% foi maior que a EA no tratamento da recomendação local. Pode-se considerar, assim, que a estratégia de se usar o clorofilômetro portátil, tendo como indicador o ISN menor que 90%, é adequada para determinar o momento mais apropriado para a aplicação de nitrogênio, já que as produtividades de grãos foram semelhantes nos dois tratamentos.
Em outro experimento, desenvolvido no mesmo local, as leituras do clorofilômetro foram crescentes com o tempo, estabilizando-se a partir dos 49 dias após emergência (DAE), época em que as plantas estavam na fase de florescimento. Isso indica que, após essa fase de crescimento do feijoeiro, o teor de clorofila nas folhas se estabiliza, tornando ineficaz o uso do clorofilômetro a partir de então.
Na fase inicial de crescimento do feijoeiro, foram observados sintomas visuais de deficiência de nitrogênio no tratamento sem aplicação de nitrogênio; porém, a partir dos 42 DAE, devido ao processo de mineralização do nitrogênio dos resíduos vegetais deixados na superfície do solo pelo cultivo anterior de milho, as plantas adquiriram tonalidade mais verde, resultando em valores das leituras do clorofilômetro muito próximos daqueles registrados nas parcelas adubadas.
O fato de as plantas tornarem-se verdes com o tempo de mineralização do nitrogênio contido nos resíduos vegetais é indicativo de que as leituras podem ser afetadas, em função da quantidade e da qualidade dos resíduos vegetais antecedentes, e que, para efeito de aplicação de nitrogênio em cobertura, dependendo da época em que as leituras forem tomadas, podem ocorrer erros de interpretação, chegando a não indicar deficiência do nutriente na fase inicial de crescimento da planta.

Aplicação antecipada do nitrogênio
Em regiões tropicais, devido às condições de solo e clima e à rápida transformação do nitrogênio no solo, as possibilidades de perdas de nutrientes são grandes, principalmente se a demanda da planta for baixa no momento da adubação de cobertura. Em sistemas de semeadura direta na palha, os processos de mineralização e imobilização são muito importantes porque alteram as respostas das culturas à aplicação de nitrogênio. Nessas condições há a tendência de se antecipar a aplicação de nitrogênio em relação à semeadura para compensar a eventual imobilização do nitrogênio pela microbiota do solo, evitando, assim, a diminuição da disponibilidade de N-mineral para a cultura seguinte.
Em experimento realizado em Unaí, MG, verificou-se que o nitrogênio liberado pela mineralização dos resíduos de milho, cultura que antecedeu o feijão, não foi suficiente para suprir a necessidade do feijoeiro desse nutriente. A estratégia de manejo de nitrogênio baseada em datas prefixadas, em que parte do nitrogênio que seria aplicado em cobertura no feijoeiro foi antecipado para 15 dias antes do plantio, junto com o dessecante glifosate, não refletiu em aumentos de produtividade de grãos, comparativamente à técnica recomendada, ou seja 30 kg de N ha-1 no plantio mais duas aplicações iguais de 45 kg de N ha-1, em cobertura, aos 15 e 30 DAE das plântulas. É provável que o manejo com 90 kg e 60 kg de N ha-1, em pré-plantio, tenha sido influenciado por algum processo de perda de nitrogênio no solo ou parte do nitrogênio tenha sido imobilizado pela massa microbiana do solo durante a decomposição da palhada de milho.
Embora as produtividades de grãos dos manejos de aplicação antecipada de nitrogênio não tenham diferido dos manejos convencionais, não se pode concluir, com base nos resultados de apenas um ano de pesquisa, que a estratégia de antecipar a aplicação de nitrogênio no cultivo do feijão irrigado seja uma prática adequada de adubação nas condições em que o trabalho foi realizado, devendo-se, portanto, manter a adubação em cobertura baseada no manejo convencional, ou seja, uma parte no plantio e o restante em cobertura.

Adubação fosfatada
As recomendações de fósforo são feitas com base em curvas de calibração, elaboradas para cada região, que definem a relação entre a produtividade e os respectivos teores de fósforo do solo. Em função dessas curvas de calibração, são definidas tabelas de recomendação de fósforo para a adubação de manutenção de diversas culturas. Para o feijoeiro, as quantidades variam de 60 kg a 120 kg de P2O5 ha-1, dependendo, evidentemente, do teor de fósforo disponível revelado pela análise química do solo e da não-limitação de água para a cultura.
Em solos de cerrado onde se cultiva o feijoeiro, o fósforo na solução do solo é muito baixo, sendo preciso fazer uma adubação fosfatada, a título de correção, para aumentar o nível de fósforo disponível. Essa adubação é indicada para solos argilosos, com teores de fósforo abaixo de 1,0 mg a 2,0 mg dm-3, e arenosos, com teores abaixo de 6 mg a 10 mg dm-3. Essa recomendação serve tanto para as áreas de cultivo convencional, com revolvimento do solo, como para as áreas onde se pretende iniciar com o sistema plantio direto, ressaltando que o fertilizante deverá ser incorporado ao solo Resultados de pesquisas realizadas em diversas regiões do cerrado, indicam a necessidade de se aplicarem, a lanço, 240 kg de P2O5 ha-1 em solos argilosos, 150 kg de P2O5 ha-1 em solos de textura média e 120 kg de P2O5 ha-1 em solos arenosos, no primeiro ano de cultivo. Nesse caso, as fontes de fósforo mais indicadas são, entre outras: o termofosfato yoorin, cerca de 17% a 18% de P2O5 total; os hiperfosfatos Arad, 33% de P2O5 total; e Gafsa, 29% de P2O5 total; e alguns fosfatos parcialmente solubilizados. Vale ressaltar dois aspectos: (1) essa adubação deve ser encarada como um investimento a ser amortizado a partir do segundo cultivo, pelo seu efeito residual; e (2) a adubação corretiva não dispensa a adubação de manutenção mencionada anteriormente.
Os superfosfatos triplo, simples e de amônio (MAP e DAP) são reconhecidos pela pesquisa como excelentes fontes de fósforo para a maioria das culturas, na adubação de manutenção. Em muitos casos são usados os termofosfatos, ou fosfatos de rocha, de alta solubilidade em citrato, que, em geral, dão resultados equivalentes aos fosfatos solúveis em água.
Os adubos fosfatados solúveis, quando aplicados ao solo, sofrem uma dissolução e liberam íons fosfatados, que são absorvidos pela planta, ou reagem com os minerais do solo (fixação). Todas as práticas envolvendo adubação fosfatada devem ser adotadas no sentido de se evitar ao máximo a fixação do fósforo.
Os fosfatos naturais podem ser considerados fertilizantes insolúveis em água, com baixa a média disponibilidade de fósforo para as culturas. Por essa razão, tais fosfatos não devem ser usados isoladamente em nenhuma cultura de ciclo curto, inclusive no feijoeiro. Para que os fosfatos naturais dêem resultados satisfatórios é necessário um certo tempo de reação com o solo, para que sejam devidamente aproveitados pela cultura. Dessa forma, são considerados boas fontes de fósforo para adubação corretiva, cuja prática consiste na aplicação de doses elevadas, a lanço, visando a elevar o teor de fósforo do solo ao nível preeestabelecido.
As indústrias nacionais desenvolveram um processo em que se utiliza uma quantidade menor de ácido que a exigida para converter todo fosfato de rocha a superfosfato. Como resultado, surgiram, no mercado brasileiro, os fosfatos parcialmente acidulados, de solubilidade, em citratos, intermediária aos superfosfatos e aos fosfatos naturais. Esses fosfatos, quando aplicados em solos ácidos, produzem reações que levam a uma diminuição da velocidade de dissolução do adubo, de modo que seja prolongada a liberação de fósforo para as plantas.
Os fosfatos parcialmente acidulados, ao liberarem fósforo solúvel para as plantas, produzem H3PO4 (por hidrólise de fosfato monocálcico) que reage com a rocha fosfatada não-tratada, do fosfato parcialmente acidulado, aumentando, assim, a disponibilidade de fósforo. A menor acidez produzida no solo pelo fosfato parcialmente acidulado resulta em menor atividade dos íons ferro e alumínio e, conseqüentemente, em menor fixação de fósforo disponível, comparado ao superfosfato.

Manejo do fósforo no solo
A capacidade do solo de adsorver fósforo é o fator mais importante que afeta a disponibilidade do fósforo; em função disso, ou seja, da adsorção, existem várias técnicas de aplicação de fertilizantes fosfatados visando ao aumento de sua eficiência.
Da mesma forma, o conhecimento das características físicas, químicas e físico-químicas dos fosfatos naturais é muito importante na adoção de técnicas que visem minimizar a adsorção de fósforo. O tamanho do grânulo, a solubilidade, a época, o modo e a freqüência de aplicação ao solo têm influência marcante na eficiência relativa do fertilizante fosfatado. Para a adubação de manutenção, devem-se usar fontes solúveis de fósforo, na forma de grânulos, no sulco de plantio, para reduzir o contato do fosfato com as partículas do solo e, conseqüentemente, torná-lo mais disponível na zona de crescimento das raízes. A desvantagem, nesse caso, é que o adubo fica concentrado numa pequena área de solo e pode, com isso, restringir o crescimento das raízes a um pequeno volume do solo.
A aplicação do fósforo não deve ser parcelada, porquanto suas perdas por lixiviação são muito baixas, visto que o fósforo é muito pouco móvel no solo.
Por outro lado, quando se usam fosfatos insolúveis em água ou de baixa solubilidade, os melhores resultados são obtidos com a aplicação em forma de pó ou grânulos muito pequenos, numa única operação, a lanço, com posterior incorporação ao solo. Essa é a melhor maneira quando se deseja maior contato do fosfato com as partículas do solo, ou quando são necessárias grandes quantidades de fertilizante para correção de deficiência severa do elemento, ou ainda quando se deseja completar o nível do elemento no solo. Para favorecer a incorporação do fertilizante abaixo da superfície do solo, a aplicação deve ser feita antes da aração.

Adubação potássica
Como no caso do fósforo, as doses de potássio são recomendadas com base na análise química do solo. Em geral, a dose de potássio varia de 30 kg a 90 kg de K2O ha-1.
No Brasil, dentre os adubos potássicos, o cloreto de potássio (KCI), com 60% de K2O e 45% de cloro, supre cerca de 95% do total de potássio aplicado nas plantas cultivadas no país. O sulfato de potássio, com 52% de K2O e 18% de enxofre, também pode ser usado onde houver deficiência de enxofre.

Manejo do potássio no solo
A recomendação geral é aplicar o potássio na época do plantio, juntamente com nitrogênio e fósforo. Contudo, em solos arenosos, com drenagem excessiva e CTC baixa, poderá haver consideráveis perdas de potássio por lixiviação, tendo em vista o comportamento desse elemento no solo (não sofre fixação). Essas condições são muito comuns no Brasil, o que predispõe a grandes perdas de nutrientes por lixiviação.
Para melhor utilizar o potássio existente no solo e o adicionado pela adubação, deve-se neutralizar o alumínio trocável, realizando a calagem, e aplicar doses menores de fertilizantes com maior freqüência.
Os métodos de aplicação mais usados no Brasil são no sulco, 5 cm abaixo do solo e ao lado das sementes, e a lanço. A adubação no sulco deve ser preferida quando são aplicadas doses baixas de potássio. Para doses altas, 90 kg de K2O ha-1, é recomendável fazer a adubação a lanço. No sulco, o fertilizante deve ser colocado a uma distância de pelo menos 5 cm da semente, para evitar danos a ela ou às plantas devido à alta salinidade do cloreto de potássio.

Acidez do solo: como corrigir
A calagem é uma técnica bastante simples e uma das práticas mais benéficas à agricultura. Sua função é corrigir a acidez do solo, o que acaba por conferir aumento na produtividade das culturas. Para que o produtor possa tirar o melhor proveito possível da aplicação do calcário na lavoura, é preciso observar alguns aspectos de suma importância.
Quando o solo tem pH baixo significa que a sua acidez é alta, e a medida mais aconselhável para sua correção é a calagem. É importante mencionar que a calagem somente trará impacto positivo se for realizada para atingir o pH entre 5,8 e 6,0, pois, em caso de excesso, a produtividade poderá cair drasticamente, além do que o pH acima do ideal induz à deficiência de micronutrientes, principalmente zinco, boro e manganês.
As alterações de pH e de matéria orgânica afetam consideravelmente a disponibilidade de nutrientes para as plantas. Ao aumentar o pH do solo com a calagem, ocorre aumento na disponibilidade de macronutrientes e diminuição na de micronutrientes, com exceção do molibdênio.
Logo, o primeiro passo que o produtor deve dar é proceder à análise do solo - um instrumento valioso e insubstituível, realizado em laboratórios, para avaliar não apenas a necessidade da calagem, como também a da adubação mais adequada. Evidenciada a necessidade da calagem, as perguntas mais freqüentes dos produtores são quando e como aplicar o calcário, quais as melhores fontes e qual a quantidade apropriada.
Em relação à época de aplicação, como os calcários são geralmente pouco solúveis, devem ser utilizados com suficiente antecedência, desde que haja umidade no solo. Apesar disso, pode-se distribuir o calcário no período de maior ociosidade das máquinas na propriedade.
Quanto à forma de aplicação, deve-se levar em conta o sistema de cultivo adotado. Caso o agricultor faça o plantio convencional, o calcário, dada sua baixa solubilidade, deve ser bem incorporado por meio de arações e gradagens, para facilitar ao máximo o seu contato com as partículas do solo. Nessa situação, a melhor forma de aplicá-lo é a lanço, sendo metade antes e metade depois da aração, antes da gradagem. É comum, contudo, recomendar-se a aplicação de uma só vez, antes ou depois da aração, por razões práticas e econômicas.
Para quem trabalha em plantio direto e não pretende fazer o revolvimento do solo, a calagem só pode ser feita a lanço na superfície do solo, sem incorporação, lembrando que o calcário aplicado em cobertura reage de forma mais lenta e nem sempre reage completamente, quando comparado àquele incorporado ao solo.
O sistema plantio direto (SPD) tem despertado o interesse dos agricultores da Região Centro-Oeste, e muitos deles acreditam na importância desse sistema como uma eficiente prática de recuperação de solos degradados. Por outro lado, muitas das práticas recomendadas para o sistema convencional de preparo do solo não são adequadas ao SPD. Isso é especialmente verdadeiro no que se refere à correção do solo com calcário e à necessidade e manejo da adubação NPK e micronutrientes, em seqüência de culturas.
Uma séria conseqüência da adoção do plantio direto são as alterações químicas da camada superficial em decorrência das adubações. A aplicação freqüente de fertilizantes nitrogenados, sem o uso de calcário, resulta em rápida acidificação superficial do solo. Com referência ao fósforo, não ocorre a redistribuição no solo, devido a sua baixa mobilidade e à acumulação na camada superficial do solo. Esses e outros problemas ainda precisam ser solucionados.
Sobre a melhor fonte de calcário, deve-se observar qual é o Poder Relativo de Neutralização Total (PRNT) dos corretivos, o qual indica a rapidez e a eficiência de reação do produto com o solo. Quanto maior for o valor do PRNT do corretivo, melhor ele será.
Há que salientar, porém, que, devido aos custos de transporte dos corretivos, nem sempre é econômico comprar o produto com maior PRNT. Geralmente, é recomendável fazer o seguinte cálculo: dividir o custo do calcário colocado na propriedade (incluindo o valor do frete) pelo PRNT e multiplicar o resultado por 100. Ao utilizar essa fórmula para três opções de produto, por exemplo, aquele que apresentar o valor menor é o que deve ser adquirido, independente de ser o calcário de origem calcítica, dolomítica ou magnesiana.
Em relação à quantidade de calcário, sua determinação obedece ao resultado da análise do solo que, como mencionado anteriormente, é imprescindível. Como outros fatores também devem ser levados em consideração, é aconselhável que o produtor consulte um profissional especializado para interpretar as informações técnicas. A adoção desses procedimentos pode evitar muitos gastos desnecessários e perdas de produtividade.

Aplicação de micronutrientes
A aplicação criteriosa de micronutrientes, além de suprir as carências detectadas no solo, evita a elevação desnecessária dos custos de produção e facilita o manejo da cultura. Embora essa seja uma das regras básicas para a condução de uma lavoura, é grande o número de produtores que usam produtos de qualidade duvidosa e misturas que contêm elementos desnecessários, e, o que é pior, dispensam a assistência técnica e a análise do solo antes do plantio.
Na maioria das vezes, os produtos aplicados não propiciam bons resultados pelo simples fato de o solo não apresentar deficiências, o que só pode ser comprovado pela análise laboratorial. Uma vez constatada a necessidade de determinados elementos, no entanto, a aplicação da fórmula adequada deve ser feita, preferencialmente, no solo. Na Tabela 1 estão relacionadas algumas sugestões para a correção de deficiências dos principais micronutrientes.

Tabela 1. Sugestões para a correção de deficiências de micronutrientes.
 
Medida corretiva
Micronutriente
Solo (kg ha-1)
Fonte
Foliar (400 L de H2O ha-1)
Boro
1,0 - 2,0
H3BO3
0,1% - 0,25% (bórax)
Bórax
0,1% - 0,2%
Cobre
1,0 - 2,0
CuSO4
2% (FeSO4 )
Ferro
?
-
0,02% - 0,05% (quelato)
Manganês
10,0 - 30,0
MnSO4
0,1%
Molibdênio
0,5 - 2,0
Molib. Na
0,07% - 0,1%
   
Molib. NH4
Zinco
3,0 - 5,0
ZnSO4
0,1% - 0,5% (ZnSO4 )
   
ZnO
 

A aplicação foliar é mais indicada para culturas perenes, não sendo recomendada para as culturas anuais como feijão, salvo em casos específicos, pois é de baixa eficiência. A aplicação de micronutrientes no solo é bem mais vantajosa, especialmente pelo efeito residual, que permanece por quatro anos ou mais, servindo também para as culturas subseqüentes. Um exemplo disso é a formação de pastagem antecedida por lavoura de arroz, feijão ou milho que tenha recebido aplicações de zinco, via solo. Os resíduos que nutrem a pastagem podem suprir as necessidades dos animais desse elemento importante para a formação da vitamina A.
A aplicação foliar é geralmente utilizada quando as plantas apresentam sintomas de deficiência em sua fase inicial de crescimento, época em que têm poucas folhas para absorver o nutriente, o que limita o aproveitamento. Além disso, esse tipo de aplicação requer maior tecnificação por parte do produtor.
A pulverização tem hora certa para ser realizada, exige equipamentos apropriados e não deixa efeito residual, pois a quantidade do produto utilizada é pequena. Dependendo da fase de desenvolvimento da cultura, e se realmente houver falta do nutriente no solo, a planta responde, mas o efeito é momentâneo.
Como nem todos os micronutrientes são móveis dentro da planta, a pulverização sobre as folhas pode promover a correção da deficiência apenas nas partes atingidas pelo produto, não abrangendo a área foliar que surgirá posteriormente. Assim, tem-se a percepção de que a carência foi suprida, mas, com o desenvolvimento das plantas, pode não ocorrer aumento de produtividade.
A aplicação via sementes também não é eficiente. A quantidade de micronutriente que adere é pequena, insuficiente para satisfazer à demanda nutricional da planta e não deixa efeito residual no solo.
Como processos complementares de diagnóstico destacam-se a análise foliar e a investigação dos fatores que afetam a disponibilidade desses micronutrientes. Uma calagem excessiva, por exemplo, eleva muito o pH do solo e pode induzir deficiências de micronutrientes. Isso ocorre não pela falta dos elementos e sim porque houve alteração da disponibilidade; nesse caso, a pulverização foliar pode ser recomendada, lembrando que a resposta é rápida mas sem qualquer efeito para culturas subseqüentes.
As deficiências podem ser detectadas pela análise foliar, pelo aparecimento do sintoma nas folhas e pelo pH. Por exemplo, pH acima de 6 já é um indicativo de deficiência no solo. Outro fator importante é a relação do pH com a disponibilidade do molibdênio. À medida que os efeitos da calagem se apresentam, haverá, naturalmente, maior disponibilidade do elemento no solo para as plantas. Isso explica a falta de resposta das culturas a esse nutriente na região dos cerrados.
O cobalto e o molibdênio são elementos importantes para ajudar na fixação de nitrogênio nas culturas do feijoeiro e da soja. Deficiências desses nutrientes ocorrem apenas em áreas muito restritas, o que reforça a necessidade de análise do solo e de conhecimento dos fatores que podem indicar a necessidade de aplicá-los.
Com relação às misturas de micronutrientes com defensivos, não se pode garantir que dêem resultados positivos. Sabe-se que há produtores que fazem isso para reduzir custos, economizando aplicações, mas, dependendo da forma química que o micronutriente se encontra, sal ou óxido, a mistura pode interferir na eficiência do defensivo agrícola, prejudicando seu poder de ação.


 

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