Embrapa Arroz e Feijão
Sistemas de Produção, No.5
ISSN 1679-8869 Versão eletrônica
Dezembro/2005
Cultivo do Feijão Irrigado na Região Noroeste de Minas Gerais
Murillo Lobo Junior

Introdução e Importância Econômica
Clima
Solos
Adubação
Cultivares
Produção de Sementes
Plantio e Tratos Culturais
Irrigação
Manejo de Plantas Daninhas
Doenças e Métodos de Controle
Pragas e Métodos de Controle
Normas Gerais para o Uso de Agrotóxicos
Colheita
Pós-Colheita
Mercado e Comercialização
Coeficientes Técnicos, Custos, Rendimentos e Rentabilidade
Referências
Glossário
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Expediente

Doenças e Métodos de Controle

O feijoeiro comum (Phaseolus vulgaris L.), durante todo seu ciclo, pode ser afetado por mais de 20 doenças de origem biótica, causadas por fungos, bactérias, vírus e nematóides, cuja distribuição no Brasil varia conforme as condições ambientais e as características do sistema de produção praticado em cada região produtora. A região noroeste de Minas Gerais, devido aos plantios intensivos do feijoeiro, abriga muitos desses patógenos que, de acordo com o seu local de ataque nas plantas e facilidade para dispersão e sobrevivência, podem ser agrupados em 'patógenos da parte aérea' e 'patógenos que habitam o solo'.

Doenças causadas por patógenos da parte aérea
Doenças causadas por patógenos do solo
Importância das medidas preventivas

Doenças causadas por patógenos da parte aérea
Dentre as principais doenças que atacam a parte aérea das plantas, destacam-se a antracnose, Colletotrichum lindemuthianum (Figura 1), a mancha angular, Phaeoisariopsis griseola (Figura 2), o crestamento bacteriano, Xanthomonas axonopodis pv. phaseoli (Figura 3), a ferrugem, Uromyces appendiculatus (Figura 4), o mosaico dourado, Bean golden mosaic virus (Figura 5) e o mosaico comum, Bean common mosaic virus (Figura 6).

Fig. 1. Sintomas da antracnose, Colletotrichum lindemuthianum.
Foto: Murillo Lobo Junior.


Fig. 2. Sintomas da mancha angular, Phaeoisariopsis griseola.
Foto: Murillo Lobo Junior.

Fig. 3. Sintomas do crestamento bacteriano, Xanthomonas axonopodis pv. phaseoli.
Foto: Murillo Lobo Junior.

Fig. 4. Sintomas da ferrugem, Uromyces appendiculatus.
Foto: Murillo Lobo Junior.


Fig. 5. Sintomas de mosaico dourado, Bean golden mosaic virus.
Foto: Josias Corrêa de Faria.

Fig. 6. Sintomas de mosaico comum, Bean common mosaic virus.
Foto: Josias Corrêa de Faria.

As doenças da parte aérea causadas por fungos e bactérias são importantes causadoras de desfolha e redução da área foliar que realiza fotossíntese, além de atingirem hastes e folhas. Sobre as vagens, podem causar a infecção de sementes e comprometer o plantio em que for feito uso deste material infectado. À exceção do oídio, da ferrugem e do mosaico dourado, as doenças que atacam a parte aérea podem ser transmitidas por sementes.
Em qualquer situação, o método mais simples e eficiente para o controle de doenças é a resistência genética. Com a incorporação de genes de resistência em cultivares de feijão, doenças como a ferrugem e o mosaico comum têm hoje importância secundária, pois a maioria dos novos materiais tem resistência a essas doenças. Para outros casos, seu uso é dificultado pela herança da resistência que, muitas vezes, envolve vários genes e/ou a alta variabilidade dos patógenos. Para o fungo C. lindemuthianum há mais de 20 patótipos dispersos pelas regiões produtoras de feijão no Brasil, o mesmo ocorrendo com a mancha angular. Em ambos os casos, recomenda-se não plantar extensivamente uma mesma cultivar, para evitar acúmulo dos patótipos mais agressivos a esse material e, como conseqüência, epidemias de difícil controle, ou quebra da resistência de novas cultivares.
Independentemente da resistência disponível, os melhores resultados de controle de doenças são obtidos com o uso simultâneo ou consecutivo de várias medidas que compõem o controle integrado de doenças. A incidência e severidade de doenças sobre o feijoeiro é agravada pelo alto índice do uso de grãos próprios pelo produtor, que chega a 90%. Isso significa que somente cerca de 10% dos produtores utilizam sementes de origem controlada, com alta sanidade e vigor. Com o uso de sementes infectadas, um número considerável de plantas podem já estar comprometidas desde o início da lavoura, transmitindo a doença às plantas vizinhas durante o ciclo da cultura com o auxílio de respingos da água da chuva ou irrigação, aumentando as perdas, que podem alcançar 100% da produção. Como os patógenos da parte aérea não possuem estruturas de resistência, se forem utilizadas sementes sadias numa lavoura, em sistema de rotação de culturas, haverá quebra do ciclo de vida desses patógenos e, por conseguinte, de suas doenças.
O inóculo de patógenos da parte aérea geralmente não sobrevive em restos culturais por mais de um ano. Com a degradação de restos culturais nesse período, os causadores de doenças da parte aérea são automaticamente eliminados. Mesmo com a degradação rápida dos restos culturais, a rotação de culturas é essencial e deve ser planejada para que o próximo plantio do feijoeiro ocorra quando os restos da lavoura anterior já tenham sido degradados ou eliminados. Onde há monocultura ou rotações curtas, há constantemente uma grande risco de epidemias de doenças e dificuldades no seu controle.
O tratamento de sementes é uma medida que reduz ou elimina o inóculo inicial de doenças, é eficiente e essencial na grande maioria das situações, permite obter 100% de controle de patógenos aderidos ao tegumento de sementes e assegura proteção contra patógenos que sobrevivem no solo, nos estádios iniciais de desenvolvimento da cultura. O tratamento de sementes com fungicidas não garante a eliminação de todo o inóculo no endosperma das sementes, mas pode reduzi-lo significativamente, facilitando o controle de doenças na lavoura. Os melhores resultados têm sido obtidos com a combinação de fungicidas sistêmicos com fungicidas de contato. Além disso, dependendo dos ingredientes ativos em uso, pode-se também realizar o controle de várias doenças simultaneamente.
O desenvolvimento da antracnose, da mancha angular e do crestamento bacteriano depende da ocorrência de períodos contínuos de molhamento foliar. A antracnose se desenvolve com maior intensidade sob temperaturas moderadas e alta umidade relativa do ar. Assim, é recomendável evitar: chuvas intensas; uso excessivo da irrigação por aspersão; trânsito de trabalhadores e implementos quando a folhagem está molhada; plantio em épocas de chuvas intensas; e alta densidade de plantas por hectare.
Alguns fungos têm esporos que percorrem longas distâncias, permanecendo viáveis, e acabam atingindo cultivares suscetíveis, como é o caso do P. griseola. Com o cultivo do feijoeiro em até três safras anuais, a mancha angular se tornou uma das doenças mais importantes durante todo o ano. No caso de cultivares suscetíveis, em áreas de alta pressão de doenças e épocas favoráveis, é importante fazer o controle preventivo com fungicidas ou iniciar as aplicações logo após o surgimento dos primeiros sintomas.
A ferrugem do feijoeiro é favorecida por períodos de 10 a 18 h de umidade relativa superior a 95% e temperaturas entre 17ºC e 27ºC. As cultivares lançadas pela Embrapa possuem resistência intermediária ou alta à ferrugem, assim, a ocorrência desta doença não deve representar perdas consideráveis na produção. Contudo, considerando que são várias as raças de U. appendiculatus, é importante estar sempre atento ao que acontece no campo.
Os produtos registrados para o controle das doenças do feijoeiro, para pulverização e para o tratamento de sementes estão disponibilizados na base de dados Agrofit, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, neste endereço: http://extranet.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons

Doenças causadas por patógenos do solo
Um outro grupo de patógenos de grande importância para o feijoeiro são os patógenos do solo que sobrevivem no solo durante vários anos, em estruturas de sobrevivência, e atacam o sistema radicular ou até mesmo a parte aérea das plantas, formando lesões que restringem o desenvolvimento das mesmas ou causam a sua morte.
No Brasil, o feijoeiro pode ser alvo de sete patógenos de solo de importância epidemiológica e que são transmitidos por sementes. Destes, seis são fungos, e um, bactéria. Entre os fungos, destacam-se: Fusarium oxysporum f. sp. phaseoli, causador da murcha-de-fusário (Figura 7); Fusarium solani f. sp. phaseoli, agente da podridão radicular seca (Figura 8); Macrophomina phaseolina, podridão cinzenta da haste (Figura 9); Rhizoctonia solani (Thanatephorus cucumeris), respectivamente agentes da podridão radicular (Figura 10) e da mela do feijoeiro (Figura 11); e Sclerotinia sclerotiorum, causador do mofo branco (Figura 12).

Fig. 7. Sintomas da murcha-de-fusário, Fusarium oxysporum f. sp. phaseoli.
Foto: Murillo Lobo Junior.


Fig. 8. Sintomas da podridão radicular seca, Fusarium solani f. sp. phaseoli.
Foto: Murillo Lobo Junior.

Fig. 9. Sintomas da podridão cinzenta da haste causada por
Macrophomina phaseolina
.
Foto: Murillo Lobo Junior.

Fig. 10. Sintomas da podridão radicular de Rhizoctonia solani.
Foto: Murillo Lobo Junior.

Fig. 11. Sintomas da mela ou murcha de teia micélica do feijoeiro,
causada por Thanatephorus cucumeris.
Foto: Murillo Lobo Junior.

Fig. 12. Sintomas do mofo branco, causado por Sclerotinia sclerotiorum.
Foto: Murillo Lobo Junior.

É importante mencionar que, mesmo sendo de importância secundária, alguns nematóides têm infectado a cultura do feijoeiro no Brasil, havendo, inclusive, registros do aumento de danos causados por este grupo, especialmente os dos gêneros Meloidogyne (Figura 13) e Pratylenchus, dada a possibilidade de interação entre os mesmos e os fungos causadores de podridões radiculares. Assim, os nematóides, em populações de fungos, mesmo que estejam abaixo do nível de dano, podem danificar o sistema radicular das plantas e comprometer a produção ou a qualidade de sementes.
A transmissão desses patógenos por sementes infectadas garante o seu transporte a longas distâncias e a sua introdução em novas regiões. Junto com as sementes infectadas, pode ocorrer também o transporte de estruturas de resistência e de solo infestado. Em cada plantio, as plantas infectadas produzirão novas estruturas de resistência, aumentando, cada vez mais, o número de unidades de propagação do fungo no solo, se não houver controle da doença. Além disso, o trânsito de máquinas, implementos, trabalhadores e animais em áreas infestadas auxilia na dispersão das estruturas de sobrevivência, podendo levar os patógenos para lavouras próximas.

Fig. 13. Galhas em raízes de feijoeiro causadas por Meloidogyne spp.
Foto: Geraldo Estevam de Souza Carneiro.


Os fungos do grupo de patógenos de solo possuem estruturas de resistência chamadas de escleródios ou esclerócios (no caso de S. sclerotiorum, R. solani, T. cucumeris e M. phaseolina) ou clamidosporos (F. solani e F. oxysporum). Como as estruturas de resistência estão na superfície ou enterradas no solo, dificilmente são alcançadas pelos fungicidas. Todos esses fungos também sobrevivem em restos culturais, havendo, para muitos deles, centenas de plantas hospedeiras, o que dificulta muito o seu controle. Na maioria dos casos, também não há resistência genética disponível para essas doenças, no que se refere à cultura do feijoeiro. Somente F. oxysporum f.sp. phaseoli tem poucas hospedeiras: além do feijoeiro comum, infecta o caupi (Vigna unguiculata).
Espécies de fungos como F. solani, R. solani e M. phaseolina são encontradas em áreas nativas de Cerrado, sendo, portanto, endêmicas nessa região. Como esses fungos são muito destrutivos, é extremamente importante que, no momento de implantação de uma lavoura, haja baixa densidade de inóculo dessas espécies no solo e que se utilizem sementes de boa qualidade. Esse panorama tem impulsionado a demanda por sementes sadias e a pressão por padrões de qualidade cada vez mais exigentes, para garantir a sustentabilidade da produção de feijão no país. Com o propósito de estabelecer a tolerância zero em lotes de sementes para S. sclerotiorum e F. oxysporum f. sp. phaseoli, o Ministério da Agricultura do Brasil publicou a Portaria 71 no Diário Oficial da União, em 22 de fevereiro de 1999, divulgando padrões de tolerância para patógenos não quarentenários regulamentáveis, que ainda não foram implantados.
Os patógenos do solo são favorecidos pela alta umidade do solo, à exceção do agente causal da podridão cinzenta da haste, que prefere solos mais secos. O mofo branco, as podridões radiculares e a murcha-de-fusário preferem temperaturas amenas, entre 18 oC e 20oC, para se desenvolverem. Já a mela, a murcha de esclerócio (Figura 14) e a podridão cinzenta da haste são predominantes em regiões com temperaturas elevadas. Como o clima das diferentes regiões brasileiras favorece a ocorrência de pelo menos uma dessas doenças, é muito importante planejar todo o sistema de produção de maneira adequada e realizar o plantio em épocas desfavoráveis às doenças de maior importância.

Fig. 14. Sintomas da murcha de esclerócio causada por Sclerotium rolfsii.
Foto: Aloísio Sartorato.


Para o controle de doenças causadas por patógenos do solo existem várias alternativas, como o uso de sementes sadias, o uso de plantas supressoras - especialmente Brachiaria brizantha e B. ruzisiensis -, por dois anos ou mais, como preconizado pelo Sistema Santa Fé, a cobertura morta, formada no sistema plantio direto, nutrição adequada de plantas e a prática de rotação de culturas.
O uso de braquiárias é uma das práticas culturais mais eficientes para o controle de patógenos de solo, pela qualidade da palhada formada (Figura 15) e pelo aporte de matéria orgânica no solo, estimado entre 10 t e 12 t ha-1, quando bem manejado. Esse acréscimo de matéria orgânica incentiva a proliferação de inúmeros fungos e bactérias benéficos que atuam no controle biológico natural dos patógenos.

Fig. 15. Cultivo de feijoeiro sobre palhada de braquiária.
Foto: Tarcísio Cobucci.


A formação de palhada sobre o solo apresenta também a vantagem de manter a umidade do solo nos plantios tardios, além de reduzir a ocorrência de plantas daninhas e proporcionar maior diversidade de microorganismos benéficos no solo. Muitas vezes, no segundo ano consecutivo de cultivo de braquiárias, a severidade da doença é menor, e a produtividade, maior, em comparação com o plantio convencional.
Dentre os patógenos que habitam o solo, as podridões radiculares, causadas por Fusarium solani f. sp. phaseoli (podridão radicular seca) e Rhizoctonia solani, estão presente em praticamente todos os plantios no noroeste de Minas Gerais. A incidência desses fungos é favorecida pela compactação e alta umidade do solo, e leva à redução do crescimento radicular da planta, comprometendo a produção da lavoura. Além disso, podem afetar as sementes, as quais apodrecem no solo antes ou durante a germinação, ou provocar lesões na base do caule, o que resulta em morte de boa parte do sistema radicular e/ou tombamento. O controle das podridões radiculares inclui o emprego de semente sadia, o tratamento das sementes com fungicidas e práticas culturais, como a rotação de culturas com espécies supressoras, a eliminação de restos culturais e a diminuição da profundidade de semeadura (máximo de 3 cm) para permitir a emergência mais rápida das plântulas. A antecipação da adubação de cobertura acelera o desenvolvimento das plantas, que adquirem resistência a essa doença com a maturidade.
Quando localizado próximo às sementes e em adubações pesadas, o potássio presente na fórmula NPK é responsável pela queima das raízes formadas logo após a germinação e o estresse de plântulas (Figura 16), abrindo uma porta para entrada dos fungos causadores de podridões radiculares. Assim, com freqüência, são criados a oportunidade e o ambiente favorável para F. solani f. sp. phaseoli e R. solani colonizarem a plântula de feijão. A utilização de MAP (nitrogênio mais fósforo) no sulco de plantio e a distribuição de potássio a lanço têm minimizado as podridões radiculares mesmo em áreas com altas densidades de inóculo. Outra situação a ser evitada é o plantio profundo - superior a 3 cm ou 4 cm - que agrava os sintomas das podridões radiculares quanto mais frio estiver o solo, por aumentar o tempo de exposição das plantas aos patógenos. O manejo adequado da semeadora-adubadora no ato do plantio é também fundamental para que as sementes sejam distribuídas uniformemente e bem posicionadas em relação ao fertilizante, para evitar a queima das raízes com o adubo. A descompactação do solo obtida com as braquiárias também reduz a severidade da doença. As recomendações para o controle do mofo branco, S. sclerotiorum, em feijoeiro envolvem várias práticas culturais, tais como: exclusão e tratamento de sementes; proibição do tráfego de pessoas e equipamentos provenientes de áreas infestadas; e inspeção rigorosa da cultura durante a floração, quando há maior predisposição à doença, objetivando a detecção de pequenos focos visando ao seu controle.

Fig. 16. Queima das raízes de feijoeiro (plantas à direita) formadas logo após a germinação e estresse de plântulas.
Foto: Murillo Lobo Junior
.


A utilização de palhada de gramíneas, como braquiárias, B. brizantha e B. ruzisiensis, arroz, trigo e aveia, com 3 cm a 5 cm de espessura sobre o solo, pode reduzir a germinação de escleródios e conseqüente formação de apotécios (Figura 17), mesmo em solos ricos em matéria orgânica. A cobertura morta do solo, associada ao plantio direto, além de incrementar populações de microorganismos que atacam os escleródios no solo, serve de barreira física ao lançamento de esporos a partir dos apotécios.
Além disso, a prática de rotação de culturas para controlar o mofo branco pode assegurar melhores resultados com a utilização de culturas de inverno não hospedeiras, como milheto, milho doce, aveia e trigo, por, pelo menos, um ano, sob condições de irrigação, para promover o grau de saturação do solo próximo à capacidade de campo e a queda da temperatura para menos de 20ºC. Assim, os escleródios apodrecem ou germinam e se esgotam, e a ausência de hospedeiras impede novas infecções.

Fig. 17. Apotécios de Sclerotinia sclerotiorum.
Foto: Murillo Lobo Junior.


A severidade do mofo branco aumenta com o uso de irrigações freqüentes e diminui com um intervalo maior entre as irrigações. Por isso, o uso de tensiômetros é altamente recomendável para monitorar a necessidade de água da cultura, indicando o momento de irrigação. Vale salientar que o corte de água de irrigação, quando a doença se estabelece, só deve ser efetuado após a aplicação dos fungicidas. Se a irrigação for cortada antes da pulverização, o fungo acelera a formação de escleródios e aumenta a fonte de inóculo para as safras seguintes. Nesse caso, o uso de fungicidas tem pouca ou nenhuma utilidade.
É também muito importante fazer a rotação entre ingredientes ativos e definir localmente o intervalo ideal para aplicação, a persistência dos produtos nas condições de campo, a época ideal e o número de pulverizações, o limiar de atuação desses produtos e o modo de aplicação.
A simples presença de apotécios no campo não determina a aplicação de fungicidas, mas sim a presença simultânea de flores e de apotécios. A eficiência do controle químico reside, principalmente, no caráter preventivo de seu uso, ou seja, antes de a doença se manifestar. O controle curativo é duvidoso e, apesar de reduzir o potencial do inóculo para as safras posteriores, tem pouco ou nenhum efeito sobre o ganho econômico.
Do mesmo modo, o controle químico tem eficiência limitada em áreas onde densidades maiores que 15 escleródios por metro quadrado de solo podem inviabilizar a cultura do feijoeiro. Nesse caso e em situações menos drásticas, é necessária a aplicação de outras práticas, como o uso de braquiárias e/ou o enterrio de escleródios a 20 cm ou 30 cm de profundidade, com arado de aiveca, o que irá permitir o restabelecimento dos níveis econômicos da produção. Sem a adoção do plantio direto, uma nova aração trará os escleródios novamente para as camadas próximas à superfície. Durante o período sob plantio direto, espera-se que os escleródios sejam destruídos por bactérias e/ou fungos competidores.
A principal medida de controle da murcha-de-fusário, F. oxysporum f. sp. phaseoli, é evitar a entrada do patógeno em áreas isentas. Outras medidas de controle são a rotação de culturas com braquiárias ou milheto e o revolvimento do solo com arado de aiveca. Esse tipo de arado propicia melhor controle da doença que o uso do escarificador ou mesmo que o plantio direto. A aplicação de nitrogênio, antecipadamente, melhora a produtividade de áreas infestadas por F. oxysporum, assim como a calagem e a adubação equilibrada. O controle da murcha-de-fusário também pode ser obtido via resistência genética do hospedeiro, mediante o uso de práticas culturais e tratamento de sementes. O fungo F. oxysporum f. sp. phaseoli apresenta cinco raças de alta especificidade. É importante frisar que uma cultivar pode não ser resistente a todas as raças do patógeno. Para saber quais as raças são encontradas em uma região, e assim indicar cultivares resistentes para o plantio, é preciso que amostras do fungo sejam inoculadas em uma série de cultivares "diferenciadoras". A severidade da murcha-de-fusário aumenta com a presença dos nematóides Meloidogyne, cujos ferimentos nas raízes do feijoeiro funcionam como porta de entrada para o Fusarium.
A mela ou murcha de teia-micélica, T. cucumeris, e a murcha de esclerócio, S. rolfsii, são doenças secundárias na região noroeste mineira, e raramente ocorrem em áreas de maior altitude e clima ameno. Eventualmente, podem ser mais importante em regiões mais baixas, quentes e úmidas, durante o plantio das águas. Sob condições favoráveis, os patógenos podem infectar várias culturas, além do feijoeiro comum, a partir de escleródios, micélio e basidiósporos produzidos sobre os resíduos orgânicos do solo. A agressividade da mela e a alta suscetibilidade das cultivares do feijoeiro facilitam o progresso rápido dessa doença que pode destruir lavouras em poucos dias. A formação de palhada sobre o solo também ajuda o controle da doença por atuar como barreira física e impedir que os respingos da chuva atinjam o solo, levando o inóculo do solo para a planta. A época ideal de plantio da cultura em áreas com histórico da doença deve permitir que o florescimento e a formação de vagens do feijoeiro - que favorecem o desenvolvimento da mela - ocorram sob condições climáticas desfavoráveis à doença, principalmente no período menos chuvoso.
A murcha bacteriana causada por Curtobacterium flaccumfasciens é o resultado da infecção do sistema vascular do feijoeiro, provocado pelo plantio em solos infestados pelo uso de sementes infectadas. Os sintomas iniciais são de folhas murchas durante as horas mais quentes do dia. As folhas podem voltar à turgescência normal durante os períodos de alta umidade e baixa temperatura, contudo, em geral, tornar-se-ão castanhas com a conseqüente murcha e morte da planta. Esse patógeno sobrevive em sementes, por 14 anos, e no solo, por um período ainda não definido. No campo, causa murcha em plantas de feijão durante o enchimento de vagens, levando-as à morte (Figura 18). Por ser pouco conhecida, tem se alastrado rapidamente pelo uso de sementes infectadas e confundida com a murcha-de-fusário.
A podridão cinzenta da haste, M. phaseolina, é uma doença cuja importância tem aumentado rapidamente nos últimos anos, sendo favorecida por altas temperaturas e estresse hídrico. O controle da doença inclui o emprego de semente limpa, o tratamento da semente e práticas culturais, como a aração profunda, para enterrar resíduos contaminados. A rotação de culturas é de valor duvidoso, devido a ampla gama de hospedeiros do fungo que inclui o milho e o sorgo, mas o plantio na época "das águas" ou em áreas irrigadas desfavorece a ocorrência da doença.

Fig. 18. Murcha de plantas de feijoeiro causada por Curtobacterium flaccumfasciens.
Foto: Murillo Lobo Junior.

Importância das medidas preventivas
Parte expressiva do alto custo de produção do feijoeiro no noroeste de Minas Gerais é explicada pela alta dependência de insumos, o que poderia ser evitado com o uso constante de medidas que atuam no controle de várias doenças. As sementes sadias devem ser utilizadas mesmo em áreas já infestadas por patógenos que sobrevivem no solo, pois as infectadas podem introduzir variações dos fungos com maior agressividade, maior resistência a fungicidas, novas raças de patógenos e originar plântulas doentes ou falhas na germinação, causando redução do estande da cultura e na produtividade.
Resultados de estudos realizados no noroeste de Minas Gerais indicam aumento médio de 40% na produtividade do feijão decorrente do uso de sementes de boa qualidade, em relação aos grãos normalmente utilizados pelos agricultores, devido ao controle preventivo de doenças. Por isso, o tratamento de sementes é indispensável para a implantação do estande desejado e redução do inóculo inicial de diversas doenças.
O controle de doenças e a boa produtividade estão diretamente ligados à homogeneidade das plantas que formam o estande da área plantada. Somente com o uso de uma semente de boa qualidade pode-se dar início à construção de uma boa planta. Uma lavoura composta por plantas desuniformes compromete a produtividade das áreas cultivadas, onerando os custos de produção e, conseqüentemente, reduzindo o retorno econômico.
No campo, os técnicos que manejam a cultura do feijoeiro, seja em áreas pequenas ou extensas, têm a tarefa de planejar a "construção da planta" e diagnosticar diariamente a lavoura. O reconhecimento e identificação de um problema mediante a análise dos sintomas, ou da causa dos danos, é uma atitude de fundamental importância para a tomada de decisão rápida e de forma adequada.
Nessa região prevalece, em muitas lavouras, um acúmulo de doenças no feijoeiro causado por fatores diversos, como o uso de grãos próprios no plantio e rotações curtas escolhidas por critérios econômicos, sendo essencial a recuperação da qualidade do solo para a sustentabilidade dos cultivos do feijoeiro. Para todo o complexo de patógenos de solo, isso pode ser feito com o aumento da matéria orgânica e a redução do inóculo com braquiárias estabelecidas após consórcio com milho, como preconizado pelo Sistema Santa Fé.








 

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