Embrapa Arroz e Feijão
Sistemas de Produção, No.4
ISSN 1679-8869 Versão eletrônica
Dez/2004
Produção de Sementes Sadias de Feijão Comum
em Várzeas Tropicais

Homero Aidar
João Kluthcouski

Introdução e Importância Econômica
Clima
Efeitos da Temperatura
Solos
Correção da Acidez do Solo
Disposição dos Fertilizantes
Adubação
Manejo do Nitrogênio
Produção de Sementes Genética, "Pré-Básica" e Básica
Irrigação
Estabelecimento da Cultura Preparo do Solo e Plantio Mecanizado
Manejo de Plantas Daninhas
Normas Gerais Sobre o Uso de Agrotóxicos
Colheita Mecanizada
Pós-colheita
Mercado e Comercialização
Coeficientes Técnicos, Custos, Rendimentos e Rentabilidade
Referências
Autores
Glossário

Expediente

Introdução e Importância Econômica

Introdução
Importância Econômica

Introdução

A área disponível para a irrigação sustentável no Brasil é da ordem de 29.564.000 ha, dos quais 50,6% são constituídos de várzeas, principalmente sob clima tropical, e 49,4%, de terras altas. As grandes extensões de várzeas tropicais contínuas e irrigáveis encontram-se em regiões de baixas latitude e altitude, cujas altas temperaturas do ar sempre foram consideradas problemáticas para a exploração, com rentabilidade, de algumas culturas anuais, principalmente do feijoeiro comum. Por outro lado, nos países de clima temperado e/ou regiões subtropicais há impedimentos para o aproveitamento intensivo das várzeas devido à neve e/ou a baixas temperaturas no inverno. Estes fatos, muito provavelmente, explicam a inexistência de trabalhos de referência na literatura mundial.
Estudos recentes apontam, somente no Vale do Araguaia, mais especificamente à margem direita do Javaés, braço menor do Rio Araguaia, a existência de 1,2 milhão de hectares de várzeas tropicais planas, com alto teor de matéria orgânica, em condições de serem utilizadas para a irrigação. Uma vez sistematizadas, estas áreas, por apresentarem inverno seco e baixa umidade relativa do ar, podem ser intensivamente cultivadas durante os doze meses do ano, com a utilização de distintos métodos de irrigação.
O paradigma de que o feijoeiro comum exige temperaturas amenas foi quebrado naquele vale, considerado, até então, não propício para a produção de feijão, devido às altas temperaturas do ar. Com o uso da irrigação por subirrigação, sem déficit hídrico, por mais paradoxal que pareça, são produzidas sementes de feijão de alta qualidade sanitária e fisiológica. Regiões com temperatura média acima da ideal podem, então, ser produtoras exclusivas de semente sadia.
Semelhantemente, nos Estados Unidos, onde a maioria das sementes certificadas é produzida em regiões semi-áridas, sob irrigação, tais como Idaho, Nebraska, Califórnia e Sudoeste do Colorado, a elevada taxa de uso de semente certificada de feijão é justificada pelo alto índice de contaminação de doenças transmissíveis pelas sementes nas áreas de produção de grãos. Nas várzeas tropicais do Vale do Araguaia, onde a água não é limitante e o clima é seco, sem ocorrência de chuva entre maio e setembro, a irrigação por subirrigação constitui-se no sistema ideal para produzir sementes sadias de feijão com baixo custo, podendo, a curto prazo, tornar-se no mais importante pólo de produção. Além disto, como as doenças comuns não proliferam sob temperaturas superiores a 32°C, o uso preventivo de defensivos químicos é desnecessário.
No início das atividades, acreditava-se que as mesmas práticas utilizadas nas regiões de produção de feijão de terras altas pudessem ser implementadas naquele vale. Hoje, sabe-se que estas práticas se diferenciam quanto ao manejo do solo, estabelecimento da cultura, época de semeadura, arranjo espacial das plantas, profundidade de adubação, manejo do nitrogênio, tratamento fitossanitário, dentre outras. Vale salientar que os resultados obtidos em lavouras comerciais de feijão conduzidas naquela região são bastante animadores, haja vista que a produtividade, nas melhores glebas, tem sido superior a 3,0 t ha-1.

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Importância Econômica

No Brasil, o feijão comum é, tradicionalmente, cultivado por pequenos agricultores descapitalizados que, em sua maioria, empregam pouca tecnologia. O benefício do uso de semente de qualidade é pouco percebido por esses produtores, uma vez que os níveis de rendimento obtidos por eles ainda estão muito abaixo do potencial das cultivares, como relatado no artigo "Mercado e Comercialização". Isto pode ser decorrente de duas situações: primeira, os fatores que asseguram a máxima produção econômica não estão sendo utilizados na quantidade adequada; ou, segunda, nem todas as práticas preconizadas pela pesquisa estão sendo empregadas pelos produtores - não havendo, desta maneira, possibilidades de o uso da semente alterar, de forma significativa, o rendimento médio da cultura.
Nas duas últimas décadas, o feijão passou a ser cultivado sob pivô central, e grande parte da semente produzida tem sido proveniente deste sistema de irrigação. Hoje, contudo, devido à necessidade do uso de agroquímicos nas áreas mais antigas de pivô central, que foram contaminadas por doenças transmissíveis pela semente, o custo de produção elevou-se atingindo níveis proibitivos, o que resultou num produto - a semente - extremamente caro. Até o momento, esta realidade tem corroborado para um cenário de inexpressiva prioridade no que se refere tanto à produção quanto ao uso de semente, não obstante a importância socioeconômica deste produto para o País. Tem-se, assim, um círculo vicioso, o agricultor não produz semente porque não há demanda, e/ou o produtor de grãos não a adquire devido ao seu alto custo e/ou porque a sua importância é pouco visível no contexto do seu sistema de produção.
A técnica de produção de semente de feijão em várzea tropical é inovadora e altamente recomendável, devido ao baixo custo de produção, resultado do fato de que as doenças transmissíveis pela semente são naturalmente controladas pela baixa umidade e alta temperatura do ar e/ou do uso da irrigação por subirrigação, sendo desnecessária a aplicação de agroquímicos.
É importante enfatizar que a produção de sementes nesse ambiente requer a adoção de toda a tecnologia preconizada pela pesquisa agrícola e a mecanização de todas as práticas que compõem o sistema de produção, como o empregado pelos sojicultores. Acredita-se que a produção de sementes de feijão em várzea tropical irá preencher uma lacuna na cadeia produtiva do feijão, beneficiando os produtores de sementes especializados, incentivando o estabelecimento de infra-estruturas de unidades de beneficiamento e armazenamento, planejamento e/ou fluxo contínuo de produção, como também a geração de empregos, contribuindo com a retomada do crescimento econômico do País.

 

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