Embrapa Amazônia Oriental
Sistemas de Produção, 02
ISSN 1809-4325 Versão Eletrônica
Dez./2005
Criação de Gado Leiteiro na Zona Bragantina
Jonas Bastos da Veiga
Cristóvão Morelly K. Hashiguti de Freitas
René Poccard-Chapuis
Sumário
Início

Apresentação
Importância potencial e limitações
Aspectos agroecológicos
Composição e melhoramento genético do rebanho
Manejo reprodutivo
Manejo sanitário
Instalações zootécnicas
Formação e manutenção de pastagem
Manejo de pastagem
Formação e utilização de capineira
Formação e utilização de banco de proteína
Suplementação concentrada
Suplementação mineral
Qualidade do leite
Custos de produção e análise financeira
Cadeia produtiva do leite
Referências
Glossário
Autores
Expediente
  Cadeia produtiva do leite
 

Introdução

Nas últimas décadas, a relação das atividades agropecuárias com o mercado (agronegócio) tem passado por uma significativa transformação. Na atual conjuntura, onde a globalização econômica é a palavra de ordem, os fluxos mercadológicos e comerciais têm que ser considerados com muita atenção, num complexo sistema interligado de rede ou cadeia produtiva.

Para poder competir no plano inter e extra setorial, os produtores devem atentar para gestão da propriedade rural, priorizando os seguintes pontos importantes: capacitação, profissionalismo e competência administrativa e gerencial, que envolvem conhecimento dos fluxos de mercado e de comercialização, com um forte compromisso com a qualidade (matéria-prima, processos de produção, embalagem, transporte etc.).

A capacitação não se restringe à transferência tecnológica ou ao simples treinamento, mas abrange uma preparação mais completa, incluindo a consciência profissional, em busca do discernimento e da consciência crítica de suas necessidades, tanto do ponto de vista da subsistência quanto da expansão do agronegócio. O efeito positivo dessa estratégia culmina com o desenvolvimento do capital humano (Freitas, 2002).

Diante dessa nova realidade do agronegócio, o conhecimento dos fluxos da cadeia produtiva é de suma importância para a viabilidade da propriedade rural, visando à garantia de mercado e comercialização da produção. No caso do leite, cujo setor vem atravessando momentos de dificuldades, é importante que o produtor saiba como trilhar esses fluxos, pois é pelo exame dos segmentos da cadeia que se pode identificar as limitações e os gargalos da atividade, avaliar os preços de insumos, definir preços competitivos de produtos, e encontrar novos mercados e nichos de comercialização, parcerias, resultados de pesquisa e outras "facilidades" para competir no mercado.

As ações desorganizadas nos elos da cadeia do leite impedem o controle da qualidade, o melhoramento dos sistemas de produção, o crescimento e a estruturação da bacia leiteira, e a geração de empregos, renda e serviços nos meios rural e urbano. A gestão precária da propriedade e a ausência de apoio técnico e gerencial são outros fatores limitantes (Simão Neto et al., 1989; Tourrand et al., 1998; Veiga et al. 2001).

Cadeia produtiva - componentes da rede

A visão de cadeia produtiva ajuda os responsáveis pela tomada de decisão a tratar da questão de acesso a insumos e mercados na abordagem das atividades produtivas. Assim, na década de 90, a verticalização da produção tornou-se tema prioritário para muitos programas, políticas ou discursos sobre desenvolvimento sustentável da região.

Cadeia produtiva é definida como "a rede constituída por diversos atores que geram relações de força coletiva, que influenciam diretamente as estratégias mercadológicas e comerciais, assim como a tomada de decisão de cada um dos atores" (Jank et al.1999). Para melhor entender a cadeia, é importante conhecer as principais estruturas que compõem a rede:

Sistema-ator - É um componente de caráter subjetivo que representa uma sub-estrutura organizada de um segmento de base da atividade. Como exemplo, citam-se uma associação de produtores, uma fazenda de leite, um laticínio, uma distribuidora, etc. Como agente indutor dessa estrutura, tem-se a figura do ator, sem a qual não haverá a geração de forças e direção (operação) para a impulsionar os fluxos da cadeia.

Função técnica - Trata-se de uma etapa no processo de produção/transformação/comercialização. Assim, o transporte do leite fluido é uma função técnica. A comercialização de insumos, a industrialização e a cria, são outros exemplos. Em cada função técnica, podem atuar vários sistemas-ator.

A cadeia produtiva - é um sistema composto pelo conjunto das funções técnicas envolvidas, desde a produção dos produtos até o consumo, no caso de leite e derivados.

Esses três conceitos básicos permitem decompor a cadeia e decifrar sua complexidade, sempre preservando sua essência sistêmica. O conceito de sistema facilita a análise das estratégias dos atores, da influência do esquema global sobre cada componente, dos processos de estruturação, etc.

A cadeia produtiva de leite da Zona Bragantina

Nessa região, a cadeia de leite se caracteriza, principalmente, por estar distante dos grandes mercados e centros nacionais de comercialização, porém próximo de aglomerados urbanos, com significativos nichos de mercado e de demanda por produtos lácteos. Nesses nichos, o comportamento do consumidor - em decorrência da política econômica e monetária instituída no País - propiciou o surgimento de indústrias de produtos derivados do leite: queijos frescos, iogurtes, bebidas lácteas e manteiga, antes escassos ou importados, ou ainda, de origem clandestina.

Os laticínios locais aproveitam esses nichos de mercado, valorizando a vantagem da proximidade de centros urbanos locais, uma vez que seus concorrentes da Região Sudeste não podem competir no mercado de produtos frescais, por causa do alto custo do frete.

O exemplo da cadeia produtiva de leite da Microrregião de Castanhal

Especificamente na Microrregião de Castanhal, região bastante desenvolvida da Zona Bragantina, os laticínios tiram vantagem da infra-estrutura de energia e transporte (Fig. 1 e 2) , bem como da proximidade de centros urbanos (Freitas, 2002), em especial, o da Grande Belém, com cerca de 1,7 milhões de habitantes.

O ponto fraco desse tipo de cadeia - que se localiza às proximidades de cidades importantes e que dispõem de uma boa infra-estrutura - está no elo da produção. Os fatores que beneficiam os laticínios afetam negativamente a produção de leite, por viabilizar a exploração de outras alternativas econômicas. O alto custo da terra e da mão-de-obra, aliado à marginalização da produção familiar, também contribuem para essa situação.

De modo geral, a produção de leite na Microrregião de Castanhal tem como objetivo principal o pagamento da mão-de-obra das propriedades. Como nessas propriedades, a produção agrícola é bastante diversificada (Fig. 3) e importante economicamente (e. g. hortaliças, fruteiras e outras culturas perenes), o leite pode tornar-se pouco atraente. Dessa forma, as perspectivas para que essa cadeia se desenvolva na microrregião vai depender da capacidade de produção de matéria-prima. Os laticínios instalados são de pequeno porte, pagando relativamente bem pela matéria-prima, visando manter o produtor no negócio, sob pena de sofrer insolvência econômica.

Foto: Cristóvão M.K.H. Freitas

Fig. 1. Transporte de leite tradicional (bicicleta), na Microrregião de Castanhal.

 

Foto: Cristóvão M.K.H. Freitas

Fig. 2. Transporte de leite a granel, exigido por lei.

 

Ilustração: Freitas (2002)


Fig. 3. Diversificação das propriedades leiteiras da Microrregião de Castanhal.

Alguns laticínios reidratam, no seu processamento, o leite em pó, importado das regiões produtoras mais tradicionais. Nesse contexto, uma bacia leiteira tem dificuldade de se desenvolver, apresentando um papel pouco importante na economia da região. Na Fig. 4, encontra-se a configuração da cadeia produtiva do leite da Microrregião de Castanhal, conforme Freitas (2002).

A produção de leite comercializado na Microrregião de Castanhal satisfaz apenas 24,3% da demanda total, forçando uma importação de 75,7%. Do total da produção local, 83% são vendidos para os laticínios locais para fabricação de produtos lácteos (queijos diversos, iogurte, bebidas lácteas, entre outros), 15% são comercializados diretamente com o consumidor e 5% são repassados para os atravessadores e pequenas indústrias caseiras, que produzem iogurte, sorvete, picolés e outros produtos (Fig. 4).

Na industrialização, observam-se diferentes níveis tecnológicos (e. g. na embalagem, Fig. 5 e 6). Na comercialização do leite dessa microrregião, observou-se o preço de venda ao consumidor de R$ 0,40.

Fatores limitantes da uma cadeia

Em geral, os fatores que limitam o desenvolvimento de uma cadeia produtiva de leite estão relacionados com os aspectos geopolíticos e sociais da região da qual faz parte. O produtor deve estar atento aos seguintes fatores:

- Política governamental para o setor.

- Abastecimento de insumos.

- Canais de comercialização.

- Apropriação de tecnologia.

- Genética do rebanho.

- Organização da cadeia produtiva.

- Preço de produto.

- Assistência técnica.

- Acesso a mercados.

- Linhas de financiamento.

- Capacitação e treinamento.

- Incentivo fiscal.

- Fiscalização dos órgãos competentes.

      Ilustração: Jonas Veiga

   Fig. 4. Representação da cadeia produtiva do leite da Microrregião de    Castanhal, 2001.

 

Foto: Cristóvão M.K.H. Freitas

Fig. 5. Sistema de embalagem rústico.


Foto: Cristóvão M.K.H. Freitas

Fig. 6. Sistema de embalagem rústico.

 
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