Embrapa Amazônia Oriental
Sistemas de Produção, 02
ISSN 1809-4325 Versão Eletrônica
Dez./2005
Criação de Gado Leiteiro na Zona Bragantina
Guilherme P. Calandrini de Azevedo
Ari Pinheiro Camarão
Jonas Bastos da Veiga
Sumário
Início

Apresentação
Importância potencial e limitações
Aspectos agroecológicos
Composição e melhoramento genético do rebanho
Manejo reprodutivo
Manejo sanitário
Instalações zootécnicas
Formação e manutenção de pastagem
Manejo de pastagem
Formação e utilização de capineira
Formação e utilização de banco de proteína
Suplementação concentrada
Suplementação mineral
Qualidade do leite
Custos de produção e análise financeira
Cadeia produtiva do leite
Referências
Glossário
Autores
Expediente
  Formação e utilização de capineira
 

Introdução

O capim mais utilizado para formação de pastagem na Zona Bragantina é o quicuio-da-amazônia (Brachiaria humidicola), cuja produção de forragem é baixa e de qualidade inferior, especialmente no período seco. Isso impede se obter uma produtividade elevada de leite. Para minimizar esse problema, uma das alternativas freqüentemente usada pelos produtores é a capineira, para produção de forrageira de corte. A produção e o valor nutritivo de forrageiras de corte dependem de vários fatores, entre os quais o tipo de forrageira (espécie ou variedade), as condições climáticas e de solo, e o manejo de corte, especialmente à idade da rebrota.

Formação da capineira

Localização

A capineira deve ser plantada às proximidades do local de fornecimento aos animais (estábulo, curral, etc.), para facilitar o transporte e as operações de manutenção, diminuindo os custos. Os solos mais recomendados são os bem drenados e profundos, evitando-se aqueles excessivamente arenosos ou pedregosos.

Escolha da forrageira

Deve ser adaptada ao clima e ao solo do local e apresentar uma produção forrageira de alta qualidade, inclusive na estação seca. Entre as gramíneas de corte mais plantadas na formação de capineira na região, destacam-se os capins elefante, napier e cameron (Pennisetum purpureum). O cameron tem as linhagens verde ou roxo. São plantas de porte alto e robusto, com folhas de mais de 1 m de comprimento e 5 cm de largura, em média. O cameron é a mais plantada, por sua alta produção de forragem de razoável valor nutritivo, quando devidamente manejada (Veiga et al.1988).

O capim-tobiatã (Panicum maximum), embora de menor porte que os cultivares de P. purpureum, é outra alternativa para formação de capineira. Formando touceiras bastante vigorosas, essa gramínea, que também pode ser usada para pastejo, pode atingir até 3 m de altura, com folhas de até 80 cm de comprimento e 4,5 cm de largura, apresentando uma coloração verde escura (Simão Neto et al. 1992).

Área da capineira

Logicamente, área da capineira vai depender da forrageira e do número de vacas a serem suplementadas. Para calcular a área da capineira, consideram-se as seguintes condições:

- A área da capineira atenderá 25% do consumo diário das vacas (a pastagem fornecerá os 75% restantes).

- Forragem verde com 25% de matéria seca.

- Vaca com 450 kg de peso vivo.

- Consumo total diário de forragem verde das vacas é 10% do peso vivo ou seja 45 kg/vaca/dia. Logo, a fração do consumo total diário de forragem verde a ser suprida pela capineira é de 11,2 kg (25% de 45 kg).

- Consumo anual de forragem verde de uma vaca é 11,2 kg x 365 dias = 4.088 kg.

- Períodos em que se fará a suplementação das vacas: o ano todo e de agosto a dezembro.

- Produção forrageira do período de agosto a dezembro (verão) 20% menor que a produção do ano inteiro.

a) Caso da capineira de capim elefante, napier e cameron

Neste caso, considerando um intervalo de corte de 42 dias, a produção anual de forragem será de 120 t de forragem verde, por hectare.

Dessa forma, na Tabela 1 é encontrado o resultado dos cálculos da área da capineira de elefante, napier e cameron, por número de vacas a ser suplementadas.

Tabela 1. Área da capineira de capim elefante, napier e cameron, por número de vacas a serem suplementadas.
Número de vacas
Área de capineira (ha) para:
Ano Inteiro Agosto a dezembro
10
20
30
40
50
100
0,34
0,68
1,02
1,36
1,70
3,40
0,16
0,32
0,48
0,64
0,80
1,60
Fonte: Embrapa Amazônia Oriental

b) Caso da capineira de capim-tobiatã

Neste caso, considerando um intervalo de corte de 42 dias, a produção anual de forragem será de 80 t de forragem verde, por hectare.

Na Tabela 2, é encontrado o resultado dos cálculos da área da capineira de capim-tobiatã, por número de vacas a serem suplementadas.

Tabela 2. Área da capineira de capim-tobiatã por número de vacas a serem suplementadas.
Número de vacas
Área de capineira (ha) para:
Ano Inteiro Agosto a dezembro
10
20
30
40
50
100
0,52
0,04
1,56
2,08
2,60
5,20
0,26
0,52
0,78
1,04
1,30
2,60
Fonte: Embrapa Amazônia Oriental

Preparo da área

Tanto para os capins elefante, napier e cameron, como para o capim-tobiatã, a área deve ser preparada no final do período seco (novembro a dezembro), por meio da limpeza da vegetação, aração e gradagem ou simplesmente gradagem (grade aradora e niveladora) do solo. Caso a vegetação original necessite ser derrubada, a operação seguinte deve ser a destoca, antes do preparo do solo.

Plantio

a) Capineira de capim elefante, napier e cameron

O plantio deve ser feito logo após as primeiras chuvas. O material de propagação é o colmo (não se usa sementes). Para assegurar maior índice de pega, os colmos do capim devem ser retirados de plantas matrizes com rebrote de 90 a 120 dias.

Plantio com estacas, em covas - A planta é desfolhada e os colmos são cortados em estacas de três a quatro nós. Cada planta inteira pode produzir de 7 a 10 estacas. Em cada cova, de 15 a 20 cm de profundidade, plantam-se duas estacas, inclinadas em forma de "V" (Fig. 1)

Ilustração: Guilherme Azevedo

Fig. 1. Detalhes do plantio de estacas dos capins elefante, napier e cameron, em covas (notar posição lateral das gemas).

O espaçamento pode ser em distribuição uniforme, de 1,00 ou 1,20 x 0,50 m, ou em linhas duplas, afastadas de 1,0 m, sendo o espaçamento nas linhas de 0,40 x 50 cm (Fig. 2).

Ilustração: Guilherme Azevedo

Fig. 2. Espaçamentos das covas no plantio dos capins elefante, napier e cameron.


Plantio com estacas ou colmos inteiros, em sulcos - As estacas ou os colmos inteiros são plantados longitudinalmente, um após outro, distanciados 10 cm entre si, em sulcos de profundidade de 10 cm. A distância entre sulcos pode ser de 1m. Os sulcos podem ser em linhas duplas, como no caso de plantio com estacas (Fig. 3).

Ilustração: Guilherme Azevedo

Fig. 3. Detalhes do plantio de estacas dos capins elefante, napier e cameron, em sulcos.

Espaçamento entre estacas nos sulcos 0,10 m.

b) Capineira de capim-tobiatã

No caso de capineira de capim-tobiatã, recomenda-se o plantio por semente, na quantidade de 8 a 10 kg/ha, plantadas em linhas duplas, obedecendo ao mesmo espaçamento dos capins elefante, napier e cameron.

Tratos culturais

Tanto para os capins elefante, napier e cameron como para o capim-tobiatã, o controle das plantas daninhas deve ser realizado aproximadamente na quarta semana após o plantio, de forma manual, com enxada, ou mecanizada, com microtrator, com enxada rotativa ou cultivador.

Espaçamento entre estacas nos sulcos 0,10 m.

b) Capineira de capim-tobiatã

No caso de capineira de capim-tobiatã, recomenda-se o plantio por semente, na quantidade de 8 a 10 kg/ha, plantadas em linhas duplas, obedecendo ao mesmo espaçamento dos capins elefante, napier e cameron.

Tratos culturais

Tanto para os capins elefante, napier e cameron como para o capim-tobiatã, o controle das plantas daninhas deve ser realizado aproximadamente na quarta semana após o plantio, de forma manual, com enxada, ou mecanizada, com microtrator, com enxada rotativa ou cultivador.

Ilustração: Guilherme Azevedo

Fig. 4. Distribuição dos talhões de uma capineira de cameron para utilização nos 7 dias de 6 semanas, com um talhão de reserva.

Altura de corte

Os capins elefante, napier e cameron devem ser cortados ao nível do solo, ou até a 10-15 cm acima (Fig. 5) , com terçado, foice ou máquina ensiladeira. No caso do capim-tobiatã, a altura de corte deve ser em torno de 20 cm acima do solo.

Adubação de manutenção

Essa adubação pode ser anual ou a cada 2 anos, conforme a intensidade da exploração.

Foto: Ari Camarão

Fig. 5. Manejo da altura de corte na capineira de capim cameron (a 10-15 cm do solo).

a) Química

Podem ser utilizadas as mesmas quantidades aplicadas na formação da capineira, em três aplicações durante o ano, a lanço, sobre as touceiras, logo após um corte.

b) Orgânica

É feita aplicando-se o esterco de curral num máximo de 50 t/ha/ano. O esterco pode ser tanto normal (pastoso e curtido) como na forma líquida, quando coletado na água de lavagem do estábulo. Deve ser distribuído sobre as touceiras recém-cortadas, logo após cada corte.

Produção e qualidade da forragem

Ao contrário do valor nutritivo da forragem de uma capineira (expressa por proteína bruta ou digestibilidade, por exemplo), a produção de forragem diminui em intervalos de corte mais curtos e aumenta nos mais longos.

a) Capineira de elefante, napier e cameron

Pesquisas têm mostrado que as capineiras desses capins podem produzir de 120 a 160 t de forragem verde/ha/ano, dependendo, principalmente, da reposição de nutrientes ao solo e das condições climáticas. Aos 28 e 56 dias, os teores de proteína bruta da folha têm variado de 15% a 17% e 10% a 13%, respectivamente. Já a digestibilidade "in vitro" da matéria orgânica da folha, nas mesmas idades, variaram de 61% a 63% e 54% a 56%, respectivamente (Veiga e Camarão, 1990).

b) Capineira de capim-tobiatã

A capineira de capim-tobiatã tem potencial para produzir de 40 a 112 t de forragem verde/ha/ano, conforme a intensidade de corte (Simão Neto et al. 1992). Em intervalos de corte mais curtos (por exemplo 28 dias), o teor de proteína bruta chega a 14% da matéria seca da folha; em intervalos mais longos (por exemplo 84 dias), o teor de proteína alcança apenas 7%.

Fornecimento aos animais

A forragem colhida deve ser triturada em partículas de 1 a 2 cm e fornecida fresca aos animais, separadamente ou juntamente com a ração concentrada.

Resposta animal

Ao longo do ano, o fornecimento de forragem de capineira é uma valiosa suplementação de vacas em regime de pastagem de baixa a média qualidade. Capineiras cortadas a intervalos menores, até 35 dias, no caso dos capins elefante, napier e cameron, e até 28 dias, no caso do capim-tobiatã, evitam a queda da produção de leite no período seco, época em que normalmente cai a performance das pastagens.

 
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