Embrapa Amazônia Oriental
Sistemas de Produção, 02
ISSN 1809-4325 Versão Eletrônica
Dez./2005
Criação de Gado Leiteiro na Zona Bragantina
José Adérito Rodrigues Filho
Ari Pinheiro Camarão
Sumário
Início

Apresentação
Importância potencial e limitações
Aspectos agroecológicos
Composição e melhoramento genético do rebanho
Manejo reprodutivo
Manejo sanitário
Instalações zootécnicas
Formação e manutenção de pastagem
Manejo de pastagem
Formação e utilização de capineira
Formação e utilização de banco de proteína
Suplementação concentrada
Suplementação mineral
Qualidade do leite
Custos de produção e análise financeira
Cadeia produtiva do leite
Referências
Glossário
Autores
Expediente
  Suplementação concentrada
 

Introdução

O padrão alimentar do gado leiteiro da Zona Bragantina varia bastante ao longo do ano, em virtude das oscilações na produção e qualidade das pastagens e na disponibilidade dos alimentos suplementares. A alimentação do rebanho se baseia, quase que exclusivamente, nas pastagens de quicuio-da-amazônia (Brachiaria humidicola) e de braquiarão (B. brizantha), de baixa produtividade, em decorrência do manejo inadequado. Algumas propriedades utilizam capins de corte, geralmente elefante, napier ou cameron (Pennisetum purpureum), como complemento único ou associado a um alimento concentrado, geralmente subproduto da agroindústria. Porém, essas forrageiras contribuem muito pouco para a alimentação dos animais, por serem colhidas em idade avançada, já bastante fibrosas, com baixo valor protéico e energético. Esse tipo de suplementação só permite corrigir a falta de forragem, principalmente na época menos chuvosa do ano.

Nas propriedades mais estruturadas, os subprodutos mais utilizados são o resíduo úmido de cervejaria e a massa de mandioca, enquanto que nas propriedades com menor infra-estrutura, usam-se os restos da produção caseira da farinha de mandioca. Além da baixa disponibilidade e qualidade, esses suplementos são usados sem considerar o seu valor nutricional nem as necessidades dos animais.

A melhor maneira de melhorar o sistema alimentar dessas propriedades é proporcionar uma forragem de boa qualidade, fazendo-se uma suplementação alimentar, usando racionalmente os alimentos regionais de disponibilidade confiável e de preço compensador, em relação aos produtos importados.

Alimentos concentrados e subprodutos

O uso de alimentos concentrados (energéticos/protéicos) deve melhorar o aproveitamento da forragem, complementando as exigências dos animais. No entanto, o aspecto econômico não deve ser esquecido, uma vez que os preços desses suplementos podem inviabilizar seu uso no sistema de produção.

É recomendável aproveitar os recursos alimentares regionais (subprodutos agroindustriais), por serem de baixo custo e de fácil aquisição e transporte. Embora com grande potencial, esses alimentos apresentam algumas limitações, tais como o desconhecimento de sua composição química e valor nutritivo, além de problemas de armazenamento, de conservação e de disponibilidade ao longo do ano. Também se observa uma falta de organização do setor produtivo para instalação de pequenas agroindústrias.

Quando suplementar

Nas condições socioeconômicas da Zona Bragantina, antes de pensar em suplementar as vacas leiteiras, é importante priorizar a produção e o manejo das pastagens, das capineiras e das outras fontes de alimentos volumosos, que devem ser a base da alimentação do gado.

A suplementação do rebanho leiteiro deve ser de acordo com o nível de produção dos animais e da qualidade da forragem consumida. Pastagens mal manejadas, sem controle do pastejo e sem descanso, têm baixa produtividade e qualidade. Na época menos chuvosa, quando a disponibilidade de forragem é menor, os animais podem ser suplementados com capim de corte. Na Fig. 1, apresenta-se uma pastagem de quicuio, com baixa disponibilidade de forragem.

A produção média de leite nas propriedades leiteiras da Zona Bragantina é baixa, em torno de 4 a 5 kg de leite/animal/dia. Vacas com potencial de produção de até 8 kg de leite/dia podem ser alimentadas somente com forragem verde ou volumosa (pastagem, capim de corte, leguminosa), desde que produzidos adequadamente (Simão Neto et al. 1989). Vacas de produção mais elevada devem ser suplementadas com mistura concentrada constituída de grãos, tortas e farelos, priorizando os produtos regionais, por razão econômica.

Foto: José Adérito R. Filho

Fig. 1. Pastagem de quicuio-da-amazônia.

Ração concentrada

É uma mistura de alimentos na forma farelada, homogênea, com o teor de umidade inferior a 13%. Sua composição deve conter de 19% a 20% de proteína bruta (PB), acima de 70% de nutrientes digestíveis totais (NDT), máximo de 1,0% e mínimo de 0,6% de cálcio, 0,5% de fósforo, acima de 2% de extrato etéreo e menos de 12% de material mineral e fibroso. A relação entre PB e NDT deve estar próxima de 1/3,7.

Elaboração da mistura concentrada

Os ingredientes

Devem ser selecionados alimentos com boa disponibilidade e baixo custo. Após a escolha dos ingredientes, deve-se verificar a sua composição química e determinar a sua proporção na mistura. A Tabela 1 contém os alimentos tradicionalmente usados e os alternativos regionais.

Tabela 1. Alimentos tradicionais e alternativos para suplementação de gado leiteiro.
Alimentos tradicionais Alimentos alternativos
Energético
Milho Raiz, massa e raspa de mandioca, torta de amêndoa de Milho dendê, casca de maracujá, farelo de trigo
Protéico
Farelo de soja Tortas de coco e de babaçu, resíduo úmido de cervejaria. Farelo de soja rama de mandioca, uréia
Fonte: Embrapa Amazônia Oriental

A Tabela 2, é apresentada a composição química desses alimentos.

Tabela 2. Composição química de alimentos (% na matéria seca) usados na elaboração de concentrados.

Ingredientes

PB

MO

EE

FB

MM

NDT

CA

P

Bagaço de maracujá 6,65 90,40 0,71 8,14 9,60 72,96 0,35 0,08

Calcário calcítico

-

-

-

-

99,00

-

36,00

-

Farelo de arroz

13,12

90,43

13,73

8,54

9,57

62,60

0,11

1,59

Farelo de soja

45,00

94,00

1,80

6,50

6,00

73,00

0,30

0,65

Farelo de trigo

16,00

94,80

4,20

10,20

5,20

62,00

0,12

1,10

Fosfato bicálcico

-

-

-

-

93,00

-

22,00

19,00

Mandioca (raiz)

2,60

99,70

0,30

8,00

0,30

72,00

0,15

0,10

Mandioca (rama)

19,80

94,95

5,36

22,60

5,05

51,79

0,97

0,19

Massa de mandioca

1,84

95,56

0,35

11,32

4,40

64,05

-

-

Milho (grão)

9,00

98,70

3,70

2,50

1,30

80,00

0,02

0,25

Resíduo de cervejaria

26,20

93,41

5,70

12,70

3,20

76,80

0,20

0,56

Torta de algodão

3225

94,34

7,42

16,00

6,00

68,00

0,15

0,90

Torta de dendê

14,00

95,51

11,95

27,17

4,50

63,52

0,20

0,50

Torta de babaçu

20,62

93,82

5,81

18,80

6,18

46,60

0,07

0,53

Torta de coco

20,66

92,97

9,23

11,80

7,00

67,30

0,08

0,57

PB = proteína bruta, MO = matéria orgânica, EE = extrato etéreo, FB = fibra bruta, MM = material mineral, NDT= nutrientes digestíveis totais, Ca = cálcio, P = fósforo.
Fonte: Rodrigues Filho et ai. (1993), Valadares Filho et ai. (2001), Vieira et ai. (1999), Camarão et ai. (1993).

Cálculos das misturas

Existem diversos métodos de cálculo das misturas, sendo o mais eficiente aquele realizado por computadores, pela rapidez, precisão e economia. Os métodos algébricos permitem obter uma mistura com qualidade próxima da ideal.

Exemplo 1: Complementação dos nutrientes de uma pastagem

A seguir, é mostrado um cálculo de uma mistura para suplementação de gado leiteiro, tomando por base uma vaca de 500 kg, consumindo diariamente 2% do seu peso em forragem, na base de matéria seca (MS), ou seja um consumo de 10 kg de MS de forragem por dia. A pastagem é de quicuio-da-amazônia com 35 dias de descanso ou crescimento, o que corresponde aos seguintes níveis nutritivos: 60,2% de NDT, 7,56% de PB, 0,15% de Ca e 0,09% de P (Batista et al. 1986; Teixeira et al. 2000).

O balanço entre os nutrientes fornecidos pela pastagem e os nutrientes necessários para apenas a manutenção da vaca considerada é apresentado na Tabela 3.

Tabela 3. Balanço entre os nutrientes fornecidos pela pastagem de quicuio-da-amazônia e os necessários para apenas a manutenção da vaca considerada.
Itens NDT (kg) PB (g) Ca (g) P (g)
Pastagem (10x60,2)÷100 = 6,02 (10 x 7,56) x 10 = 756 (10 x 0,15) x 10 =15 (10 x 0,09) x 10 = 9
Manutenção1Saldo 3,70 364 20,00 14,00
6,02-3,70 = 2,32 756-364 = 392 15-20 = -5 9 - 14 = - 5
1Necessidade para manter apenas o funcionamento básico do animal, sem a produção de leite.
Fonte: National... (1988).

A Tabela 3 indica que, para apenas a manutenção do corpo do animal, a pastagem tem um excedente de NDT e de PB, e um déficit de Ca e de P. O próximo passo é, com base na produção de leite atendida por um dos nutrientes excedentes, no caso o NDT, calcular o balanço dos outros nutrientes.

Considerando a Tabela 4, que contém os nutrientes necessários para produção de 1 kg de leite, conclui-se que o saldo em NDT da pastagem é suficiente para atender 7,25 kg de leite com 4% de gordura por vaca/dia (ou seja 2,32 0,32).

Tabela 4. Nutrientes necessários para produção de 1 kg de leite.

% de gordura

NDT (kg)

PB (g)

Ca(g)

P(g)

3,0

0,28

78

2,73

1,68

3,5

0,30

84

2,97

1,83

4,0

0,32

90

3,21

1,98

4,5

0,34

96

3,45

2,13

5,0

0,36

101

3,69

2,28

Fonte: National...( 1988)

Então, na Tabela 5 se apresenta a quantidade dos outros nutrientes a suplementar visando a uma produção de 7,25 kg leite, com 4% de gordura por vaca/dia.

Tabela 5. Nutrientes a suplementar visando a uma produção de 7,25 kg de leite com 4% de gordura por vaca/dia.
Itens NDT (kg) PB (g) Ca (g) P (g)
Nutrientes para 7,25 kg de leite 2,32 652 23 14
Saldo (Tabela 3) 2,32 392 -5 -5
A suplementar   260 28 19
Fonte: Embrapa Amazônia Oriental

Agora, se calcula a quantidade de uma mistura ou de um concentrado para complementar os nutrientes em déficit. Conclui-se, então, que 1,6 kg de farelo de trigo e 125 g de fosfato bicálcico são suficientes para atender os nutrientes em falta para o nível de produção desejada.

Exemplo 2: Elaboração de uma mistura de nível nutricional pré-determinado

O cálculo a seguir mostra como elaborar uma mistura de concentrado com 19% de PB e 71% de NDT, utilizando os ingredientes grão de milho triturado, farelo de soja (FS) e a torta de amêndoa de dendê (TAD).

O método proposto (do quadrado) só permite o cálculo a partir de duas porções e como neste exemplo vai se trabalhar com três ingredientes, é necessário um cálculo prévio, usando dois dos três alimentos. Será usada a mistura FS/TAD, contendo 45% de FS e 55% de TAD, resultando em 27,9% de PB, ou seja, (45 x 0,45) + (55 x 0,14).

O teor de PB de uma das porções deve ser inferior, e o da outra superior ao nível de proteína desejado (19%).

Milho.............. 9 27,9 - 19 = 8,9 kg de milho

FS/TAD.......27,9 19,0 - 9 = 10,0 kg da mistura FS/TAD

= 18,9 kg total com 19% de PB

Assim, para 18,9 kg daquela mistura são necessários 8,9 kg de milho e 10 kg da mistura FS/TAD. Portanto, para 100 kg da mistura serão necessários 47,1 kg de milho [(8,9 x 100)18,9] e 52,9 kg da mistura FS/TAD (100 _ 47,1).

A mistura suplementar será constituída de 47,1 kg de milho, 23,8 kg de farelo de soja (52,9 x 0,45) e 29,1 kg de torta de amêndoa de dendê (52,9 _ 23,8).

Como o cálculo foi feito com base na proteína, é necessário conferir o valor de NDT, o que é feito da seguinte forma: (47,1 x 80)100 + (23,8 x 73) 100 + (29,1 x 63,52)100 = 73,54. O que está em nível aceitável.

Mistura dos ingredientes

Pode ser feita em misturadores elétricos (verticais ou horizontais) ou manualmente, com uso de enxada ou pá, em local limpo, cimentado ou em cima de uma lona plástica. A mistura deve ficar homogênea, para evitar seletividade por parte do animal. Na Fig. 2, demonstra-se um conjunto misturador de alimentos.

Na Tabela 6, são propostas algumas formulações de mistura suplementar, constituídas parcialmente de alimentos regionais.

Fornecimento

As misturas da Tabela 6 podem ser ministradas após a ordenha diária, em cochos individuais, na proporção de 1 kg de alimento para cada 2,5 kg de leite produzido acima da quantidade proporcionada pela pastagem. Como é possível se obter uma produção de até 8 kg de leite/vaca/dia, em regime de forragem verde ou volumoso (pastagem, capineira e leguminosas), que é a fonte alimentar mais barata, recomenda-se, primeiramente, se melhorar a pastagem e, posteriormente, usar a suplementação em vacas com potencial de produção superior àquela proporcionada pela pastagem.

Foto: José Adérito R. Filho

Fig. 2. Conjunto misturador de alimentos.

Tabela 6. Exemplos de misturas suplementares constituídas parcialmente de alimentos regionais (em %), contendo cerca de 19% de PB e 71% de NDT.

Ingredientes

Mistura 1

Mistura 2

Mistura 3

Mistura 4

Preço/kg

Milho (grão)

51,40

32,39

39,60

36,00

0,25

Farelo de soja

8,25

21,00

21,40

19,80

0,74

Uréia

2,00

-

-

-

0,72

Torta de amêndoa de dendê

20,00

20,00

7,00

-

0,15

Torta de coco

-

-

20,00

-

0,15

Farelo de trigo

16,40

24,90

10,00

42,40

0,20

Calcário calcítico

1,23

1,25

1,54

1,30

0,12

Fosfato bicálcico

0,26

-

-

-

0,98

Sal comum

0,30

0,30

0,30

0,30

0,12

Minerais/vitaminas

0,16

0,16

0,16

0,16

2,09

Preço/kg (em R$)

0,27

0,32

0,32

0,33

-

Fonte: Embrapa Amazônia Oriental

Controle da produção e seleção dos animais

Para otimizar o efeito da suplementação alimentar, é importante selecionar constantemente os animais, com base no controle mensal de produção de leite e nas anotações zootécnicas, fatores necessários para determinar os índices produtivos.

Resposta à suplementação- um exemplo

Numa propriedade leiteira da Zona Bragantina, a suplementação concentrada diária foi testada em vacas utilizando pastagens de quicuio-da-amazônia e de braquiarão adubado, por um período de 5 meses.

Por vaca, foram fornecidos 2 kg de concentrado constituído de 44,8% de milho triturado, 21% de farelo de soja, 12,3% de farelo de trigo, 20% de torta de dendê, 0,2% de fosfato bicálcico, 1,4% de calcário calcítico e 0,3% de sal comum.

A cada 14 dias, as vacas eram submetidas a controle de produção de leite. Embora as produções individuais tenham sido baixas, a suplementação concentrada aumentou a produção em relação aos regimes de somente pastagem.

Vacas utilizando apenas a pastagem de quicuio-da-amazônia produziram, em média, 4,8 kg de leite/vaca/dia. Na pastagem de braquiarão, a produção foi de 5,6 kg. Na pastagem de quicuio-da-amazônia, a suplementação concentrada aumentou a produção leiteira em 17%, enquanto que na de braquiarão adubado o acréscimo foi de apenas 9,0%. Pode-se dizer que as principais causas da baixa produtividade leiteira na área estudada são: a alimentação deficiente e o baixo potencial genético dos animais.

 
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