Embrapa Clima Temperado
Sistemas de Produção, 11
ISSN 1806-9207 - Versão Eletrônica
Novembro/2007
Sistema de Produção da Mamona
Walkyria Bueno Scivittaro
Clenio Nailto Pillon

Apresentação
Introdução e importância econômica

Necessidades climáticas

Ambiente edáfico para a mamoneira

Correção do solo e adubação
Botânica
Cultivares

Estabelecimento da lavoura

Práticas culturais
Manejo integrado de doenças
Principais pragas da mamona e seu manejo
Manejo de plantas daninhas
Colheita

Secagem

Produção de sementes de mamona

Co-produtos da mamona
Torta de mamona
Aspectos econômicos da mamona
Sistemas de produção e coeficientes técnicos da mamona no RS
Referências
Glossário

Expediente 

Correção do solo e adubação

A nutrição adequada, através da implementação de programas de correção do solo e adubação baseados no diagnóstico da fertilidade do solo e nas exigências nutricionais da mamoneira, é um fator decisivo para a obtenção de produtividades elevadas de grãos.
A análise química do solo constitui-se no principal instrumento de diagnóstico da fertilidade do solo, indicando a disponibilidade de nutrientes e a presença de elementos tóxicos às plantas. Desta forma, deve ser utilizada como base para o estabelecimento das recomendações de corretivos e fertilizantes. Adicionalmente, deve-se considerar o histórico de cultivo, o potencial produtivo da cultivar utilizada, o nível tecnológico do produtor, bem como as condições climáticas locais, aspectos estes que quanto mais favoráveis forem, maior será a expectativa de produtividade e o requerimento de nutrientes da cultura.
A mamoneira é sensível à acidez do solo e exigente em nutrientes, apresentando boa resposta, em produtividade, à correção do solo e à adubação (Savy Filho, 1996). Recomenda-se, preferencialmente, o plantio em solos bem preparados, férteis e profundos, livres de compactação, para possibilitar o desenvolvimento do sistema radicular profundo e denso (Savy Filho, 1998). Há restrições, porém, ao cultivo em solos com fertilidade muito elevada, por favorecerem o crescimento vegetativo excessivo, prolongando o ciclo e expandindo consideravelmente o período de floração.
Melhor desenvolvimento da mamoneira é obtido quando do cultivo em solo com pH próximo à neutralidade (Amorim Neto et al., 2001). Quanto à adubação, a cultura mostra-se exigente e responsiva, uma vez que requer quantidades significativas de nutrientes para a produção de grãos e síntese do óleo e proteínas. O suprimento de nutrientes para a cultura provém, basicamente, das reservas do solo. Entretanto, quando o cultivo é estabelecido em solos com restrição de fertilidade ou se pretende explorar integralmente o potencial de produtividade das cultivares comerciais, faz-se necessária a complementação com nutrientes, via aplicação de fertilizantes de origem orgânica ou mineral.

Necessidades nutricionais

A mamoneira apresenta uma demanda razoável por nutrientes essenciais, especialmente nitrogênio, potássio, fósforo, cálcio e magnésio, como pode ser observado na Tabela 1 Para atender a essa demanda nutricional, o cultivo deve ser estabelecido, preferencialmente, em solos com fertilidade natural média a alta; do contrário é requerida suplementação mineral, via aplicação de fertilizantes orgânicos e/ou minerais, especialmente em solos com teores baixos de matéria orgânica.

Tabela 1. Extrações médias de nutrientes por tonelada de semente de mamona. Dados relativos a cultivares de porte médio e sementes com peso de 43 g/100 sementes.
Nutriente
Quantidade nas sementes
kg t-1
Nitrogênio (N)
37,6
Pentóxido de fósforo (P2O5)
9,2
Óxido de potássio (K2O)
9,7
Óxido de cálcio (CaO)
7,2
Óxido de magnésio (MgO)
8,5
Fonte: Savy Filho (2005).
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Correção do solo e adubação

A base para o estabelecimento de recomendações adequadas de correção do solo e adubação para a mamoneira é a análise química do solo. Esta, por sua vez, deve representar a condição real média da fertilidade do solo do local onde se pretende estabelecer o cultivo (Sociedade, 2004), o que depende da coleta de amostra de solo representativa.

Amostragem de Solo

Para se obter amostras representativas da fertilidade do solo, a área a ser cultivada deve ser subdividida em glebas homogêneas, de acordo com a posição no relevo, o tipo de solo, a condição de drenagem, a vegetação atual e o histórico de uso, devendo-se coletar uma amostra de solo representativa de cada gleba uniforme identificada.
Dentro de cada gleba uniforme, recomenda-se a retirada de uma amostra de solo composta, a qual é constituída pela reunião de 15 a 20 amostras simples. A amostra composta deve conter cerca de 300 gramas de terra, que serão enviados ao laboratório para análise.
Em lavouras onde a última adubação foi feita na linha de semeadura, recomenda-se realizar a coleta com pá de corte, retirando-se uma fatia de solo contínua com de 3 a 5 cm de espessura, abrangendo de uma entrelinha a outra. Esta pode, porém, ser substituída pela coleta com trado, em linha transversal às linhas de semeadura. Neste caso, a coleta deve ser feita da seguinte maneira: a) coletar um ponto na linha e um de cada lado desta, se a cultura anterior for um cereal de inverno; ou b) coletar um ponto na linha e três pontos de cada lado desta, se a cultura anterior for soja; e c) coletar um ponto na linha e seis pontos de cada lado desta, se a cultura anterior for milho (Sociedade, 2004).
Cada amostra composta coletada deve ser identificada com uma etiqueta contendo o nome da gleba e do produtor, local de amostragem, município e a área representada. Se possível, acrescentar, a cada amostra, uma ficha de identificação, com informações sobre o histórico da área (cultivos e operações de correção do solo e adubação anteriores), bem como demais informações que o produtor julgar importantes.
Para a interpretação dos resultados da análise de solo e o estabelecimento as recomendações de correção do solo e adubação, um engenheiro agrônomo deve ser consultado.

Correção do solo

Melhor desenvolvimento da mamoneira é obtido quando do cultivo em solo com pH variando entre 5,0 e 6,5, sendo que tanto a acidez quanto a alcalinidade excessivas afetam o crescimento e a produção das plantas. A cultura é bastante sensível à toxidez por alumínio, requerendo a correção do solo, com a insolubilização do elemento, para o cultivo (Amorim Neto et al., 2001).
A determinação da quantidade de calcário a ser utilizada pode ser estabelecida com base no critérios do pH referência ou no critério da saturação da capacidade de troca de cátions (CTCpH 7,0) por bases. Um aspecto adicional a ser atendido pela calagem refere-se ao suprimento de magnésio para a planta, que é exigente no nutriente. Desta forma, recomenda-se realizar a calagem, de forma a atingir um teor mínimo de 0,5 cmolc dm-3 de magnésio no solo (Savy Filho, 1996).

Critério do pH referência

O pH referência é o valor do pH do solo mais adequado ao desenvolvimento das plantas; acima desse valor não é observada resposta à calagem. A quantidade de corretivo a ser utilizada aumenta com a acidez potencial do solo, expressa pelo índice SMP (Sociedade, 2004). No caso da mamoneira, indica-se aplicar calcário para elevar o pH em água do solo a 6,0.

Critério da saturação da CTC por bases

A indicação da quantidade de corretivo da acidez por meio do método da saturação da capacidade de troca de cátions (CTC) por bases vem sendo muito utilizada, principalmente no sistema de plantio direto. Para a mamoneira, indica-se elevar a saturação por bases a 60%.
No caso de a diferença entre as quantidades de corretivo calculadas pelos critérios do índice SMP e da saturação da CTC por bases ser grande, sugere-se optar pela média das duas quantidades.

Aplicação do corretivo

No sistema de cultivo convencional de manejo de solo, em solos com acidez muito elevada ou sob plantio direto em fase de implantação, o calcário deve ser incorporado, de preferência, na camada de 0 a 20 cm de profundidade.
Para quantidades de corretivo maiores que 5 t ha-1, recomenda-se aplicar a metade da dose e lavrar; em seguida, aplicar o restante do corretivo, lavrar novamente e gradear o solo.
No sistema plantio direto, a aplicação do calcário é superficial e a quantidade de calcário recomendada é a metade da indicada pelo índice SMP (1/2 SMP) para pH 5,5.
O calcário deve ser aplicado, preferencialmente, com três a seis meses de antecedência ao estabelecimento da cultura. A distribuição na lavoura deve ser o mais uniforme possível.
O efeito residual da calagem é igual ou superior a cinco anos; após este período, deve-se realizar nova análise de solo para estabelecer a necessidade de nova correção do solo (Sociedade, 2004).

Adubação

A recomendação de adubação para a mamoneira foi estabelecida com base nos conceitos de adubação de correção total, adubação de manutenção e adubação de reposição, conforme interpretação dos teores de fósforo e de potássio no solo apresentados no Manual de adubação e calagem para os Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina (Sociedade, 2004).

Adubação nitrogenada

Indica-se, como adubação nitrogenada de semeadura, a aplicação de 15 a 20 kg ha 1 de N. Em cobertura, a dose prevista do nutriente é de 30 a 70 kg ha-1, variando em função do teor de matéria orgânica do solo e da adequação dos fatores de produção. Doses maiores são indicadas para solos com teores de matéria orgânica mais baixos e/ou na presença de fatores de produção favoráveis (clima adequado, potencial elevado de produtividade da cultivar utilizada, maior nível tecnológico do produtor). Para cultivos estabelecidos em sistema plantio direto, indicam-se doses 20% maiores de nitrogênio. A época prevista para a cobertura nitrogenada é entre 30 a 40 dias após a emergência.

Adubações fosfatada e potássica

A recomendação de adubação fosfatada e potássica depende da interpretação dos resultados da análise de solo (Tabelas 2 e 3).

Tabela 2. Interpretação do teor de fósforo no solo extraído pelo método de Mehlich-1, conforme teor de argila.
Interpretação
Classe de solo, conforme teor de argila
1
2
3
4
mg dm-³
Muito baixo
<= 2,0
<= 3,0
<= 4,0
<= 7,0
Baixo
2,1 - 4,0
3,1 - 6,0
4,1 - 8,0
7,1 - 14,0
Médio
4,1 - 6,0
6,1 - 9,0
8,1 - 12,0
14,1 - 21,0
Alto
6,1 - 12,0
9,1 - 18,0
12,1 - 24,0
21,1 - 42,0
Muito alto
=> 12,0
=> 18,0
=> 24,0
=> 42,0
Teores de argila: classe 1 = 60%, classe 2 de 60% a 41%, classe 3 de 40% a 21% e classe 4 = 20%.
Fonte: Adaptado de Sociedade (2004).


Tabela 3. Interpretação do teor de potássio no solo, conforme as classes de CTC do solo a pH 7,0
Interpretação
CTC pH 7,0 (cmolc dm-³)
=>15,0
5,1 a 15,0
<= 5,0
mg dm-³
Muito baixo
<=30
<=20
<= 15
Baixo
31-60
21-40
16-30
Médio
61-90
41-60
31-45
Alto
91-180
61-120
46-90
Muito alto
=> 180
=> 120
=> 90
Fonte: Sociedade (2004).

Solos que apresentam teores de fósforo (P) e de potássio (K) “muito baixo”, “baixo” ou “médio” necessitam de adubação de correção, a fim de elevar os teores desses nutrientes no solo até o nível de suficiência (limite superior da faixa de interpretação “médio”). Quando os resultados da análise de solo indicam teores de P ou de K “alto” ou “muito alto”, a probabilidade de resposta das plantas à adubação com os nutrientes é pequena. Assim, para solos que apresentam teores “alto” de P ou de K, recomenda-se a realização da adubação de manutenção, que considera as quantidades extraídas pela colheita acrescidas das perdas do sistema. Por sua vez, quando a classe de interpretação do teor de P ou de K for “muito alto”, basta realizar a adubação de reposição, que restitui ao sistema exclusivamente as quantidades exportadas pelos grãos.
Com base nesses conceitos e na expectativa de produtividade da cultura, estabeleceram-se as indicações de adubação fosfatada e potássica para a mamoneira, considerando-se dois cultivos (Tabelas 4 e 5).

Tabela 4. Indicação de adubação fosfatada para a mamoneira, em função da expectativa de produtividade de grãos.
Interpretação do teor de P no solo
1º Cultivo
2º Cultivo
kg ha-1 de P2O5
Muito baixo
110
70
Baixo
90
50
Médio
60
30
Alto
30
30
Muito alto
0
<=30
Para produtividades superiores a 2 t ha-1, acrescentar aos valores da tabela 15 kg ha-1 de P2O5 por tonelada adicional de grãos a serem produzidos.
Fonte: Embrapa Clima Temperado


Tabela 5. Indicação de adubação potássica para a mamoneira, em função da expectativa de produtividade de grãos.
Interpretação do teor de K no solo
1º Cultivo
2º Cultivo
kg ha-1 de K2O
Muito baixo
110
70
Baixo
90
50
Médio
60
30
Alto
30
30
Muito alto
0
<=30
Para produtividades superiores a 2 t ha-1, acrescentar aos valores da tabela 15 kg ha-1 de K2O por tonelada adicional de grãos a serem produzidos.
Fonte: Embrapa Clima Temperado


Adubação orgânica

O uso continuado de adubos orgânicos pode melhorar os atributos físicos do solo (estrutura, porosidade, capacidade de retenção de água, entre outros), bem como alguns atributos químicos (CTC, teor de nutrientes e de matéria orgânica). Porém, dificilmente as necessidades nutricionais de uma determinada cultura serão totalmente supridas pelo uso exclusivo de adubos orgânicos. Para melhorar o aproveitamento dos adubos orgânicos, recomenda-se ajustar a adubação pelo nutriente cuja quantidade será suprida com a menor dose de adubo orgânico. Para os demais nutrientes, calcula-se a contribuição proporcionada pela quantidade de adubo orgânico que será aplicada e complementa-se o restante, via fertilização mineral.
Para aumentar a eficiência das adubações orgânica e mineral, é fundamental associá-las com boas práticas de manejo de solo como, por exemplo, o aumento da cobertura vegetal do solo, o uso de rotação de culturas e de terraceamento.
Nas Tabelas 6 e 7 são apresentadas as concentrações de nutrientes e de matéria seca e os índices de eficiência dos nutrientes no solo de alguns materiais orgânicos em cultivos sucessivos, respectivamente.

Tabela 6. Concentrações médias de nutrientes e teor de matéria seca (MS) de alguns materiais orgânicos.
Material Orgânico
C-org
N
P2O5
K2O
Ca
Mg
MS
%(m m-1)
%
Cama de frango (3-4 lotes)
30
3,2
3,5
2,5
4
0,8
75
Cama de frango (5-6 lotes)
28
3,5
3,8
3
4,2
0,9
75
Cama de frango(7-8 lotes)
25
3,8
4
3,5
4,5
1
75
Esterco sólido de suínos
20
2,1
2,8
2,9
2,8
0,8
25
Esterco sólido de bovinos
30
1,5
1,4
1,5
0,8
0,5
20
kg m-³
%
Esterco líquido de sínos
9
2,8
2,4
1,5
2
0,8
3
Esterco líquido de bovinos
13
1,4
0,8
1,4
1,2
0,4
4
Fonte: Sociedade (2004).

Tabela 7. Índices de eficiência dos nutrientes no solo de alguns materiais orgânicos em cultivos sucessivos (valores médios para cada material).
Resíduo
Nutriente
1º Cultivo
2º Cultivo
Cama de frango
N
0,5
0,2
P
0,8
0,2
K
1
-
Esterco Sólido de Suínos
N
0,6
0,2
P
0,8
0,2
K
1
-
Esterco Sólido de Bovinos
N
0,3
0,2
P
0,8
0,2
K
1
-
Esterco Líquido de Suínos
N
0,8
0,2
P
0,9
0,1
K
1
-
Esterco Líquido de Bovinos
N
0,5
0,2
P
0,8
0,2
K
1
-
Fonte: Sociedade (2004).
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