Embrapa Mandioca e Fruticultura
Sistemas de Produção, 7
ISSN 1678-8796 Versão eletrônica
Jan/2003
Cultivo da mandioca na região centro sul do Brasil
Chigeru Fukuda
Auro Akira Otsubo

Início

Importância econômica
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Solos
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Cultivares
Mudas e sementes
Plantio
Irrigação
Tratos culturais
Plantas daninhas
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Pragas
Uso de agrotóxicos
Colheita e pós-colheita
Mercado e comercialização
Coeficientes técnicos
Referências bibliográficas
Glossário


Expediente

Importância Econômica

Desempenho da mandioca nos continentes
Desempenho da mandioca nos países produtores
Crescimento e desenvolvimento da planta

Desempenho da mandioca nos continentes
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Com uma produção acima de 170 milhões de toneladas, a mandioca constitui uma das principais explorações agrícolas do mundo (Tabela 1). Entre as tuberosas, perde apenas para a batata. Nos trópicos, essa importância aumenta.

Dentre os continentes, a África (53,32%) é o maior produtor mundial, seguido pela Ásia (28,08%), Américas (18,49%) e Oceania (0,11%). Quanto ao rendimento, destacam-se a Ásia (14,37 t/ha) e as Américas (12,22 t/ha), seguidas pela Oceania (11,57 t/ha) e África (8,46 t/ha) (Tabela 1).

Tabela 1. Área colhida, produção e rendimento da mandioca no mundo, por continente, em 2000.

Continentes

Variáveis

Área Colhida (ha)

Produção (t)

Rendimento (t/ha)

África

10.804.484

91.451.289

8,46

Ásia

3.351.119

48.163.007

14,37

Américas

2.596.719

31.719.755

12,22

Oceania

15.848

183.292

11,57

Mundo

16.768.170

171.517.343

10,23

Fonte: FAO, 2001a.


O desempenho da mandioca nos continentes, no período de 1970-2000, apresentou os melhores índices na África e Ásia. Na África, a evolução na produção foi de 3,18% a.a. e na Ásia de 2,13%. As Américas apresentaram um crescimento negativo (-0,50% a.a.), isto porque a produção sofreu declínio ou se estabilizou nos países produtores locais.


África

O continente africano é o maior produtor mundial de mandioca. A produção é distribuída por vários países, com destaque para a Nigéria e a República Democrática do Congo que, juntos, contribuem com aproximadamente metade da produção do continente. A outra metade é produzida em outros 37 países.

Apesar de a dieta básica da maioria dos africanos ser representada pelo arroz, a mandioca é cultivada no sentido de garantir um abastecimento alimentar no caso de uma frustração da colheita do arroz, bem como impedir que sejam praticados altos preços no mercado para arroz, pois nesse caso essa gramínea é substituída pela euforbiácea.

O maior consumo da mandioca na África é sob a forma de farinha fermentada, conhecida por “gari”, “foo-foo”, etc. Ocorre também a demanda de outras formas, como raízes frescas, farinha de raspas, fécula e folhas.

Os principais problemas agrícolas da cultura na África são:

a) baixo nível tecnológico;
b) incidência de doenças, principalmente o mosaico africano;
c) ocorrência de pragas, como cochonilha, ácaros, gafanhoto, etc.


Ásia

No continente asiático, a maioria da produção provém da Tailândia e da Indonésia. Quase todos os países têm demonstrado, nos últimos anos, uma tendência de aumento. Nesse continente, a produção da mandioca é voltada para a industrialização. Nesse sentido, a Tailândia é o maior exportador de derivados de mandioca do mundo.

Quanto aos problemas agrícolas da cultura na Ásia, pode-se afirmar que o nível tecnológico é bem melhor do que na África, o que pode ser comprovado pelo rendimento da mandioca que, apesar de ser ainda baixo, é o maior do mundo. Nesse continente, os principais países produtores possuem rendimentos médios acima de 12 t/ha, como por exemplo a Tailândia (13,9 t/ha), Indonésia (11,7 t/ha), Índia (18,2 t/ha) e China (14,7 t/ha). Com relação à ocorrência de pragas e doenças, o grave problema que afeta a cultura da mandioca na Ásia é o mosaico africano, que é encontrado apenas na Índia. Nos outros países não ocorre problemas fitossanitários importantes que possam limitar a produção.


Américas

O Brasil é o maior produtor de mandioca do continente. A produção brasileira, apesar de ser bastante significativa, praticamente estagnou nos últimos anos, ora apresentando pequenos decréscimos, ora apresentando pequenos acréscimos, porém, nada significativo. Na maioria dos países das Américas, o principal consumo da mandioca é sob a forma fresca, à exceção do Brasil, que apresenta a farinha de mesa o seu principal produto. Os principais problemas agrícolas da cultura nas Américas são:

a) processo de produção bastante empírico;
b) bacteriose, doença que ocorre no Centro-Sul do Brasil, Paraguai, Colômbia e outra regiões;
c) ocorrência de pragas como mandarová, ácaros, cochonilhas, etc.;
d) apodrecimento de raízes, nas regiões quentes e úmidas.


Oceania

A produção da oceania é muito pequena e se concentra em Papua e Nova Guiné, embora não se tenha muitas informações sobre o nível tecnológico utilizado, nem sobre as principais formas de produção.

Desempenho da mandioca nos países produtores
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Na Figura 2, verifica-se a produção dos oito principais países produtores. O Brasil se destaca na produção, sendo o segundo produtor mundial, atrás da Nigéria, o maior produtor. Merecem destaque as produções de: Tailândia, Congo, Indonésia, Gana e Tanzânia.

 

Figura 2. Principais países produtores de mandioca em 2000.
Fonte: FAO, 2001a.

Porém, no período de 1970-2000, todos os principais países produtores de mandioca apresentaram crescimento na sua produção. A exceção foi o Brasil, que apresentou ligeiro decréscimo (Tabela 2). Gana apresentou um acréscimo de produção de 6,40% no período; a Nigéria, 5,13%; a Tailândia, 4,85%; a Tanzânia, 2,14%; a República Democrática do Congo, 2,11%; e a Indonésia, 1,39%. No Brasil, o decréscimo foi de –0,99%.

Tabela 2. Desempenho da mandioca nos principais países produtores no período de 1970-2000.

Países

Produção (% a.a)

Nigéria

5,13

Brasil

-0,99

Tailândia

4,85

República Democrática do Congo

2,11

Indonésia

1,39

Gana

6,40

Tanzânia

2,14

Mundo

1,95

Fonte: FAO, 2001a.


Brasil

O Brasil ocupa a segunda posição na produção mundial de mandioca (12,7% do total). Cultivada em todas as regiões, tem papel importante na alimentação humana e animal, bem como matéria-prima para inúmeros produtos industriais e na geração de emprego e de renda. Estima-se que na fase de produção primária e no processamento de farinha e fécula sejam gerados um milhão de empregos diretos e que a atividade mandioqueira proporcione receita bruta anual equivalente a 2,5 bilhões de dólares e uma contribuição tributária de 150 milhões de dólares; a produção que é transformada em farinha e fécula gera, respectivamente, receitas equivalentes a 600 milhões e 150 milhões de dólares.

O Brasil, apesar de não ter uma participação significativa no mercado internacional, exporta alguns derivados de mandioca, notadamente a fécula e a farinha. Os maiores compradores de fécula do Brasi, são os países da América Latina, em particular a Argentina, Venezuela e Colômbia. (Tabela 3).

Tabela 3. Exportações brasileiras de fécula de mandioca, por países de destino.

Países

1999

2000

2001*

M US$

t

M US$

t

M US$

t

Argentina

1.144

4.523

912

3.059

527

2.330

Venezuela

589

2.120

779

2.506

767

2.765

Colômbia

21

60

335

1.036

284

924

Estados Unidos

266

465

199

367

157

336

Uruguai

121

496

179

613

113

581

Bolívia

223

1.184

113

486

0,0

0,0

México

66,5

220

103

348

53,0

182

Peru

0,0

0,0

51,8

135

50,0

135

Paraguai

9,3

15,4

36,7

263

84,9

618

Canadá

87,2

300

34,8

120

61,4

241

Total

2.682

9.749

2.820

9.086

2.215

8.432

Fonte: Mandioca (2002).

M US$ = US$ 1000 FOB
*Até jul/2001


Outro derivado de mandioca que o Brasil tem exportado é a farinha. Os maiores compradores de farinha brasileira são: Portugal, Estados Unidos, Uruguai, Japão e Cabo Verde (Tabela 4).

Tabela 4. Exportações brasileiras de farinha de mandioca, por países de destino.
Países
1999
2000
2001*
M US$
t
M US$
t
M US$
t
Portugal
120,2
338,2
151,7
465,0
110,0
396,1
Estados Unidos
96,0
200,9
104,3
206,4
70,0
165,4
Uruguai
78,3
259,4
80,4
243,5
34,7
143,5
Japão
28,0
46,9
61,9
98,7
30,9
55,2
Cabo Verde
18,4
52,2
32,1
88,8
25,7
93,9
Itália
5,9
8,0
5,2
7,0
0,0
0,0
Paraguai
3,2
4,9
5,0
6,8
7,5
15,3
Alemanha
0,0
0,0
5,0
7,5
0,0
0,0
Total
372
947
450
1.134
308
1.007

Fonte: Mandioca (2002).

M US$ = US$ 1000 FOB
*Até jul/2001

Em função do tipo de raiz, a mandioca pode ser classificada em: 1) de “mesa” - é comercializada na forma in natura; e 2) para a indústria, transformada principalmente em farinha, que tem uso essencialmente alimentar, e fécula que, junto com seus produtos derivados, têm competitividade crescente no mercado de amiláceos para a alimentação humana, ou como insumos em diversos ramos industriais tais como o de alimentos embutidos, embalagens, colas, mineração, têxtil e farmacêutica (Figura 3).

 

 Figura 3. Potencialidades de uso do amido no Brasil.

A produção nacional da cultura projetada pela CONAB para 2002 será de 22,6 milhões de toneladas de raízes, numa área plantada de 1,7 milhões de hectares, com rendimento médio de 13,3 t/ha.

Dentre os principais Estados produtores destacam-se: Pará (17,9%), Bahia (16,7%), Paraná (14,5%), Rio Grande do Sul (5,6%) e Amazonas (4,3%), que respondem por 59% da produção do país. A Região Nordeste sobressai-se com uma participação de 34,7% da produção nacional, porém com rendimento médio de apenas 10,6 t/ha. As demais regiões participam com 25,9% (Norte), 23,0% (Sul), 10,4% (Sudeste) e 6,0% (Centro-Oeste). As Regiões Norte e Nordeste destacam-se como principais consumidoras, sob a forma de farinha. No Sul e Sudeste, com rendimentos médios de 18,8 t/ha e 17,1 t/ha, respectivamente, a maior parte da produção é para a indústria, principalmente no Paraná, São Paulo e Minas Gerais. Na região Centro-Oeste, destaca-se a produção de Mato Grosso do Sul, cuja produção se destina, basicamente, para a industrialização, em particular, de fécula.


Região Centro Sul Brasileira

A região Centro Sul Brasileira, compreendida pelos Estados de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul, foi responsável, em 2000 (Mandioca, 2002), por 23,19% da produção nacional, com um total de 5.411.121 t produzidas (Tabela 5). A característica peculiar dessa região, em detrimento das demais, é a forte industrialização, em particular, de fécula. Essa região, mais o Estado de Santa Catarina, produzem em torno de 97% da produção nacional de fécula de mandioca.

Tabela 5. Área colhida e produção de mandioca na Região Centro Sul do Brasil.

Estados

1998

1999

2000

Área (ha)

Produção (tx1000)

Área (ha)

Produção (tx1000)

Área (ha)

Produção (tx1000)

PR

152.980

3.198

171.000

3.500

192.300

4.050

SP

27.330

585

32.165

701

34.320

770

MS

27.658

541

33.082

623

32.519

591

Brasil

1.578.879

19.503

1.582.495

20.891

1.721.739

23.336

Fonte: Mandioca (2002)


Nessa região, o Paraná apresenta maior área plantada, seguido por São Paulo e Mato Grosso do Sul. Em 2000, a área plantada por essa região representou 15,05% da área plantada brasileira e com uma participação de 23,19% na produção. Esse resultado se deve à produtividade observada que, para a região, é de 20.558 kg/ha. O Estado de São Paulo apresenta a maior produtividade brasileira (22.433 kg/ha), seguido pelo Paraná (21.061 kg/ha) e pelo Mato Grosso do Sul (18.181 kg/ha).

A Tabela 6 apresenta os dez maiores municípios produtores dos Estados do Paraná, de São Paulo e do Mato Grosso do Sul.

 

Tabela 6. Principais municípios produtores de mandioca na região Centro-Sul Brasileira, 2000.

Estado

Município

Produção
(t)

Área plantada
(ha)

Rendimento
(t/ha)

PR

Guaíra

127.000

5.000

25,40

 

Cianorte

117.750

6.530

18,03

 

Araruna

108.055

6.003

18,00

 

Marechal Cândido Rondon

99.200

4.000

24,80

 

Anahy

81.000

2.700

30,00

 

Terra Rica

72.000

3.600

20,00

 

Guairaçá

68.000

3.400

20,00

 

Querência do Norte

64.000

4.000

16,00

 

Amaporã

58.000

2.900

20,00

 

Paranavaí

57.900

3.200

18,09

SP

Santa Cruz do Rio Pardo

65.000

2.600

25,00

 

Palmital

49.750

1.990

25,00

 

São Pedro do Turvo

37.000

1.600

23,12

 

Mogi-Mirim

31.500

1.100

28,64

 

Cândido Mota

31.125

1.050

29,64

 

Castilho

30.881

1.405

21.979

 

Anhembi

30.625

850

36,03

 

Campos Novos Paulista

30.000

1.500

20,00

 

Salto Grande

24.000

1.200

20,00

 

Euclides da Cunha Paulista

24.000

1.200

20.000

MS

Ivinhema

100.000

5.000

20,00

 

Itaquiraí

45.000

3.000

15,00

 

Novo Horizonte do Sul

40.500

2.250

18,00

 

Jateí

31.200

1.200

26,00

 

Dourados

23.040

1.380

16,70

 

Tacuru

21.750

870

25,00

 

Deodápolis

19.800

900

22,00

 

Sete Quedas

19.800

900

22,00

 

Glória de Dourados

18.200

910

20,00

 

Coronel Sapucaia

15.600

650

24,00

Fonte: IBGE (2002)


Crescimento e desenvolvimento da planta
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No desenvolvimento da cultura da mandioca têm sido verificadas cinco fases fisiológicas, sendo quatro ativas e uma de repouso (Conceição, 1979). As cinco fases são:

1- Brotação da estaca;
2- Formação do sistema radicular;
3- Desenvolvimento da parte aérea;
4- Enchimento das raízes de reserva;
5- Repouso.

A duração de cada fase está na dependência de fatores relacionados com a própria diversidade genética da cultura e de fatores do ambiente.



1. Brotação da estaca

Em condições favoráveis de umidade e temperatura, após 5 a 7 dias do plantio, há o brotamento das estacas e o surgimento das primeiras raízes absorventes ao nível dos nós e da extremidade das estacas. Cerca de 15 dias é o tempo necessário para o atingimento desta fase.
Em regiões onde existe a possibilidade de ocorrência de estresse hídrico na fase de brotação das estacas, aconselha-se utilizar manivas maiores para o plantio (aproximadamente 20cm), porque manivas com essa dimensão podem manter a plântula com umidade e nutrientes por um período razoável de tempo.


2. Formação do sistema radicular

Essa fase dura, em média, 80 dias e se caracteriza pelo desaparecimento das primeiras raízes formadas em detrimento do aparecimento de outras. Essas novas raízes são chamadas raízes fibrosas e são responsáveis pela absorção de água e nutrientes.
As raízes de reserva são formadas pelo crescimento secundário das raízes fibrosas e esse processo se inicia em torno de 3 semanas após o plantio.
O número de raízes de armazenamento, que varia de cinco a doze, é definido no início do ciclo da cultura (dois a três meses), embora algumas cultivares possam produzir novas raízes até com sete meses de idade. Por essa razão, qualquer estresse (água, temperatura, competição, ataque de insetos, etc.) que ocorra na fase inicial do crescimento da mandioca poderá dificultar a fixação das raízes de armazenamento com significativo comprometimento da produtividade.


3. Desenvolvimento da parte aérea

No sétimo dia após o plantio aparecem os primeiros ramos aéreos e aos dez dias surgem as primeiras folhas. Após o aparecimento, e sob condições normais, as folhas alcançam seu crescimento máximo entre o 10º e o 12º dia.
Quanto à duração de cada folha na planta, ela é dependente, sobretudo, da cultivar e do nível de sombreamento ao qual a planta é submetida, embora o estresse hídrico e temperaturas altas também possam acelerar o início da senescência foliar. A duração mínima encontrada para uma folha de mandioca foi de 37 dias, e a máxima de 210 dias.

4. Enchimento das raízes de reserva

Nesta fase há um direcionamento de carboidratos das folhas para as raízes. O início da deposição de amido nas raízes ocorre aos 25 dias após plantio.


5. Repouso

Esta fase é bem caracterizada em regiões onde ocorrem baixas temperaturas, o que é o caso da região Centro Sul Brasileira. Neste período, a planta perde toda a sua folhagem permanecendo apenas a migração de amido para as raízes. Ao completar um ciclo de 12 meses, segue-se um segundo período de atividades em que se processa a formação de novos ramos e folhas até o 16° mês. Do 17° ao 22° mês haverá novamente a formação de amido para que a planta entre novamente em repouso.

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