Embrapa Semiárido
Sistemas de Produção, 2 - 2ª edição
ISSN 1807-0027 Versão Eletrônica
Ago/2010
Cultivo da Mangueira
Débora Costa Bastos

Sumário

Apresentação
Socioeconomia
Clima
Manejo de solo
Nutrição, calagem e adubação
Cultivares
Propagação
Plantio
Manejo da floração
Manejo de podas
Irrigação
Manejo de invasoras
Doenças
Pragas
Normas de uso de denfensivos
Colheita e pós-colheita
Mercado
Custos e rentabilidade
Referências
Glossário

Expediente

Propagação

Propagação por enxertia

Escolha e obtenção do porta-enxerto

Semeadura do porta-enxerto

Plantas matrizes

Enxertia

Borbulhia em T invertido

Garfagem de fenda cheia

Na propagação de qualquer espécie vegetal, incluindo a mangueira, a muda é a base do futuro pomar e deve ser de boa procedência. Visando a implantação de pomares comerciais e produtivos torna-se fundamental a utilização de mudas com qualidade fisiológica, morfológica e fitossanitária. A produção de mudas da mangueira pode ser feita por sementes ou pelo método da enxertia.

A produção de mudas por sementes é um método simples e barato que origina plantas vigorosas, com sistema radicular pivotante e com maior longevidade. Geralmente é utilizado em programas de melhoramento genético visando à obtenção de novas variedades e na formação de bancos de germoplasma (BAGs). Também é utilizado na propagação de cultivares poliembriônicas e, principalmente, na obtenção de porta-enxertos. Apresenta algumas desvantagens em relação ao método da enxertia, como a variabilidade genética em decorrência da segregação; formação de plantas vigorosas e com porte elevado, dificultando as práticas culturais; e juvenilidade, ou seja, o ciclo de produção da planta é mais tardio, ocorrendo 5 a 6 anos após o plantio.

A produção de mudas pelo método da enxertia apresenta custos mais elevados e necessita de mão de obra tecnificada em relação ao método de sementes. Entretanto, as plantas são mais precoces e apresentam baixo vigor, formando pomares uniformes, facilitando-se, assim, as operações relacionadas ao manejo, tratos culturais e a colheita.

Propagação por enxertia

A enxertia é um método utilizado para a produção de mudas de qualidade e constitui na união de duas porções de tecido vegetal de cultivares diferentes, de uma mesma espécie ou gênero, dando origem a uma nova planta. Essa união deve ser entre os tecidos cambiais das duas plantas (enxerto ou cavaleiro/garfo e porta-enxerto ou cavalo). O enxerto é sempre representado por uma parte da planta que se pretende propagar e é responsável pela formação da parte aérea da planta, enquanto o porta enxerto é o que recebe o enxerto, sendo responsável pelo sistema radicular, e geralmente é uma planta jovem, com ótimo crescimento, proveniente de sementes ou de estacas, vigoroso e resistente a pragas e doenças.

Escolha e obtenção do porta-enxerto

A escolha e a obtenção do porta-enxerto utilizado depende da disponibilidade de sementes. Geralmente, os viveiristas coletam os frutos das cultivares mais comuns da região, sem considerarem as características principais da planta matriz como vigor, condições nutricionais e fitossanitárias, idade, etc.

As cultivares poliembriônicas originam duas ou mais plantas de uma única semente e devem ser utilizadas para o fornecimento de sementes, pois produzem mudas de maior vigor, garantindo a mesma qualidade da planta-mãe e, portanto, maior uniformidade no pomar.

As cultivares mais utilizadas como porta enxertos são a "Espada" e "Coquinho". A "Coquinho" apresenta germinação mais rápida, porém, a "Espada", por causa das características de vigor, atinge mais precocemente o ponto de enxertia e apresenta tolerância à seca da mangueira, tendo grande aceitação entre os viveiristas. Entretanto, o produtor ou viveirista poderá escolher entre uma ou outra dependendo da sementes disponíveis na sua propriedade.

As sementes devem ser retiradas de frutos maduros, sadios, livres de doenças e pragas, lavadas e colocadas para secar em jornal, em local ventilado e à sombra, por um período de 3 a 5 dias. Em seguida, deve-se fazer a retirada do tegumento externo (endocarpo) que envolve a amêndoa, com o auxilio da tesoura de poda ou canivete. Essa técnica favorece ao maior índice de germinação (90% a 95%), com maior rapidez e a obtenção de plantas bem formadas, vigorosas e prontas para serem enxertadas em menor espaço de tempo. Em consequências das perdas que ocorrem durante a obtenção do porta-enxerto e na enxertia, faz-se a semeadura de 40% a 50% a mais de sementes, em relação a quantidade de mudas que serão produzidas.

As sementes de manga perdem o poder germinativo rapidamente e dessa forma, o período que se estende desde a colheita do fruto, retirada da semente até a semeadura, não deverá ultrapassar mais de 15 dias.

Semeadura do porta-enxerto

A semeadura pode ser feita em recipientes (sacos plásticos de polietileno pretos), com dimensões de 35 cm a 40 cm de altura, 17 cm a 25 cm de largura e 0,12 mm a 0,15 mm de espessura. Esses recipientes devem conter pequenos furos nas laterais e na base, para melhor escoamento do excesso de água e maior arejamento das raízes. O substrato utilizado deve ser uma mistura de solo (terra de barranco) e esterco curtido (3:1 v/v), além da adição de 3 kg de superfosfato simples e 500 g de cloreto de potássio por m3 da mistura. Quando fizer o uso de solo argiloso, adicionar uma parte de areia na mistura (Figura 1).

Fotos: Bastos, D. C.
Fig. 1. Porta enxertos semeados em sacos plásticos, prontos para enxertia.

A semeadura também pode ser feita diretamente em canteiros (sementeira), com 10 m a 20 m de comprimento, 1,20 m de largura e 0,15 m de altura, com a incorporação no solo de 5 kg a 10 kg de esterco curtido, 100 g de superfosfato simples e 50 g de cloreto de potássio por m2 de sementeira. Os sulcos devem ter 5 cm de profundidade, distanciados entre si de 20 cm. As sementes são colocadas a uma distância de 3 cm uma da outra, com a sua face ventral voltada para baixo e cobertas com uma camada de terra.

Os tratos culturais realizados na sementeira são os usualmente recomendados, constituindo-se de irrigações, adubações, capinas e controle fitossanitário, que são os mesmos realizados na semeadura em recipientes.

Após 50 a 75 dias da semeadura, quando os porta-enxertos apresentarem 25 cm de altura, realiza-se a repicagem para o viveiro, com espaçamento de 80 cm a 120 cm nas entrelinhas e 40 cm entre as plantas. Nos sulcos com 20 cm a 30 cm de profundidade, deve-se aplicar esterco curtido (1 L a 2 L), 100 g de superfosfato simples e 25 g de cloreto de potássio por metro linear.

É fundamental a instalação de um sistema de irrigação. Os tratos culturais são aqueles usualmente utilizados na condução de viveiros e semelhantes aos relacionados para a sementeira.

Plantas matrizes

A planta matriz fornecedora do material propagativo (garfos e borbulhas) destaca-se entre os principais fatores que influenciam na produção dos frutos nos pomares comerciais. O material propagativo é retirado de plantas matrizes sadias e que apresentem boas condições nutricionais e fitossanitárias. Deste modo, o produtor de mudas deverá ter plantas matrizes tanto para o fornecimento de material para a formação do porta-enxerto, como também para o enxerto.

Os garfos ou ponteiros devem ser retirados de ramos maduros (6 a 8 meses de idade) e terminais da cultivar que se deseja propagar, ter formato arredondado, coloração variando entre verde a verde acinzentado e possuir gemas apicais entumescidas e sadias. Recomenda-se que entre 5 a 10 dias antes de sua utilização, realize-se a retirada da porção terminal do ramo que fornecerá as borbulhas, eliminando-se a gema apical. Esta prática facilitará o entumescimento das gemas e, consequentemente, a precocidade de pegamento após a enxertia (Figura 2).

Foto: Bastos, D. C.
Fig. 2. Garfos com gemas entumecidas prontas para serem utilizadas na enxertia.

Enxertia

A enxertia, embora simples e de fácil execução, só possibilita altos índices de pegamento quando forem observados fatores como a compatibilidade entre porta-enxerto e enxerto, as condições fisiológicas do porta enxerto, do enxerto (garfo ou borbulha), relacionados com a época de realização e a disponibilidade dos mesmos, as condições climáticas (temperatura e umidade), métodos utilizados, mão-de-obra especializada e práticas de manejo antes e após a enxertia.

Borbulhia em T invertido

O método de borbulhia em "T" invertido tem como principal vantagem a economia de material propagativo. Uma porção terminal origina de 5 a 10 borbulhas (enxertos). O inconveniente desse tipo de enxertia é a dificuldade de conseguir gemas entumescidas que emitam brotações. Geralmente, utiliza-se porta enxertos com 6 a 12 meses de idade e 1 cm de diâmetro, fazendo-se um corte vertical de 3 cm a 5 cm em "T" invertido no porta enxerto a uma altura de 15 cm a 20 cm do solo. Um segundo corte (horizontal) é feito na base do porta-enxerto, ajustando-se a seguir a gema e fazendo-se o amarrio com fita plástica. (Figura 3).

Fonte: Matos (2000).
Fig. 3. Enxertia tipo borbulhia em T invertido.

Após 20 dias da enxertia, a fita plástica é retirada e a gema fica exposta, e se a borbulha apresentar aspecto verde e com os tecidos unidos aos do porta-enxerto, é sinal de que o pegamento do enxerto foi adequado.

Entre 40 a 45 dias após a enxertia a gema começa a brotar, e faz-se o corte ou decapitação do porta-enxerto a altura de 5 cm acima do ponto de enxertia. Quando ocorrer o segundo fluxo vegetativo (5 a 7 meses após a enxertia), faz-se o corte da parte restante do porta-enxerto rente a este ponto, e amarra-se um tutor até a muda se desenvolver totalmente e estar pronta para o plantio no campo. O período total de produção da muda, desde a obtenção do porta-enxerto até esta fase é de 10 a 12 meses.

Garfagem de fenda cheia

A garfagem de fenda cheia (Figura 4) é um dos métodos de enxertia mais utilizados na produção de mudas da mangueira, por apresentar precocidade e altos índices de pegamento, além de ser de fácil execução quando comparados a outros tipos de enxertia.

Foto: Bastos, D. C.
Fig. 4. Garfagem de fenda cheia.

Neste tipo de garfagem, tanto o porta enxerto como o garfo apresentam diâmetro semelhante, em torno de 8 mm a 12 mm. Inicialmente, faz-se a decapitação do porta enxerto, entre 10 cm a 15 cm do solo. Em seguida, através de um corte vertical, faz-se uma incisão ou fenda com 3 cm de profundidade. A seguir, o garfo que possui de 10 cm a 15 cm de comprimento e com sua base preparada em forma de bisel (cunha), também com 3 cm, é introduzido na fenda do porta enxerto, ajustando-se os tecidos do câmbio pelo menos de um dos lados e fazendo-se o amarrio da região de enxertia com fita plástica. Para evitar o ressecamento dos tecidos, recomenda-se cobrir o garfo com saco plástico transparente e amarrá-lo em sua extremidade inferior, formando uma 'câmara úmida' (Figura 5).

Foto: Bastos, D. C.
Fig. 5. Câmara úmida na região da enxertia tipo garfagem de fenda cheia.

As operações de irrigação, adubação, controle de plantas daninhas, controle fitossanitário e desbrotas no porta-enxerto devem ser realizadas durante todo o período de formação da muda.

O período total desde a semeadura do porta-enxerto até a muda pronta para o plantio varia entre 6 a 8 meses. As mudas estão prontas para serem levadas para o local definitivo de plantio após 3 a 4 meses da realização da enxertia, quanto atingirem a altura de 50 cm a 70 cm (Figura 6).

Foto: Mouco, M. A.
Fig. 6. Mudas prontas para transplantio.
 
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