Embrapa Milho e Sorgo
Sistema de Produção, 1
Importância econômica
Jason de Oliveira Duarte

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Introdução e Importância Econômica do Milho

Provavelmente, o milho é a mais importante planta comercial com origem nas Américas. Há indicações de que sua origem tenha sido no México, América Central ou Sudoeste dos Estados Unidos. É uma das culturas mais antigas do mundo, havendo provas, através de escavações arqueológicas e geológicas, e através de medições por desintegração radioativa, de que é cultivado há pelo menos 5.000 anos. Logo depois do descobrimento da América, foi levado para a Europa, onde era cultivado em jardins, até que seu valor alimentício tornou-se conhecido. Passou, então, a ser plantado em escala comercial e espalhou-se desde a latitude de 58o norte (União Soviética) até 40o sul (Argentina) (Godoy, 2002; Jugenheimer 1990).

A importância econômica do milho é caracterizada pelas diversas formas de sua utilização, que vai desde a alimentação animal até a indústria de alta tecnologia. Na realidade, o uso do milho em grão como alimentação animal representa a maior parte do consumo desse cereal, isto é, cerca de 70% no mundo. Nos Estados Unidos, cerca de 50% é destinado a esse fim, enquanto que no Brasil varia de 60 a 80%, dependendo da fonte da estimativa e de ano para ano.

Apesar de não ter uma participação muito grande no uso de milho em grão, a alimentação humana, com derivados de milho, constitui fator importante de uso desse cereal em regiões com baixa renda. Em algumas situações, o milho constitui a ração diária de alimentação, por exemplo: no Nordeste do Brasil, o milho é a fonte de energia para muitas pessoas que vivem no semi-árido; outro exemplo está na população mexicana, que tem no milho o ingrediente básico para sua culinária.

Estimativa de consumo de milho em grãos no Brasil

Uso

2001

(1000 t)

(%)

Consumo Animal

26.366

63,5

          · Avicultura

13.479

32,4

          · Suinocultura

8.587

20,7

          · Pecuária

2.772

6,7

          · Outros Animais

1.528

3,7

Industrial

4.163

10,0

Consumo Humano

1.505

3,6

Perdas e Sementes

263

0,6

Exportação

5.629

13,6

Outros

3.613

8,7

Total

41.541

Fontes: Abimilho, MB Associados e Safras & Mercado

Associando o consumo humano ao consumo animal, além de se verificar também o crescimento do uso de milho em aplicações industriais, pode-se observar o aumento de sua importância no contexto da produção de cereais na esfera mundial. Nesse sentido, o milho passou a ser o cereal mais produzido no mundo, conforme é retratado na figura abaixo. Esse crescimento acompanhou a demanda por milho para alimentação animal, isto é, enquanto que o trigo é usado basicamente para consumo humano, o milho é mais versátil, principalmente no que diz respeito à alimentação animal, aumentando o leque de aplicações desse cereal.

Embora seja versátil em seu uso, a produção de milho tem acompanhado basicamente o crescimento da produção de suínos e aves, no Brasil e no Mundo. No gráfico abaixo, é retratado o crescimento da produção de milho, suínos e aves no Brasil, em uma série que vai de 1978 até 2001. Nota-se que, apesar das flutuações de sua oferta, há uma tendência de crescimento de sua produção, acompanhando, principalmente, o crescimento da produção de frangos e suínos no país, fato esse relacionado com a demanda por milho, que é um ingrediente importante na composição das rações para esses animais. Na realidade, poder-se-ia pensar nos frangos e suínos como um "subproduto" do milho, dada a importância deste na alimentação daqueles.

Além dos suínos e dos frangos, também fazem parte da demanda por milho para alimentação animal os bovinos e os pequenos animais. Atualmente, a produção de ração para pequenos animais (pet food) tem se constituído em um mercado crescente para o uso desse cereal, dado o crescimento da demanda por alimento de melhor qualidade para esses animais.

Dentro da evolução mundial de produção de milho, o Brasil tem se destacado como terceiro maior produtor, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da China. A produção mundial ficou em torno de 590 milhões de toneladas em 2000, enquanto que Estados Unidos, China e Brasil produziram aproximadamente 253 milhões de toneladas, 105 milhões de toneladas e 32,3 milhões de toneladas respectivamente (veja tabela abaixo). Em 2001, o Brasil apresentou a safra recorde de 41,5 milhões de toneladas. Apesar de estar entre os três maiores produtores, o Brasil não se destaca entre os países com maior nível de produtividade. No mapa abaixo, pode-se observar a produtividade dos nove maiores produtores de milho do mundo. Considerando que a produtividade média mundial está pouco acima de 4.000 kg/ha, nota-se que o Brasil está abaixo desta média, porém a produtividade brasileira tem crescido sistematicamente, passando de 1.874 kg/ha, em 1990, para 3.352 kg/ha, em 2001.

Produção de milho no mundo

Brasil

USA

China

Argentina

México

França

Romênia

Índia

Itália

Mundo

Produção (1000 toneladas)

1990

21348

201532

97214

5400

14635

9401

6810

8962

5864

483264

1991

23624

189866

99148

7685

14252

12873

10497

8064

6238

494366

1992

30506

240719

95773

10701

16929

14900

6828

9992

7394

533324

1993

30056

160985

103110

10901

18125

14867

7987

9601

8029

476731

1994

32488

255293

99674

10360

18236

12958

9343

8884

7483

569173

1995

36267

187969

112362

11404

18353

12740

9923

9534

8454

516477

1996

32185

234527

127865

10518

18024

14530

9608

10769

9548

588952

1997

32948

233867

104648

15536

17656

16832

12687

11012

10005

585092

1998

29602

247882

133198

19360

18455

15206

8623

10678

9055

614508

1999

31934

239549

128287

13500

18314

15656

10935

10775

10016

605750

2000

32378

253208

105231

16200

18761

16395

4200

11500

10207

590791

2001

41541

241485

115805

15350

18616

16472

7500

11836

10588

609182

Área (1000 ha)

1990

11394

27095

21483

1560

7339

1562

2467

5904

768

131337

1991

13064

27851

21649

1900

6947

1769

2575

5859

859

134117

1992

13364

29169

21120

2365

7219

1871

3336

5963

854

136997

1993

11870

25468

20771

2503

7428

1848

3066

5995

927

131498

1994

13749

29345

21229

2445

8194

1663

2983

6136

910

138367

1995

13946

26389

22849

2522

8020

1651

3109

6014

942

136216

1996

11934

29398

24571

2604

8051

1734

3277

6300

1023

139378

1997

12562

29409

23837

3410

7406

1858

3038

6309

1039

141216

1998

10586

29376

25281

3186

7877

1799

3129

6083

969

138614

1999

11609

28525

25939

2605

7153

1759

3014

6511

1028

138853

2000

11710

29434

22535

2976

8661

1810

2700

6500

1087

139682

2001

12355

27846

23474

2745

7280

1917

3100

6552

1184

137597

Produtividade (kg/ha)

1990

1874

7438

4525

3461

1994

6019

2761

1518

7638

3680

1991

1808

6817

4580

4044

2052

7277

4077

1376

7262

3686

1992

2283

8253

4535

4524

2345

7964

2047

1676

8660

3893

1993

2532

6321

4964

4355

2440

8045

2605

1602

8664

3625

1994

2363

8700

4695

4237

2226

7792

3132

1448

8225

4114

1995

2601

7123

4918

4522

2288

7717

3192

1585

8970

3792

1996

2697

7978

5204

4040

2239

8382

2932

1709

9336

4226

1997

2623

7952

4390

4556

2384

9059

4176

1746

9627

4143

1998

2796

8438

5269

6077

2343

8453

2756

1755

9346

4433

1999

2760

8398

4946

5182

2560

8901

3628

1655

9744

4363

2000

2736

8603

4670

5444

2166

9058

1556

1769

9386

4230

2001

3352

8672

4933

5592

2557

8593

2419

1807

8942

4427

Fonte: FAO, 2002

Um dos fatores do baixo nível de produtividade, no Brasil, é o grande número de pequenos produtores que cultivam esse cereal. Para se ter uma idéia, segundo os dados do censo agropecuário do IBGE de 1996, 94,3% dos produtores de milho são responsáveis por 30% da produção, usando 45,63% da área destinada ao cultivo desse cereal no país. Por outro lado, 2,4% dos produtores cultivam 43,91% da área e produzem 60,08% do milho colhido no Brasil (veja tabela abaixo). Melhor idéia da participação dos pequenos produtores no processo produtivo é que, aqueles que cultivam menos de um hectare de milho, representam 30,8% dos produtores e colhem apenas 1,89% da produção.

A importância do milho ainda está relacionada ao aspecto social, pois como se viu anteriormente, grande parte dos produtores não é altamente tecnificadas, não possui grandes extensões de terras, mas dependem dessa produção para viver. Isto pode ser constatado pela quantidade de produtores que consomem o milho na propriedade. Segundo os dados do IBGE, cerca de 59,84% dos estabelecimentos que produzem milho consomem a produção na propriedade. Apesar desse alto percentual de estabelecimentos que consomem o grão internamente, estes representam apenas 24,93% da produção nacional de milho. Pode-se, portanto, afirmar que há uma clara dualidade na produção de milho no Brasil. Uma grande parcela de pequenos produtores que não se preocupam com a produção comercial e com altos índices de produtividade, e uma pequena parcela de grandes produtores, com alto índice de produtividade, usando mais terra, mais capital e mais tecnologia na produção de milho.

Produção de milho segundo tamanho de área plantada e número de informantes

Área plantada

Área

Produção

Informantes

em (ha)

(1000 ha)

(%)

(1000 t)

(%)

(X 1000)

(%)

Menos de 10

4842

45,63

7654

30,00

2395

94,3

10 a 20

1110

10,46

2531

9,92

84

3,3

20 a 100

1951

18,38

5544

21,73

51

2,0

Acima de 1000

2709

25,53

9783

38,35

10

0,4

Total

10612

25512

2540

Fonte: IBGE, Censo agropecuário de 1995/1996

No que diz respeito ao emprego de mão-de-obra, cerca de 14,5% das pessoas ocupadas nas lavouras temporárias e cerca de 5,5% dos trabalhadores do setor agrícola estão ligados à produção de milho. No setor agropecuário, a produção de milho só perde para a pecuária bovina em termos de utilização de mão-de-obra, apesar de as tecnologias modernas utilizadas na produção desse cereal serem poupadoras de mão-de-obra.

Segundo dados do IBGE, a produção de milho no Brasil, representou apenas 0,5% do produto interno bruto (PIB), porém, esses dados estão apenas retratando a produção do milho em grão, não sendo considerados os milhos especiais e cultivos especiais, como é o caso da produção para silagem, nem computando o efeito multiplicador dessa produção quando usado na alimentação de aves e suínos, produtos estes de alto valor agregado e de grande aceitação no mercado internacional.

Como pode-se notar, a importância do milho não está apenas na produção de uma cultura anual, mas em todo o relacionamento que essa cultura tem na produção agropecuária brasileira, tanto no que diz respeito a fatores econômicos quanto a fatores sociais. Pela sua versatilidade de uso, pelos desdobramentos de produção animal e pelo aspecto social, o milho é um dos mais importantes produtos do setor agrícola no Brasil.

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