Embrapa Clima Temperado
Sistemas de Produção, 8
ISSN 1806-9207 - Versão Eletrônica
Novembro/2007
Sistema de Produção do Mirtilo
Flávio Gilberto Herter
Marcos Silveira Wrege

Sumário

Importância
Introdução
Fatores climáticos
Descrição da planta, melhoramento genético e cultivares
Propagação
Instalação e manejo do pomar
Nutrição e adubação para o mirtilo
Irrigação
Doenças fúngicas Conservação pós-colheita
Aspectos econômicos do mirtilo
Referências
Glossário

Expediente 

Fatores climáticos

A região Sul do Brasil se caracteriza por apresentar uma diversidade climática considerável, com zonas que apresentam clima tropical, enquanto outras têm clima típico temperado e, entre elas, áreas com clima ameno. Nesta região, ocorrem grandes variações, principalmente no que tange ao acúmulo de frio e variações bruscas de temperatura, durante o inverno. Tais parâmetros são considerados de suma importância para definir as áreas com potencial de produção de Mirtilo.
Outros Estados, como por exemplo as regiões altas de São Paulo e Minas Gerais, têm condições, para produzir algumas cultivares de mirtilo, embora em menor escala, pois são regiões com acumulo de frio baixo, de 50 a 250 horas de frio.
O mapa de horas de frio para os três Estados da região Sul é apresentado na Figura 1. Observa-se que as regiões mais altas, desde o Sul do Paraná (região de Palmas e General Carneiro), até o Norte do Rio Grande do Sul (região de Vacaria e São José dos Ausentes) têm um número elevado de horas de frio. Nessas condições, podem ser plantados cultivares mais exigentes em frio. Em tais regiões, geralmente, ocorrem mais de 500 horas de frio abaixo de 7,2ºC. Nas regiões mais baixas, tem-se menos de 200 horas de frio, como no Noroeste do Paraná e no Alto Vale do Uruguai, no Rio Grande do Sul, o mirtilo não deve ter boa adaptação, tendo em vista não se dispor de cultivares de tão baixa exigência em frio.

Ilustração: Marcos Silveira Wrege

Fig. 1 Horas de frio estimadas, de maio a setembro (abaixo de 7,2ºC), na região Sul do Brasil.

O mirtilo pode ser classificado em dois grupos principais: Rabbiteye e Highbush. As cultivares do primeiro grupo adaptam-se em regiões de pouco frio (cerca de 300 horas de frio), enquanto as do segundo em regiões mais frias, que geralmente coincidem com as de maior altitude.
Os fatores climáticos atuam diferentemente segundo a fase de desenvolvimento, determinando o potencial de produção. Durante a fase de repouso, o frio é o fator mais importante; durante a fase vegetativa, a temperatura, a precipitação e a radiação solar são importantes.
A planta de mirtilo se caracteriza por ser de porte arbustivo, com hábito de crescimento basitônico, ou seja, a brotação ocorre, preferencialmente, nas gemas basais. Este fator é que define o porte da planta.
A falta de frio causa brotação e floração deficiente e, por conseqüência, produção deficiente. As cultivares do grupo higbush necessitam entre 650 a 800 horas de frio (Kender & Brightwell, 1966).Adaptam-se bem em regiões onde o ciclo vegetativo chega até a 160 dias.
Na parte sul do RS (Encosta da Serra do Sudeste), é recomendável o plantio de cultivares do grupo rabbiteye,pois estasnecessitam de um terço ou até mesmo de metade de horas de frio do que as do grupo higbush. Brotam e florescem bem com apenas 360 horas de frio (HF).
No que se refere à resistência às geadas, existe uma diferença de comportamento entre as cultivares (Bailey, 1949). A fase mais critica é da floração. Se a temperatura permanecer baixa por várias horas, causa necrose, tanto no pistilo, como no ovário.
Na fase vegetativa, altas temperaturas associadas à seca causam danos às plantações. devido à baixa capacidade do sistema radicular em absorver água para atender a demanda de transpiração da parte aérea. Durante a fase de desenvolvimento do fruto, a temperatura exerce um papel importante no período que vai entre 50 e 90 dias após a floração.
Para se obter frutos de qualidade, as melhores regiões são aquelas em que o fotoperíodo é longo e as temperaturas noturnas frescas, durante a fase de maturação.
Para um bom desenvolvimento vegetativo, a planta de mirtilo exige dias longos, enquanto para a iniciação floral é necessário o encurtamento do dia (Hall et al, 1963). Quanto à intensidade luminosa, baixa intensidade causa uma redução no número de gemas florais, com conseqüente redução no potencial de produção para o ciclo seguinte.
Por se tratar de planta arbustiva, o mirtilo necessita de boa disponibilidade de água. Para isto, é necessária irrigação, principalmente nas áreas mais secas da região Sul ou onde o solo seja muito raso ou muito arenoso. Para um bom teor de açúcar na fruta, o mirtilo requer até 50 mm de água, semanalmente, durante o período de desenvolvimento das frutas. O tipo rabbiteye, entretanto, apesar das raízes superficiais, é capaz de sobreviver a períodos de seca, devido a características adaptativas, como resistência estomatal, e conseqüente uso eficiente de água.
Assim, é recomendada irrigação para a Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, o norte do Paraná, onde chove menos e a temperatura é alta, e para áreas onde a distribuição das chuvas é muito irregular.
Durante o período de repouso, as cultivares do grupo highbush são mais sensíveis ao encharcamento do solo comparadas às do grupo rabbiteye (Korcak, 1983). Isto se deve à maior suscetibilidade do primeiro grupo a podridões de raízes. Porém, na fase de desenvolvimento vegetativo, solos bem drenados são importantes para proporcionar bom desenvolvimento da planta.
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