Embrapa Agrobiologia
Sistemas de Produção, 3
ISSN 1679-6721 Versão Eletrônica
Dez./2005
Plantio de Leguminosas Arbóreas para Produção de Moirões Vivos e Construção de Cercas Ecológicas
Autores

Início

Introdução
Os diferentes modelos de
cercas

Justificativas
Benefícios e vantagens
Limitações
Conhecendo a leguminosa
Gliricidia sepium

Possibilidades para o Brasil
O uso da Gliricidia sepium
como moirão vivo

Construção das cercas
ecológicas

Composição química da
Gliricidia sepium

Outras espécies vegetais
Análise sócio-econômica
Considerações
Agradecimentos
Referências
Anexos
Glossário



Expediente

Conhecendo a leguminosa arbórea Gliricidia sepium (Jacq.) Steud

Descrição botânica e características da espécie
Histórico e distribuição geográfica
Adaptação ambiental

Com base no conhecimento e experiência sobre a espécie, é possível fazer um melhor aproveitamento de seu potencial e benefícios. Segue abaixo a descrição botânica da espécie, além da citação de alguns registros sobre sua introdução e possibilidades de uso para o Brasil e a sua distribuição geográfica, ressaltando os centros de origem.

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Descrição botânica e características da espécie

É uma árvore da família Leguminosae, sub-família Faboideae (Papilionoideae). No passado, a Gliricidia sepium foi descrita nos gêneros Robinia e Lonchocarpus. Segundo ALLEN & ALLEN (1981), o gênero Gliricidia, possui de 6 a 9 espécies; diferentemente, HUGHES (1987) relata a existência de 3, ou talvez, 4 espécies. Além da G. sepium, outras espécies são relatadas, como a G. maculata, que é nativa da península de Yucatán, no México; e G. guatemalensis, nativa de regiões altas entre 1.500 e 2.000 m de altitude, na região do México Meridional, Guatemala, El Salvador, Honduras e, possivelmente, a Nicarágua. Ambas as espécies possuem flores esbranquiçadas, vagens e sementes menores que as da G. sepium (HUGHES, 1987; PARROTA, 1992).

Apesar da G. maculata ter sido considerada uma espécie diferente (HUGHES, 1987; PARROTA, 1992), existem autores que a caracterizam como um sinônimo botânico de G. sepium (ALLEN & ALLEN, 1981; SALAZAR, 1986; SMITH & VAN HOUTERT, 1987). Apesar de existir várias espécies no gênero, somente a G. sepium tem sido usada como moirões vivos. O nome do gênero, Gliricidia, em latim significa "mata-ratos" e o nome específico, sepium, significa "cercas vivas", indicando o uso mais popular dado a espécie (PARROTA, 1992).

Existe uma variação considerável na cor e peso das sementes, na morfologia da bainha, flores e folhas de acordo com a espécie e seu centro de origem. São relatadas variações nas taxas de crescimento das plantas provenientes de diferentes localidades da Guatemala e Costa Rica. O peso das sementes aumenta proporcionalmente com a elevação da altitude (NGULUBE, 1989; SALAZAR, 1986).

A G. sepium é uma árvore caducifólia com folhagem sobre galhos grossos e irregulares que, com freqüência, se curvam para baixo. Pode atingir de 12 a 15 metros de altura, sem espinhos, com um tronco curto com diâmetro de até 30 cm (PARROTA, 1992) (Figura 1).

Foto: Laudiceio Viana Matos

Figura 1. Árvores de gliricídia no período de florescimento, Campus da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, município de Seropédica, RJ.

A G. sepium apresenta flores reunidas em inflorescências axilares do tipo racemo com desenvolvimento centrípeto e inflorescências terminais do tipo cacho ou racemo. O cálice é gamossépalo, formando um pequeno tubo que envolve a parte basal da corola (cálice campanulado truncado ou com cinco pequenos dentes). As pétalas são de cor lilás-rósea ou branca, estandarte orbicular, emarginado refletido, asas livres e carena curva, com a porção central de estandarte em tom creme, que funciona como guia de néctar (PIO CORRÊA, 1974; HUGHES, 1987; PARROTA, 1992; KILL & DRUMOND, 2000). As flores são zigomorfas, apresentam cores vistosas, antese diurna, plataforma de pouso e néctar abrigado na base da corola, que são característicos da "Síndrome da Melitofilia", permitindo classificá-la como uma espécie melitófila (FAEGRI & PIJL, 1980) (Figura 2). O androceu é formado por 11 estames diadelfos e o gineceu apresenta ovário superior, estilete único, estigma bífido.

As inflorescências aparecem no início da primavera, antes da brotação das folhas, perdurando no período de julho a setembro nas condições do Estado do Rio de Janeiro. O período entre a inflorescência e a maturação dos frutos é curto, ocorrendo geralmente dos 40 a 55 dias (HUGHES, 1987). As plantas em floração apresentam um efeito paisagístico muito grande, cujas flores, são muito visitadas por insetos, principalmente abelhas do gênero Apis.

Foto: Laudiceio Viana Matos

Figura 2. . Inflorescências de Gliricidia sepium (Jacq.) Steud em árvores situadas no Campus da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, município de Seropédica, RJ.

Quanto ao sistema de reprodução, G. sepium é xenógama obrigatória, produzindo frutos e sementes somente após polinização cruzada (51,6%), sendo portanto, autoincompatível. Os frutos são vagens chatas, que geralmente são de cor verde pálido, podendo apresentar tonalidades róseo-arroxeadas em função da exposição solar (DRUMOND et al., 1999). A vagem é uma glabra com comprimento de 10 a 17 cm e largura de 1,5 cm, contendo 3 a 8 sementes. As sementes são elípticas, achatadas, brilhantes, de coloração pardo clara a escura e 10 mm de largura (LITTLE, 1983). Apresentam dormência tegumentar quando armazenadas por mais de um ano (DRUMOND et al., 1999). A coleta de sementes desta espécie na região Sudeste do Brasil é feita do início de novembro até meados de dezembro (Figura 3). As sementes não apresentam dormência e perdem o poder germinativo em 3-4 meses.

Foto: Paul E. Bishop

Figura 3. Ramos e folhas (A) e frutos (vagens) de gliricídia (B) em maturação no mês de dezembro, município de Seropédica, RJ.

A folhagem apresenta odor adocicado devido a ocorrência de cumarina, substância aromática encontrada em alguns condimentos. As folhas, normalmente são imparipinadas (com um folíolo terminal ímpar), apresentam de 15 a 25 cm de comprimento e têm de 3 a 17 folíolos opostos. Os folíolos são oblongo-ovalados, coniformes na base, agudos no ápice e de comprimento médio de 4 a 6 cm.

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Histórico e distribuição geográfica

A G. sepium é conhecida comumente como gliricídia (Brasil), madre de cacao (Honduras, Porto Rico, Costa Rica), mata-ratón (Colômbia), cocoite (México) e outros nomes, como mata-ratos, "rabo de ratón", "madero negro" e "mother of cocoa". Destes, os mais pitorescos são "madre de cacao", devido a sua utilização para sombreamento em plantações de cacau, e "mata-ratón" por suas raízes serem utilizadas como veneno para roedores (NATIONAL ACADEMY OF SCIENCES, 1980; HUGHES, 1987; PARROTA, 1992).

Nativa desde o México até o norte da América do Sul, foi introduzida no trópico da África, Sudeste da Ásia, América do Sul e Caribe (STANDLEY & STEYERMARK, 1945; NATIONAL ACADEMY OF SCIENCES, 1980). Também é descrita como nativa do Norte da América do Sul até a Venezuela e as Guianas (PARROTA, 1992) (Figura 4).

Fonte: PARROTA, 1992

Figura 4. Distribuição natural e introdução da Gliricidia sepium na América Tropical (Fonte: Parrota, 1992)

Os espanhóis quando chegaram à América Central, já encontraram plantações com o uso de cercas vivas. Apesar de ser uma idéia bastante antiga, a formação de cercas ecológicas tornou-se mais atrativa recentemente, devido a escassez de madeiras de boa qualidade e de alto preços, quando disponíveis, elevando o custo da divisão de pastos e a demarcação dos limites de propriedades (FRANCO & CAMPELLO, 2001).

Dentre as espécies utilizadas como moirão vivo em cercas ecológicas, a gliricídia é a que mais tem despertado o interesse dos agricultores e centros de pesquisa no mundo, se tornando uma referência, em função de apresentar um conjunto de características que justificam seu uso, tais como: boa adaptabilidade e durabilidade, propagação por estaquia e sementes, capacidade de rebrota e crescimento rápido, multiplicidade de produtos, usos e serviços, entre outros.

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Adaptação ambiental

A gliricídia é uma espécie característica de regiões tropicais e se adapta às elevadas altitudes, que vão desde o nível do mar até 1.500 metros, apresentando boa plasticidade a diferentes zonas ecológicas. No entanto, a gliricídia apresenta melhor desempenho em regiões de clima quente, com altitude de até 700 m. O melhor crescimento ocorre em áreas que recebem entre 1.500 a 2.300 mm de precipitação ao ano (LITTLE, 1983).

É uma espécie que tolera a seca, mas não resiste a geadas (LITTLE, 1983; HUGHES, 1987; FRANCO, 1988). Temperaturas anuais entre 22 e 28ºC são características das áreas de distribuição natural e artificial da espécie, com temperaturas máximas entre 34 e 41ºC e mínimas variando entre 14 e 20ºC (WEBB et al., 1984).

Em sua área de distribuição natural, a gliricídia cresce em uma variedade de tipos de solo, desde solos arenosos e pedregosos até Vertissolos profundos de cores escuras. Desenvolve-se em áreas de declives acentuados e compete bem com ervas daninhas (HUGHES, 1987; NEVES et al., 2004). Entretanto, não apresenta bom desenvolvimento em subsolo exposto e pobre em matéria orgânica.

A espécie é intolerante às condições pantanosas (solos de má drenagem), assim como a compactação em Vertissolos. Tolera solos ácidos (pH 4,3 a 5,0), porém o pH na maioria de suas áreas de distribuição é de 5,5 a 7,0, mas, ainda cresce bem em solos com baixa acidez, não suportando solos muito alcalinos (BAGGIO & HEUVELDOP, 1982; HUGHES, 1987).





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