Embrapa Agrobiologia
Sistemas de Produção, 3
ISSN 1679-6721 Versão Eletrônica
Dez./2005
Plantio de Leguminosas Arbóreas para Produção de Moirões Vivos e Construção de Cercas Ecológicas
Autores

Início

Introdução
Os diferentes modelos de
cercas

Justificativas
Benefícios e vantagens
Limitações
Conhecendo a leguminosa
Gliricidia sepium

Possibilidades para o Brasil
O uso da Gliricidia sepium
como moirão vivo

Construção das cercas
ecológicas

Composição química da
Gliricidia sepium

Outras espécies vegetais
Análise sócio-econômica
Considerações
Agradecimentos
Referências
Anexos
Glossário



Expediente

Construção das cercas ecológicas

Implantação da cerca
Fixação do arame
Manejo e tratos culturais

As cercas ecológicas são construídas em locais previamente definidos, observando-se as restrições da espécie (solo, clima, altitude e outros) e os anseios do agricultor, afinados com as práticas que promovam um maior aproveitamento e desenvolvimento dos moirões. Neste item é apresentada uma seqüência de operações e práticas referentes à implantação dos moirões (plantio e estabelecimento), fixação do arame ao moirão e manejo e tratos culturais indicados para a manutenção das cercas e aproveitamento de seus benefícios e múltiplos usos.

Implantação da cerca Topo da Página

Seleção e preparo das estacas
Pré-enraizamento em viveiro
Escolha do local e plantio

A implantação se refere às operações que se iniciam com a seleção, corte e preparo das estacas até a fixação dos arames, bem como, o plantio das mudas produzidas em viveiro, sejam elas por estaquia ou sementes. A maioria das operações referentes à implantação da cerca ecológica é semelhante às realizadas para a implantação dos bancos de produção de estacas (seleção de estacas, corte, preparo, pré-enraizamento, época de plantio, manejo e outros), salvo a diferença da maior necessidade de porte das estacas.

Para uma maior eficiência e funcionalidade, as cercas ecológicas requerem um planejamento adequado para sua implantação na propriedade rural, visto que demanda um período de dois anos para se obter estacas com porte ideal, bem como para fixar o arame no moirão vivo.

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Seleção e preparo das estacas

A grande dificuldade para utilização de moirões vivos de G. sepium é a obtenção das estacas de tamanho e diâmetros recomendados. Estacas com 2,50 m de comprimento e 4 cm de diâmetro já são consideradas ideais para uso (Figura 1). Esse valor constitui o diâmetro mínimo requerido para que as estacas apresentem um bom índice de estabelecimento (porcentagem de enraizamento e sobrevivência). Este comprimento é necessário para evitar que o gado pasteje as brotações e o ápice da planta que darão origem à copa do moirão vivo. Em áreas sem gado ou apenas com bezerros, o comprimento das estacas pode ser reduzido para 1,80 a 2,10 m.

Tanto a gliricídia como outras espécies usadas como moirão vivo (gênero Erithrina), têm tendência de ramificar profusamente, necessitando de cuidados especiais na seleção e produção de estacas longas e retilíneas (FRANCO et al., 1997). Assim como na produção de mudas para instalação dos bancos, as estacas (moirões vivos) não devem sofrer danos mecânicos durante o manuseio.

Foto: Laudiceio Viana Matos

Figura 1. Estacas com porte e características ideais para uso como moirão vivo. Campo Experimental da Embrapa Agrobiologia, Seropédica, RJ.

As porções basais das ramificações apresentam melhores índices de estabelecimento, porém outras partes apresentam desempenho satisfatório. Durante o preparo das estacas, é indicado um corte em bisel na extremidade inferior para aumentar a área de contato da estaca com o substrato. Existem outros tipos de cortes usados por agricultores na base e no ápice das estacas (reto, bisel duplo, bisel triplo, arredondado e outros), porém o corte em bisel (diagonal) é o mais utilizado (BAGGIO & HEUVELDOP, 1982). Este mesmo corte é feito no ápice para evitar o apodrecimento da estaca por acúmulo de água no período chuvoso e reduzir a perda de água e transpiração excessiva no inverno. Também, pode-se fazer pequenas incisões na casca da base da estaca para favorecer o enraizamento em diferentes áreas da base enterrada, propiciando maior estabilidade à planta.

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Pré-enraizamento em viveiro

O pré-enraizamento em viveiro se tornou uma prática importante no estabelecimento de estacas para uso como moirão vivo, proporcionando um alto índice de estabelecimento (80 a 100%) quando comparado ao plantio da estaca diretamente no campo (60 a 80% de enraizamento). Como as estacas são relativamente altas (2,5 m), é necessária a montagem de uma estrutura que as suporte no viveiro ou sob a sombra de uma árvore, até que sejam plantadas no campo (Figura 2).

Foto: Laudiceio Viana Matos

Figura 2. Pré-enraizamento de estacas de gliricídia com 2,5 m de comprimento. Campo Experimental da Embrapa Agrobiologia, Seropédica, RJ.

Experimentos realizados na Embrapa Agrobiologia, mostraram que 40% das estacas com 2,5 m de comprimento e diâmetro variando de 3 a 6 cm, aos 60 DAPP, já estavam com brotações de 5 a 10 cm e, aos 90 DAPP, 95% das estacas, apresentavam brotações com comprimento médio de 22 cm. Após um período aproximado de 3 a 4 meses, quando as mudas estiverem enraizadas, poderão ser transplantadas para o campo (Figura 3).

Foto: Eduardo F. C. Campello

Figura 3. . Início da formação de raízes em estacas de gliricídia, Seropédica, RJ.

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Escolha do local e plantio

Normalmente, os moirões vivos são plantados em cercas já existentes, de preferência junto ao moirão onde a estaca é presa utilizando uma tira de borracha (câmara de ar). Na ausência de animais é possível colocar as estacas sem suporte, apesar que neste caso as estacas podem sofrer maior desalinhamento. Na escolha do local, deve-se evitar condições limitantes à espécie (solos de má drenagem, adensados e de baixa fertilidade) para favorecer o desenvolvimento das plantas, e consequentemente, obter uma cerca bem estruturada. Usar estacas com 2,5 m de comprimento e pelo menos 4 cm de diâmetro plantadas em covas com 30 cm de profundidade. Em condições favoráveis de crescimento, as estacas estarão prontas para fixar o arame em aproximadamente dois anos. Enquanto o enraizamento não estiver bem desenvolvido, o que ocorre entre 18 e 24 meses, a estaca deve ser mantida amarrada ao moirão, inclusive para não desalinhar a cerca. Após este período, o arame já poderá ser fixado ao moirão vivo de forma definitiva (Figura 4).

Foto: Eduardo F. C. Campello

Figura 4 Cerca ecológica de gliricídia, Embrapa Agrobiologia, Seropédica, RJ.

As operações relacionadas à época do corte, seleção e plantio das estacas são as mesmas citadas no capítulo de formação de bancos de produção de estacas.

O plantio dos moirões, sejam eles pré-enraizados ou não, nas condições do Brasil, deve ser feito no início do período chuvoso para que haja um alto índice de pegamento e sobrevivência, reduzindo a prática de replantio. As estacas que não conseguirem enraizar devem ser logo substituídas visando aproveitar o fim do período de chuvas, caso contrário, o replantio só poderá ser feito na próxima estação chuvosa, a não ser que haja possibilidade de irrigação. O rendimento da operação de plantio, segundo experiências realizadas na Embrapa Agrobiologia, é de 50 a 100 estacas homem-1 dia-1, considerando a abertura da cova e plantio da estaca.

A implantação da cerca através de mudas produzidas por sementes demanda cuidados especiais e um maior tempo. As mudas são transplantadas na linha da cerca, também no início do período chuvoso, e quando atingirem entre 50 a 70 cm devem ser tutoradas, de modo que fiquem alinhadas à cerca. Se houver gado na área onde foi implantada a cerca, as mudas de gliricídia devem ser protegidas com estruturas de madeira ou arame farpado para evitar que o gado as pasteje, ou isolar o gado da área, até que as plantas atinjam altura superior a 2 m. As podas anuais são práticas importantes no estabelecimento, para evitar desalinhamento e, posteriormente, para produção de novas estacas.

A correção da fertilidade do solo é feita com base na análise de terra. A gliricídia é responsiva à adubação, esta prática contribui para que ocorra um engrossamento mais rápido das estacas. Em experimento no Rio de Janeiro, em um Planossolo, com baixo teor de fósforo e nível médio de potássio, a adição de 200 g de fosfato de rocha, 20 g de KCl e 16 g de FTE BR-10 aplicados junto à estaca após a rebrota, propiciou um aumento da taxa de expansão relativa do diâmetro do caule de 22% em relação as estacas que não foram adubadas (FRANCO, 1988).

Fixação do arame Topo da Página

Inicialmente, as estacas podem ser amarradas ao moirão tratado com tiras de borracha flexível, de modo que fiquem encostadas em todos os fios da cerca. Isto é feito até que as plantas se desenvolvam o suficiente para a fixação do arame de forma definitiva após aproximadamente dois anos do plantio no campo. A fixação do arame na estaca pode ser feita diretamente com o uso do grampo inserido no tecido vegetal ou colocando-se um pedaço de conduíte ou borracha intercalado entre o arame e a estaca, para reduzir o processo de oxidação do arame e do grampo no local onde o mesmo é fixado, e consequentemente, evitar danos à planta e proporcionar uma maior durabilidade do arame (Figura 5).

Foto: Eduardo F. C. Campello

Figura 5 Fixação do arame ao moirão vivo sem o uso de borracha isolante (A) e com borracha isolante (B). Vista geral de uma cerca ecológica com moirões vivos de gliricídia (C), Embrapa Agrobiologia, Seropédica, RJ.

Como as árvores só crescem em altura a partir das gemas apicais, não há risco da cerca subir após o arame ser pregado no seu tronco, pois nesta posição só ocorre o crescimento radial (aumento do diâmetro) em função das divisões celulares do câmbio.

Caso as estacas ainda não estejam suficientemente desenvolvidas para serem grampeadas aos arames, pode-se amarrá-las aos mesmos através de borrachas até atingirem um porte que possibilite grampear. Esta operação parece ser mais segura e econômica, pois evita danos mecânicos provocados pelos grampos nas estacas que ainda não se estabeleceram, evitando-se perdas de estacas (BAGGIO & HEUVELDOP, 1982).

No Rio de Janeiro foi avaliada a utilização de pedaços de conduítes com corte retangular (7 cm de comprimento, 3 cm de largura e 2 mm de espessura) na fixação do arame em moirões vivos de uma cerca viva de eritrina com 6 anos, observando-se que o uso do conduíte provocou a formação de uma "bolsa" no ponto de cicatrização, dificultando a aderência do grampo ao moirão vivo, podendo se soltar com um possível esbarrão de um animal. Sem utilizá-lo, a cicatrização do tecido ocorreu de forma mais natural, sem haver o acúmulo de tecido vegetal.

Na gliricídia, a casca não envolve o arame de forma tão intensa quanto em outras espécies como a eritrina, em função de sua maior densidade, podendo proporcionar maior aderência do grampo ao moirão quando se usa a câmara de ar, com a possibilidade de evitar a oxidação do arame no local da fixação e reduzir o acúmulo do tecido vegetal (Figura 5). A fixação direta do arame ao moirão também é uma opção com resultados satisfatórios. Porém, recomenda-se a busca de técnicas mais eficientes para a fixação do arame ao moirão, através de observação e experimentações práticas nas propriedades onde as cercas forem instaladas, de modo que as plantas sejam menos afetadas.

Manejo e tratos culturais Topo da Página

Os agricultores que esperam um certo tempo para fixar o arame definitivamente o fazem conscientes de que uma vez enraizadas, as estacas suportam melhor o dano mecânico. Após a implantação dos moirões vivos no campo, ainda há a necessidade de se manejar as estacas, visando o sucesso da prática. Cerca de 2 a 3 meses após o plantio definitivo das estacas no campo, é indicado fazer a desbrota deixando-se somente os brotos apicais. Esta operação deve ser repetida aos 6 meses e um ano após o plantio, devendo-se fazer a poda de todos os ramos para fortalecer o sistema radicular e dar maior estabilidade aos moirões.

As plantas são suscetíveis à concorrência com gramíneas e à vegetação espontânea durante o primeiro ano de crescimento. Uma vez estabelecida, a gliricídia é um competidor agressivo (PARROTA, 1992). A limpeza de vegetação ao redor das cercas não é considerada uma prática importante para manutenção das cercas com moirões vivos.

A gliricídia rebrota com facilidade depois de cortada, apresentando crescimento vegetativo rápido, mesmo após incêndios, desde que estes não afetem o alburno da planta. Da mesma forma, as plantas danificadas pelos ventos se recompõem rapidamente mediante a produção de numerosos brotos laterais (HUGHES, 1987).

As podas são conduzidas para a formação de estacas, produção de adubo verde e forragem para os animais, e em alguns casos, seleção de ramos para uso como lenha. A mão-de-obra estimada para a poda de uma cerca de comprimento entre 80 a 150 m (árvores espassadas a cada 2 metros) é de aproximadamente 1homem dia-1, segundo observações realizadas pela Embrapa Agrobiologia.

A poda deve ser feita cortando-se todos os galhos e brotos das ramificações que darão origem às estacas, sendo fundamental para a manutenção e uso adequado das cercas vivas. Após o terceiro ano, os moirões podem ser manejados para a produção de estacas a serem utilizadas em novas cercas. Quando atingirem o porte desejável, o corte das estacas deve ser o mais rente possível à inserção das mesmas aos moirões vivos, para evitar que a cerca ecológica (moirões vivos) tenha sua altura reduzida com os corte sucessivos (Figura 6). Com o passar do tempo, é indicada a substituição de árvores que eventualmente não se desenvolveram de forma satisfatória.

Após a implantação e estabelecimento, a cerca ecológica não demanda muitos tratos culturais e mão-de-obra, sendo importante a retirada dos brotos e ramificações excessivas, mantendo a copa com tamanho e forma desejável. Com isso, se estabelece um melhor aproveitamento da cerca e das matrizes (moirões vivos), dinamizando e diversificando o sistema produtivo do agricultor com subprodutos da cerca, como forragem, lenha, estacas, adubo verde, sombra para animais, efeito paisagístico, quebra ventos e outros, que consequentemente, potencializam as interações benéficas dos agroecossistemas (GLIESSMAN, 2001; ALTIERI, 2002; NEVES et al., 2004).

Foto: Laudiceio Viana Matos

Figura 6 Corte de estacas em moirões vivos de gliricídia, com detalhe (círculo) da decepa da parte onde se formam as brotações visando rejuvenescimento do tecido e retirada de estacas para serem utilizadas na implantação de novas cercas ecológicas. Seropédica, RJ.




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