Embrapa Agrobiologia
Sistemas de Produção, 3
ISSN 1679-6721 Versão Eletrônica
Dez./2005
Plantio de Leguminosas Arbóreas para Produção de Moirões Vivos e Construção de Cercas Ecológicas
Autores

Início

Introdução
Os diferentes modelos de
cercas

Justificativas
Benefícios e vantagens
Limitações
Conhecendo a leguminosa
Gliricidia sepium

Possibilidades para o Brasil
O uso da Gliricidia sepium
como moirão vivo

Construção das cercas
ecológicas

Composição química da
Gliricidia sepium

Outras espécies vegetais
Análise sócio-econômica
Considerações
Agradecimentos
Referências
Anexos
Glossário



Expediente

O uso da Gliricidia sepium como moirão vivo

Propagação por sementes
Propagação por estacas
Plantio das mudas produzidas através de sementes e de estacas no campo
Manejo das matrizes
Controle de pragas e doenças

Dentre as espécies de leguminosas arbóreas utilizadas na construção de cercas ecológicas, a Gliricidia sepium é a mais adotada no mundo. Para se lograr um melhor rendimento e agilidade no processo de utilização da gliricídia como moirão vivo demanda-se uma série de operações e cuidados, os quais serão apresentados a seguir.

Banco de multiplicação e produção de estacas de gliricídia

A forma mais rápida e recomendada para a produção de moirão vivo é por meio da formação de bancos de produção de estacas. A implantação do banco pode ser feita através de sementes ou partes vegetativas (estacas).

As sementes proporcionam matrizes com maior variabilidade genética, e consequentemente, maior resistência às adversidades do ambiente. No entanto, é necessário maior tempo para chegar ao porte de moirão e para fixar o arame quando comparado com a propagação feita através de estacas. A propagação por estaquia permite maior rapidez na dominância vegetativa sobre o resto da vegetação, e as estacas podem servir como material propagativo em qualquer época do ano, sem demandar um tempo prévio de preparo em viveiro. As plantas de gliricídia procedentes de sementes têm um sistema radicular mais profundo e extenso, melhorando assim, o crescimento e a sobrevivência durante a estação seca e a conservação da folhagem, como também, é menos provável que o vento consiga arrancá-las (CHINTU et al., 2004). Por outro lado, a ramificação ocorre mais próxima do nível do solo, dificultando a formação do moirão e necessitando proteção contra o pastejo.

Os espaçamentos de plantio devem ser adotados de acordo com o objetivo do banco. Espaçamentos menores (2 m x 2 m; 2 m x 1 m) produzem um maior número de matrizes (2.500 a 5.000 árvores ha-1), sendo indicados para a produção de biomassa forrageira, obtendo-se árvores de menor tamanho em menor tempo. Os maiores (3 m x 2 m; 3 m x 3 m) resultam em um menor número de plantas, variando de 1.100 a 2.500 árvores ha-1 e são utilizados para produção de estacas, lenha, cobertura vegetal e sombreamento.

Topo da Página

Propagação por sementes

A propagação por sementes é uma possibilidade para a produção de mudas de gliricídia visando a formação de banco de estacas (Figura 1). O trabalho é iniciado pela coleta de sementes e o plantio pode ser feito em recipientes no viveiro ou diretamente no campo.

A produção de sementes em um bosque de 18 meses a partir do plantio por sementes na Nigéria, produziu 37 kg ha-1 (SUMBERG, 1985). As vagens deiscentes se partem e liberam as sementes em forma explosiva, podendo ser dispersadas até uma distância de 25 m, necessitando ser coletadas logo que atinjam a maturidade (HUGHES, 1987).

Produção de mudas no viveiro

Para a produção de mudas de gliricídia recomenda-se a utilização de viveiro telado com sombrite (50%) para favorecer o estabelecimento inicial das mudas, mas estas também podem ser produzidas debaixo de árvores com sombreamento parcial.

Um quilograma de sementes contém entre 4.700 a 11.000 sementes, dependendo da procedência (WEBB et al., 1984; HUGHES, 1987). No Rio de Janeiro, estimou-se em 1 kg uma quantidade aproximada de 7.100 sementes, enquanto no Nordeste obteve-se 9.000 sementes/kg (DRUMOND et al., 1999). As sementes germinam com facilidade sem nenhum tratamento prévio para quebra de dormência logo após a coleta, porém após alguns meses de armazenamento em câmara fria recomenda-se a escarificação com água quente a 80ºC ou em ácido sulfúrico concentrado por 4 minutos.

Foto: Alexander Silva de Resende e Laudiceio Viana Matos

Figura 1. Banco de produção de estacas de gliricídia propagado por sementes aos 3 meses e 10 dias (a) e aos 16 meses após o plantio (b), com os troncos das árvores já apresentando diâmetro médio de 3 a 5 cm (C). Localizado no Campo Experimental da Embrapa Agrobiologia, Seropédica, RJ.

Recomenda-se a inoculação das sementes com as estirpes de rizóbio BR 8801 e BR 8803, utilizando-se 6,5 gramas de inoculante para inocular 500 gramas de sementes (Figura 2). A inoculação é feita misturando-se 200 a 300 ml (volume equivalente a um copo de requeijão) de água limpa ao conteúdo do pacote (250g) até formar uma pasta homogênea. A seguir, misturar esta pasta com as sementes até que todas elas sejam envolvidas por uma camada uniforme de inoculante. Espalhar as sementes sobre um papel borrão ou jornal e deixar secar em lugar sombreado, fresco e arejado (Figura 3). Uma vez inoculadas, as sementes devem ser plantadas imediatamente para aumentar a eficiência do inóculo. Caso o tempo exceda 24 horas, deve-se fazer a reinoculação das sementes antes do plantio. Os inoculantes podem ser adquiridos na Embrapa Agrobiologia.

Foto: Laudiceio Viana Matos

Figura 2. Embalagem de inoculante para leguminosas produzido pela Embrapa Agrobiologia e sementes de gliricídia inoculadas.

Outra prática utilizada para produção de mudas é a inoculação com fungos micorrízicos, que possibilita uma maior capacidade de absorção de nutrientes pela planta. A micorrização deve ser feita com os fungos Gigaspora margarita e Glomus clarum, utilizando-se um grama por muda (o equivalente a uma tampa de caneta esferográfica por recipiente de plantio). Quando não houver disponibilidade de inoculante com fungos micorrízicos, usar solo coletado junto às raízes de gramíneas crescendo na região onde serão plantadas as mudas.

Foto: Laudiceio Viana Matos

Figura 3. Seqüência de operações realizadas para a formação de mudas de gliricídia: a) sementes e inoculante; b) adição do inóculo às sementes; c) sementes inoculadas; d) recipiente tipo bandeja de isopor com 72 células recebendo o substrato; e) Vista geral dos recipientes com o substrato; f) aspecto geral do substrato utilizado; g) mudas de gliricídia com 20 dias após a semeadura; h) plântula de gliricídia com 20 dias após a semeadura.

A semeadura deve ser feita no viveiro, em sacos de polietileno, bandejas de isopor ou qualquer outro recipiente disponível (garrafas "PET", vasos, latas, recipientes de leite e outros) possibilitando as condições adequadas para o estabelecimento das mudas. Com isso, a formação das mudas em viveiro possibilita maior porcentagem de sobrevivência das plantas em relação a semeadura direta no campo, tornando-se uma prática de grande relevância no estabelecimento do banco de produção de estacas. Além disso, a semeadura direta depende do regime pluviométrico que deve ser superior a 600 mm anuais, efetuado no início da estação chuvosa em leito de semeadura bem preparado e ter maior disponibilidade de sementes (CARVALHO FILHO et al., 1997).

Recomenda-se o substrato para a produção das mudas à base de 30% de areia, 30% de barro, 40% de esterco de curral curtido ou qualquer outro composto orgânico. As sementes devem ser enterradas a uma profundidade aproximada de 1-2 cm, em seguida, cobertas com o mesmo substrato ou areia e irrigadas 1 ou 2 vezes ao dia.

A época ideal para semeadura em viveiro é no inverno (período seco), entre os meses de julho a setembro (Rio de Janeiro). Após 60 a 90 dias, as mudas já estarão com cerca de 30 a 50 cm de altura e prontas para o plantio definitivo no campo no início do período chuvoso. A porcentagem de germinação de sementes frescas é de 80 a 90%, ocorrendo entre 3 a 4 dias após a semeadura, sem necessidade de escarificação. A repicagem deve ser feita 7 a 8 dias após a germinação, deixando-se uma plântula por recipiente. É importante fazer a aclimatação das mudas, deixando-as no mínimo, cerca de 2 semanas fora do viveiro expostas a pleno sol e com irrigação reduzida, antes de serem levadas para o campo para ganhar rusticidade, visando torná-las mais adaptadas a situação de campo e com isso reduzir a taxa de mortalidade após o plantio definitivo das mudas.

Propagação por estacas Topo da Página

Seleção das estacas
Uso de recipientes no pré-enraizamento das estacas
Parte do ramo mais indicada para a formação das mudas por estaquia
Época indicada para o corte das estacas na formação das mudas
Plantio das estacas para produção de mudas

A propagação da espécie por estacas tem sido uma forma amplamente utilizada devido ao menor tempo requerido para a formação da matriz com porte desejável (Figura 4). O seu estabelecimento pode ser feito no local definitivo, ou em viveiros para produção em sacos plásticos, garrafas "PET", vasos e outros.

Foto: Laudiceio Viana Matos

Figura 4. Banco de gliricídia propagado por estacas com 5 meses após a implantação no Campo Experimental da Embrapa Agrobiologia, Seropédica, RJ.

Topo da Página

Seleção das estacas

As matrizes e estacas devem ser selecionadas com base em características desejáveis para a constituição dos clones nos bancos de produção, para isso é importante que a matriz apresente boa formação de copa, com estacas eretas e abundantes, resistência a poda e boa capacidade de rebrota (Figura 5).

As estacas para a implantação do banco devem apresentar um comprimento médio de 1,00 a 1,50 m, tendo em vista a necessidade de facilitar o manejo das matrizes no futuro. Para se conseguir estacas com elevadas porcentagens de pegamento, é indicada a utilização de estacas maduras, com mais de 6 meses

Foto: Laudiceio Viana Matos

Figura 5. Corte e seleção de estacas a partir de um banco de gliricídia com mais de 20 anos, no Campo Experimental da Embrapa Agrobiologia, Seropédica, RJ.

Topo da Página

Uso de recipientes no pré-enraizamento das estacas

MATOS et al. (2004a) testaram o uso de garrafas descartáveis de refrigerantes com volume de 2 litros ("PET") e sacos de polietileno (9 litros) como recipientes na formação de mudas de gliricídia por estaquia. Observaram que aos 130 dias após o plantio (DAPP), as mudas inoculadas com rizóbio e plantadas em sacos de polietileno apresentaram índice de 100% de pegamento, enquanto em garrafas tipo "PET" encontrou-se 92%. As mudas produzidas sem inoculantes nos sacos e em garrafas "PET" tiveram a mesma taxa de pegamento (92%). Estes resultados indicam que o uso da "PET" como recipiente proporciona resultados satisfatórios para o pegamento das mudas se comparado aos métodos tradicionais, apresentando-se como uma alternativa de baixo custo, e ainda contribui com a redução da poluição ocasionada pelo descarte dessas garrafas no ambiente. Se as garrafas forem cilíndricas e retas (sem abaulamento) podem ser reutilizadas, pois a retirada da muda do recipiente é possível sem cortá-lo.

Neste mesmo experimento, aos 160 DAPP, fez-se a avaliação do comprimento das brotações emergentes das estacas obtendo-se o conteúdo de nitrogênio pelo método descrito por BREMNER & MULVANEY (1982), mais os pesos fresco e seco dos brotos. Observou-se que não houve diferenças significativas no número de brotações para os tratamentos de inoculação (com/sem) e recipientes (sacos / "PET"), mantendo uma média de 3,33 brotos/planta. O comprimento médio e total dos brotos mantiveram-se semelhantes estatisticamente (Tabela 1) (MATOS et al., 2004a). Os autores observaram que a gliricídia não respondeu à inoculação na formação de mudas por estaquia, pois apresentou nodulação abundante com o rizóbio nativo do solo, observação que condiz com os resultados obtidos por FRANCO (1988). No entanto, recomenda-se a inoculação, principalmente em áreas onde não é comum a sua realização para garantir a existência das bactérias no solo, em função do baixo custo da operação.

Tabela 1 - Efeito da inoculação e do tipo de recipientes no número, comprimento, peso seco e fresco, teor e quantidade de N acumulado nas brotações de gliricídia de matrizes com 20 anos.

Variáveis

Inoculação

Recipientes

Sem

Com

Garrafas Pet

Sacos Plásticos

Número de brotos

3,60 a

3,10 a

3,10 a

3,60 a

Comprimento médio dos brotos (cm)

61,70 a

67,80 a

64,40 a

65,10 a

Comprimento total dos brotos* (cm)

179,80 a

187,60 a

160,10 b

207,20 a

Peso fresco dos brotos (kg/planta)

0,20 a

0,17 a

0,14 b

0,22 a

Peso seco dos brotos (kg/planta)

0,04 a

0,04 a

0,03 b

0,05 a

% N das brotações

3,49 a

3,33 a

3,47 a

3,35 a

N total (g de N / planta)

1,51 a

1,36 a

1,00 b

1,87 a

Fonte: Matos et al.(2004a).

* Comprimento total dos brotos é igual ao número de brotações multiplicados pelo comprimento médio das mesmas dentro de cada tratamento.

** Valores seguidos de letras iguais na mesma linha, não diferem entre si, pelo teste de Tukey em nível de 0,05, onde a letra "a" indica as maiores médias obtidas.

Topo da Página

Parte do ramo mais indicada para a formação das mudas por estaquia

Resultados de experimentos que testaram o efeito das diferentes porções dos ramos na formação de mudas por estacas mostraram uma superioridade no índice de pegamento dos terços basais de ramos de G. sepium em relação às porções médias e superiores (MATOS et al., 2004a). Aos 180 dias após o plantio, a porcentagem de sobrevivência do terço basal foi de 100%, do médio de 80% e do superior 75%. O comprimento médio e total das brotações das estacas de terços basais foram maiores que as demais (Figura 6), demonstrando que o maior diâmetro confere maior reserva e brotos mais vigorosos. Portanto, a escolha das porções basais dos ramos é determinante no pegamento de estacas desta espécie. DUGUMA (1988) e CARVALHO FILHO et al. (1997), também observaram que estacas provenientes da base apresentam melhor índice de estabelecimento em relação às medianas e terminais. Lozano citado por BAGGIO & HEUVELDOP (1982), observou melhores resultados usando estacas de 6 a 12 cm em comparação às de 3 a 6 cm de diâmetro.

Fonte: MATOS et al., 2004a

Figura 6. Efeito dos terços (inferior/basal, médio e superior) no comprimento médio (CMB) e total (CTB) das brotações de gliricídia.

O uso das porções basais é preferencial, mas isto não impede que os ramos provenientes de outras porções sejam utilizados como estacas, pois estes apresentam índices satisfatórios de pegamento e sobrevivência, constituindo uma das grandes vantagens da espécie para o uso como moirão vivo.

Topo da Página

Época indicada para o corte das estacas na formação das mudas

BAGGIO & HEUVELDOP (1982) relataram que agricultores da Costa Rica preferem cortar as estacas no período de verão, pois acreditam que o estado fisiológico das árvores, principalmente no final do verão (período seco), que pode ser comparado com o inverno no Brasil, quando já perderam as folhas e apresentam frutos maduros, é fator decisivo para um melhor enraizamento no campo. A grande maioria dos agricultores estudados pelos autores, considera que cortando as estacas na lua minguante se evita a perda de seiva através da superfície de corte, ao contrário, se a operação é executada em lua crescente, a seiva é puxada para fora, debilitando as estacas e reduzindo drasticamente o índice de pegamento no campo. Experimentos conduzidos na Embrapa Agrobiologia mostraram melhor rebrota e estabelecimento das plantas quando as estacas foram colhidas e plantadas no mês de julho, antes do início da floração (FRANCO, 1988).

Topo da Página

Plantio das estacas para produção de mudas

O plantio deve ser feito imediatamente após o corte da estaca, pois quanto maior o tempo decorrido do corte até o plantio, menor será a porcentagem de estabelecimento. As estacas não devem sofrer nenhum tipo de injúria durante o seu manuseio, para evitar a formação de necroses (morte de tecidos), onde não há circulação de seiva, inviabilizando as gemas. Caso não seja possível o plantio imediato, as estacas devem ser armazenadas em local fresco e ventilado, abrigado do sol. Segundo BAGGIO & HEUVELDOP (1982), 15% de uma população amostrada de agricultores, entrevistados em um trabalho realizado na Costa Rica, têm por hábito, deixar as estacas deitadas no solo, por um ou dois dias, e depois, em posição vertical com o ápice para cima, sem enterrar no solo. A justificativa é que deixando na horizontal, a perda de seiva é menor até a cicatrização do corte. O fato de posteriormente deixar as estacas em pé visa prolongar o período de viabilidade para plantio, em função da diminuição da superfície de contato com o solo, e manter o fluxo de auxinas da parte superior para a basal. Contudo, é indicado que as estacas sejam plantadas num intervalo inferior a 10 dias após o seu corte.

As estacas devem apresentar um comprimento médio de 1,00 a 1,50 m e diâmetro mínimo de 4 a 5 cm. O tipo de corte que condiciona a forma da base e do ápice das estacas é um detalhe observado com muito cuidado por ocasião da preparação para plantio, predominando o corte em forma de bisel para o ápice e cunha para a base da estaca. O primeiro é para evitar acúmulo de água e consequentemente a podridão a partir da ponta, e o segundo, propicia uma maior superfície de enraizamento. Em algumas regiões se utilizam a parafina, cera, vaselina, barro ou um plástico no ápice da estaca para reduzir a evaporação ao mínimo e evitar o apodrecimento causado pelo acúmulo de água. Para o enraizamento utiliza-se recipientes suficientemente grandes para manter a estaca ereta ou pode-se optar pelo plantio direto no campo (Figura 7).

Foto: Laudiceio Viana Matos

Figura 7. Produção de mudas de gliricídia a partir de estacas no viveiro da Embrapa Agrobiologia, Seropédica, RJ.


Plantio das mudas produzidas através de sementes e de estacas no campo Topo da Página

Escolha da área
Nutrição e adubação
Abertura das covas e plantio

Topo da Página

Escolha da área

A gliricídia não tolera solos com drenagem deficiente, onde ocorre encharcamento durante algum período do ano. Em Honduras, a espécie é citada como tolerante a solos de pouca profundidade e textura arenosa (NATIONAL ACADEMY OF SCIENCES, 1980). No Brasil apresenta desenvolvimento satisfatório em solos arenosos ou argilosos, mesmo ácidos ou de baixa fertilidade, desde que se adicione calcário como fonte de cálcio e magnésio e adubos fontes de fósforo e potássio. A área a ser escolhida para plantio deve atender às limitações da espécie, sendo o estabelecimento e melhor desenvolvimento, compatíveis com as condições físicas, químicas e biológicas do solo (Figura 8).

Foto: Laudiceio Viana Matos

Figura 8. Área de produção de estacas de gliricídia propagado por sementes no Campo Experimental da Embrapa Agrobiologia, Seropédica, RJ.

Topo da Página

Nutrição e adubação

Em solos de baixa fertilidade, a gliricídia apresenta boa resposta à adubação. Esta deve ser realizada de acordo com os resultados das análises de solo, mas em solos com reduzida fertilidade natural é sempre recomendável, antes do plantio, a aplicação de uma fonte de fosfato de baixa solubilidade e também de micronutrientes. Onde a aplicação do conhecimento sobre os processos ecológicos contribui para a manutenção da estrutura e função do ecossistema do solo ao longo do tempo (GLIESSMAN, 2001; ALTIERI, 2002).

No campo experimental da Embrapa Agrobiologia, em um Planossolo de baixa fertilidade aplicou-se 100 g de fosfato de rocha (fósforo) e 10 g de FTE (fonte de micronutrientes) na cova, sendo realizada a aplicação de calcário e potássio somente quando as análises químicas do solo o indicarem. A inoculação com rizóbio específico substitui a adubação inicial de nitrogênio e ainda garante o fornecimento deste nutriente enquanto as condições de crescimento para as plantas forem favoráveis.

No plantio das estacas no campo deve-se evitar o contato direto do adubo com a estaca porque pode causar desidratação (perda de água da estaca para a porção adubada do solo como conseqüência do efeito da osmose) e até morte da planta. Para um maior índice de pegamento, recomenda-se o plantio da estaca sem aplicação de fertilizantes, adubando-se posteriormente, após o enraizamento da mesma.

Topo da Página

Abertura das covas e plantio

O plantio é feito em covas, e de acordo com o tipo de solo, as suas dimensões variam. Para solos adensados devem ser maiores (30 cm x 30 cm x 30 cm). Solos aerados e de boa textura não demandam covas muito grandes, só o suficiente para cobrir a porção basal das estacas a uma altura aproximada de 20 a 30 cm. Covas mais rasas possibilitam o tombamento das árvores jovens pelo vento, e profundidades maiores dificultam o enraizamento. Outra prática importante, é a compressão da terra ao redor da estaca para propiciar o seu pegamento. O espaçamento de plantio no campo (ou transplantio das mudas) pode ser 2 m x 2 m ou 3 m x 2 m, variando de acordo com as condições de solo, relevo, consórcio e finalidade do banco.

Manejo das matrizes Topo da Página

Influência do diâmetro da matriz na produção de estacas
Tempo necessário à produção de estacas com porte ideal para uso como moirão vivo
Produtividade por planta

Avaliando a brotação de mudas formadas por estacas de 1,20 m, MATOS et al. (2004a), relataram que as brotações iniciaram entre 40 e 70 DAPP (dias após o plantio). Aos 60 DAPP mais da metade das estacas já haviam brotado, chegando a totalidade aos 130 DAPP. Com 160 DAPP, as brotações apresentavam um comprimento médio de 64 cm, e uma média de 3 a 4 brotos por estaca.

Na Nicarágua, um experimento conduzido em Vertissolo, por 26 meses, foi observada uma taxa de sobrevivência de 79% com 3,3 cm de diâmetro a altura do peito e 3,2 m de altura (CHAN & BAUER, 1985). Em Sergipe, aos 4,6 anos após o plantio, a planta apresentava uma altura que variou de 3,6 a 4,4 metros e um diâmetro entre de 3,9 a 4,9 cm (DRUMOND et al., 1999). Na Costa Rica, a espécie apresentou um crescimento diamétrico de 7,6 cm, com altura média de 7,3 m, aos 3,1 anos de idade, no espaçamento de 2 m x 2 m (MARTINEZ, 1959). No Rio de Janeiro, aos 2,2 anos após o plantio, a gliricídia apresentou 5 cm de diâmetro à altura do peito e 4 a 5 m de altura, no espaçamento de 3 m x 2 m.

Devido ao rápido crescimento das plantas, há necessidade de tutoramento das mudas produzidas por sementes quando implantadas no campo. Esse procedimento evita o tombamento provocado pelo vento e propicia a formação de estacas eretas, mais apropriadas para a instalação das cercas ecológicas.

Topo da Página

Influência do diâmetro da matriz na produção de estacas

Avaliando-se a influência do diâmetro da matriz na formação de estacas para uso como moirão vivo, MATOS et al. (2004b) observaram que quanto maior o diâmetro da matriz, maior sua capacidade de produzir estacas de maior diâmetro (Tabela 2), resultados semelhantes aos observados por MARADEI (2000).

Com relação ao número de estacas produzidas por matriz, as classes de maior diâmetro (III e II - semelhantes estatisticamente, com diâmetros de 19 a 25 cm e 13 a 19 cm, respectivamente) mantiveram uma superioridade em relação a classe I, com diâmetros entre 7 a 13 cm (Tabela 2) (MATOS et al., 2004b).

Tabela 2 - . Apresentação da estatística descritiva do crescimento e número de estacas de Gliricidia sepium em função do diâmetro das matrizes, Seropédica, RJ.

Estatística

Diâmetro (cm)

Comprimento (m)

No de estacas/matriz

Descritiva

Classes

I

II

III

I

II

III

I

II

III

Média

3,53 c

4,07 b

4,83 a

3,58 a

3,83 a

3,96 a

3,10 b

4,60 a

5,71 a

Erro padrão

± 0,13

± 0,13

± 0,18

± 0,16

± 0,13

± 0,16

± 0,23

± 0,31

± 0,79

Menor medição

2,58

3,03

4,23

2,50

3,25

2,89

1,00

2,00

2,00

Maior medição

4,56

5,59

6,64

5,07

5,08

4,85

5,00

7,00

11,00

CV (%)

10,55

16,84

29,33

* Comprimento total dos brotos é igual ao número de brotações multiplicados pelo comprimento médio das mesmas dentro de cada tratamento.

Fonte: Matos et al.(2004b).

Topo da Página

Tempo necessário à produção de estacas com porte ideal para uso como moirão vivo

A partir do segundo ano após o plantio, as matrizes já começam a produzir as estacas. Nesse estádio normalmente se faz uma poda drástica retirando-se as estacas, e preparando a matriz para a formação de novas estacas. A produção em matrizes propagadas por sementes só acontece de forma expressiva a partir de 3 a 5 anos. Nas condições do estado do Rio de Janeiro, as brotações atingem tamanho e espessura desejáveis para uso como moirões vivos, em torno de 1,5 anos após a poda de plantas com pelo menos 2 anos de idade, representando no total, um período mínimo de 3,5 anos.

Topo da Página

Produtividade por planta

Com base na idade, diâmetro e no desenvolvimento da matriz determina-se o número de ramificações a serem deixadas para a formação das estacas (Figura 9). Na primeira produção de um banco, é recomendado manejar as plantas reduzindo o número de brotações. Nas condições do Estado do Rio de Janeiro, a manutenção de mais de 6 ramificações por matriz, nesta fase, limita a produção das estacas. Visto que a planta ainda não tem capacidade fisiológica para atender tantos drenos (brotos), com isso, as ramificações ficam finas e muitas vezes acabam secando (MATOS et al., 2003).

Foto: Laudiceio Viana Matos

Figura 9. Desbrota das matrizes de gliricídia para favorecer a formação das estacas de qualidade e no menor tempo possível. Campo Experimental da Embrapa Agrobiologia, Seropédica, RJ.

MATOS et al. (2004b), avaliando o desempenho de 60 matrizes plantadas há 20 anos, verificaram que após 24 meses da realização de uma poda drástica, houve a produção de 269 estacas, uma média de 4,48 por matriz. Deste total, todas já apresentavam comprimento superior ao mínimo desejável de 2,5 metros e apenas 69 (26%) apresentavam diâmetro maior ou igual a 5 cm. No entanto, considerando um diâmetro maior ou igual a 4 cm, o número de estacas produzidas eleva-se para 145 (54%), possibilitando um rendimento de produção de estacas duas vezes maior (Tabela 3).

Este resultado possibilita a produção de mais de 6.000 estacas por hectare, suficiente para a implantação de uma cerca de 12 km (espaçamento de 2 m entre moirões), contra 6 km de cerca, quando considera-se somente estacas acima de 5 cm (MATOS et al., 2004b). Nesse sentido, o agricultor deve avaliar a melhor relação custo x benefício. Caso não tenha uma alta demanda por novas estacas, o agricultor poderá mantê-las por mais tempo na matriz, caso contrário, executa o plantio com estacas de menores diâmetros, sem perda na qualidade final da cerca.

Tabela 3 - Estimativa de produção de estacas de Gliricidia sepium em uma área produtora implantada a 20 anos, Seropédica, RJ.

Área

No de

No de estacas produzidas

matrizes*

diâmetro > 4 cm

diâmetro > 5 cm

Total*

240 m2

60

145

69

269

1 ha (estimativa)

2.500

6.041

2.875

11.208

% estacas

54

26

100

* No total estão incluídas todas as estacas produzidas, inclusive as que apresentaram diâmetro inferior a 4 cm.

** Esta produtividade foi obtida em 24 meses (2 anos) após a poda drástica das matrizes. O espaçamento utilizado foi de 2 m x 2 m.

Fonte: Matos et al.(2004a).

O número de brotações mantidas por matriz interfere significativamente na produção de estacas para uso como moirões vivos (Figura 10). Em matrizes com 32 meses, o maior crescimento foi obtido nas plantas com menor número de estacas (2). O aumento do número de estacas por planta acarretou em menor crescimento, no entanto, com adubação não houve diferença entre plantas com 2 ou 4 estacas. Vale ressaltar que novas estacas podem também ser produzidas a partir de cercas já existentes.

Foto: Laudiceio Viana Matos

Figura 10. Produção de estacas de gliricídia após uma poda drástica a 17 meses em matriz estabelecida a mais de 20 anos, Seropédica, RJ.

Topo da Página

Controle de pragas e doenças

Na fase de viveiro, a gliricídia não demanda tratamentos especiais, deve-se apenas cuidar para que as mudas não sejam atacadas por formigas cortadeiras e grilos.

Não têm sido relatados grandes problemas com pragas e doenças para esta espécie no Brasil. No Rio de Janeiro, a folhagem é atacada freqüentemente por pulgões (Aphis craccivora - ordem Hemiptera e família Aphididae), que segregam substâncias adocicadas propícias para o desenvolvimento de fungos e formigas, provocando o secamento do ápice das plantas e suas ramificações. Perdendo a dominância apical, as plantas emitem muitas brotações dificultando a formação de estacas eretas, e ainda ficam com o comprimento reduzido. Este ataque ocorre com mais freqüência entre os meses de dezembro e fevereiro (período chuvoso), quando as plantas apresentam muitas brotações novas. O controle pode ser realizado com o uso de calda bordalesa ou sulfocálcica, com pulverizações a cada 15 dias. Porém, na maioria dos casos, a infestação se encerra sem a necessidade de aplicação de defensivos.





Todos os direitos reservados, conforme Lei n° 9.610. Topo da Página