Embrapa Clima Temperado
Sistemas de Produção, 5
ISSN 1806-9207 Versão Eletrônica
Nov./2005

Sistema de Produção do Morango

Antônio Roberto Marchese de Medeiros
Alverides Machado dos Santos

Sumário
Início
 
Produção de mudas
Características básicas das principais cultivares de morango plantadas no Brasil
Implantação da cultura
Práticas culturais
Nutrição, calagem e adubação
Doenças do morangueiro
Pragas do morangueiro
Nematóides fitoparasistas do morangueiro
Cultivo protegido
Irrigação e fertirrigação
Meio ambiente e segurança alimentar
Colheita e pós-colheita
Seleção e classificação
Conservação de morango para a elaboração de produtos industrializados 
Coeficientes técnicos para a cultura do morangueiro
Referências
Autores
 
Expediente 
Práticas culturais

É fundamental o acompanhamento sistemático da lavoura, para que sejam adotados os procedimentos, nas ocasiões adequadas.

Entre as práticas culturais usuais, destacam-se a cobertura do solo, colocação e manejo do túnel plástico, retirada de restos culturais e limpeza da lavoura, as quais passam a ser comentadas a seguir.

Cobertura do solo: É executada visando, principalmente, evitar o contato do fruto com o solo, de modo a colher um fruto livre de impurezas, que depreciam a qualidade e podem reduzir o período de conservação pós-colheita. Essa prática também influencia na manutenção da temperatura do solo, atuando como termorregulador. A cobertura evita a compactação do solo que ocorre pela ação das gotas d'água de irrigação (quando é usado um sistema por aspersão) ou da chuva. A cobertura do solo tem ainda ação sobre as plantas invasoras, dispensando as capinas manuais que causam danos às raízes superficiais do morangueiro, as quais são responsáveis pela absorção de água e nutrientes.

O material mais utilizado na cobertura do solo é o plástico preto com espessura de 30 micras. Este tipo de cobertura apresenta algumas vantagens sobre as demais:

Cria um ambiente com baixa umidade relativa, diminuindo a incidência de fungos, especialmente aqueles que ocasionam podridões de frutos.

  • O índice de descarte de frutos é menor do que nas demais coberturas.
  • Estimula a produção precoce de frutos.
  • A mão-de-obra de transporte e colocação é menor do que para outras opções de cobertura.
  • As desvantagens do uso do plástico são:
  • Maior custo.
  • Estimula o desenvolvimento de ácaros, devido à formação de microclima seco.
Autor: Luis Eduardo Corrêa Antunes
Fig. 1. Colocação da cobertura plástica

Outros produtos utilizados para a cobertura do solo são: palha de arroz, trigo, centeio, cevada, folhas de árvores, serragem, biruta ou maravalha de madeira, colmos picados de milho, sorgo, milheto, cana-de-açúcar, bagaço de cana-de-açúcar, etc. ou ainda, resíduos de roçadas em geral.

A cobertura do solo com resíduos vegetais deve ser disposta em camada de espessura suficiente para que os raios solares não penetrem, de forma a inibir a germinação das sementes das plantas invasoras existentes no solo e da própria espécie que está sendo usada como cobertura morta. A cobertura com acícula de Pinus é rica em compostos fenólicos, o que confere a esta espécie os efeitos alelopáticos responsáveis pela inibição das sementes das espécies invasoras, sem prejuízos à cultura do morangueiro (Fig. 2).

Entre a vantagens da utilização da cobertura com resíduos vegetais destacam-se:

  • Menor ataque de ácaros, em razão do microclima úmido abaixo das folhas.
  • Menor custo quando o resíduo for produzido no próprio estabelecimento.
  • Enriquecimento do teor de matéria orgânica do solo, com a incorporação da cobertura morta, após a colheita.

Como desvantagens, têm-se:

  • Maior ataque de podridões dos frutos.
  • Maior descarte de frutos.
  • Produção precoce muito reduzida.
  • Frutos com coloração desuniforme (barriga branca).
  • Frutos com resíduo da cobertura de solo (foto abaixo).
  • Custo elevado para controle de invasoras.
Autor: Alvares dos Santos
Fig. 2. Mulching de resíduo vegetal.

Quanto ao uso de serragem, biruta ou maravalhas de madeiras, estas devem ser usadas secas, para evitar alguns tipos de resina que possam prejudicar o desenvolvimento das mudas.

A época de colocação da cobertura do solo é de 30 a 40 dias após o transplante, quando a muda já está estabelecida. Antes da colocação da cobertura, é aconselhável fazer uma escarificação do solo, quebrando a crosta formada pelas gotas da chuva ou da irrigação por aspersão. Esta operação poderá ser feita com enxada ou escarificador manual, construído com pregos sobre um cilindro de madeira(foto abaixo). Nesta operação é incorporada a primeira adubação nitrogenada.

Colocação do túnel de plástico: estando o solo coberto com plástico preto, é colocado o túnel baixo com plástico transparente aditivado, para a proteção do morangal. A estrutura usada para proteção do túnel, é feita com arcos de arame galvanizado nº 6. A altura mínima do túnel, na parte central, é de 60 cm, e o espaçamento entre os arcos é de 1,20 a 1,50 m.

A parte superior dos arcos deve estar amparada por uma estaca, para suportar a tensão dos ventos. Sobre esta estrutura, é estendido um filme plástico aditivado, com 2,20 m de largura e espessura de 100 ou 150 m. Para evitar o movimento drástico do plástico pelo vento, nas extremidades são colocadas estacas, com inclinação de aproximadamente 45º, sendo enterrados 50 a 60 cm, mantendo-se apenas 20 cm acima do nível do solo, onde as pontas do filme plástico são atadas com uma corda bem esticada. Para evitar os danos provocados pela movimentação do filme pelo vento, os arcos devem ser fixados de uma das seguintes maneiras:

Autor: Jaime Duarte Filho
Fig. 3. Colocação dos túneis.

Autor: Jaime Duarte Filho
Fig. 4. Manejo do tunel.

Manejo do túnel baixo ou casa de plástico: para se obter os resultados descritos anteriormente, é imprescindível que se tenha um bom manejo do túnel. Nesta operação, as ações básicas são:

  • Pela manhã, logo após a evaporação do orvalho, o túnel deve ser aberto (levantamento da saia) até a altura de 40 a 50 cm, de forma que todo o excesso de umidade seja eliminado. A abertura do túnel sempre se dá do lado oposto ao vento predominante, evitando que o plástico seja danificado pela ação do mesmo (Fig. ). No final da tarde, o túnel deve ser fechado para que o sereno não molhe as folhas.
  • Em dias de chuva ou neblina, o túnel deve permanecer fechado, sendo aberto apenas com a presença do sol.
  • Não irrigar em demasia, porque com o solo encharcado há uma grande evaporação, saturando o ambiente no interior do túnel, transformando-o em câmara úmida, ideal para o desenvolvimento de doenças.
    Um túnel mal manejado transforma todas as possíveis vantagens em problemas sérios para o cultivo do morangueiro, causando prejuízos equivalentes aos de sua ausência.

Na casa plástica, em razão do volume de ar ser maior, o manejo é facilitado, podendo permanecer abertas as cortinas laterais, mesmo em dias de chuva, desde que não ocorra molhamento de folhas pela chuva ou pela neblina muito forte, tocadas pelo vento.

Deve-se proporcionar o maior índice de ventilação possível, sem prejudicar o estado fitossanitário das plantas.

Autor: Alverides Machado dos Santos
Fig. 5. Casa plástica.

Retirada das folhas, pedúnculos, flores e frutos atacados por doenças: uma das formas mais eficientes de manejo fitossanitário da lavoura de morangueiro, sem prejuízo à saúde do produtor e do consumidor, é manter o nível de inóculo das doenças o mais baixo possível, sem o uso de agroquímicos. Isto só se torna possível por meio de uma inspeção sistemática na lavoura, retirando-se todas as folhas, pedúnculos secos de frutos já colhidos, flores não polinizadas e frutos atacados por agentes causadores de doenças. Esta prática mostra-se muito eficiente e o custo econômico e social é bastante significativo. O produtor deve repeti-la semanalmente e, quando as doenças persistirem, com tendências a se agravarem, lança-se mão dos agroquímicos, com orientação de um profissional de agronomia. É importante usar produtos registrados para a cultura do morangueiro e observar o período de carência.

Cobertura dos passeios: em regiões onde, na época da colheita, há grandes precipitações pluviais, ou mesmo em locais onde a precipitação é baixa, mas o sistema de irrigação é por aspersão, há um acúmulo de água nos caminhos e, em virtude do grande trânsito de pessoas, forma-se barro, dificultando a circulação, com freqüência sujando as cumbucas e cestos de colheita. Para evitar estes transtornos, é aconselhável cobrir os caminhos com palha, resíduo de casca de acácia-negra (usada para a extração do tanino), cana de milho picada, folhas de árvores, etc.

Autor: Alverides Machado dos Santos
Fig. 6. Cobertura dos passeios.

Limpeza da lavoura: a lavoura de morangueiro se desenvolve muito bem na ausência de plantas invasoras, o que evita ou minimiza a concorrência por água e fertilidade e a proliferação de pragas e doenças comuns no morangueiro.

A ausência de plantas invasoras não se restringe à área de cultivo, considerando-se também o contorno da lavoura e o acesso a ela. Uma das medidas de controle do ácaro-do-morangueiro, que tem mostrado grande eficiência, é a manutenção de uma faixa de 5 m de largura, totalmente limpa, em todo o contorno da lavoura e ao acesso (a faixa serve como barreira ao ácaro, devido à baixa capacidade de locomoção). As demais práticas culturais (adubação, irrigação, doenças, pragas e colheita), devido à importância de cada uma são tratadas em capítulos específicos.

 

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