Embrapa Clima Temperado
Sistemas de Produção, 5
ISSN 1806-9207 Versão Eletrônica
Nov./2005

Sistema de Produção do Morango

Cesar Bauer Gomes
Elis Teresinha Cofcewicz

Sumário
Início
 
Produção de mudas
Características básicas das principais cultivares de morango plantadas no Brasil
Implantação da cultura
Práticas culturais
Nutrição, calagem e adubação
Doenças do morangueiro
Pragas do morangueiro
Nematóides fitoparasistas do morangueiro
Cultivo protegido
Irrigação e fertirrigação
Meio ambiente e segurança alimentar
Colheita e pós-colheita
Seleção e classificação
Conservação de morango para a elaboração de produtos industrializados 
Coeficientes técnicos para a cultura do morangueiro
Referências
Autores
 
Expediente 
Nematóides fitoparasitas do morangueiro

Dentre as diversas doenças que afetam a cultura do morangueiro, as causadas por nematóides constituem-se um fator limitante para a produtividade. Este organismo fitoparasita podem ser endoparasita ou ectoparasita. Os fitonematóides endoparasitas infectam as raízes, movimentam-se através dos tecidos até a região do cilindro central, estabelecendo um sítio de alimentação onde permanecem por toda vida, ou desenvolvem-se locomovendo-se livremente no interior dos tecidos até o final de seu ciclo, diminuindo o volume de seiva à planta que garantiria a boa produção de frutos. Outros, são ectoparasitas e obtêm o seu alimento na superfície das raízes. Entre os fitonematóides mais comumente associados a cultura do morango, citam-se: Meloidogyne hapla, Meloidogyne javanica, Meloidogyne incognita, Pratylenchus vulnus, Pratylenchus penetrans, Aphelenchoides besseyi, Aphelenchoides ritzemabosi, Aphelenchoides fragariae, Longidorus elongatus, Ditylenchus dipsaci, Xiphinema spp., Helicotylenchus dihystera. De todos estes, somente três são considerados de maior importância no Brasil: A. besseyi, A. fragariae e M. hapla.

Nematóides parasitas de folhas

Aphelenchoides besseyi

A. besseyi tem sido problema na Austrália, reduzindo aproximadamente 50% da produção de morangos. No Brasil, A. besseyi pode ser encontrado parasitando arroz e morango. Embora sua presença tenha sido constatada em 1969, no Rio Grande do Sul, e posteriormente relatada em vários outros estados: (São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal, Minas Gerais, Santa Catarina e Espírito Santo) não se dispõe de informações sobre o volume de danos provocados.

Os sintomas característicos estão nas folhas procedentes de brotos infestados. Elas não se desenvolvem, apresentando-se pequenas, estreitas, deformadas e de coloração verde-escura (Figura 1). A planta apresenta-se enfezada, com produção de frutos mínima ou nula. A. besseyi vive como ectoparasita das folhas, e brotos, proliferando intensamente nos períodos de temperatura elevada, decrescendo a população nos períodos frios. Eles depositam seus ovos na superfície das axilas das folhas e flores. Esta espécie completa seu ciclo de vida em 24 ± 4 dias a 16oC e somente 8 ± 2 dias a 30 oC. Entretanto, aqueles nematóides presentes nas folhas e hastes geralmente resistem ao ressecamento, podendo sobreviver por vários anos em anidrobiose (dormência). Após o período de colheita e arranquio das plantas, este nematóide continua sobrevivendo como parasita de outras plantas hospedeiras ou alimentando-se de fungos do solo.

A disseminação deste nematóide na cultura do morango ocorre por meio de mudas obtidas dos estolões da planta-mãe, com raiz nua ou torrão A irrigação por gotejamento é uma prática importante para manter o controle da umidade relativa no interior dos ambientes protegidos (túneis e estufas), pois se os morangueiros estiverem molhados, os nematóides se movimentam pela sua superfície, podendo passar para as plantas vizinhas, através do contato das folhas.
Fig. 1. Ciclo de vida de Aphelenchoides besseyi em morangueiro.

Aphelenchoides fragariae

O nematóide A. fragariae constitui nos EUA um importante patógeno na cultura do morangueiro. Na Polônia, representa sério problema para a cultura, havendo registros na redução da produção entre 31 e 62%. A ocorrência desta espécie em morangueiro é recente no Brasil, sendo relatada pela primeira vez na região do Vale do Rio Caí - RS, em 1996.

Este nematóide alimenta-se como ectoparasita na coroa e nos tecidos externos dos brotos em desenvolvimento, podendo causar a morte destes. Ocasionalmente, pode ser encontrado dentro do tecido da folha e na polpa dos frutos. Plantas atacadas apresentam crescimento lento, porte reduzido, encurtamento dos entrenós, deformações de botões e flores, produção de frutos em menor tamanho e número, deformação das folhas centrais e morte da coroa. Folhas de morangueiros infectados por A. fragariae ficam quebradiças e com tamanho reduzido. Também pode ser notado na superfície das folhas atacadas, regiões prateadas, sintoma muitas vezes confundido com danos causados por produtos químicos. Em casos de infecções severas, o nematóide pode provocar o morte da planta.

Similarmente à A. besseyi, este patógeno vive nas regiões de crescimento dos brotos e de folhas, ou nas axilas das folhas, podendo também sobreviver em estado de dormência por um curto período. Locomovem-se de uma folha para outra através de gotas da chuva, filme de água, orvalho ou alta umidade. Penetra nas folhas através dos estômatos, quando a superfície é coberta por um filme de água livre. O seu ciclo é curto. O ciclo de vida em begônia é completado entre 10 e 11 dias, a 18oC. A principal forma de disseminação deste organismo é através de mudas cotaminadas; entretanto, A. besseyi pode movimentar-se de uma planta para outra em dias de chuva, quando as folhas estiverem molhadas.

Como A. besseyi e A. fragariae não formam galhas no sistema radicular, sua identificação em nível de campo, pelo próprio produtor, é mais difícil. Portanto a sua ocorrência e ou diagnose da doença precisa ser investigada por meio de análise de solo e raízes, em laboratório especializado.

Nematóides-das-galhas

Meloidogyne spp.

Inúmeras espécies de Meloidogyne já foram descritas em morangueiro. Embora em alguns países tenha sido constatada a presença de M. incognita e M. javanica, no Brasil é encontrado somente M. hapla. Trata-se de uma espécie que só ocorre em temperaturas muito baixas, sendo rara na região Sudeste do País.

Os sintomas na parte aérea incluem: redução no crescimento, amarelecimento e murcha temporária das folhas, culminando com baixa produção. Plantas novas ou recém transplantadas morrem prematuramente. As plantas infectadas não respondem à adubação, pela falta de raízes sadias para a absorção dos nutrientes. É possível visualizar pequenas galhas nas raízes (figura 2), das quais partem inúmeras raízes laterais, resultando num sistema radicular muito denso.

Fig. 2. Ciclo de vida de Meloidogyne hapla em morangueiro.

Os nematóides-das-galhas se alimentam das plantas como endoparasitas sedentários, pemanecendo no interior da raiz até o final do seu ciclo de vida. Inicialmente, juvenis de segundo estádio (J2) eclodem dos ovos, infectam as raízes do morangueiro, movimentam-se no solo e penetram nas raízes novas (Figura 2), iniciando o processo de alimentação nas células do hospedeiro até o estádio adulto. Os machos migram das raízes e as fêmeas, sedentárias, tornam-se globosas, produzindo cerca de 500 ovos, que são depositados numa matriz gelatinosa externamente às raízes, de onde eclodem os J2, que reinfestam o sistema radicular. No período de verão, Meloidogyne spp. completa seu ciclo em 28 dias. No inverno, nas regiões Sul e Sudeste, o ciclo de vida pode completar-se em até 70 dias. Sua disseminação ocorre por meio de solo infestado, implementos agrícolas, animais, vento e, principalmente, mudas produzidas em solo infestado ou retiradas de estolões infectados.

Após o cultivo, os nematóides permanecem no solo parasitando os morangueiros remanescentes ou plantas daninhas hospedeiras. Apesar de ser possível visualizar a presença de galhas no sistema radicular, é muito importante conhecer a espécie para efetuar o controle. Assim, recomenda-se a análise de solo e raízes do local, por laboratório especializado.

Medidas de controle

Plantio de mudas isentas de fitonematóides

O plantio de mudas sadias se constitui na medida preventiva de maior importância na estratégia de controle de nematóides na cultura do morangueiro. A formação de mudas deve ser realizada em canteiros (sementeira), previamente esterilizado com 150 ml de brometo de metila/m3 solo, em solo solarizado ou utilizando substrato estéril.

Rotação de culturas

Em áreas infestadas com o nematóide-das-galhas, recomenda-se o plantio de culturas não hospedeiras para reduzir as populações no solo. No caso de M. hapla, é recomendada a rotação com: aveia (Avena sativa), crotalária (Crotalaria spectabilis), algodão (Gossypium hirsutum), quiabo (Hibiscus esculentus), trigo (Triticum aestivum) e milho (Zea mays). Para A . bessyi e A. fragariae a rotação de cultura com espécies não hospedeiras é pouco eficiente, pois na ausência de seu hospedeiro, os nematóides podem sobreviver alimentando-se de fungos presentes no solo, ou permanecendo em anidrobiose.

Uso de nematicidas

Os nematicidas podem ser empregados para fumigação do solo em pré-plantio (Tabela 1). A aplicação de nematicidas granulados é realizada no sulco de plantio, e protege as raízes até uma profundidade de 20-30 cm, por aproximadamente 80 dias. Após este período, ocorre a reinfestação do solo e as raízes do morangueiro são infectadas.

Tabela 1. Nematicidas registrados no Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, para o controle de nematóides, em pré-plantio, no cultivo do morangueiro.

Grupo

Nome Comum
Nome comercial
Hidrocarboneto
halogenado alifático brometano
Brometo de Metila
Bromex, Bromo Fersol, Bromo Flora
Ditiocarbamato
Metam Sódio
Bunema 300 S

 

 

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