Embrapa Pecuária Sul
Sistema de Produção, 2
ISSN 1679-3641 Versão Eletrônica
Agosto/2008
Sistema de Criação de Ovinos nos Ambientes Ecológicos do Sul do Rio Grande Do Sul
Carlos Otávio Costa Moraes

Sumário

Apresentação
Introdução
Importância sócio-econômica
Aspectos agro e zooecológicos
Descrição do ecossistema
Raças
Instalações
Alimentação
Reprodução
Manejo produtivo
Saúde
Preparo para o mercado
Mercado e comercialização
Coeficientes técnicos
Referências

Expediente

Reprodução

A baixa eficiência reprodutiva nos ovinos decorre de como os genótipos disponíveis, na sua maior parte de duplo propósito (produção de carne e lã), produzem nos sistemas de criação extensivos praticados no sul do Rio Grande do Sul. A situação ainda hoje é caracterizada por alta mortalidade (embrionária, peri-natal e até o primeiro ano de vida) devida a diferentes causas e por baixa natalidade, oriundas de baixas taxas de prenhez e prolificidade. Considerando a população de ovinos criados na região e a atual orientação para a produção de carne, torna-se muito importante aumentar a taxa de cordeiros desmamados para comercialização. O objetivo deste tópico é condensar algumas informações locais disponíveis sobre fatores que determinam infertilidade nos ovinos, visando contribuir na busca de soluções para problemas de baixa fertilidade detectados nos sistemas de criação de ovinos praticados na região.


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Aspectos relacionados com a infertilidade na ovelha

Idade

A idade das ovelhas ao acasalamento é um aspecto importante a ser considerado dentro de um sistema de produção, já que a taxa de cordeiros nascidos e desmamados das borregas sempre é inferior à das demais categorias de idade, até 6 anos. A eficiência reprodutiva das borregas está intimamente ligada às condições físicas (peso corporal) com que as borregas são acasaladas pela primeira vez.

Existem evidências para as raças mistas criadas sob condições extensivas de criação no sul do Rio Grande do Sul, que o primeiro acasalamento pode ser procedido aos 18-19 meses de idade. De um modo geral, a performance reprodutiva total dos animais acasalados nesta idade é superior, indicando que o estímulo da prenhez e lactação determina melhor performance reprodutiva futura em comparação quando o acasalamento é procedido aos 3032 meses de idade. Na atual configuração da ovinocultura, os cordeiros adicionais oriundos de antecipação na idade de acasalamento devem compensar perdas na lã produzida (Oliveira et al, 1995).

Adicionalmente, nos novos sistemas de produção mais intensivos, voltados para a produção de carne, o primeiro acasalamento das borregas deverá ocorrer ainda mais precocemente (7-9 meses), portanto, transferindo para esta idade o ponto de estrangulamento da fertilidade com respeito à idade.

A estrutura de idade do rebanho também afeta a eficiência reprodutiva, os grupos de idade extremas (2 anos e >6 anos) apresentam maiores taxas de mortalidade de cordeiros. A sugestão para uma melhor composição etária dos rebanhos consiste na manutenção das ovelhas até o sexto ano e, para melhorar a taxa de desmame, as fêmeas mais jovens e mais velhas devem ter prioridade em termos de alimentação e cuidados no peri-parto (Oliveira & Moraes, 1991; Oliveira et al, 1995).

Peso corporal ao acasalamento

Qual o peso corporal ideal das borregas ao acasalamento? Este aspecto é fundamental, porque o desempenho reprodutivo futuro das borregas depende das condições de criação e das condições físicas delas no momento do acasalamento. Um exemplo da relação entre o peso corporal de borregas, acasaladas pela primeira vez aos 18-19 meses de idade, e indicadores de fertilidade na raça Corriedale, foi apresentado por Oliveira et al. (1993). O peso médio observado foi em torno de 35 kg (oscilando entre 26 e 44 kg). O incremento dos indicadores de fertilidade com relação ao peso das borregas ao primeiro acasalamento foi linear nas distintas classes de peso corporal. Foi estimado que borregas com 38kg de peso corporal ao acasalamento produziriam 92,8% de cordeiros nascidos e 71,9% de cordeiros desmamados. Como não foi detectado um modelo curvilíneo para ajustar a resposta produtiva, pode não haver um peso ideal cuja produção seja otimizada. Este fato indica a necessidade da formulação de sistemas de recria de animais jovens mais eficientes, para que as borregas, ao integrarem o rebanho de cria, apresentem o melhor desenvolvimento e peso corporal possíveis, inclusive, para que, no futuro, seja evidenciado o peso corporal ideal para o primeiro acasalamento nas distintas raças ovinas (Oliveira et al, 1995).

Alterações podais

No que diz respeito aos cuidados com cascos e patas, como recomendação geral, as ovelhas devem ser revisadas anualmente antes do início do acasalamento, sendo descartadas aquelas com alterações graves de conformação por origem hereditária ou decorrentes de problemas inflamatórios crônicos (Selaive-Villarroel, 1980).

É importante a ocorrência de surtos de manqueiras nos meses outonais coincidentes com o período de acasalamento, independentemente de sua etiologia: manqueira pós-banho ou "foot-rot" (Vaz, 1981, Ribeiro, 1985). Num levantamento sobre o uso da inseminação artificial em ovinos, surtos de manqueira foram indicados como o segundo principal problema para o uso da biotécnica reprodutiva (Oliveira et al., 1995).

Alterações de úbere

Quanto a alterações de úbere, também as fêmeas devem ser investigadas previamente ao acasalamento, visando retirar da reprodução aquelas com seqüelas de mastite, lesões nos tetos (amputados ou bloqueados) ou com a presença de abscessos. Um levantamento sobre a mastite ovina no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, incluindo 3128, ovelhas indicou que apenas 14% das ovelhas apresentavam pelo menos uma glândula positiva para o California Mastite Teste e apenas 4,5% foram bacteriologicamente positivas, sendo Staphylococcus sp o agente responsável pela maioria das mastites subclínicas detectadas. Embora exista a descrição de casos clínicos, em baixa freqüência, as mastites subclínicas não se constituem num problema sanitário importante nos sistemas de criação extensivos voltados para a produção de lã. No entanto, em sistemas mais intensivos, com o aumento na quantidade de leite produzida pelas ovelhas, é possível uma mudança na importância relativa desta enfermidade no sul do Rio Grande do Sul (Vaz, 1996).

Alterações na genitália

Um estudo abrangente sobre achados anatomopatológicos em ovários e úteros de ovelhas criadas no Rio Grande do Sul foi procedido por Cassali (1989), incluiu dois grupos distintos de ovelhas de descarte de todas as idades. No geral, mais de 90% das genitálias examinadas apresentaram algum tipo de alteração, classificadas como do desenvolvimento, inflamatórias e progressivas. Os transtornos relacionados com a reprodução foram principalmente processos inflamatórios uterinos, significativamente associados a cervicites. Uma inferência muito interessante foi apresentada neste estudo, de que mais de 60% das ovelhas apresentavam alterações relacionadas a infertilidade (˜10%) e subfertilidade (˜58%). Estes dados demonstram a importância de uma avaliação clínica minuciosa nos rebanhos antes do acasalamento, para promover descarte ou mesmo o tratamento de animais com reduzido potencial reprodutivo.

O emprego de uma triagem por vaginoscopia, demonstrou que ovelhas com altas freqüências de alterações inflamatórias de vagina e cérvice, após tratamento com antibióticos via parenteral, apresentam significativo incremento na fertilidade (Silva & Neves, 1983). Adicionalmente, os autores recomendaram o uso de espéculos esterilizados para práticas de inseminação com sêmen fresco, como um procedimento para evitar ou reduzir a propagação destas infecções. Em seqüência, o mesmo grupo de trabalho (Souza, 1987), estudou clinicamente ovelhas falhadas e que tinham parido na temporada anterior, constatando maiores percentuais de catarros genitais e constrições vaginais nas que não haviam parido no ano anterior. Estes dados reiteram a importância do exame ginecológico por vaginoscopia e a antibioticoterapia parenteral no tratamento das infeções genitais inespecíficas.

Estacionalidade

Na Fig.1 são apresentadas as freqüências mensais de cio constatadas na raça Merino e nas tradicionais raças de duplo propósito criadas no Rio Grande do Sul. Nesta figura estão incluídos os clássicos dados de Mies & Ramos (1960) e de Nunes & Figueiró (1975) para a raça Ideal, que apenas consideraram os meses de dezembro a março. Estes dados mostram claramente o comportamento reprodutivo estacional dos ovinos nesta região. Além de variação na manifestação de estro ao longo do ano tem sido constatada variação também na taxa de ovulação pelo menos na raça Corriedale e em ovelhas Crioulas, com maiores taxas de ovulação no ápice da estação reprodutiva (Wald et al, 1980; Moraes et al, 1993). Evidentemente que toda tentativa de acasalamento fora da estação reprodutiva (primavera) apresenta menor eficácia, devido às características próprias da espécie e seu nível de adaptação nas condições de latitude do sul do Brasil.

Fonte:MIES FILHO & RAMOS, 1960 e NUNES & FIGUEIRÓ, 1975
Fig. 1. Distribuição mensal de cio de diversas raças ovinas criadas no Rio Grande do Sul.

Considerando estes fatos, foram realizados alguns estudos nesta região, visando identificar qual a melhor época para acasalamento com o intuito de obter maior produtividade global para as raças Corriedale e Romney no Rio Grande do Sul (Oliveira et al., 1993) e Merino, Corriedale e Ideal no Uruguai (Azzarini & Ponzoni, 1971). O estudo efetivado no Brasil considerou, na estação reprodutiva tradicional, três épocas Uaneiro - fevereiro, março - abril e abril - maio), tendo sido mais favorável, em termos de cordeiros desmamados, o acasalamento de final de outono (abril - maio). Para a raça Corriedale no Uruguai, também foram constatadas maiores taxas de prenhez e de desmame, quando os acasalamentos foram no mês abril. Já para as raças Merino e Ideal, foi investigado o acasalamento de primavera (dezembro) em comparação com o outonal (abril), tendo este último (também) se mostrado mais eficiente.

Os atuais sistemas de criação voltados para a produção de carne, passam a enfrentar o desafio de reduzir a estacionalidade de oferta de cordeiros para o abate, determinada pela estacionalidade reprodutiva. Hoje em dia há disponibilidade de métodos de sincronização e indução de cios que permitem a reprodução em épocas não tradicionais no Rio Grande do Sul, porém ainda há necessidade de formulação de sistemas de reprodução mais intensivos adequados para a região, visando otimizar a fertilidade e a produtividade da ovinocultura (Borba et al, 1993).

Taxa de prenhez e método de reprodução

A consideração dos métodos de reprodução como possíveis causas de infertilidade nos ovinos decorre do fato de que há variação na taxa de concepção ao primeiro serviço entre os diferentes métodos (Fig.2).

No caso da monta natural, a capacidade do macho em depositar sêmen de boa qualidade em quantidade suficiente para que ocorra a fertilização, é o ponto principal. Outros fatores, porém, podem afetar a taxa de prenhez constatada num dado grupo de ovelhas, entre eles: a duração do período de acasalamento, a percentagem de carneiros e o número de montas. A percentagem de carneiros recomendada para monta natural, num período de seis semanas, é de 2%- 3% (Selaive-Villarroel, 1979). Após cobrição natural, cerca de 80% das ovelhas concebem no primeiro serviço, porém a maioria das ovelhas que não são fecundadas no segundo serviço, necessitam uma terceira oportunidade (Moraes, 1992), evidenciando que há necessidade de critérios seletivos quanto à fertilidade, mesmo quando não são procedidas avaliações clínicas e/ou as ovelhas não gestantes não apresentam alterações aparentes na genitália.

Na inseminação artificial, dependendo do número de biotécnicas complementares introduzidas, há redução na taxa de prenhez ao primeiro serviço, valores modais são apresentados na Fig.2. A explicação teórica para esta variabilidade reside no número de fatores externos introduzidos no processo da fertilização, desde a manipulação do ciclo estral e momento de ovulação até a redução da viabilidade dos espermatozóides pelo uso de sêmen congelado (Souza et al, 1993).

Fonte: MORAES, 1992
Fig. 2. Taxa de concepção ao primeiro serviço.

A recomendação do veterinário ao produtor de um dado método de acasalamento deve incluir todas as informações sobre cada técnica, não criando falsas expectativas. Por exemplo, a inseminação artificial não é uma técnica para aumentar a fertilidade do rebanho, mas sim, um método alternativo de acasalamento que permite um uso mais intensivo de reprodutores geneticamente superiores. Esta conscientização dos produtores é importante, para que eles não se decepcionem com uma técnica que Ihes poderia ser útil, só porque não estavam totalmente esclarecidos sobre suas vantagens e limitações. Um outro exemplo, a sincronização de cios, é indicada economicamente para rebanhos pequenos de produtores que já empreguem a inseminação artificial, porém determina um aumento na ordem de 35% nos custos dos serviços de inseminação artificial de um rebanho com mais de 500 ovelhas (Oliveira et al., 1995).

Condição reprodutiva

A condição reprodutiva da ovelha antes do acasalamento é de fundamental importância, mesmo sendo a fertilidade uma característica de baixa hereditariedade, há variação suficiente para que se proceda o descarte de ovelhas que não ficam gestantes, em virtude de sua menor fertilidade potencial e/ou por apresentarem alterações na genitália.

Para a implementação do descarte das ovelhas falhadas e/ou que necessitaram mais de dois serviços para a fecundação, existe um sistema de marcação das ovelhas durante o período de acasalamento pelo emprego de coletes marcadores nos carneiros com giz de distintas cores que são trocados a cada 14 dias, permitindo a classificação das ovelhas em grupos (Radford et al., 1960). Ao término do período de cobrição, os coletes são colocados em machos vasectomizados com giz preto por 21 dias, o que permite a identificação das não gestantes. As marcadas com as demais cores (gestantes) podem também ser classificadas em função do número de serviços e da provável data de parto. Este procedimento inclusive auxilia na redução da mortalidade peri-natal proporcionando maiores facilidades para controle das parições (EMBRAPA,1994).

Mortalidade embrionária

A mortalidade embrionária é reflexo da seleção natural na busca de genótipos mais adaptados ao ambiente, já que a intervenção humana nos sistemas de produção, nem sempre favorece os genótipos mais adaptados. A mortalidade embrionária advém de uma enorme quantidade de causas ainda não convenientemente diagnosticadas e estudadas. Podem ser destacados aspectos nutricionais, agentes terapêuticos, altas temperaturas, estresse, taxa de ovulação, raça, localização geográfica, época do ano etc. Considerando todo o ciclo vital, a mortalidade embrionária é responsável por uma das maiores frações das perdas reprodutivas nos ovinos (Moraes, 1989), tendo em vista que para perdas pós-natais já existem informações suficientes sobre suas causas e formas de controle (Mendez et al., 1982, Silveira et al., 1987).

Uma revisão sobre a importância da mortalidade embrionária na fertilidade dos ovinos, indica que as metodologias até então empregadas subestimam sua importância. E, que, as baixas e pouco repetitivas taxas de prenhez após inseminação artificial, com sêmen congelado, não são explicadas apenas pelo incremento significativo na mortalidade embrionária pelo uso deste método de acasalamento (Moraes, 1992).

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Aspectos relacionados com a infertilidade no carneiro

Ocorrência de anomalias e morfometria da genitália

Nos levantamentos realizados no Rio Grande do Sul, incluindo mais de 4000 animais, não foram detectadas alterações clínicas grosseiras, exceto um caso de hipospadia. A baixa prevalência de anomalias graves pode ser reflexo do serviço de seleção ovina ou mesmo de baixa incidência destas alterações nas populações criadas na região. A realização de um exame clínico minucioso é fundamental na avaliação reprodutiva dos carneiros, na busca de variações clínicas de distintos graus de intensidade. Cerca de 30%-40% dos animais avaliados apresentam alterações clínicas (Moraes et al 1981).

Na Fig.3 destacam-se alterações na consistência dos epidídimos, caracterizando a importância da ocorrência de alterações inflamatórias. Indicando claramente a necessidade de uma política de controle sanitário, seja de infeções específicas (Brucela ovis) ou inespecíficas. Já a constatação de flacidez testicular pode estar associada a processos degenerativos testiculares e dependente de fatores ambientais ou sazonais. O conjunto testículos pequenos e assimetria testicular (em torno de 10%), pode estar relacionado a alterações do desenvolvimento testicular, tais como hipoplasia e/ou atrofia.

Fonte:Moraes et al 1981
Fig. 3. Prevalência de alterações clínicas constatadas em levantamentos populacionais em carneiros de diversas raças e idades.

É importante salientar que o conjunto "outras", inclui alterações de origem possivelmente hereditárias (hipospadia, hérnia inguinal etc), sendo diagnosticadas principalmente em animais jovens. Já "alterações escrotais/aderências" são constatadas em carneiros mais velhos, sendo decorrentes de lesões/inflamações (cicatrizes escrotais, aderências/assimetrias testiculares, lesões penianas, abscessos externais etc).

Publicações clássicas sobre a avaliação reprodutiva dos carneiros (Bruêre, 1970; Watt, 1972; Galloway, 1973; 1983; Ott & Memon, 1980) corroboram a conclusão de que a avaliação clínica é o principal método para identificar animais que devem ser descartados como reprodutores. Quando as alterações clínicas são graves, com apenas uma avaliação o diagnóstico pode ser definitivo.

O tamanho dos testículos pode ser estimado pelo diâmetro de ambos os testículos, pelo seu perímetro no saco escrotal, pela medição de comprimento e largura de cada gônada (Notter et al., 1981). Na Tabela 1 é apresentada a variabilidade nas medidas do tamanho testicular de carneiros em algumas raças, através do perímetro escrotal.

Tabela 1. Valores médios de perímetro escrotal em carneiros de diversas raças

Raça

Número de Animais

Perímetro Escrotal (cm)

Amplitude

Corriedale

250

32,0

26-38

Ideal

116

33,5

24-39

Romney

79

30,0

25-36

Merino

56

36,0

29-40

Hampshire Down

92

33,0

21-40

lIe de France

56

32,5

27-37

Texel

31

30,0

23-35

Suffolk

29

31,5

27-38

Fonte: Dados obtidos em Exposições-feiras, não publicados.

Estas médias indicam os valores mais comuns para perímetro escrotal, sendo que qualquer comparação entre indivíduos apenas deve ser procedida dentro de grupos contemporâneos. O alvo dos veterinários clínicos e zootecnistas é o estabelecimento de um valor crítico que simplifique suas atividades, principalmente para a participação de animais em exposições-feiras. No entanto, isto é uma tarefa difícil, em função do grande número de fatores que afetam o perímetro escrotal dentro de uma mesma raça (idade, peso corporal, propriedade de origem, manejo sanitário e alimentar da criação, grupo contemporâneo e pai). O estabelecimento destes valores críticos pode conduzir ao descarte reprodutores com testículos pequenos em função de peculiaridades na sua criação (grupo contemporâneo), aspecto já salientado por Galloway (1972) relativamente a infestações parasitárias em animais jovens.

A importância do perímetro escrotal na predição do tamanho testicular e potencial produção de espermatozóides pode ser facilmente demonstrada considerando que o peso dos testículos pode ser predito pela equação: Peso dos testículos (g) = 0,0211 (Perímetro escrotal)2,89 (Notter et al., 1981); e que a produção diária de espermatozóides por grama de parênquima oscila entre 21 a 25 milhões de espermatozóides (Amann & Schanbacher, 1983). Assim, sempre serão preferíveis para a reprodução, os carneiros já selecionados por características produtivas que apresentem os maiores valores para o perímetro escrotal. Por um lado enfocando o potencial de produção de sêmen e por outro, caso seja possível uma comparação de indivíduos dentro de um mesmo grupo contemporâneo, incorporando a possibilidade de respostas correlacionadas para maior taxa de ovulação (Matos & Thomas, 1992).

Emprego do exame andrológico no diagnóstico de problemas de fertilidade

Os dois principais artigos sobre a avaliação andrológica em ovinos foram os reportados por Galloway (1972 e 1973), justamente visando auxiliar a tarefa do veterinário clínico. Posteriormente, surgiram os estudos relativos a seleção por tamanho testicular que acabaram por introduzir alguma confusão no que consiste a avaliação andrológica, que objetiva o descarte de animais inaptos temporária ou definitivamente. Já a seleção por tamanho testicular visa escolher os melhores (com maior tamanho testicular) como genitores da próxima geração, objetivando incorporar vantagens em outras características produtivas por correlações genéticas significativas com o tamanho testicular.

Um outro aspecto que deve ser salientado é o que foi enfatizado por Moraes & Oliveira (1991 e 1992), que a avaliação andrológica deve ser iniciada pela avaliação dos testículos (perímetro escrotal) e ter continuidade com avaliações no sêmen e outros exames complementares, sempre em animais já selecionados zootecnicamente, no sentido de contribuir para uma maior eficiência dos sistemas de produção.

Uma proposta efetiva para a condução do exame andrológico deve ser aprimorada sempre que surgirem novas informações, visando melhorar sua confiabilidade, porém não descuidando os aspectos relativos a economicidade para o produtor.

Os animais aptos não devem apresentar lesões clínicas na genitália e, se as apresentam, são leves cicatrizes escrotais, dermatites etc, sem comprometimento da função testicular avaliada pela motilidade e vigor espermáticos e morfologia espermática. O tamanho dos testículos não deve ser fator de descarte, se os testículos são simétricos e a função testicular não se apresenta alterada. O valor preferencial para motilidade espermática é que esta seja superior a 50% com vigor superior a 2 (escala entre 0-5), porém efetivamente coerente com a percentagem de espermatozóides normais. Neste aspecto, considerando as distribuições constatadas em alguns estudos, de pelo menos 60% de células normais numa dada amostra (Moraes et al., 1977; Moraes et al., 1981; Garcia-Deragón et al., 1985; Ferreira et al., 1988). Os indivíduos que não estejam dentro destes padrões devem ser reavaliados, sendo, portanto, considerados, inaptos temporariamente. Após algumas reavaliações, será possível formular um diagnóstico mais preciso de recuperação ou não do indivíduo. Esta situação virá efetivamente a se configurar em função do custo/benefício destes exames e do interesse zootécnico sobre o animal. O esquema proposto foi inspirado na proposição de Galloway (1973), tendo início com a avaliação clínica de todos os animais. Após o exame clínico, os carneiros sem alteração são submetidos a coleta e avaliação do sêmen, espermiograma e mesmo testes sorológicos, sendo posteriormente estratificados em três grupos com destinos distintos: aptos; em avaliação e descartados.

Os aptos, sem alterações clínicas, são considerados como em condições para a cobrição de 40-60 ovelhas num período de seis semanas. O segundo grupo que continua em avaliação, é porque apresentou alterações clínicas leves e/ou testículos menores que a média de seu grupo contemporâneo. Estes animais são submetidos à coleta e avaliação do sêmen. Com um exame imediato do sêmen satisfatório (motilidade > 50% e vigor >2), os animais são também considerados aptos. Em caso contrário, o espermiograma é efetuado, para auxiliar no diagnóstico, caso a percentagem de espermatozóides normais seja inferior a 60%, os carneiros Continuam neste grupo em avaliação. O terceiro grupo é caracterizado pelos animais com alterações clínicas graves que podem ser descartados numa única avaliação, ou submetidos a exames complementares, caso haja alto interesse zootécnico no animal.

Considerações gerais

As causas de infertilidade aqui apresentadas destacam, por um lado, a importância da adequação dos sistemas de produção na busca de uma melhor eficiência reprodutiva (composição etária dos rebanhos, sistemas de recria, estacionalidade reprodutiva e métodos de reprodução). Por outro lado, a necessidade da presença do médico veterinário nas propriedades para identificar animais portadores de alterações hereditárias ou infecciosas e recomendar descarte ou procedimentos terapêuticos ou profiláticos (alterações nos cascos, úbere, útero, vagina, testículos e epidídimos). Adicionalmente foi discutida a importância e a necessidade de maiores estudos sobre mortalidade "in utero" e a dificuldade efetiva da predição "a priori" da fertilidade de machos e fêmeas, e ainda que os procedimentos recomendados permitam que o produtor utilize, na reprodução, animais sem alterações graves e com maior potencial reprodutivo.

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