Embrapa Clima Temperado
Sistemas de Produção, 4
ISSN 1806-9207 Versão Eletrônica
Nov./2005

Cultivo do Pessegueiro

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Sumário
Início
 
Importância Econômica
Clima
Solos
Adubação e Calagem
Cultivares
Produção e Obtenção de Mudas
Instalação do Pomar
Irrigação
Práticas Culturais
Manejo das Plantas Daninhas
Doenças e Métodos de Controle
Pragas e Métodos de Controle
Nematóides e Métodos de Controle
Normas Gerais Sobre Uso de Agrotóxicos
Colheita e Pós-Colheita
Industrialização do Pêssego em Calda
Coeficientes Técnicos, Custos, Rendimentos e Rentabilidade
Referências
Glossário
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Adubação e Calagem

A cultura do pessegueiro tem uma área de abrangência desde o centro até o sul do Brasil. Significa que está implantada numa grande diversidade de solos, os quais apresentam, em comum, acidez elevada, altos teores de elementos tóxicos e baixa fertilidade natural.

As informações sobre a necessidade e quantidade de fertilizantes, quando não estão à disposição dos produtores, criam um clima de insegurança, fazendo com que a prática de adubação seja efetuada por especulação e, muitas vezes, envolvendo interesses comerciais. Isto determina a aplicação de tipos de fórmulas e quantidades de fertilizantes totalmente inadequados às necessidades da cultura.

Amostragem do solo

Num programa de recomendação de adubação e de correção da acidez baseada na análise de solo, a amostragem é uma das fases mais importantes, em virtude da natural heterogeneidade do mesmo. Esta é agravada tanto por adubações, como por calagens anteriores.

Para a cultura do pessegueiro, a avaliação das necessidades de corretivos da acidez do solo e de fertilizantes antes do plantio baseia- se na análise de solo.

O aumento da produtividade pela utilização das recomendações de adubação e de corretivos baseado na análise de solo é função do cumprimento das seguintes etapas: coleta de amostra; análise; interpretação dos resultados analíticos; recomendação de adubação e de calagem. Convém lembrar que o erro cometido durante o processo de amostragem é o mais significativo, já que o mesmo não poderá ser corrigido nas fases seguintes.

O primeiro passo para se proceder à amostragem do solo constitui-se em dividir a área em porções homogêneas, considerando-se o tipo de solo, a topografia, a textura, a cor, o grau de erosão, a profundidade, a cobertura vegetal, a drenagem, entre outros aspectos. No entanto, se houver uma porção já adubada ou que já tenha recebido calcário, esta deverá ser amostrada em separado.

Na tomada de amostra pelo sistema de amostragem composta, cada área deve ser toda percorrida, caminhando-se em ziguezague e coletando-se, ao acaso, subamostras, que após são reunidas. Depois de homogeneizado, retira-se cerca de 500g de solo para ser enviado ao laboratório. Os procedimentos de amostragem do solo são os recomendados pela Comissão de Fertilidade do Solo - RS/SC.

As amostras de solo podem ser coletadas em qualquer época do ano. Deverá ser entretanto, no mínimo, quatro meses antes do plantio das mudas, ou antes do início do período de dormência, quando se tratar de nova calagem, em pomares já instalados.

Deve-se amostrar a camada arável do solo, ou seja, de 17 a 20 cm de profundidade, ou seja, a profundidade de amostragem deve ser a mesma de incorporação dos adubos e dos corretivos.
Antes da coleta das amostras de solo deve-se eliminar a vegetação, as folhas, ramos, as pedras da superfície do solo, etc.

As amostras de solo podem ser coletadas com auxílio de trado de rosca, trado calador, trado holandês ou pá-de-corte. O trado calador, é o que melhor funciona em solos arenosos, mesmo em períodos secos. Ao se amostrar o solo com qualquer dos trados, deve-se introduzi-lo até 20 cm de profundidade.

Recomendação da calagem

Considerando-se que os solos onde o pessegueiro é cultivado, na maioria dos casos, têm em comum acidez elevada, altos teores de elementos tóxicos e baixa fertilidade natural, tanto a calagem como a adubação fazem-se necessárias para garantir produções satisfatórias. A correção da acidez dos solos, por meio da calagem, é uma das práticas culturais que apresentam um alto benefício e um baixo custo.

A aplicação do calcário na cova não é recomendável, pela pequena fração de solo que é beneficiada.

A quantidade de corretivo a aplicar é estimada por meio da análise de solo. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina utiliza-se o método Shomaker, Mcleane Pratt (SMP) para estimar a necessidade de calcário para elevar o pH em água do solo até 6,0 (Tabela 14).

Como regra geral, os solos com maior teor de alumínio, de matéria orgânica e de argila necessitam de maiores quantidades de corretivos da acidez.

Em algumas situações, principalmente em solos pouco tamponados (arenosos), o índice SMP pode não indicar a necessidade de calagem, embora o pH em água do solo esteja abaixo de 6,0. Nesse caso, os laboratórios de análise de solos podem estimar a necessidade de calcário com base nos teores de alumínio trocável e de matéria orgânica no solo.

Vários materiais podem ser usados como corretivos da acidez dos solos. No entanto, o mais comum é o uso da rocha calcária moída, conhecido como calcário agrícola.

Tendo em vista a grande variação na qualidade dos corretivos da acidez dos solos existentes no mercado, na escolha deve-se considerar tanto o PRNT (Poder Relativo de Neutralização Total), como o seu frete até a propriedade. Assim, ao se adquirir um calcário deve-se considerar o custo do produto por unidade de PRNT, posto na propriedade. O PRNT é uma medida da qualidade dos corretivos da acidez dos solos, o qual é avaliado pelo equivalente em CaCO3 (valor de neutralização) e pelo tamanho das partículas (eficiência relativa). Assim, quanto maior o PRNT, melhor a qualidade do calcário e, conseqüentemente, mais rápida é a reação no solo. É calculado do seguinte modo:

PRNT = equivalente em CaCO3 x eficiência relativa/100

Como as recomendações de calagem são baseadas em PRNT 100%, a dose a ser aplicada no solo deve ser corrigida com base no PRNT do material disponível, do seguinte modo:

Quantidade a ser aplicada (t ha-1) = recom. de calcário (t/ ha-1) x 100/PRNT do calcário.

Com referência à qualidade dos corretivos, além do PRNT, deve-se, também, considerar o teor de magnésio do material, já que os solos onde o pessegueiro é cultivado no Brasil são normalmente pobres nesse nutriente. Por isso, deve-se dar preferência aos materiais que contenham magnésio, como é o caso dos calcários dolomíticos. De acordo com a legislação brasileira, os calcários que contenham até 5% de MgO são denominados calcíticos, os que apresentam entre 5% e 12% são denominados de magnesianos; e quando o teor de óxido de magnésio for superior a 12% são chamados de dolomíticos.

Além do calcário agrícola, outros produtos podem ser utilizados como corretivos da acidez dos solos, como a cal virgem, obtida por meio da calcinação da pedra calcária; a cal apagada, obtida pelo tratamento da cal virgem com água;o calcário calcinado, obtido pela calcinação parcial do calcário;as conchas marinhas moída; cinza; etc.

Os corretivos da acidez dos solos mais usados devem atender a uma garantia mínima, tanto com relação ao equivalente em CaCO3 como à soma dos teores de óxidos de cálcio e de magnésio (Tabela 16).

Os calcários contêm partículas que variam desde pó até aproximadamente 2 mm, que é o máximo permitido pela legislação brasileira. A velocidade de reação de cada fração depende do diâmetro das partículas. A legislação exige que 100% do calcário deve passar em peneira de 2 mm (nº 10), com tolerância de 5%; 70% deve passar em peneira de 0,84 mm (nº 20) e 50% deve passar em peneira de 0,3 mm (nº 50).

Para que se obtenham os efeitos esperados, o calcário deve ser aplicado, no mínimo três meses antes do plantio das mudas. Quando se tratar de nova calagem em pomares já instalados, esta deverá ser feita no meio do outono.

Quando for feita a correção da acidez de toda a área, o calcário deve ser distribuído uniformemente, dando-se preferência aos implementos que aplicam o produto próximo à superfície do solo. Deve ser evitada a aplicação de corretivos, principalmente aqueles com PRNT elevado, em dias com vento.

Antes da instalação de um pomar de pessegueiro, o calcário deve ser incorporado na profundidade de 20 cm. Quando a recomendação for superior a 5 t ha-1 deve-se aplicar a metade da dose; a seguir, lavrar, aplicar o restante, lavrar e gradear. Para quantidades inferiores a essa dose, uma boa incoporação tem sido obtida com uma gradagem seguida de aração e outra gradagem. Para ambas as situações acima expostas se conseguirá uma incorporação homogênea do calcário na profundidade desejada.

Recomendações de adubação fosfatada e potássica de pré-plantio

Antes da instalação do pomar de pessegueiro, a análise de solo é o único método de diagnose para se estimar as necessidades de fósforo (P) e de potássio (K). As quantidades exigidas de P e K são determinadas na mesma amostra de solo usada para se estimar a necessidade de corretivos da acidez.

As quantidades de P2O5 e de K2O recomendadas na adubação de pré-plantio para a cultura do pessegueiro constam na Tabela 18.

Em pomares com menos de 5 m de distância entre as linhas de plantio, os adubos devem ser espalhados em toda a superfície. No entanto, onde essa distância for superior a 5 m e não houver interesse em se estabelecer cultura intercalar, a adubação poderá ser executada somente numa faixa de 3 m de largura ao longo da linha de plantio.

Os adubos fosfatados e potássicos, usados antes do plantio, devem ser aplicados por ocasião da instalação do pomar, preferentemente a lanço, e incorporados, no mínimo, na camada arável.


Recomendação de adubação nitrogenada de crescimento

Durante a fase de crescimento das plantas, que vai desde o plantio das mudas até o terceiro ano, recomenda-se usar somente nitrogênio. Supõe-se que o P e o K, fornecidos através da adubação de pré-plantio, sejam suficientes até o momento em que as plantas entrem em plena produção, por volta do quarto ano.

Como o pessegueiro tem uma necessidade de N praticamente constante durante todo o ciclo vegetativo, aliada à possibilidade de perda desse nutriente por lixiviação, recomenda-se fracionar a dose anual em três parcelas. As doses recomendadas, bem como as épocas, constam na Tabela 19.

O adubo nitrogenado deve ser distribuído ao redor das plantas, formando uma coroa distante 20 cm do tronco, sob a projeção da copa.

Adubação de Manutenção

A adubação nitrogenada de manutenção é feita, parceladamente, em três épocas. A primeira (50% do total), é realizada no final do inverno (início do ciclo vegetativo anual), a segunda (30% do total), após o raleio dos frutos e a última (20% do total), cerca de um mês antes do início do período de dormência das plantas.

A primeira época é a mais importante, pois, nesta aplicação, é fornecida a maior parte dos nutrientes necessários ao ciclo anual das plantas. Quando for recomendado o uso de adubos potássicos e/ou fosfatados, estes devem ser aplicados ao solo nessa época. Com o objetivo de se aumentar a eficiência do uso dos fertilizantes, recomenda-se aplicar os adubos quando o solo não estiver seco e incorporá-los logo após a aplicação, principalmente os nitrogenados.

Para a adubação de manutenção, o uso de uma tabela de adubação não representa um quadro ideal, já que, agindo-se dessa forma, todos os pomares seriam tratados de uma mesma maneira, o que não corresponde à realidade, pois suas condições nutricionais são distintas. Ao contrário, a análise foliar, por ser um método de diagnose e de recomendação de adubação que trata cada caso isoladamente.

Para a realização da análise foliar do pessegueiro, devem ser colhidas folhas completas (limbo com pecíolo) da porção média dos ramos do ano, posicionadas em altura facilmente acessível, sem o uso de escada, nos diferentes lados das plantas, entre a 13ª a 15ª semanas após a plena floração, independente se a amostra for de cultivar precoce ou tardia. No entanto, se acontecer de a época indicada para a coleta de amostra de folhas, coincidir com o período de colheita dos frutos de alguma cultivar, ou após o mesmo, a tomada de amostra deverá ser antecipada de uma a duas semanas, de modo que a amostragem de folhas seja sempre feita antes da colheita dos frutos. Cada amostra deve ser composta de, aproximadamente, cem folhas, podendo representar um grupo de plantas ou um pomar, dependendo da homogeneidade. Em pomares com mais de 100 plantas, porém homogêneas, deve-se coletar quatro folhas por planta em 25 plantas distribuídas aleatoriamente e representativas da área. Cada amostra relaciona-se a uma condição nutricional. Assim, folhas com sintomas de deficiência nutricional não devem ser misturadas com as folhas sadias. Cada amostra deve ser constituída de folhas de plantas adultas da mesma idade e da mesma cultivar. A amostra deve ser acondicionada em saco de papel comum perfurado e enviada ao laboratório o mais rapido possível, acompanhada do respectivo questionário. Caso o tempo previsto para a chegada da amostra ao laboratório seja superior a dois dias, sugere-se fazer uma prévia secagem ao sol, sem retirar as folhas do saco, até que elas se tornem quebradiças.

Normalmente, não se recomenda a lavagem das folhas.

Análise visual do pomar

A análise visual de um pomar é um valioso instrumento para o diagnóstico de deficiências ou de toxidez nutricionais. A deficiência indica uma condição aguda de falta de nutriente, já que os sintomas somente se evidenciam quando esta se encontra em estágio avançado, ocasionando, nesse caso, um retardamento do crescimento e prejuízos à produção e à qualidade dos frutos, entre outros problemas.

Quando a observação das folhas revela determinadas características, pode-se suspeitar de uma deficiência nutricional. Tais padrões são mais ou menos específicos para cada nutriente. Certas viroses e infestações provocadas por insetos podem produzir sintomas similares aos de uma deficiência nutricional. Entretanto, o padrão com que se apresentam nas folhas é capaz de os distinguir.

Quando os sintomas são bem conhecidos, esse método de diagnose nutricional, sem dúvida, é o mais rápido, fácil e barato que se conhece.

Com o objetivo de auxiliar os produtores de pêssego, são descritos, a seguir, os sintomas visuais de carência dos principais nutrientes.

Nitrogênio (N)
Em razão da grande mobilidade do nitrogênio na planta, o que faz com que ele se transloque das folhas mais velhas para as mais novas, os primeiros sinais de carência são notados nas folhas maduras, localizadas mais próximo à base dos ramos. Nesse estádio, o sintoma corresponde a um amarelecimento das folhas basais, e o teor foliar de N situa-se ao redor de 1,9%. Persistindo as limitações no suprimento, a coloração amarela aumenta gradativamente, progredindo para as folhas da extremidade dos ramos, enquanto que as nervuras e o pecíolo tingem-se de pigmentos vermelhos. Com o decorrer do tempo, as manchas arredondadas, de coloração vermelha, que surgem no limbo, tornam-se necróticas, e o tecido desprende-se, deixando a folha perfurada.

Nesse momento, o teor de N nas folhas situa-se ao redor de 1,5% e 1,6%.

Fósforo (P)
Provavelmente, em razão da pequena necessidade de fósforo e pela capacidade do pessegueiro extraí-lo do solo, mesmo em situações limitantes, os sintomas carenciais são difíceis de serem observados. No entanto, em mudas de pessegueiro cultivadas em solução nutritiva com ausência de P, as folhas apresentam-se com uma coloração verde-escura, com uma concentração de 0,08%, interpretado como abaixo do normal.

Potássio (K)
Com relação aos sintomas de deficiência de potássio, aparecem inicialmente, manchas necróticas ao longo de quase toda a borda do limbo, progredindo em direção à nervura central, sem, no entanto, atingirem toda a folha. Nesse momento, o teor foliar de K situa-se ao redor de 0,3%. Com a evolução da deficiência, as manchas necróticas situadas entre a nervura central e a margem do limbo destacam-se, deixando a folha perfurada. As bordas das folhas enrolam-se para cima, até tocarem-se, formando um cartucho característico.

Do mesmo modo que ocorre com relação ao N, a carência de K também se manifesta, em primeiro lugar, nas folhas mais velhas, em virtude da mobilidade desse nutriente na planta.

Em geral, uma planta deficiente em K desenvolve-se pouco, apresenta ramos finos e frutos pequenos com polpa pouco espessa.

Cálcio (Ca)
Em condições de pomar, dificilmente observam-se plantas de pessegueiro com sintomatologia carencial de cálcio, em razão de que, mesmo em solos pobres, o teor desse elemento situa-se acima do nível crítico. Os sintomas de deficiência induzida experimentalmente caracterizam-se pelo murchamento de folhas e de ramos mais finos. Com a evolução da deficiência, ocorre a paralisação do crescimento da parte aérea da planta. Em decorrência da extrema imobilidade desse nutriente na planta, ocorre, a seguir, a morte das gemas terminais.

Magnésio (Mg)
Quando há carência de magnésio, inicialmente, as folhas mais velhas apresentam manchas amarelo-palha na borda do limbo. Com o passar do tempo, elas evoluem para manchas necróticas, deixando o limbo perfurado, ocorrendo, também, queda das folhas. No momento em que os primeiros sintomas surgem, o teor foliar de Mg encontra-se em torno de 0,2%. Ocorre, também, uma clorose internerval ao redor da nervura central. Sob condições de campo, é bastante difícil a identificação dos sintomas carenciais agudos desse nutriente, já que a deficiência causa um intenso desfolhamento da planta, da parte basal para a apical dos ramos.

Zinco (Zn)
O primeiro indício da deficiência de zinco é a clorose irregular, de coloração amarela-pálido, entre as nervuras das folhas mais velhas. Há encurtamento dos internódios e, em casos severos, estes tornam-se tão curtos, que há a formação de rosetas.

 

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