Embrapa Clima Temperado
Sistemas de Produção, 4
ISSN 1806-9207 Versão Eletrônica
Nov./2005

Cultivo do Pesegueiro

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Sumário
Início
 
Importância Econômica
Clima
Solos
Adubação e Calagem
Cultivares
Produção e Obtenção de Mudas
Instalação do Pomar
Irrigação
Práticas Culturais
Manejo das Plantas Daninhas
Doenças e Métodos de Controle
Pragas e Métodos de Controle
Nematóides e Métodos de Controle
Normas Gerais Sobre Uso de Agrotóxicos
Colheita e Pós-Colheita
Industrialização do Pêssego em Calda
Coeficientes Técnicos, Custos, Rendimentos e Rentabilidade
Referências
Glossário
Autores
 
Expediente 
Práticas Culturais

Dentre as práticas culturais para o cultivo do pessegueiro, destacam-se o manejo do solo, a poda e o raleio, além da limpeza do pomar e da adubação e irrigação, estas tratadas em outros capítulos.

Manejo do solo

O pessegueiro é uma frutífera que responde muito bem às práticas de cultivo do solo durante a fase vegetativa da planta. Entretanto, o solo movimentado é mais facilmente erodido, o que requer a utilização de medidas que previnam a erosão.

Essa espécie apresenta bom desenvolvimento em solo permanentemente cultivado, porém, essa prática, em certos casos, tem diminuído os teores de matéria orgânica do solo, deixando-o mais sujeito a perdas por erosão.

Ao realizar-se o cultivo do solo, deve-se ter em mente os objetivos que se deseja atingir, ou seja:
- Dar, aos pessegueiros, as melhores condições de suprimento de água e nutrientes, evitando-se a concorrência de invasoras durante a estação de crescimento;
- Aumentar ou manter os teores de matéria orgânica do solo, compensando-o das perdas por erosão e decomposição;
- Evitar a compactação, facilitando a aeração do solo;
- Prevenir a erosão.

Os melhores locais para o plantio do pessegueiro, geralmente, são terrenos inclinados, portanto, sujeitos à erosão quando mal trabalhados. Daí, a importância da execução das práticas de cultivo nos períodos mais adequados, isto é, menos sujeitos à ocorrência de chuvas pesadas.

Manejo do solo nas entrelinhas das plantas

Em pomares localizados em áreas com declive acentuado, é aconselhável a manutenção das entrelinhas relvadas para proteção contra o arraste de solo em períodos chuvosos. A vegetação nas entrelinhas deve ser de porte baixo, ou mantida roçada durante a fase vegetativa do pessegueiro.

O cultivo de leguminosas nas entrelinhas, durante o verão, seguido de uma gramínea no período de inverno - fase de repouso do pessegueiro -, tem reflexos positivos sobre a produtividade. A massa verde produzida pela leguminosa cultivada no período de verão é incorporada ao solo antes da semeadura da gramínea que, nessas condições, vegeta vigorosamente. A palha da gramínea pode ser ceifada na primavera e utilizada como cobertura morta sob a copa dos pessegueiros.

O cultivo de leguminosas de inverno nas linhas de plantas é uma prática que vem sendo adotada por muitos fruticultores nas últimas décadas. A ervilhaca (Vicia sp.) pode ser cultivada durante a fase de repouso hibernal da frutífera. Dependendo das condições locais e da cultivar de pessegueiro, poderá haver competição entre a leguminosa e a frutífera na fase final de formação do fruto, com interferência negativa sobre a produção.

Quando isso ocorre, faz-se necessária a adoção de alguma prática cultural (capina, ceifa ou herbicida) para se interromper o ciclo vegetativo da leguminosa.

Atualmente está sendo adotado, na região colonial de Pelotas (RS), o cultivo de aveia- preta durante o período de inverno, o que vem tendo boa aceitação entre os produtores. Dados experimentais comprovaram que a palhada da gramínea ceifada durante a primavera e utilizada como cobertura morta sob a copa dos pessegueiros, mostrou reflexos positivos na produtividade.

Nas entrelinhas, o cultivo pode ser iniciado no outono. Deve-se evitar o cultivo com arado, particularmente de discos, em razão dos danos causados no sistema radicular dos pessegueiros, o que reduz a produtividade e a longevidade do pomar.

A utilização de enxada rotativa também deve ser evitada principalmente em solos com textura fina. Esse procedimento desestrutura o solo, pulverizando-o. Nessas condições, após uma chuva, forma-se uma crosta na superfície do terreno, diminuindo a permeabilidade à água, ao ar, comprometendo o bom desenvolvimento do pessegueiro e facilitando a erosão.

Grades leves tipo off set podem ser usadas desde que o solo esteja em condições de friabilidade.

Quando as entrelinhas são mantidas relvadas, é facilitada a passagem das máquinas para execução dos tratamentos fitossanitários e demais tratos culturais moto-mecanizados.

Poda

A poda do pessegueiro requer conhecimentos relativos à própria espécie e à cultivar. Devem-se ter em mente, também, os objetivos a serem alcançados. Não há uma regra invariável para poda, sendo necessário, antes de tudo, bom senso e conhecimento dos princípios e finalidades, do hábito de frutificação da espécie e da capacidade de frutificação efetiva da cultivar.

A poda reduz a área da copa da planta e, conseqüentemente, o número total de gemas torna-se menor.

A poda é uma operação muito importante no manejo do pomar, pois visa desenvolver ramificações primárias fortes e bem inseridas; manter o crescimento equilibrado com a produção, evitando a alternância entre colheitas e reduzindo o trabalho do raleio; estimular a formação de ramos novos e de gemas de flor, bem distribuídas na copa da árvore; melhorar a qualidade e o tamanho dos frutos e, uniformizar o amadurecimento; livrar a árvore de ramos fracos, secos, "ladrões" e aqueles atacados por pragas e doenças; controlar a altura da planta, facilitando a colheita e outros tratos culturais.

Época: a época apropriada para a poda do pessegueiro é durante o período de repouso. Não deve ser muito cedo, a fim de evitar-se um estímulo à brotação precoce, nem muito tarde, para se prevenir a perda de reservas juntamente com a brotação eliminada.

De um modo geral, pode-se dizer que a época ideal para a poda começa 15 dias antes da floração, estendendo-se até quando as plantas apresentarem cerca de 25% de flores abertas. Entretanto, a poda pode ser realizada desde a queda das folhas, cerca de um mês antes do início da floração, até uma semana antes da plena floração sem que haja grande mudança na produção.

Há também a chamada poda verde, sendo esta executada no período vegetativo.

Poda de formação

Tem por finalidade propiciar, à planta, uma altura de tronco e uma estrutura de ramos adequadas à exploração. É realizada durante os dois primeiros anos de implantação do pomar.

A poda de formação mais usada no pessegueiro quando cultivado nos espaçamentos de 6 x 3m ou 6 x 4m é conhecida como poda em cone (ou vaso) invertido. Nesse tipo de poda, as ramificações primárias podem desenvolver-se em número de quatro a seis, distribuídas em diversas alturas, ficando a mais baixa de 25 a 30cm do solo. Para isso, em novembro ou dezembro, quando as brotações do tronco já alcançam de 10 a 20cm de comprimento, são selecionados quatro a seis ramos bem distribuídos, os quais formarão as ramificações principais da copa. É aconselhável deixar-se um ou dois ramos a mais, devido à possibilidade de perda de algum deles por efeito do vento, pássaros ou outros agentes.

No inverno seguinte, eliminam-se, completamente, as brotações do tronco que não tenham sido previamente selecionadas. A poda deve, nesse estádio, ser conduzida com intensidade leve a fim de conferir à planta a forma desejada, ou seja, a de um cone invertido.

Os ramos principais selecionados devem ser reduzidos em até um terço de comprimento, cortados logo acima de um ramo lateral que se dirija para fora. Esse detalhe tem por objetivo abrir a copa. Os ramos laterais, que, em geral, já são frutíferos, devem sofrer uma redução no comprimento.

Embora a forma de vaso seja a mais usual para condução do pessegueiro, algumas outras têm sido usadas especialmente em pomares de alta densidade.

A condução de plantas na forma de "Y" pode ser considerada como metade de uma planta conduzida em vaso aberto. A planta se estrutura com duas pernadas inseridas de 25 a 30 cm do solo, separadas por um ângulo de 45 a 60 º. À medida que se desenvolvem, estes galhos tendem a crescer verticalmente e continuarem paralelos.

Sobre os ramos principais, mantêm-se os órgãos de frutificação de maneira similar aos outros tipos de condução das plantas.

A disposição dos ramos em relação a fila, é muito importante para reduzir o espaçamento entre plantas.

A condução de plantas nas formas de "Y" não causa redução no tamanho dos frutos, mesmo em densidades reduzidas entre plantas na linha (1,5-2m).

Poda verde

Esta poda é praticada durante o período de vegetação, florescimento, frutificação e maturação dos frutos, tendo por finalidade melhorar sua qualidade e manter a forma da copa por meio da supressão de partes da planta.

Em árvores novas, é recomendada a poda verde, realizada durante o período de crescimento para a eliminação dos ramos mal posicionados e "ladrões" ou para despontar ramos, eliminando a dominância apical e conduzindo a planta à forma desejada.

Nas plantas adultas, já em produção, é realizada com a finalidade de se suprimirem ramos nos quais o crescimento seja dirigido para o interior da copa, aumentando a circulação de ar e a iluminação no centro da planta, promovendo-se o aumento de frutificação nas camadas inferiores dos ramos e melhorando a coloração da película dos frutos.

Em pessegueiros podados no verão (poda verde), a poda de inverno deve ser antecipada. As árvores, assim podadas, produzem frutos com melhor coloração, obtendo-se também controle sobre o vigor da planta.

Poda de frutificação

A poda de frutificação, é executada objetivando-se limitar e equilibrar o número de ramos vegetativos e frutíferos e a manter a forma da copa, interferindo-se na tendência natural da planta de crescer demasiadamente em altura.

Os ramos formados no ciclo vegetativo do ano anterior podem ser classificados como vegetativos ou frutíferos. São vegetativos aqueles lenhosos e fortes, que se formam, principalmente, quando a árvore é nova, rejuvenescida ou demasiadamente vigorosa. Os ramos frutíferos são os chamados "mistos", isto é, aqueles que possuem gemas vegetativas e floríferas, isoladas ou agrupadas.

No pessegueiro, os ramos de um ano possuem dois tipos de gemas: as vegetativas, que originam as folhas, e as floríferas ou frutíferas, das quais se desenvolvem os frutos. As gemas vegetativas são menores, mais alongadas e pontudas, enquanto que as floríferas são ovaladas, quase esféricas, com escamas mais abertas e mais claras.

Em determinadas cultivares, as gemas floríferas desenvolvem-se na base dos ramos mistos. Em outras, estão situadas na extremidade, mas podem, também, distribuir-se regularmente no ramo.

A intensidade da poda depende da cultivar, do vigor e estado nutricional da planta e da distância entre gemas.

Inicia-se a poda de frutificação pela remoção de ramos quebrados, doentes, secos ou mal localizados. Finalmente, faz-se um desponte de, aproximadamente, um terço no lançamento do ano e o desponte dos ramos de frutificação. Isso depende, basicamente, da cultivar e da distância entre gemas floríferas nos ramos de um ano e, particularmente, da capacidade de frutificação efetiva que determinada cultivar apresente nas condições locais.

Poda de renovação

Logo após a colheita, elimina-se toda a copa com auxílio de serrote, deixando-se somente os ramos principais (pernadas), com um comprimento de 30 a 50cm. Os cortes devem ser protegidos com pasta bordalesa. Após a brotação, são selecionados, em cada ramificação principal, dois ou três brotos, dirigidos para fora. Todos os ramos que se dirijam para o interior da copa devem ser eliminados. Desse ponto em diante, dá-se, à planta, a formação desejada.

Raleio

Quando a frutificação é excessiva, ou está distribuída desuniformemente na planta, torna-se necessário realizar o raleio, que consiste na remoção do excesso de frutos.

Um número demasiado de frutos resulta em redução de tamanho e alterações nas características organolépticas. Nessas condições, os frutos apresentam-se com coloração menos intensa e com qualidade inferior comparativamente àqueles remanescentes em uma planta bem menos carregada. Em plantas não raleadas, sempre há uma limitação do crescimento vegetativo, já que os nutrientes absorvidos são utilizados, fundamentalmente, para a produção de frutos, com prejuízo de formação das gemas florais no período vegetativo.

Objetivos do raleio
Aumentar o tamanho dos frutos;
Melhorar a coloração e a qualidade;
Reduzir a quebra de galhos e pernadas;
Evitar a produção alternada;
Tornar as plantas mais resistentes às baixas temperaturas;
Eliminar frutos atacados por pragas e/ou doenças;
Aumentar a eficiência dos tratamentos fitossanitários;
Reduzir os custos de colheita.

Época

Quanto mais cedo for realizado o raleio (durante o florescimento ou imediatamente após, até 30 dias depois da queda das pétalas), melhores serão os resultados, particularmente com referência ao tamanho do fruto.
Nas condições de cultivo do Sul do Brasil, onde a ocorrência de geadas durante a floração é comum, o raleio muito cedo não é aconselhável. Essa operação deve ser retardada até que os possíveis danos por geada estejam afastados. Geralmente, é realizada logo depois da queda natural dos frutinhos, cerca de cinco semanas após a floração plena ou quando estes atingirem um diâmetro de 1,5 a 2cm.

O raleio deve ser iniciado pelas cultivares precoces, seguindo-se as de meia-estação e, por último, as tardias.

Intensidade

A necessidade de raleio pode variar de acordo com as cultivares. Também o tipo e a forma de poda, o sistema de condução, o espaçamento e a fertilidade do solo são fatores a serem considerados na determinação da necessidade dessa prática.

O raleio é mais necessário em plantas já completamente desenvolvidas, mas com pequeno crescimento anual, e em plantas com reduzido vigor e pequena superfície foliar do que em árvores jovens e vigorosas.

Na prática, dois métodos são, geralmente, utilizados para a realização do raleio. No primeiro método, deixa-se uma distância mínima de 8 a 10 cm entre os frutos dos ramos vigorosos e de 12 a 15 cm no caso de ramos menos vigorosos. Frutos de ramos muito fracos devem ser eliminados.

No segundo, o raleio baseia-se no fato de que a capacidade de produção da planta depende do tamanho e vigor, o que determina o número de frutos a serem deixados. Na prática, mede-se a circunferência do tronco a 20 cm acima do solo e transforma-se esse dado em área de seção do tronco. Se o pomar for uniforme, mede-se cinco plantas por hectare para que se obtenha a média do vigor das árvores.

Qualquer que seja o método utilizado para se determinar à intensidade de raleio, deverá ser mais intenso para as cultivares de maturação precoce e ciclo mais curto. Na Tabela 23 encontra-se a relação entre o perímetro do tronco e o número de frutos a se deixar na planta após o raleio, conforme a época de maturação das cultivares.

Tipos de Raleio

Raleio manual - O raleio deve ser iniciado pela eliminação de frutos machucados, doentes, manchados, picados ou tortos. Depois, retiram-se outros frutos, de modo a se deixar os remanescentes espaçados o mais uniformemente possível, levando-se em consideração outros fatores, como o vigor dos ramos e a posição do fruto na árvore. Sempre que houver dois ou mais frutos juntos, deve ficar na planta aquele voltado para baixo. Os frutos maiores e de melhor coloração são produzidos nos ramos novos e mais vigorosos.

Enfim, nesses aspectos práticos, ninguém melhor que o fruticultor para conhecer seu pomar e, usando o bom senso, escolher a forma mais adequada de conduzir o raleio.

 

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