Embrapa Clima Temperado
Sistemas de Produção, 4
ISSN 1806-9207 Versão Eletrônica
Nov./2005

Cultivo do Pessegueiro

Autores

Sumário
Início
 
Importância Econômica
Clima
Solos
Adubação e Calagem
Cultivares
Produção e Obtenção de Mudas
Instalação do Pomar
Irrigação
Práticas Culturais
Manejo das Plantas Daninhas
Doenças e Métodos de Controle
Pragas e Métodos de Controle
Nematóides e Métodos de Controle
Normas Gerais Sobre Uso de Agrotóxicos
Colheita e Pós-Colheita
Industrialização do Pêssego em Calda
Coeficientes Técnicos, Custos, Rendimentos e Rentabilidade
Referências
Glossário
Autores
 
Expediente 
Nematóides e métodos de controle
 

Entre as doenças que afetam a produtividade de fruteiras de clima temperado, aquelas causadas por nematóides assumem grande importância em virtude dos sérios prejuízos causados à planta e, indiretamente, ao produtor, pela redução dos lucros. Os nematóides fitoparasitas prejudicam as plantas pela ação nociva sobre o sistema radicular que, por sua vez, afeta a absorção e a translocação de nutrientes, alterando a fisiologia da planta. Esses organismos também podem predispor a planta a doenças e a estresses ambientais ou atuarem como transmissores de outros patógenos.

Doenças causadas por nematóides

Entre fruteiras de caroço, a maioria dos trabalhos associados com fitonematóides foi realizada com a cultura do pessegueiro. Já foram relatadas mais de 30 espécies de nematóides fitoparasitas em pessegueiro, destacando-se como mais importantes Meloidogyne spp., Mesocriconema spp., Xiphinema spp. e Pratylenchus spp. Esses nematóides podem reduzir o vigor e a produção do pomar e, ocasionalmente, em conjunto com outros fatores, causar a morte da planta.

Nematóides-das-galhas

Distribuição geográfica - Os fitonematóides desse gênero têm sido relatados, freqüentemente, causando danos econômicos em fruteiras de caroço nas mais variadas regiões do mundo. As principais espécies prejudiciais ao pessegueiro são: M. javanica, M. incoginta, M. arenaria e M. hapla. Em levantamentos realizados em pomares de pessegueiro do Rio Grande do Sul, as espécies detectadas e associadas com maior freqüência ao sistema radicular das plantas, foram M. javanica e M. incoginta.

Sintomatologia - Visualmente pode ser observada a presença de engrossamento (galhas) nas raízes do pessegueiro atacado. As plantas afetadas apresentam sinais de enfraquecimento, baixa produção, desfolhamento precoce e declínio prematuro, podendo ocorrer, ocasionalmente, a morte da planta, sendo os sintomas potencializados sob condições de seca.

Ciclo de vida e epidemiologia - As espécies de Meloidogyne que atacam o pessegueiro inicialmente penetram na raiz, na fase infectiva - juvenil de segundo estágio(J2). Posteriormente, os machos adultos abandonam o sistema radicular, e, as fêmeas, permanecem no interior das raízes, como endoparasitas sedentárias, até o final do seu ciclo de vida, induzindo a formação de galhas. O ciclo de vida do nematóide das galhas é de aproximadamente quatro semanas, podendo prolongar-se sob condições de temperatura mais favoráveis. Temperaturas inferiores a 20oC ou superiores a 35oC e condições de seca ou de encharcamento do solo afetam o desenvolvimento e a sobrevivência do nematóide. Geralmente, o pessegueiro sofre mais danos, pelo nematóide, em solos arenosos do que em solos de textura mais fina.

Controle - A produção de mudas em viveiro deve ser realizada em locais isento de nematóides, uma vez que plantas contaminadas são importantes agentes de disseminação desse patógeno e de outras doenças, podendo comprometer a sanidade do pomar futuramente. Para produção de mudas em viveiro, é importante que se envie, anteriormente ao plantio, uma amostra de raízes e de solo do local para um laboratório especializado, visando à determinação da presença e identificação de possíveis nematóides fitoparasitas.

O plantio de mudas certificadas, isentas de Meloidogyne spp é a medida de controle mais importante. No caso de detecção de nematóides prejudiciais ao pessegueiro, deve-se proceder à rotação de culturas na área infestada por, no mínimo, dois anos consecutivos. Entretanto, um ano antes do estabelecimento do pomar, recomenda-se amostragem do local para análise nematológica.

A utilização de porta-enxertos resistentes ou tolerantes é uma alternativa barata que pode ser adotada pelo agricultor quando detectada a presença do nematóide no local de plantio. Na Tabela 26 são listados alguns materiais que apresentam resistência às espécies de nematóides mais freqüentes no Brasil. As cultivares, Capdeboscq e Aldrighi, as mais utilizadas como porta-enxerto, no sul do País, são de baixa resistência à Meloidogyne spp. Os porta-enxertos Nemaguard, Nemared, Okinawa são resistentes ao nematóide-das-galhas; entretanto, os dois primeiros apresentam problemas de adaptação às condições climáticas brasileiras. A cultivar Okinawa produz grande porcentagem de caroços com dois embriões, porém esse problema pode ser resolvido através da propagação por estaquia. `Flordaguard´, material proveniente da Flórida, EUA, apresenta características altamente desejáveis, possuindo além de elevada resistência a nematóides, baixa exigência em frio. Embora pouco conhecidos no Brasil, `Myrabolan 29C´e `Mariana 2426´ são materiais provenientes de ameixeira, que não apresentam problemas de compatibilidade com diversas cultivares de pessegueiro, tendo, ainda, tolerância a solos mal drenados e imunidade às espécies do nematóide-das-galhas de maior freqüência. Entretanto, ainda não há informações sobre o comportamento destes dois porta-enxertos nas condições brasileiras.

A utilização da rotação de culturas, além de melhorar a estrutura do solo, é uma boa opção para áreas altamente infestadas com nematóides, seja para instalação de viveiros e novos pomares, seja para uso como cultura intercalar ou em consorciação. O cultivo alternado de espécies antagônicas de inverno e de verão por um período de pelo menos dois anos pode permitir a reutilização da área onde foi detectada a presença do nematóide.

O controle químico de nematóides através do uso de nematicidas é antieconômico e pouco eficiente, podendo causar, também, sérios problemas à saúde humana e contaminar o meio ambiente. No Brasil, ainda não se dispõe de nenhum nematicida registrado para a cultura do pessegueiro.

Nematóide-anelhado

Distribuição Geográfica e Ocorrência - Os nematóides anelados são comumente disseminados e associados a muitas plantas hospedeiras. Mesocroconema xenoplax e M. curvata são os principais fitonematóides deste grupo que afetam as fruteiras de caroço e a amendoeira. Estes nematóides são amplamente distribuídos, tendo sido detectados na América do Norte, Europa, África, Ásia e América do Sul. Altas populações de M. xenoplax são freqüentemente encontradas em pomares de pessegueiro, afetando as plantas.

No Brasil, a ocorrência de M. xenoplax, associada à morte-precoce-do pessegueiro, vem do Estado de São Paulo. No Rio Grande do Sul, essa espécie está amplamente distribuída nos pomares de pessegueiro. Estudos realizados no início da década de 90, na região sul do Rio Grande do Sul, demonstraram a correlação positiva entre populações desse nematóide e os sintomas de morte precoce em pessegueiro.

Ciclo de vida e Epidemiologia

M. xenoplax, alimenta-se das raízes da planta, como um ectoparasita, em todas as fases de sua vida, induzindo alterações celulares nos sítios de alimentação. O nematóide anelado pode permanecer no mesmo local parasitado da raiz, por até oito dias. A duração do ciclo de vida varia de quatro a oito semanas, dependendo da temperatura, da umidade, do pH, do tipo de solo e da planta hospedeira. Sob temperatura de 24oC, o ciclo de vida é de 30 dias. Entretanto, as populações desse nematóide também se reproduzem no inverno, quando a temperatura do solo varia entre 7ºC e 13oC.

Danos e Sintomatologia - M. xenoplax é o nematóide mais amplamente disseminado na região produtora de pêssego do Rio Grande do Sul. O parasitismo de raízes de pessegueiro por este organismo pode causar destruição, atrofiamento e morte das raízes, interferindo, conseqüentemente, na dormência e capacidade da planta em suportar estresses.

Estudos sobre a avaliação de níveis populacionais críticos deste nematóide no solo mostraram que populações iguais ou superiores a 1000 nematóides/100 cm3 de solo causaram sintomas de morte. Porém, em pomares bem conduzidos, onde os sintomas de morte foram constatados, foram observadas populações duas a três vezes maiores, evidenciando que os tipos de práticas culturais e nutrição de plantas adotadas influenciaram na manifestação da síndrome.

Controle

As primeiras medidas de controle estão relacionadas à produção ou à aquisição de mudas livres de nematóides parasitas e ao plantio em áreas isentas dos patógenos. Na implantação de viveiros ou instalação de pomares, é importante a realização de análise nematológica do solo para a identificação das espécies incidentes. Caso seja detectada a presença de nematóides prejudiciais à cultura no local de instalação do viveiro, recomenda-se, a substituição da área, ou o emprego de rotação de cultura com espécies não hospedeiras, por um período mínimo de dois anos ou, ainda, a desinfecção do solo com produto fumigante, em pré-plantio.

Da mesma forma, em caso de detecção da presença de M. xenoplax no local onde serão instalados novos pomares, é importante conhecer o nível populacional do mesmo. Trabalhos realizados nos Estados Unidos mostraram que o limiar de dano econômico para a cultura é de 50 M. xenoplax/100 cm3 de solo. Mantendo-se as populações do nematóide abaixo desse nível, a longevidade dos pessegueiros e a manutenção da produtividade podem ser assegurados. As estratégias utilizadas para o controle baseiam-se, principalmente, no uso de rotação de culturas e no plantio de pessegueiro sobre porta-enxertos tolerantes (Tabela 26), visto que até o momento não existem cultivares resistentes a essa espécie de nematóide.

O controle químico mediante o uso de nematicidas, é anti-econômico e pouco efetivo. Em excesso, esses produtos são extremamente tóxicos ao homem e ao meio ambiente. Até o momento, não se dispõe de nematicidas registrados para a cultura do pessegueiro no Brasil. Isto se deve, principalmente, ao pouco interesse das empresas pela cultura. Em países como os Estados Unidos, o controle químico de nematóides é feito com os nematicidas 1,3-dicloropropene, liberado somente para aplicação em pré-plantio, e Fenamifós, para uso em pós-plantio. Porém, os custos elevados das aplicações têm desestimulado a utilização dos referidos produtos.

As cultivares Nemaguard, Lovell e Flordaguard, apesar de permitirem a reprodução de M. xenoplax, são tolerantes às altas populações do nematóide presentes no campo. Entretanto, deve-se considerar que `Lovell´ é altamente suscetível a Meloidogyne spp. e 'Nemaguard' apresenta problemas de adaptação em solos arenosos. Por sua vez, 'Flordaguard' reúne várias características favoráveis, como resistência ao nematóide-das-galhas, pouca exigência em frio e tolerância ao cultivo em solos arenosos.

Além de controlar o nematóide, deve-se efetuar algumas práticas culturais que são fundamentais para reduzir as perdas de plantas por PTSL:

  • Fazer a aplicação de calcário em pré-plantio, corrigindo-se o pH para 6,5;
  • Efetuar a poda tardiamente, preferencialmente, próximo à floração;
  • Fazer adubações e aplicação de calcário de acordo com as necessidades da cultura, baseando-se em análise de solo e foliar.

Nematóide adaga (Xiphinema spp.)

Entre as espécies deste gênero, Xiphinema americanum (grupo americano) é considerado o nematóide de maior importância econômica. O nematóide-adaga reduz o vigor das plantas, agindo, ainda, como vetor de viroses na cultura do pessegueiro. Esses nematóides alimentam-se como ectoparasitas, causando necroses radiculares e dilatações na ponta das raízes finas. Sob alta infestação, é comum a redução na produção e o retardo no crescimento das plantas.

Nematóide-das-lesões (Pratylenchus spp.)

O nematóide-das-lesões pode afetar o estabelecimento, o crescimento e a longevidade do pomar, bem como a produção de frutas. Entre as espécies desse gênero, Pratylenchus penetrans, P. vulnus, P. coffeae e P. brachyurus são consideradas as mais importantes economicamente na produção de frutas e amêndoas. P. penetrans e P. vulnus são as espécies mais danosas ao pessegueiro. Esses patógenos se alimentam como endoparasitas migradores, causando lesões necróticas (escurecimento) nas raízes, em virtude da movimentação intracelular nos tecidos parasitados. No pessegueiro, esses nematóides causam degeneração do sistema radicular, predispondo a planta a infecções causadas por outros microrganismos fitopatogênicos.

No Brasil, os nematóides do gênero Pratylenchus e de outras espécies como Helicotylenchus, Tylenchus, Paratylenchus, Trichodorus, Paratrichodorus, Hemicycliophora e Rotylenchus têm sido freqüentemente detectados em pomares de pessegueiro, porém sob baixos níveis populacionais. Pouco se sabe sobre seus danos na cultura do pessegueiro, não tendo sido confirmada patogenicidade, até o presente momento.

 

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