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Considerações
gerais
Entre os principais fatores que limitam a obtenção de altos
rendimentos em soja estão as doenças. Aproximadamente 40
doenças causadas por fungos, bactérias, nematóides
e vírus já foram identificadas no Brasil. Esse número
continua aumentando com a expansão da soja para novas áreas
e como conseqüência da monocultura. A importância econômica
de cada doença varia de ano para ano e de região para região,
dependendo das condições climáticas de cada safra.
As perdas anuais de produção por doenças são
estimadas em cerca de 15% a 20%, entretanto, algumas doenças podem
ocasionar perdas de quase 100%.
Na safra 2001/2002 uma nova doença, a ferrugem da soja causada
pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, foi detectada desde o Rio Grande do
Sul até o Mato Grosso causando perdas significativas em lavouras
isoladas. Atualmente, é a maior ameaça potencial, preocupando
tanto a pesquisa quanto os produtores pelos prejuízos que causa
na Ásia e África onde ocorre há anos.
A expansão de áreas irrigadas nos Cerrados tem possibilitado
o cultivo da soja no outono/inverno para a produção de sementes.
Esse cultivo favorece a sobrevivência dos fungos causadores da antracnose,
do cancro da haste, da podridão branca da haste, da podridão
vermelha da raiz e dos nematóides de galhas e do de cisto. Os cultivos
do feijão, da ervilha, da melancia e do tomate, que são
também realizados sob irrigação na mesma época,
são afetados pela podridão branca da haste, pela podridão
radicular e mela de Rhizoctonia (R. solani) e pelos nematóides
de galhas e nematóides de cisto (feijão e ervilha), aumentando
o potencial de inóculo desses patógenos para a safra seguinte
de soja.
A maioria dos patógenos é transmitida através das
sementes e, portanto, o uso de sementes sadias ou o tratamento das sementes
é essencial para a prevenção ou a redução
das perdas. Os exemplos mais evidentes de doenças que são
disseminadas através das sementes são a antracnose (Colletotrichum
dematium var. truncata), a seca da haste e vagem (Phomopsis spp.), a mancha
púrpura da semente e o crestamento foliar de Cercospora (Cercospora
kikuchii), a mancha "olho-de-rã" (Cercospora sojina),
a mancha parda (Septoria glycines) e o cancro da haste (Diaporthe phaseolorum
f.sp. meridionalis).
O nematóide de cisto da soja (Heterodera glycines Ichinohe), identificado
pela primeira vez na Região dos Cerrados em 1991/92, na safra 1996/97
já havia sido constatado em mais de 60 municípios brasileiros
nos estados do Rio Grande do Sul, do Paraná, de São Paulo,
de Goiás, de Minas Gerais, do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul.
A cada safra, diversos municípios são acrescentados à
lista de municípios atingidos, representando um grande desafio
para a pesquisa, a assistência técnica e o produtor brasileiro
de soja.
Doenças identificadas no Brasil
As seguintes doenças da soja foram identificadas no Brasil. Suas
ocorrências podem variar de esporádicas ou restritas à
incidência generalizada nacionalmente. São relacionados os
nomes comuns e seus respectivos agentes para as doenças causadas
por fungos, bactérias, vírus e nematóides. A identificação
das doenças e a avaliação das perdas geralmente exigem
treinamentos especializados.
Doenças fúngicas
Doenças foliares
Doenças da haste, vagem e semente
Doenças radiculares
Doenças bacterianas
Doenças causadas por vírus
Doenças causadas por nematóides
Doenças de causa não definida
Principais doenças e medidas de controle
Portanto, a convivência econômica com as doenças
depende da ação de vários fatores de um sistema integrado
de manejo da cultura.
Ferrugem (Phakopsora pachyrhizi)
A ferrugem da soja é causada por duas espécies de fungo
do gênero Phakopsora: a P. meibomiae (Arth.) Arth., causadora da
ferrugem "americana", que ocorre naturalmente em diversas leguminosas
desde Porto Rico, no Caribe, ao sul do Estado do Paraná (Ponta
Grossa) e a P. pachyrhizi Sydow & P. Sydow, causadora da ferrugem
"asiática", presente na maioria dos países que
cultivam a soja e, a partir da safra 2000/01, também no Brasil
e no Paraguai. A distinção das duas espécies é
feita através da morfologia de teliósporos e da análise
do DNA.
Ferrugem "americana" - A ferrugem "americana"
foi identificada no Brasil, em Lavras (MG), em 1979. Sua ocorrência
é mais comum no final da safra, em soja "safrinha" (outono/inverno)
e em soja guaxa, estando restrita às áreas de clima mais
ameno. O fungo P. meibomiae raramente causa danos econômicos. Além
da soja, o fungo infecta diversas leguminosas, sendo mais freqüentemente
observada na soja perene, Neonotonia wightii (sinon. Glycine javanica).
Ferrugem "asiática" - A ferrugem asiática
foi constatada pela primeira vez no Continente Americano no Paraguai,
em 5 de março e no Estado do Paraná, em 26 de maio de 2001.
Na safra 2001/02 apresentou grande expansão atingindo os estados
do RS, de SC, do PR, de SP, de MG, do MS, do MT e de GO. A doença
é favorecida por chuvas bem distribuídas e longos períodos
de molhamento. A temperatura ótima para o seu desenvolvimento varia
entre 18o-28oC. Em condições ótimas, as perdas na
produtividade podem variar de 10% a 80%. Estima-se que mais de 60% da
área de soja do Brasil foi atingida pela ferrugem na safra 2001/02,
resultando em perdas de 112.000 t ou US$24,70 milhões.
Sintomas - O sintoma da ferrugem "americana" difere do
da ferrugem "asiática" apenas pela predominância
da coloração castanho-avermelhada ("reddish-brown -
RB") das lesões.
Na ferrugem "asiática", as lesões das cultivares
suscetíveis são predominantemente castanho-claras ("TAN")
porém, quando em alta incidência pode causar crestamento
foliar, assemelhando ao crestamento foliar de Cercospora; em cultivares
resistentes ou tolerantes, as lesões são predominantemente
castanho-avermelhadas (RB).
Os sintomas iniciais da ferrugem são caracterizados por minúsculos
pontos (1-2mm de diâmetro) mais escuros do que o tecido sadio da
folha, de uma coloração esverdeada a cinza-esverdeada. Devido
ao hábito biotrófico (nutre-se do tecido vivo das plantas)
do fungo, em cultivares suscetíveis, as células infectadas
morrem somente após ter ocorrido abundante esporulação.
Devido a isso, as lesões não são facilmente visíveis
no início da infecção. Para melhor visualização
das lesões nesse estádio, deve-se tomar uma folha suspeita
e olhá-la através do limbo foliar pela face superior (adaxial),
contra um fundo claro (o céu, por exemplo). Uma vez localizado
o ponto suspeito (1-2mm de diâmetro), deve-se confirmar, observando
o ponto escuro pela face superior (abaxial) da folha verificando, com
uma lupa de 10x a 30x de aumento, ou sob um microscópio estereoscópico,
a formação das urédias. No local correspondente ao
ponto escuro, observa-se, inicialmente, uma minúscula protuberância,
semelhante a uma ferida (bolha) por escaldadura, sendo essa o início
da formação da estrutura de frutificação do
fungo. À medida que ocorre a morte dos tecidos infectados, as manchas
aumentam de tamanho (1-4mm) e adquirem coloração castanho-avermelhada.
Para facilitar a visualização das urédias com a lupa
ou microscópio, fazer com que a luz incida com a máxima
inclinação sobre a face abaxial da folha, de modo a formar
sombra de um dos lados das urédias. Esse procedimento permite a
observação das urédias, a campo, mesmo sem o auxílio
de uma lupa de bolso (a olho-nú). Progressivamen te, as urédias,
também chamadas de "pústulas", adquirem cor castanho-clara
a castanho-escura, abrem-se em um minúsculo poro, expelindo os
uredosporos. Os uredosporos, inicialmente de coloração hialina
(cristalina), tornam-se bege e acumulam-se ao redor dos poros ou são
carregados pelo vento. O número de urédias (ou pústulas),
por ponto, pode variar de um a seis. À medida que prossegue a esporulação,
o tecido da folha ao redor das primeiras urédias adquire coloração
castanho-clara (lesão do tipo "TAN") a castanho-avermelhada
(lesão do tipo "reddish-brown"- RB), formando as lesões
que são facilmente visíveis em ambas as faces da folha.
As urédias que deixaram de esporular apresentam as pústulas,
com os poros abertos, o que permite distinguir da pústula bacteriana,
freqüente causa de confusão.
A ferrugem pode também ser facilmente confundida com as lesões
iniciais de mancha parda (Septoria glycines Hemmi) que forma um halo amarelo
ao redor da lesão necrótica, que é angular e castanho-avermelhada.
Em ambos os casos, as folhas infectadas amarelam, secam e caem prematuramente.
A semelhança dos sintomas das doenças de final de ciclo
(mancha parda e crestamento foliar de Cercospora) com o da ferrugem e
o uso de fungicidas para controle de doenças de final de ciclo
podem ter feito com que a ferrugem não fosse identificada em muitas
lavouras e regiões onde ela não foi registrada na safra
2001/02. Outra doença com que a ferrugem poderá ser confundida
é o crestamento bacteriano (Pseudomonas savastanoi pv. glycinea).
Uma forma de facilitar a visualização da presença
do fungo nas lesões, vistas pela face inferior da folha (abaxial),
consiste em coletar folhas suspeitas de terem a ferrugem, colocá-las
rapidamente em saco plástico, antes que murchem, e mantê-las
em incubação por um período de 12 a 24 horas sobre
a mesa de trabalho. Caso a umidade do ambiente no momento da coleta seja
muito baixa, borrifar um pouco de água sobre as folhas ou colocar
papel umedecido para manter as folhas túrgidas. Não colocar
folha com excesso de umidade no saco plástico. Após o período
de incubação, observar a presença de urédias
com o auxílio de uma lente ou da luz tangente sobre a superfície
abaxial da folha.
Modo de disseminação - A disseminação
da ferrugem é feita unicamente através da dispersão
dos uredosporos pelo vento.
Efeitos da ferrugem - A infecção por P. pachyrhizi
causa rápido amarelecimento ou bronzeamento e queda prematura das
folhas, impedindo a plena formação dos grãos. Quanto
mais cedo ocorrer a desfolha, menor será o tamanho dos grãos
e, conseqüentemente, maior a perda do rendimento e da qualidade (grãos
verdes). Em casos severos, quando a doença atinge a soja na fase
de formação das vagens ou no início da granação,
pode causar o aborto e a queda das vagens, resultando em até perda
total do rendimento. Elevadas perdas de rendimento têm sido registradas
na Austrália (80%), na Índia (90%) e em Taiwan (70%-80%).
No Brasil, os danos mais severos foram observados em Goiás (Chapadão
do Céu) e no Mato Grosso do Sul (Chapadão do Sul) onde houve
redução de rendimentos, de uma safra para outra, de 55-60
sacos/ha (3.300-3.600 kg/ha) (2000/01) para 14-15 sacos/ha (840-900 kg/ha)
(2001/02).
Manejo - O fato de ser uma doença de ocorrência recente
e a limitada disponibilidade de informações sobre as influências
que as condições climáticas das distintas regiões
de cultivo da soja poderão exercer sobre a severidade da doença
nas próximas safras, torna difícil fazer uma recomendação
genérica de controle que satisfaça a todas as regiões.
Todavia, nos estados e municípios onde a ferrugem foi constatada
na safra 2001/02, as seguintes estratégias de controle ou manejos
podem ser adotados: 1. aumentar a área de rotação
com milho ou algodão (nos Cerrados), a fim de evitar perdas por
ferrugem na soja; 2. semear cultivares mais precoces, concentrando os
cultivos no início da época de semeadura indicada para cada
região (não se deve semear grandes áreas em poucos
dias, o que poderá ocasionar perdas ou danos por deterioração,
devido ao atraso na colheita); 3. evitar a semeadura em várias
épocas e com cultivares tardias, pois a soja semeada mais tardiamente
(ou de ciclo longo) irá sofrer mais dano por receber a carga de
esporos do fungo multiplicados nos primeiros cultivos; e 4. cultivares
resistentes - dentre 452 cultivares comerciais testadas para reação
à ferrugem, em casa-de-vegetação (Londrina) e a campo
(Ponta Grossa), as seguintes cultivares apresentaram reação
uniforme, variando de resistente a moderadamente resistente: BRS 134,
BRSMS Bacuri (Tabela 11.).
Embora limitada, existe a possibilidade de controle da ferrugem através
das cultivares tolerantes/resistentes, mencionadas acima.
Doenças de final de ciclo
Sob condições favoráveis, as doenças foliares
de final de ciclo, causadas por Septoria glycines (mancha parda) e Cercospora
kikuchii (crestamento foliar de Cercospora), podem reduzir o rendimento
em mais de 20%, o que equivale à perda anual de cerca de quatro
milhões de toneladas de soja. Ambas ocorrem na mesma época
e, devido às dificuldades para avaliá-las individualmente,
são consideradas como o "complexo de doenças de final
de ciclo". O fungo C. kikuchii também causa a mancha púrpura
na semente, reduzindo a qualidade e a germinação. As perdas
serão maiores se forem associados aos danos causados por outras
doenças (ex. cancro da haste, antracnose, nematóides de
galhas, nematóide de cisto, podridão branca da haste).
A incidência dessas doenças pode ser reduzida através
da integração do tratamento químico das sementes
com a incorporação dos restos culturais e a rotação
da soja com espécies não suscetíveis, como o milho
e a sucessão com o milheto. Desequilíbrios nutricionais
e baixa fertilidade do solo tornam as plantas mais susceptíveis,
podendo ocorrer severa desfolha antes mesmo de a soja atingir a meia grana
(estádio de desenvolvimento R5.4) (Tabela
11.2). A Tabela
11.3 apresenta os fungicidas recomendados para controle. A aplicação
deve ser feita entre os estádios R5.1 e R5.5 se as condições
climáticas estiverem favoráveis à ocorrência
das doenças, isto é, chuvas freqüentes e temperaturas
variando de 22o a 30oC. A ocorrência de veranico durante o ciclo
da cultura reduz a incidência, tornando desnecessária a aplicação
de fungicidas.
Mancha "olho-de-rã" (Cercospora sojina)
Identificada pela primeira vez em 1971, a mancha "olho-de-rã"
chegou a causar grandes prejuízos na Região Sul e nos Cerrados.
No momento, está sob controle devido ao uso de cultivares resistentes
(Tabela 11.1), sendo raramente
observada. Devido à capacidade do fungo em desenvolver raças
(25 raças já foram identificadas no Brasil), é importante
que, além do uso de cultivares resistentes, haja também
a diversificação regional de cultivares, com fontes de resistência
distintas.
O uso de cultivares resistentes e o tratamento de sementes com fungicidas,
de forma sistemática, são fundamentais para o controle da
doença e para evitar a introdução do fungo ou de
uma nova raça de C. sojina em áreas onde ela não
esteja presente.
Oídio (Microsphaera diffusa)
O oídio é uma doença que, a partir da safra 1996/97,
tem apresentado severa incidência em diversas cultivares em todas
as regiões produtoras, desde os Cerrados ao Rio Grande do Sul.
As lavouras mais atingidas podem ter perdas de rendimento de até
40%.
Esse fungo infecta diversas espécies de leguminosas. É um
parasita obrigatório que se desenvolve em toda a parte aérea
da soja, como folhas, hastes, pecíolos e vagens (raramente observada).
O sintoma é expresso pela presença do fungo nas partes atacadas
e por uma cobertura representada por uma fina camada de micélio
e esporos (conídios) pulverulentos que podem ser pequenos pontos
brancos ou cobrir toda a parte aérea da planta, com menor severidade
nas vagens. Nas folhas, com o passar dos dias, a coloração
branca do fungo muda para castanho-acinzentada, dando a aparência
de sujeira em ambas as faces. Sob condição de infecção
severa, a cobertura de micélio e a frutificação do
fungo, além do dano direto ao tecido das plantas, diminue a fotossíntese.
As folhas secam e caem prematuramente, dando à lavoura aparência
de soja dessecada por herbicida, ficando com uma coloração
castanho-acinzentada a bronzeada. Na haste e nos pecíolos, as estruturas
do fungo adquirem coloração que varia de branca a bege,
contrastando com a epiderme da planta, que adquire coloração
arroxeada a negra. Em situação severa e em cultivares altamente
suscetíveis, a colonização das células da
epiderme das hastes impede a expansão do tecido cortical e, simultaneamente,
causa o engrossamento do lenho, rachadura das hastes e cicatrizes superficiais.
A infecção pode ocorrer em qualquer estádio de desenvolvimento
da planta, porém, é mais visível por ocasião
do início da floração. Quanto mais cedo iniciar a
infecção, maior será o efeito da doença sobre
o rendimento. Baixa umidade relativa do ar e temperaturas amenas, que
ocorrem durante a entressafra, são altamente favoráveis
ao desenvolvimento do oídio.
As reações das cultivares indicadas no Brasil estão
apresentadas na Tabela 11.1.
Houve grande variação na reação de algumas
cultivares entre as localidades onde foram feitas as avaliações.
Essas variações podem indicar a existência de variabilidade
(raças fisiológicas) entre as populações do
fungo de diferentes localidades.
O método mais eficiente de controle do oídio é através
do uso de cultivares resistentes. Devem ser utilizadas as cultivares que
sejam resistentes (R) a moderadamente resistentes (MR) ao fungo. Outra
forma de evitar perdas por oídio é não semear cultivares
suscetíveis nas épocas mais favoráveis à ocorrência
da doença, tais como semeaduras tardias ou safrinha e cultivo sob
irrigação no inverno. O controle químico, através
da aplicação de fungicidas foliares (Tabela
11.4) poderá ser utilizado. Para o controle de oídio
nos estádios iniciais indica-se usar preferencialmente o enxofre
(2 kg i.a./ha), que causa menor impacto sobre o fungo. O momento da aplicação
depende do nível de infecção e do estádio
de desenvolvimento da soja. A aplicação deve ser feita quando
o nível de infecção atingir de 40% a 50% da área
foliar da planta como um todo.
Cancro da haste (Diaporthe phaseolorum f.sp.
meridionalis; Phomopsis phaseoli f.sp. meridionalis)
Identificado pela primeira vez na safra 1988/89, no sul do
Estado do Paraná e em área restrita no Mato Grosso, na safra
seguinte foi encontrado em todas as regiões produtoras de soja
do País, tendo, até a safra 96/97, causado, ao nível
nacional, perda estimada em US$ 0,5 bilhão. Uma vez introduzido
na lavoura através de sementes e de resíduos contaminados
em máquinas e implementos agrícolas, o fungo multiplica-se
nas primeiras plantas infectadas e, posteriormente, durante a entressafra,
nos restos de cultura. Iniciando com poucas plantas infectadas no primeiro
ano, o cancro da haste pode causar perda total, na safra seguinte.
O fungo é altamente dependente de chuvas para disseminar os esporos
dos restos de cultura para as plântulas em desenvolvimento. Quanto
mais freqüentes forem as chuvas nos primeiros 40 a 50 dias após
a semeadura, maior a quantidade de esporos do fungo que serão liberados
dos restos de cultura e atingirão as hastes das plantas. Após
esse período, a soja estará suficientemente desenvolvida
e a folhagem estará protegendo o solo e os restos de cultura do
impacto das chuvas, portanto, liberando menos inóculo.
Além das condições climáticas, os níveis
de danos causados à soja dependem da suscetibilidade, do ciclo
da cultivar e do momento em que ocorrer a infecção. Como
o cancro da haste é uma doença de desenvolvimento lento
(demora de 50 a 80 dias para matar a planta), quanto mais cedo ocorrer
a infecção e quanto mais longo for o ciclo da cultivar,
maiores serão os danos. Nas cultivares mais suscetíveis,
o desenvolvimento da doença é mais rápido, podendo
causar perda total. Nas infecções tardias (após 50
dias da semeadura) e em cultivares mais resistentes, haverá menos
plantas mortas, com a maioria afetada parcialmente.
O controle da doença exige a integração de todas
as medidas capazes de reduzir o potencial de inóculo do patógeno
na lavoura: uso de cultivares resistentes, tratamento de semente, rotação/sucessão
de culturas, manejo do solo com a incorporação dos restos
culturais, escalonamento de épocas de semeadura, e adubação
equilibrada. Só utilizar guandu ou tremoço como adubo verde
antes da cultura da soja na certeza de utilizar cultivar de soja resistente.
O uso de cultivar resistente é a forma mais econômica e eficiente
de controle do cancro da haste. Na Tabela
11.1, estão apresentadas as reações ao cancro
da haste das cultivares comerciais, para os estados abrangidos por esta
publicação. Em áreas de semeadura direta, mesmo com
histórico de cancro da haste na safra anterior, o uso de cultivares
resistentes oferecerá bons rendimentos.
Antracnose (Colletotrichum dematium var. truncata)
A antracnose é uma das principais doenças da soja nas regiões
dos Cerrados. Sob condições de alta umidade, causa apodrecimento
e queda das vagens, abertura das vagens imaturas e germinação
dos grãos em formação. Pode causar perda total da
produção mas, com maior freqüência, causa alta
redução do número de vagens e induz a planta à
retenção foliar e haste verde. Geralmente, está associada
com a ocorrência de diferentes espécies de Phomopsis, que
causam a seca da vagem e da haste. Além das vagens, o Colletotrichum
dematium var. truncata infecta a haste e outras partes da planta, causando
manchas castanho escuras. É também possível que seja
uma das principais causadoras da necrose da base do pecíolo que,
nos últimos anos, tem sido responsável por severas perdas
de soja nos Cerrados e cuja etiologia ainda não está esclarecida.
Em anos com período prolongado de chuvas, após a semeadura
direta da soja, sobre a palha do trigo, em solo compactado, é comum
a morte de plântulas nos primeiros trinta dias. Em alguns casos,
é necessária a ressemeadura.
A alta intensidade da antracnose nas lavouras dos Cerrados é atribuída
à maior precipitação e às altas temperaturas,
porém, outros fatores como o excesso de população
de plantas, cultivo contínuo da soja, estreitamento nas entrelinhas
(35-43 cm), uso de sementes infectadas, infestação e dano
por percevejo e deficiências nutricionais, principalmente de potássio,
são também responsáveis pela maior incidência
da doença.
A redução da incidência de antracnose, nas condições
dos Cerrados, só será possível através de
rotação de culturas, maior espaçamento entre as linhas
(50 a 55 cm), população adequada (250.000 a 300.000 plantas/ha),
tratamento químico de semente e manejo adequado do solo, principalmente,
com relação à adubação potássica.
Observações a campo têm mostrado que, sob semeadura
direta e em áreas com cobertura morta, a incidência de antracnose
é menos severa. O manejo da população de percevejo
é também importante na redução de danos por
antracnose.
Seca da haste e da vagem (Phomopsis spp.)
É uma das doenças mais tradicionais da soja e,
anualmente, junto com a antracnose, é responsável pelo descarte
de grande número de lotes de sementes. Seu maior dano é
observado em anos quentes e chuvosos, nos estádios iniciais de
formação das vagens e na maturação, quando
ocorre o retardamento de colheita por excesso de umidade. Em solos com
deficiência de potássio, o fungo causa sério abortamento
de vagens, geralmente associado com a antracnose, resultando em haste
verde e retenção foliar. Cultivares precoces com maturação
no período chuvoso são severamente danificadas.
Sementes armazenadas sob condições de temperaturas amenas,
durante a entressafra, mantêm por mais tempo a viabilidade de Phomopsis
sojae e de Phomopsis spp. Sementes superficialmente infectadas por Phomopsis
spp., quando semeadas em solo úmido, geralmente emergem, porém,
o fungo desenvolvido no tegumento impede que os cotilédones se
abram e não permite que as folhas primárias se desenvolvam.
O tratamento da semente com fungicida resolve o problema.
Para o controle da seca da haste e da vagem, devem ser seguidas as mesmas
indicações para a antracnose.
Mancha alvo e podridão da raiz (Corynespora
cassiicola)
Surtos severos têm sido observados esporadicamente, desde as zonas
mais frias do Sul às chapadas dos Cerrados. Cultivares suscetíveis
podem sofrer completa desfolha prematura, apodrecimento das vagens e intensas
manchas nas hastes. Através da infecção na vagem,
o fungo atinge a semente e, desse modo, pode ser disseminado para outras
áreas. A infecção, na região da sutura das
vagens em desenvolvimento, pode resultar em necrose, abertura das vagens
e germinação ou apodrecimento dos grãos ainda verdes.
A podridão de raiz causada pelo fungo C. cassiicola é também
comum, principalmente em áreas de semeadura direta. Todavia, severas
infecções em folhas, vagens e hastes, geralmente não
estão associadas com a correspondente podridão de raiz.
Mais estudos são necessários para esclarecer se a espécie
do fungo que causa a mancha foliar é a mesma que infecta o sistema
radicular. A podridão de raiz é mais freqüente e está
aumentando com a expansão das áreas em semeadura direta.
Na Tabela 11.1, são
apresentadas as reações das cultivares à mancha alvo
baseadas em avaliações a campo e em casa-de-vegetação,
com inoculações artificiais.
Podridão parda da haste (Phialophora gregata)
Na safra 1988/89, a doença foi constatada pela primeira
vez em Passo Fundo (RS) e municípios vizinhos com morte de até
100% das plantas em algumas lavouras. Na safra 1991/92, além da
reincidência severa no Rio Grande do Sul, a doença foi constatada
também na região de Chapecó, em Santa Catarina.
A doença é de desenvolvimento lento, matando as plantas
na fase de enchimento de grãos. O sintoma característico
é o escurecimento castanho escuro a arroxeado da medula, em toda
a extensão da haste e seguida de murcha, amarelecimento das folhas
e freqüente necrose entre as nervuras das folhas, caracterizando
a folha "carijó". Essa doença não produz
sintoma externo na haste.
Observações preliminares têm indicado a existência
de cultivares comerciais com alto grau de resistência na Região
Sul. As experiências com a doença nos Estados Unidos, onde
o problema é importante e tem exigido grandes e prolongados investimentos,
indica que esse será mais um desafio para a produção
de soja no Brasil. A doença ainda não foi constatada na
Região Central do Brasil, estando restrita aos estados do Rio Grande
do Sul, Santa Catarina e Paraná; os planaltos dos Cerrados, acima
de 800 metros de altitude, podem oferecer condições para
o desenvolvimento da podridão parda. Para evitar a introdução
da doença no Cerrado será necessária a adoção
de medidas preventivas, como o tratamento com fungicidas das sementes
introduzidas daqueles três estados e a limpeza completa dos caminhões,
máquinas e implementos agrícolas que se movimentam daquela
região para a Região dos Cerrados, nas épocas de
semeadura e colheita.
Em áreas afetadas indica-se a rotação com milho ou
a semeadura de cultivares de soja que não tenham sido afetadas
na região.
Podridão vermelha da raiz (PVR) (Fusarium
solani f.sp. glycines)
Essa doença foi observada pela primeira vez na safra 1981/82, em
São Gotardo (MG). A partir da safra 96/97, ela está presente
desde o Maranhão ao Rio Grande do Sul, sendo os estados do Rio
Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná, do Mato Grosso, do
Mato Grosso do Sul, de Goiás e de Minas Gerais os mais afetados.
A podridão vermelha da raiz (PVR) ocorre em reboleiras ou de forma
generalizada na lavoura.
O sintoma de infecção na raiz inicia com uma mancha avermelhada,
mais visível na raiz principal, geralmente localizada um a dois
centímetros abaixo do nível do solo. Essa mancha se expande,
circunda a raiz e passa da coloração vermelho arroxeada
para castanho-avermelhada a quase negra. Essa necrose acentuada localiza-se
mais no tecido cortical, enquanto que o lenho da raiz adquire coloração,
no máximo, castanho-clara, estendendo-se pelo tecido lenhoso da
haste a vários centímetros acima do nível do solo.
Nessa fase, observa-se, na parte aérea, o amarelecimento prematuro
das folhas e, com maior freqüência, uma acentuada necrose entre
as nervuras das folhas, resultando no sintoma conhecido como folha "carijó".
Informações disponíveis até o momento indicam
que, com exceção de cultivares resistentes, nenhuma prática
agronômica tem sido adequada para reduzir o impacto da doença.
A rotação de cultura com o milho ou a cobertura com milheto
não controla a doença. Além disso, safras chuvosas
e semeadura direta favorecem a incidência da doença.
Podridão da raiz e da base da haste (Rhizoctonia
solani)
Essa doença foi constatada pela primeira vez na safra
1987/88, em Ponta Porã (MS), em Rondonópolis (MT) e em São
Gotardo (MG). Na safra 1989/90, foi constatada em Campo Novo dos Parecis,
Mato Grosso, em ocorrência esporádica. Na safra 1990/91,
foi constatada em Lucas do Rio Verde, Campo Verde e em Alto Garça,
Mato Grosso e em Chapadão do Sul, Mato Grosso do Sul.
A incidência da doença variou de algumas plantas mortas a
extensas reboleiras, onde se misturavam plantas mortas e plantas sem sintomas.
A morte das plantas começa a ocorrer a partir da fase inicial de
desenvolvimento das vagens. A ocorrência da doença, até
o momento, está restrita à região dos Cerrados associada
a anos de intensa precipitação.
O sintoma inicia-se por podridão castanha e aquosa da haste, próximo
ao nível do solo e estende-se para baixo e para cima, assemelhando
muito com a podridão de Phytophthora. Em fase posterior, o sistema
radicular adquire coloração castanho escura, o tecido cortical
fica mole e solta-se com facilidade, expondo um lenho firme e de coloração
branca a castanho-clara. Na parte superior, as plantas infectadas apresentam
clorose, as folhas murcham e ficam pendentes ao longo da haste. Na parte
inferior da haste principal, a podridão evolui, atingindo vários
centímetros acima do nível do solo. Inicialmente, de coloração
castanho clara e de aspecto aquoso, a lesão torna-se, posteriormente,
negra. A área necrosada, geralmente, apresenta ligeiro afinamento
em relação à parte superior. O tecido cortical necrosado
destaca-se com facilidade, dando a impressão de podridão
superficial. Outro sintoma observado é a formação
de uma espécie de cancro, em um dos lados da base da haste, com
a parte afetada deprimida, estendendo-se a vários centímetros
acima do nível do solo.
Crestamento bacteriano da soja (Pseudomonas savastanoi
pv. glycinea)
A doença é comum em folhas, mas pode ser encontrada em outros
órgãos da planta, como hastes, pecíolos e vagens.
Os sintomas nas folhas surgem como pequenas manchas, de aparência
translúcida circundadas por um halo de coloração
verde-amarelada. Essas manchas, mais tarde, necrosam, com contornos aproximadamente
angulares, e coalescem, formando extensas áreas de tecido morto,
entre as nervuras secundárias. A maior ou menor largura do halo
está diretamente ligada à temperatura ambiente (largo sob
temperaturas amenas ou estreito ou quase inexistente sob temperaturas
mais altas).
Na face inferior da folha, as manchas são de coloração
quase negra apresentando uma película brilhante nas horas úmidas
da manhã, formada pelo exudato da bactéria. Infecções
severas, nos estádios jovens da planta, conferem aparência
enrugada às folhas, como se houvessem sido infectadas por vírus.
A bactéria está presente em todas as áreas cultivadas
com soja no País. A infecção primária pode
ter origem em duas fontes: sementes infectadas e restos infectados de
cultura anterior. Transmissões secundárias, das plantas
doentes para as sadias, são favorecidas por períodos úmidos
e temperaturas médias amenas (20º a 26ºC). Dias secos
permitem que finas escamas do exudato da bactéria se disseminem
dentro da lavoura, mas, para haver infecção o patógeno
necessita de um filme de água na superfície da folha. Já
foram descritas oito raças fisiológicas deste patógeno
no Brasil: R2, R3, R4, R6, R7 (também descritas, anteriormente,
nos Estados Unidos) e R10, R11 e R12 (raças novas); a mais comum
é a raça R3.
Como controle, indica-se o uso de cultivares resistentes (Tabela
11.1), o uso de semente proveniente de lavoura indene e/ou aração
profunda para cobrir os restos da cultura anterior, logo após a
colheita.
Mosaico comum da soja (vírus do mosaico
comum da soja - VMCS)
O VMCS causa redução do porte das plantas de soja, afetando
o tamanho e o formato dos folíolos, com escurecimento da coloração
e enruga-mentos. Em alguns casos, há formação de
bolhas no limbo foliar. O VMCS causa também redução
do tamanho das vagens e sementes e prolongamento do ciclo vegetativo,
com sintoma característico de haste verde.
Pode causar o sintoma "mancha café" nas sementes, um
derramamento do pigmento do hilo. O vírus se transmite pela semente,
no entanto, a porcentagem de transmissão depende da estirpe do
vírus e da cultivar de soja. As taxas de transmissão das
estirpes comuns, na maioria das cultivares de soja suscetíveis,
têm sido menores do que 5%. O VMCS dissemina-se no campo através
dos pulgões. Embora nenhuma espécie de pulgão seja
parasita da soja no Brasil, as picadas de prova permitem que o vírus
seja disseminado a partir das sementes de plantas infectadas.
O controle desta virose tem sido obtido pelo uso de cultivares resistentes
(Tabela 11.1).
Nematóides de galhas (Meloidogyne spp.)
No Brasil, as espécies Meloidogyne javanica e M. incognita
de nematóides formadores de galhas destacam-se pelos danos que
causam à soja. Elas têm sido constatadas com maior freqüência
no norte do Rio Grande do Sul, sudoeste e norte do Paraná, sul
e norte de São Paulo e sul do Triângulo Mineiro. Na região
Central do Brasil, o problema é crescente, com severos danos em
lavouras do Mato Grosso do Sul e Goiás.
Nas áreas onde ocorrem, observam-se manchas em reboleiras nas lavouras,
onde as plantas de soja ficam pequenas e amareladas. As folhas das plantas
afetadas normalmente apresentam manchas cloróticas ou necroses
entre as nervuras, caracterizando a folha "carijó". Às
vezes, pode não ocorrer redução no tamanho das plantas,
mas, por oca sião do florescimento, nota-se intenso abortamento
de vagens e amadurecimento prematuro das plantas atacadas. Em anos em
que acontecem "veranicos", na fase de enchimento de grãos,
os danos tendem a ser maiores. Nas raízes das plantas atacadas
observam-se galhas em números e tamanhos variados, dependendo da
suscetibilidade da cultivar de soja e da densidade populacional do nematóide.
Para culturas de ciclo curto como a soja, todas as medidas de controle
devem ser executadas antes da semeadura. Ao constatar que uma lavoura
de soja está atacada, o produtor nada poderá fazer naquela
safra. Todas as observações e todos os cuidados deverão
estar voltados para os próximos cultivos na área. O primeiro
passo é a identificação correta da espécie
de Meloidogyne predominante na área. Amostras de solo e raízes
de soja com galhas devem ser coletadas em pontos diferentes da reboleira,
até formar uma amostra composta de cerca de 500 g de solo e pelo
menos uns cinco sistemas radiculares de soja. A amostra, acompanhada do
histórico da área, deve ser encaminhada, o mais rapidamente
possível, a um laboratório de Nematologia. A partir do conhecimento
da espécie de Meloidogyne é que se poderá montar
um programa de manejo.
O controle dos nematóides de galha pode ser obtido com a rotação/sucessão
de culturas e adubação verde, com espécies não
hospedeiras. O cultivo prévio de espécies hospedeiras aumenta
os danos na soja que as sucedem. Em áreas infestadas por M. javanica,
indica-se a rotação da soja com amendoim, algodão,
sorgo resistente (AG 2005-E, AG 2501-C), mamona ou milho resistente. Das
cultivares de milho comercializadas atualmente no Brasil, Hatã
1001, AG 519, AG 612, AG 5016, AG 3010, AG 6018, AG 5011, AG X6690, BR
3123, C 606, C 491W, C 855, C 929, C 806, C 505, C 447, C 125, C 747,
C 901, C 956, Tork, Master, Exceler, Traktor, Premium, Avant, Dominium,
Flash, P X1297J, P 30F33, P 30F80, P X1297H, P 32R21, P 3027, P 3081,
P 3071, XL 357, XL 215, XL 255, XL 355, XL 221, XL 344, CD 3121, A 2288,
A 2555, P 30F88, BRS 2114, BRS 2160, AG9090, AG9020, NB5218, NB7228, 84E60
e 84E80 apresentam resistência (FR<1) a M. javanica. Quando M.
incognita for a espécie predominante na área, poderão
ser semeados o amendoim ou milho resistente (P 30F80, BRS 2114 e AG 9090).
A adubação verde com Crotalaria spectabilis, C. grantiana,
C. mucronata, C. paulinea, mucuna preta, mucuna cinza ou nabo forrageiro
também contribui para a redução populacional de M.
javanica e de M. incognita. Os nematóides de galha se reproduzem
bem na maioria das plantas invasoras. Assim, indica-se também o
controle sistemático dessas plantas nos focos do nematóide.
A utilização de cultivares de soja resistentes aos nematóides
de galha é o meio de controle mais eficiente e mais adequado para
o agricultor. Na Tabela 11.1
é apresentada a reação das cultivares mais utilizadas
no Brasil.
Nematóide de cisto da soja (Heterodera
glycines)
O nematóide de cisto da soja (NCS) é uma das principais
pragas da cultura pelos prejuízos que pode causar e pela facilidade
de disseminação. Ele penetra nas raízes da planta
de soja e dificulta a absorção de água e nutrientes
condicionando porte e número de vagens reduzidos, clorose e baixa
produtividade. Os sintomas aparecem em reboleiras e, em muitos casos,
as plantas acabam morrendo. O sistema radicular fica reduzido e infestado
por minúsculas fêmeas do nematóide com formato de
limão ligeiramente alongado. Inicialmente de coloração
branca, a fêmea, posteriormente, adquire a coloração
amarela. Após ser fertilizada pelo macho, cada fêmea produz
de 100 a 250 ovos, armazenando a maior parte deles em seu corpo. Quando
a fêmea morre, seu corpo se transforma em uma estrutura dura denominada
cisto, de coloração marrom escura, cheia de ovos, altamente
resistente à deterioração e à dessecação
e muito leve, que se desprende da raiz e fica no solo.
O cisto pode sobreviver no solo, na ausência de planta hospedeira,
por mais de oito anos. Assim, é praticamente impossível
eliminar o nematóide nas áreas onde ele ocorre. Em solo
úmido, com temperaturas de 20o a 30oC, as larvas eclodem e, se
encontrarem a raiz de uma planta hospedeira, penetram e o ciclo se completa
em três a quatro semanas. A gama de espécies hospedeiras
do NCS é limitada, destacando-se a soja (Glycine max), o feijão
(Phaseolus vulgaris), a ervilha (Pisum sativum) e o tremoço (Lupinus
albus). A maioria das espécies cultivadas, tais como milho, sorgo,
arroz, algodão, girassol, mamona, cana-de-açúcar,
trigo, assim como as demais gramíneas, são resistentes.
O NCS não se reproduz nas plantas daninhas mais comuns nas lavouras
de soja, no Brasil.
As estratégias de controle incluem a rotação de culturas,
o manejo do solo e a utilização de cultivares de soja resistentes,
sendo ideal a combinação dos três métodos.
O uso de cultivares resistentes é o método mais econômico
e mais eficiente, porém, seu uso exclusivo pode provocar pressão
de seleção de raças, devido à grande variabilidade
genética desse parasita.
Detectado no Brasil, pela primeira vez, na safra 1991/92, atualmente,
estima-se que a área com o nematóide seja superior a 2,0
milhões de ha. Entretanto, existem muitas propriedades isentas
do patógeno, localizadas em municípios considerados infestados.
Assim, a prevenção deve ser, ainda, a principal estratégia.
A disseminação do NCS se dá, principalmente, pelo
transporte de solo infestado. Isso pode ocorrer através dos equipamentos
agrícolas, das sementes mal beneficiadas que contenham partículas
de solo, pelo vento, pela água e até por pássaros
que, ao coletar alimentos do solo, podem ingerir junto os cistos. É
importante a conscientização dos produtores sobre a necessidade
de se fazer boa limpeza nos equipamentos agrícolas, após
terem sido utilizados em outras áreas, para evitar a contaminação
da propriedade. O trânsito de máquinas, equipamentos e veículos
tem sido o principal agente de dispersão do NCS no País.
O cultivo de gramíneas perenes (pastagens ou outras) numa pequena
faixa de cada lado da estrada pode retardar a introdução
do NCS nas lavouras próximas à estrada. A aquisição
de sementes beneficiadas, isentas de partículas de solo, também
é fundamental para evitar a entrada do nematóide. Atualmente,
o Ministério da Agricultura, da Pecuária e Abastecimento
permite a comercialização de sementes de soja produzidas
em áreas infestadas, desde que sejam submetidas a determinada seqüência
de beneficamento e que sejam acompanhadas por laudo atestando a isenção
da presença de cistos. A distribuição desuniforme
de cistos no lote de sementes e o tamanho do lote dificultam a obtenção
de amostras representativas, o que torna o resultado da análise
de valor questionável. Dentro da propriedade, a disseminação
do NCS pode ser reduzida pela adoção da semeadura direta.
As cultivares de soja resistentes ao NCS já estão disponíveis
e são apresentados na Tabela
11.1. No Brasil, já foram encontradas 11 raças, demonstrando
elevada variabilidade genética do nematóide no País.
Portanto, mesmo com a utilização de cultivares resistentes,
os sojicultores terão que continuar fazendo rotação
de culturas nas áreas infestadas. Isso evitará que o nematóide
mude de raça e, assim, a resistência dessas novas cultivares
às raças 1 e 3, predominantes nas áreas cultivadas,
estará preservada. Um sistema de rotação, que envolva
culturas não hospedeiras, cultivar suscetível e cultivar
resistente deverá ser adotado, por exemplo, milho-soja resistente-soja
susceptível. A rotação da soja com uma espécie
não hospedeira, no verão, é o método que vem
possibilitando a produção de soja nas áreas infestadas.
O milho tem sido a espécie mais utilizada na rotação
com a soja. O algodão, o arroz, a mamona, o girassol e a cana,
desde que economicamente viáveis, também são boas
opções. De modo geral, a substituição da soja,
um ano, por uma espécie não hospedeira, proporciona uma
redução da população do NCS no solo suficiente
para garantir o cultivo da soja por mais um ano, devendo-se continuar
a rotação na seqüência, pois a população
volta a crescer a níveis de risco. No caso de cultivo de verão
por dois ou mais anos consecutivos com espécie não hospedeira,
pode-se cultivar soja na área nos dois anos seguintes, sem risco
de perda pelo NCS, se o pH do solo estiver nos níveis indicados
para a região. Nesse caso, por medida de segurança, indica-se
providenciar avaliação da população do nematóide
no solo antes do segundo cultivo de soja. Com relação ao
cultivo de inverno, em áreas infestadas pelo NCS, indica-se utilizar
apenas as espécies não hospedeiras (gramíneas, crucíferas,
girassol, mucunas, etc.). O cultivo de espécies hospedeiras no
inverno, tais como soja, feijão, tremoço e ervilha permitirá
que a população do nematóide se mantenha alta. O
NCS reproduz-se na soja germinada a partir de grãos perdidos na
colheita (soja "guaxa" ou "tiguera"), aumentando o
inóculo para a próxima safra. Portanto, não deve
ser permitida a presença de "tiguera" em áreas
infestadas.
O manejo adequado do solo (níveis mais altos de matéria
orgânica, saturação de bases dentro do indicado para
a região, parcelamento do potássio em solos arenosos, adubação
equilibrada, suplementação com micronutrientes e ausência
de camadas compactadas) ajuda a aumentar a tolerância da soja ao
nematóide.
Manuseio de fungicidas e descarte de embalagem
* Utilizar fungicidas devidamente registrados no Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), para uso na cultura
da soja e para a doença ou patógeno que deseja controlar.
O número do registro consta no rótulo do produto.
* Usar equipamento de proteção individual (EPI) apropriado,
em todas as etapas de manuseio de agrotóxicos (abastecimento do
pulverizador, aplicação e lavagem de equipamentos e embalagens),
a fim de evitar possíveis intoxicações.
* Não fazer mistura em tanque, de dois fungidas, ou de fungicida
(s) com outro (s) agrotóxico (s), procedimento proibido por lei
(Instrução Normativa do MAPA nº 46, de julho de 2002).
* Evitar aplicações em dias ou em horários com ventos
fortes, visando reduzir a deriva dos jatos, tornando mais eficiente a
aplicação e reduzindo possíveis contaminações
de áreas vizinhas.
*
Observar o período de carência do produto (período
compreendido entre a data da aplicação e a colheita da soja).
* Ler com atenção o rótulo e a bula do produto e
seguir todas as orientações e os cuidados com o descarte
das embalagens.
* Devolver as embalagens vazias (após a tríplice lavagem
das embalagens de produtos líquidos), no prazo de um ano após
a compra do produto, ao posto de recebimento indicado na nota fiscal de
compra, conforme legislação do MAPA (Lei 9.974, de 06/06/2000
e Decreto 4.074, de 04/01/2002).
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