Embrapa Embrapa Trigo
Sistemas de Produção, 4
ISSN 1809-2985 Versão Eletrônica
Set/2009
Cultivo de trigo
Casiane Salete Tibola
Irineu Lorini
Maria Imaculada Pontes Moreira Lima
Paulo Roberto Valle da Silva Pereira

Sumário

Apresentação
Introdução
Zoneamento agrícola
Cultivares
Semeadura e rotação de culturas
Manejo e conservação de solo
Adubação e calagem
Doenças e métodos de controle
Pragas e métodos de controle
Plantas daninhas e métodos de controle
Colheita e pós-colheita
Qualidade tecnológica
Referências
Glossário
Autores


Expediente


Colheita e pós-colheita
Colheita Pós-colheita
Colheita de trigo topo

O processo de colheita é considerado de extrema importância, tanto para garantir a produtividade da lavoura quanto para assegurar a qualidade final do grão.

Para reduzir perdas quali-quantitativas, alguns cuidados devem ser tomados em relação à regulagem da colhedora, considerando que à medida que a colheita vai sendo processada, as condições de umidade do grão e da palha vão variando, necessitando assim de novas regulagens (REUNIÃO DA COMISSÃO CENTRO-SUL BRASILEIRA DE PESQUISA DE TRIGO E TRITICALE, 20., 2005, Londrina. Informações técnicas da Comissão Centro-Sul Brasileira de Pesquisa de Trigo e Triticale para a safra de 2005. Londrina: Embrapa Soja, 2005. 234 p. (Embrapa Soja. Sistemas de produção, 7)).

A colheita de grãos com umidade próxima aos 13% permite uma folga de 8 a 10 mm, e rotação em 950 rpm. Para colheita de grãos com umidade próxima de 16%, a regulagem ideal exige uma folga entre cilindro e côncavo de 6 a 7 mm e aumento da rotação do cilindro para 1100 rpm.

As lavouras de trigo podem ser colhidas antecipadamente, visando escapar de chuvas na maturação plena, evitando-se o problema de germinação na espiga, dentre outros. Nesse caso, para colheita ao redor de 20% de umidade, é aconselhável a regulagem cuidadosa da colhedora. Recomenda-se, nesse caso, folga entre cilindro e côncavo de 6 mm e 1300 rpm de rotação no cilindro. Deve-se ter cuidado especial na velocidade e na localização do ar do ventilador, lembrando que tanto a palha quanto o grão estão mais pesados (REUNIÃO..., 2005).

Deve-se dar atenção ao alinhamento e à afiação das navalhas da barra de corte e à velocidade do molinete (± 25% acima da velocidade de deslocamento), pois esses cuidados contribuem para a redução de perdas. 

Pós-colheita de trigo topo
Secagem Armazenamento
Manejo Integrado de Pragas – MIP Tratamento curativo
Tratamento preventivo de grãos Monitoramento da massa de grãos
Pragas e fragmentos de insetos Fungos toxigênicos e micotoxinas
Resíduos de inseticidas Manejo de contaminantes na pós-colheita de trigo
Secagem topo

A secagem de trigo é uma operação crítica na seqüência do processo de pós-colheita. Como conseqüências da secagem, podem ocorrer alterações significativas na qualidade do grão.

A possibilidade de secagem propicia um melhor planejamento da colheita e o emprego mais eficiente de equipamentos e de mão-de-obra, mantendo a qualidade do trigo colhido.

O teor de umidade recomendado para armazenar o trigo colhido é da ordem de 13%. Desse modo, todo o produto colhido com umidade superior à indicada para armazenamento deve ser submetido à secagem. Em lotes com mais de 16% de umidade, indica-se a secagem lenta para evitar danos físicos no grão. A temperatura máxima na massa de grãos de trigo não deve ultrapassar 60 ºC, para manutenção da qualidade tecnológica do produto. Nos secadores essa temperatura é obtida mediante a entrada de ar aquecido a mais ou menos 70 ºC (REUNIÃO..., 2005).

A secagem artificial de grãos caracteriza-se pela movimentação de grandes massas de ar aquecidas até atingirem temperaturas na faixa de 40 a 60 ºC na massa de grãos, com o objetivo de promover a secagem de grãos em reduzido período de tempo. O aquecimento do ar ambiente requer uma alta potência térmica, obtida com a combustão controlada de combustíveis. A lenha é o combustível mais usado na secagem de grãos (REUNIÃO..., 2005).

Recentemente, vem se difundindo o uso de GLP (gás liquefeito de petróleo) em secadores cujas condições de queima são mais controladas, em relação ao uso de lenha. As principais desvantagens do uso de lenha são: combustão descontínua e irregular, formação de fumaça que se impregna no grão, alta demanda de mão-de-obra e de espaço próprio para cultivo de espécies florestais.

Dependendo do tipo de secador, varia a temperatura de entrada de ar de secagem. Para atender às necessidades, os secadores existentes contemplam inúmeras formas construtivas e operacionais, destacando-se quanto ao sistema de carga (intermitentes ou contínuos) e quanto ao fluxo de ar (concorrente, contracorrente, cruzado ou misto) (REUNIÃO..., 2005).

Armazenamento topo

No armazenamento, quando os grãos já estão limpos e secos, deverão ser monitoradas as pragas que atacam os grãos, danificando-os e provocando perdas quantitativas e qualitativas, dificultando a comercialização. Além de favorecer o desenvolvimento de fungos que podem produzir micotoxinas nocivas ao homem e aos animais.

No Brasil, a estimativa de perdas quantitativas de grãos armazenados, corresponde a médias anuais de 10%, podendo atingir perda total em alguns armazéns (BESKOW & DECKERS, 2002). Também devem ser consideradas as perdas qualitativas, uma vez que comprometem a inocuidade e a aptidão tecnológica dos grãos armazenados.

Na pós-colheita de trigo os principais fatores que contribuem para a deterioração e a contaminação são a alta umidade e a alta temperatura, que favorecem a proliferação de contaminantes como pragas e fungos toxigênicos, que podem produzir micotoxinas. Além desses contaminantes, destacam-se também, os resíduos de pesticidas, que podem ser inerentes aos grãos na fase de produção ou de pós-colheita, chegando ao produto final. Dentre as principais causas que colaboram para as perdas quali-quantitativas de grãos destacam-se: a carência de estrutura física para armazenagem; logística deficiente; escassez de treinamento e de capacitação para colaboradores; e a ausência de segregação dos produtos agrícolas de acordo com sua qualidade tecnológica e inocuidade.

A seguir apresentam-se os principais contaminantes relacionados ao trigo: pragas e fragmentos de insetos, fungos toxigênicos e resíduos de inseticidas.

Manejo Integrado de Pragas – MIP topo

Uma das soluções para o problema de perdas ocasionadas por pragas em armazéns é a "Técnica do Manejo Integrado de Pragas na Unidade Armazenadora de Grãos". Esse processo consiste em uma série de medidas que devem ser adotadas pelos armazenadores para evitar danos causados por pragas. Essa técnica compreende várias etapas, tais como:

  • Mudança de comportamento dos armazenadores;
  • Conhecimento da unidade armazenadora de grãos;
  • Medidas de limpeza e higienização da unidade armazenadora;
  • Armazenamento de trigo com teor de umidade máximo de 13%;
  • Evitar a mistura de lotes de grãos não infestados com outros já infestados;
  • Correta identificação de pragas;
  • Conhecimento da resistência de pragas a inseticidas químicos;
  • Potencial de destruição de cada espécie-praga;
  • Proteção do grão com inseticidas;
  • Tratamento curativo;
  • Monitoramento da massa de grãos;
  • Gerenciamento da unidade armazenadora;
  • Eliminação de focos de infestação.
Tratamento curativo topo

Fazer o expurgo dos grãos, caso apresentem infestação, usando o produto fosfina. Esse processo deve ser feito em armazéns, em silos de concreto, em câmaras de expurgo, em porões de navios ou em vagões, sempre com vedação total, observando-se o período de exposição necessário para controle de pragas e a dose indicada do produto.

Tratamento preventivo de grãos topo

O tratamento com inseticidas químicos protetores de grãos deve ser realizado no momento de abastecer o armazém e pode ser feito na forma de pulverização na correia transportadora ou em outros pontos de movimentação de grãos. É importante que haja uma perfeita mistura do inseticida com a massa de grãos. Também pode ser usada a pulverização para proteção de grãos armazenados em sacaria, na dose registrada e indicada. Para proteção simultânea de grãos às pragas R. dominica, S. oryzae e S. zeamais, indica-se fazer a mistura de tanque de um inseticida piretróide (deltametrina) com um inseticida organofosforado (pirimifós-metil ou fenitrotiom), uma vez que estes inseticidas são específicos para cada espécie-praga.

Monitoramento da massa de grãos topo

Uma vez armazenado, o trigo deve ser monitorado durante todo o período em que permanecer estocado. O acompanhamento de pragas que ocorrem na massa de grãos armazenados é de fundamental importância, pois permite detectar o início da infestação que poderá alterar a qualidade final do grão. Esse monitoramento tem por base um sistema eficiente de amostragem de pragas, independentemente do método empregado, e a medição das variáveis, temperatura e umidade do grão, que influem na conservação do trigo armazenado.

Pragas e fragmentos de insetos topo

As pragas são os contaminantes de grãos mais importantes, devido aos grandes prejuízos para a qualidade e por sua relação direta com outras contaminações como a proliferação de fungos e a produção de micotoxinas. Por outro lado, a presença de fragmentos de insetos, nos produtos finais, causa expressivos prejuízos para a cadeia produtiva, gerando perdas econômicas e a falta de credibilidade dos consumidores. No caso de trigo, o produto é desclassificado, para comercialização, se for encontrado um inseto vivo em lote de grãos. Os moinhos não aceitam lotes de trigo com insetos, pois isso fatalmente comprometeria a qualidade da farinha, já que esta terá fragmentos de insetos indesejáveis na indústria de panificação e em outros subprodutos de trigo. O conhecimento de informações sobre cada espécie-praga (descrição, biologia, hábito alimentar e os danos) constitui elemento importante para definir a melhor estratégia e manejo para evitar os respectivos prejuízos. A seguir abordam-se alguns destes conhecimentos importantes.

Existem dois importantes grupos de pragas que atacam os grãos armazenados, que são besouros e traças. Entre os besouros encontram-se as espécies: R. dominica (F.), Sitophilus oryzae (L.), S. zeamais (Motschulsky), T. castaneum (Herbst), O. surinamensis (L.), e C. ferrugineus (Stephens). As espécies de traças mais importantes são: Sitotroga cerealella (Olivier), P. interpunctella (Hübner), Ephestia kuehniella (Zeller) e Ephestia elutella (Hübner). A seguir, descreve-se alguns destes principais pragas do trigo. Entre essas pragas, R. dominica, S. oryzae e S. zeamais são as mais preocupantes economicamente e justificam a maior parte do controle químico praticado nas unidades armazenadoras.

Além dessas pragas, há roedores e pássaros causadores de perdas no armazenamento de grãos, principalmente qualitativas, pela sujeira que deixam no produto final, que também devem ser considerados no manejo integrado.

Os grãos podem veicular contaminantes físicos: sujidades, partículas, fragmentos de insetos e materiais estranhos que poderão constituir perigos para a saúde dos consumidores. A atual legislação brasileira (BRASIL, 2003), não estabelece limites para esses fragmentos, e considera apenas insetos carreadores de contaminantes, como animais que veiculam o agente infeccioso desde o reservatório até o hospedeiro potencial. Um alimento com alto índice de fragmentos de insetos pode indicar péssimas condições sanitárias e afeta de forma determinante a qualidade do produto final, impossibilitando o consumo (BIRCK, 2005).

Miranda et al. (2006), investigaram à presença de sujidades em amostras de grãos de trigo de cinco cultivares, armazenados por quatro meses. No tempo inicial do experimento, duas cultivares apresentaram insetos e fragmentos de insetos (uma com quatro insetos inteiros e três fragmentos, e a outra amostra com dois fragmentos). No final do armazenamento foram detectadas sujidades somente em uma cultivar (três insetos inteiros e quatro fragmentos de insetos). Para as farinhas de trigo armazenadas pelo mesmo período, no tempo inicial foram encontrados fragmentos de insetos em três cultivares (dois fragmentos em uma amostra e quatros fragmentos em duas das amostras) e no final do armazenamento em duas (em uma amostra dois fragmentos e na outra seis fragmentos e uma partícula metálica).

Birck (2005), no estudo das condições higiênico-sanitárias em grãos de trigo armazenado e no processamento de farinhas de trigo comum e especial, verificou quanto a contaminação por insetos, que 100% das doze amostras de trigo apresentaram infestação de um a cinco insetos, e as seis amostras de farinha especial e comum apresentaram de seis a 45 fragmentos de insetos por amostra. Esses valores já eram esperados, uma vez que o trigo usado na produção dessas farinhas apresentou infestação interna na massa de grãos. Devido ao processo de moagem, esses insetos podem resultar em grande quantidade de fragmentos. Bernardi (2007), verificou que o manejo integrado de pragas adotado na unidade armazenadora, contribuiu para a manutenção dos grãos isentos de pragas, exceto pela presença de três fragmentos de insetos numa das amostras na safra de 2005.

Fungos toxigênicos e micotoxinas topo

As micotoxinas são compostos tóxicos que ocorrem naturalmente e são produzidos por fungos que infectam produtos agrícolas, tanto durante seu crescimento no campo, quanto na armazenagem, bem como em alimentos processados e rações para animais (SCUSSEL, 2002). Os maiores danos ocasionados pelo desenvolvimento fúngico em grãos e sementes armazenados são: perda do poder germinativo, perda de matéria seca, alteração do valor nutricional e produção de micotoxinas (LAZZARI, 1993).

A ingestão desses alimentos contaminados pode provocar manifestações hepatotóxicas, nefrotóxicas, mutagênicas, estrogênicas, neurotóxicas, imunossupressora e carcinogênicas em humanos e em animais (Birck, 2005). Na criação de animais, são relatadas inúmeras perdas decorrentes do consumo de rações contaminadas com micotoxinas, especialmente, porque há a utilização de farelo, que concentra os maiores teores de toxinas. As micotoxinas induzem ao edema pulmonar em suínos, diminuição do ganho de peso em frangos e aumento de peso de órgãos como o fígado, proventrícolo e moela (DILKIN et al., 2004). Além disso, determinam impactos negativos importantes na cadeia produtiva devido ao menor desempenho e a mortalidade de animais (MALLMANN et al., 2007).

Na produção, os danos provocados por pragas são um dos principais fatores predisponentes ao crescimento de fungos toxigênicos nas plantas. Incluem-se também: estresse hídrico, danos mecânicos, deficiências minerais e temperaturas atípicas para a estação do ano (BELÉM, 1994). No armazenamento, os fatores que influenciam a produção de micotoxinas, incluem: teor de umidade nos grãos, temperatura, período de armazenamento, integridade dos grãos, níveis de dióxido de carbono e de oxigênio, quantidade de esporos, interações microbianas e vetores como insetos e ácaros (BIRCK, 2005).

Os fungos podem ser classificados em três grupos: fungos de campo, fungos intermediários e fungos de armazenamento. Existe pouco ou nenhum controle sobre as condições que favorecem o desenvolvimento de fungos de campo, pois eles invadem a cultura durante os estádios finais de maturação. Os gêneros de fungos de campo mais comuns são Alternaria, Cladosporium, Fusarium e Helminthosporium. Os fungos intermediários invadem os grãos antes da colheita e continuam a se desenvolver e a causar prejuízos durante o armazenamento. Nessa categoria enquadram-se algumas espécies de Penicillium e de Fusarium e certos levedos (LAZZARI, 1993). Na pós-colheita de grãos, os fungos mais importantes são: Aspegillus e Penicillium.

Nos cereais e nos seus derivados, as micotoxinas mais importantes são produzidas pelos fungos do gênero Fusarium. A espécie Fusarium graminearum produz as toxinas tricotecenos (deoxinivalenol - DON, nivalenol e toxina T2) e zearalenona (ZEA), que devido a sua ampla e frequente ocorrência, são as mais importantes. A micotoxina DON, é a toxina de Fusarium mais corrente, contamina diversos cereais, especialmente o trigo, a cevada e o milho. Os efeitos da atividade de água e da temperatura sobre o comportamento dos fungos do gênero Fusarium, ainda precisa ser melhor estudado. A temperatura ótima para o desenvolvimento do fungo é de 24 – 26ºC e a atividade de água mínima para o crescimento é de 0,90. Entretanto, a toxina ZEA é produzida em temperaturas de 12ºC e, para a produção da toxina T-2, a temperatura ideal é de 8ºC, indicando que o Fusarium produz toxinas quando está sob efeito de choque térmico (SCUSSEL, 2002).

A giberela ou fusariose da espiga é, atualmente, uma das mais importantes doenças da cultura do trigo no mundo. O período mais crítico de contaminação dos cereais por Fusarium é a floração, quando o conídio de Fusarium graminearum infecta as anteras. Fatores ambientais como: alta umidade e chuva durante o período da floração, que resultam em molhamento da superfície por 48 – 60 horas e temperatura acima de 15°C determinam altas taxas de sucesso do processo de infecção (SCHOLTEN, 2002). Estas condições ocorrem frequentemente na região Sul do Brasil, que concentra 90% da produção de trigo nacional, após a fase de espigamento, período mais suscetível a infecção do fungo, ocasionando o desenvolvimento de micotoxina (LIMA, 2003).

Em estudo realizado com 297 amostras de grãos de trigo provenientes da região Sul do Brasil, detectou-se contaminação por DON em aproximadamente 25% das amostras, com nível médio de 603,2 µg kg−1 e máximo de 8.504 µg kg−1 (MALLMANN, 2003). Miranda et al. (2006), monitoraram a contaminação por micotoxinas em cinco cultivares de trigo, na safra 2005, obtendo valores médios de contaminação dos grãos por DON de 1.321,3 µg kg−1, ZEA de 55,1 µg kg−1 e fumonisina B1 de 242,2 µg kg−1, concluindo que as freqüentes precipitações no período de floração (384 mm em outubro), ocasionaram problemas fitossanitários em todas as cultivares de trigo analisadas.

Hazel & Scudamore (2007), estudaram o comportamento das toxinas de Fusarium ao longo dos processos de transformação dos cereais na produção industrial de alimento. O estudo permitiu evidenciar as relações que existem entre a contaminação dos ingredientes de partida (cereais) e os produtos finais obtidos. O processo de moagem do grão de trigo para farinha branca reduziu a concentração de DON em 30%. No processamento verificou-se maior concentração de DON no farelo, 335 µg kg−1, quando comparado com os grãos de trigo limpos 101 µg kg−1. A farinha de trigo integral, que inclui em sua composição 10% de farelo, exige maior atenção no monitoramento da concentração de micotoxinas. Em estudo conduzido por Birck (2005), a farinha de trigo apresentou ocorrência de fumonisina B1: para farinha comum os níveis variaram de 0,6 a 2,3 µg kg−1 e para farinha especial os níveis foram 0,7 a 1,5 µg kg−1. De acordo com a autora, essa contaminação pode ter ocorrido no momento da mistura de lotes de grãos para a produção de farinha ou devido a falhas na limpeza de sobras de grãos nas caixas de acondicionamento, onde a umidade é maior para facilitar a extração do amido dos grãos.

A atual legislação brasileira para micotoxinas determina o limite de 20 µg kg−1 do somatório de aflatoxina B1 e B2 para alguns alimentos destinados para o consumo humano e de 50 µg kg−1 para rações para animais (BRASIL, 2002). A legislação internacional sobre micotoxinas varia de acordo com o país, sendo que o nível aceitável de DON varia de 500 a 2.000 µg kg−1 para alimentos destinados ao consumo humano. Na Europa, a partir de 01 de julho de 2006, foi estabelecido 1.250 µg kg−1 como limite máximo permitido de DON para cereais. Para ZEA, foi estabelecido 100 µg kg−1 como limite máximo permitido para grãos de cereais para alimentos destinados ao consumo humano (COMISSION REGULATION, 2005).

Para prevenir a presença de micotoxinas nos grãos e subprodutos, é fundamental: adotar o manejo integrado de pragas e doenças na produção e na pós-colheita; promover a rápida e eficiente secagem dos grãos no recebimento na unidade armazenadora; e estabelecer monitoramento sistemático, através de métodos eficazes e rápidos, que permitam orientar o manejo e logística dos lotes no recebimento na unidade armazenadora.

Resíduos de inseticidas topo

A atenção para a presença de resíduos químicos vem crescendo nas últimas décadas em decorrência de estudos que demonstram seus altos níveis nos alimentos, relacionando-os a graves problemas na saúde humana. Para trigo, os pesticidas utilizados na produção, em geral, são metabolizados dentro do intervalo de segurança, dessa forma, não permanecem resíduos nos grãos por ocasião da colheita. Na pós-colheita, a utilização de inseticidas organofosforados e piretróides para o controle de pragas em grãos armazenados, é um dos métodos mais adotados atualmente. O tratamento preventivo consiste na aplicação do inseticida via líquida sobre os grãos na correia transportadora, no momento do abastecimento do silo. Esse tratamento confere proteção contra a infestação por pragas, durante o armazenamento por períodos maiores de três meses. Entretanto, esses produtos apresentam restrições ao uso, devido aos problemas de persistência nos grãos e nos subprodutos na forma de resíduos, além da ocorrência de resistência das pragas aos inseticidas.

O controle oficial de resíduos de pesticidas em alimentos é baseado nos limites máximos de resíduos (LMRs) e no intervalo de segurança. Para garantir a segurança dos alimentos que são disponibilizados para os consumidores, quanto ao nível de resíduos de pesticidas, os LMRs são definidos pela FAO, pela Comissão do Codex Alimentarius e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), representando a concentração máxima de resíduo que poderá ser ingerida diariamente através da alimentação, prevenindo danos à saúde dos consumidores. Esses limites também são estabelecidos para produtos destinados à alimentação de animais. No Brasil, a regulamentação do LMR e do intervalo de segurança para pesticidas é responsabilidade da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Na Tabela 1 podem ser visualizados os LMR estabelecidos para os inseticidas indicados para utilização na pós-colheita de trigo.

Tabela 1. Inseticidas indicados para controle de pragas no armazenamento e limites máximos de resíduos (LMR), em mg kg−1, para os em grãos de trigo e subprodutos.
Inseticida
Trigo
Farinha*
Pão
Branco
Anvisa
Farelo*
Intervalo de segurança
Anvisa
Codex
U.E.
Branca
Integral
Anvisa
Bifentrina 0,6 0,5 0,5 0,2 - - 2,0 30 dias
Deltametrina 1,0 - 2,0 0,3 - - 5,0 30 dias
Fenitrotiona 1,0 - 0,5 2,0 5,0 0,2 20,0 120 dias
Pirimifós metílico 10,0 - 5,0 5,0 - - 15,0 30 dias
Fonte: Anvisa: http://www4.anvisa.gov.br/base/visadoc/CP/CP%5B4882-2-0%5D.PDF.
Codex: http://www.codexalimentarius.net/mrls.
U.E.: http://ec.europa.eu/sanco_pesticides/public/index.cfm?event=substance.selection.
(*) LMR estabelecido pelo Codex Alimentarius.

Kolberg (2008), estudou os níveis de resíduos em grãos de trigo e subprodutos no sul do Brasil, em amostras coletadas em dois moinhos. Constatou-se que nenhuma concentração de pesticidas esteve acima do LMR estabelecido pelas legislações brasileira e internacional. Os resíduos de pesticidas apresentaram maior concentração nas partes mais externas e oleosas do grão que compõe o farelo. Na elaboração do pão, a farinha de trigo é submetida à fermentação e a altas temperaturas, que contribuem significativamente para a degradação residual dos pesticidas, que foi da ordem de 50 a 70%.

Sgarbiero (2001), analisou a ocorrência/persistência/degradação de resíduos de pirimifós-metílico em grãos de trigo e nos subprodutos: farinha branca e integral, pão e farelo. Em todas as análises realizadas os níveis de resíduos foram inferiores ao LMR estabelecido pela legislação. Houve uma maior concentração de resíduos no farelo, em torno de 2,8 vezes quando comparada com os níveis detectados nos grãos. O pão preparado com a farinha branca apresentou aproximadamente 50% de redução nos níveis de resíduos. Ao final do período de armazenamento, 240 dias, a farinha integral apresentou concentração de resíduos 60% superior, quando comparada com a farinha branca.

Os pães integrais são elaborados com farinhas obtidas a partir da moagem do trigo, na qual não são retirados os constituintes: casca, amido e gérmen. Os alimentos integrais apresentam um mercado crescente, devido aos seus benefícios à saúde. O maior teor de fibras insolúveis destes produtos auxilia na prevenção de câncer, de acidente vascular cerebral, da obesidade e reduzem o colesterol. Dessa forma, destaca-se a necessidade de minimizar a utilização de pesticidas preventivos com aplicação diretamente nos grãos na pós-colheita, através da adoção do Manejo Integrado de Pragas e da substituição por outros métodos de controle como a terra de diatomáceas e o expurgo.

Para garantir a disponibilidade de alimentos seguros para os consumidores, é fundamental estabelecer um programa de monitoramento dos níveis de resíduos, através de laboratórios e equipamentos adequados, além da capacitação dos agentes em toda a cadeia produtiva, visando utilizar adequadamente os pesticidas e prevenir os problemas de resíduos, que atualmente, constituem-se uma das principais barreiras do comércio internacional aos grãos brasileiros.

Manejo de contaminantes na pós-colheita de trigo topo

O manejo de contaminantes requer enfoque estruturado e sistemático, baseado na necessidade de estabelecer medidas de controle preventivas que assegurem a qualidade e a inocuidade dos produtos. A avaliação completa da ocorrência de contaminantes em determinado produto somente pode ser estabelecida após a realização de levantamentos em diferentes anos/safras de produção e nas diversas etapas da cadeia produtiva. Mesmo que não exista risco zero, é fundamental a soma de esforços para reduzir os perigos ao mínimo, adotando estratégias globais de segurança de alimentos centrada em normas alimentares e de higiene, baseadas nos conhecimentos científicos mais avançados.

A estratégia para domínio da segurança dos alimentos desenvolvida pela União Européia engloba quatro elementos fundamentais: normas de segurança dos gêneros alimentícios para o consumo humano e dos alimentos para animais; pareceres científicos acessíveis ao público; medidas destinadas a garantir a aplicação das normas e o controle dos processos; e reconhecimento de que os consumidores têm o direito de escolher os alimentos com base em informações completas sobre sua procedência e os respectivos ingredientes. Essas exigências são adotadas para os países membros e para os alimentos importados de outros países (COMISSÃO EUROPÉIA, 2005).

Dessa forma, a geração de informações sobre contaminantes, metodologias de monitoramento e de controle e a implantação de processos que reduzam as perdas resultantes de sua contaminação são fundamentais para garantia da segurança do alimento disponibilizado para o mercado consumidor interno e externo. A obtenção de resultados de análise de contaminantes através de métodos rápidos e eficientes, torna possível a segregação de lotes conforme a exigência dos diferentes segmentos de mercado, de acordo com a qualidade tecnológica e a inocuidade. Como exemplo, lotes com teores não detectáveis de micotoxinas, comuns em safras com clima seco no período de floração e de colheita, poderão ser direcionados para mercados mais exigentes, como para a produção de alimentos para lactantes e bebês e a fabricação de rações para frangos e suínos que são mais sensíveis às micotoxinas. Também poderão ser adotadas estratégias de manejo diferenciadas na unidade armazenadora, como a maior intensidade de peneiragem dos lotes de trigo onde forem encontrados teores maiores de micotoxinas, considerando que, em geral, os grãos infectados por fungos, como os grãos giberelados, são mais leves que os sadios e podem ser descartados nessa etapa.

 
 
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