Embrapa Embrapa Trigo
Sistemas de Produção, 4
ISSN 1809-2985 Versão Eletrônica
Set/2009
Cultivo de trigo
José Roberto Salvadori
Douglas Lau
Paulo Roberto Valle da Silva Pereira

Sumário

Apresentação
Introdução
Zoneamento agrícola
Cultivares
Semeadura e rotação de culturas
Manejo e conservação de solo
Adubação e calagem
Doenças e métodos de controle
Pragas e métodos de controle
Plantas daninhas e métodos de controle
Colheita e pós-colheita
Qualidade tecnológica
Referências
Glossário
Autores


Expediente


Pragas e métodos de controle
Principais insetos-praga da cultura Caracterização das principais pragas
Manejo das principais pragas

Principais insetos-praga da cultura topo

Apesar das estimativas de que mais de uma centena de espécies de insetos utilizem o “ecossistema trigo“ para obter os recursos necessários às suas exigências vitais, é relativamente pequeno o número das que podem ser consideradas pragas. Devemos considerar também que a importância destas espécies de insetos-praga pode variar de região para região, dentro dos amplos limites de latitude onde se cultiva o trigo no Brasil.

A seguir serão abordadas as espécies de insetos fitófagos que ocorrem mais comumente nas lavouras de trigo. Pragas principais e secundárias são reunidas em grupos, os quais são caracterizados quanto a bioecologia, ocorrência e danos. Para as consideradas principais, é abordado o controle dentro dos princípios de Manejo Integrado de Pragas (MIP).

Caracterização das principais pragas topo
Pulgões Lagartas desfolhadoras
Corós Percevejos
Pulgões topo

Várias espécies de pulgões ou afídeos (Hemiptera, Aphididae) ocorrem na cultura de trigo (Fig. 1), dependendo da época do ano e da região tritícola. As mais comuns são o pulgão-verde-dos-cereais, Schizaphis graminum, o pulgão-do-colmo-do-trigo ou pulgão-da-aveia, Rhopalosiphum padi, o pulgão-da-folha-do-trigo, Metopolophium dirhodum e o pulgão-da-espiga-do-trigo, Sitobion avenae. Outras espécies, como o pulgão-da-raíz, Rhopalosiphum rufiabdominale, o pulgão-do-milho, R. maidis e o pulgão-amarelo, Sipha flava, podem ocorrer esporadicamente em plantas de trigo.

Foto: Paulo R. V. S. Pereira.
pulgões
Fig. 1. Pulgões: a) pulgão-da-espiga-do-trigo, Sitobion avenae; b) pulgão-verde-dos-cereais, Schizaphis graminum; c) pulgão-da-aveia, Rhopalosiphum padi; d) pulgão-da-folha-do-trigo, Metopolophium dirhodum.

Os pulgões apresentam corpo relativamente pequeno, mole e piriforme. Nas condições climáticas brasileiras os pulgões do trigo não põem ovos (vivíparos); as fêmeas parem diretamente ninfas (formas jovens, sem asas, semelhantes aos adultos); reproduzem-se sem ocorrência de machos e geram apenas fêmeas (partenogênese telítoca). Devido à alta prolificidade e ao ciclo biológico curto, em condições favoráveis, desenvolvem rapidamente colônias numerosas, formadas por fêmeas aladas e ápteras e por ninfas de diferentes tamanhos (instares). Indivíduos alados (formas de disseminação) surgem na colônia em condições desfavoráveis, como a má qualidade do alimento, e podem voar centenas de quilômetros com auxílio do vento. Os pulgões do trigo desenvolvem-se e multiplicam-se melhor em temperaturas amenas (entre 20 e 22 ºC) e em períodos de estiagem; o clima frio prolonga o ciclo de vida e retarda a multiplicação.

Os pulgões do trigo atingiram altas populações na década de 1970, quando foram constatadas severas infestações principalmente de M. dirhodum e de S. avenae. Até então, a espécie predominante era S. graminum. A partir dos anos 1990, R. padi começou a tornar-se mais freqüente e abundante nos trigais, especialmente no Sul do país. Considerando os últimos oito a dez anos, as espécies mais frequentes têm sido, pela ordem, R. padi, S. graminum e S. avenae. S. graminum e R. padi são considerados pragas de início de ciclo, incidindo desde a emergência da cultura e, à medida que a planta vai crescendo, vão se estabelecendo no colmo e nas folhas mais baixas. S. graminum ocorre de modo mais intenso em anos, estações ou regiões de temperatura média mais elevada, como no vale do rio Uruguai e na fronteira-oeste do Rio Grande do Sul, norte do Paraná, Mato grosso do Sul, São Paulo e demais regiões no Brasil central.

M. dirhodum e S. avenae ocorrem um pouco mais tarde, geralmente na primavera, quando a temperatura é mais amena. Em invernos atípicos, secos e poucos rigorosos, pode haver ocorrência de surtos dessas espécies. Apesar do nome, o pulgão-da-espiga inicia a colonização nas folhas, geralmente um pouco antes do espigamento, para depois se instalar nas espigas. Nos últimos anos, tem ocorrido na fase de desenvolvimento inicial da cultura, sem entretanto, desenvolver altas populações. Em períodos recentes tem sido muito baixa a incidência do pulgão-da-folha e surtos do pulgão-da-espiga tem sido esporádicos.

Tomados em conjunto, os pulgões são considerados pragas principais da cultura de trigo. De modo geral, os pulgões citados para a cultura de trigo têm como hospedeiros outros cereais de inverno, como aveia, centeio, cevada e triticale, e outras gramíneas. Tanto pulgões jovens (ninfas) como adultos alimentam-se da seiva do trigo, que é suscetível ao dano desde a emergência até que os grãos estejam completamente formados (grão em massa). Os danos dos pulgões podem ser ocasionados diretamente, através da sucção da seiva e de suas conseqüências no rendimento de grãos, diminuindo tamanho, número e peso dos grãos e o poder germinativo de sementes.

Um dos principais danos associados aos pulgões, porém causado de forma indireta, é a transmissão de vírus fitopatogênicos que reduzem o potencial de produção do trigo, como o Barley Yellow Dwarf Virus (BYDV) e o Cereal Yellow Dwarf Virus (CYDV), agentes causais do nanismo amarelo em cereais de inverno. Estes vírus são disseminados de plantas infectadas para sadias, exclusivamente através da saliva do vetor (pulgão).

Viroses podem ocasionar sintomas como nanismo das plantas e folhas de coloração amarela-intensa com bordas arroxeadas, mais curtas e eretas. Todavia, altas infestações de pulgões podem provocar por si só o amarelecimento e até a morte de plantas, dependendo do tamanho das mesmas. Embora o amarelecimento também possa ser causado por outros pulgões, como R. padi, o potencial de danos do S. graminum é reconhecidamente o maior entre todas as espécies de pulgões do trigo devido ä sua saliva tóxica. Nos locais picados por este afídeo aparecem manchas cloróticas que podem evoluir para a necrose do tecido, secamento de folhas e a morte de plântulas. O dano depende da cultivar de trigo e do biótipo do pulgão.

Lagartas desfolhadoras topo

Considerando toda a região tritícola brasileira, as lavouras de trigo podem ser atacadas principalmente por três espécies de lagartas (Lepidoptera, Noctuidae) que se alimentam das folhas e de outros órgãos da parte aérea das plantas. Pseudaletia sequax e P. adultera, conhecidas pelo nome comum de lagarta-do-trigo e Spodoptera frugiperda, denominada lagarta-militar ou lagarta-do-cartucho-do-milho. São insetos de desenvolvimento holometabólico, ou seja, passam pelas fases de ovo, larva (lagarta), pupa e adulto para completar seu ciclo de vida.

As lagartas de P. sequax e P. adultera (Fig. 2) são semelhantes tanto no aspecto geral como nos hábitos e na capacidade de causar danos, fazendo com que na prática sejam tratadas como se fossem uma só espécie. A diferenciação morfológica é feita a partir dos adultos. As lagartas apresentam três pares de pernas torácicas e cinco pares de falsas pernas, abdominais. Nascem com pouco mais de 1 mm de comprimento e podem atingir 4,0 a 4,5 cm. As pupas ocorrem no solo, a pouca profundidade ou mesmo sob restos culturais. Os adultos são mariposas de cor palha, com manchas características na asas. Os ovos são de coloração branca-brilhante e redondos; são colocados em grupos (massas), geralmente na extremidade de folhas mais secas. Cada fêmea de P.sequax é capaz de colocar, em média, 1086 ovos divididos em diversas posturas. A duração média das fases, a 25 °C, é de 4 dias para ovo, 24 dias para larva e 13 dias para pupa.

Foto: Paulo R. V. S. Pereira.
lagastas
Fig. 2. Lagartas: a) Lagarta-do-trigo, Pseudaletia sequax - adulto; b) Lagarta-do-trigo, Pseudaletia sequax - larva; c) Lagarta-militar, Spodoptera frugiperda; d) curuquerê-dos-capinzais, Mocis latipes.

Ambas as espécies de Pseudaletia podem ocorrer na lavoura, às vezes até simultaneamente, a partir do espigamento até a fase de maturação e colheita do trigo. As lagartas são polífagas, podendo ser pragas em outras culturas, principalmente gramíneas. Também são consideradas pragas em outros cereais de inverno como cevada e aveia, e ainda em plântulas de milho plantado após aveia dessecada quimicamente. Os danos decorrem dos hábitos filófagos, pela redução da área foliar e, adicionalmente, do ataque às espigas, onde destroem aristas e espiguetas; muitas vezes cortam na base da espiga, derrubando-as ao solo. Alimentam-se mais ativamente à noite e em dias nublados, ficando enroladas no solo em rachaduras ou sob torrões e restos culturais, durante o dia. Em certos anos ocorrem surtos porém restritos a algumas áreas. Mesmo nas lavouras, geralmente ocorrem em focos, causando danos, inicialmente, em áreas restritas, mas que tendem a se expandir. Em locais com vegetação mais densa, ou com plantas acamadas, pode existir maior concentração de lagartas. Podem migrar quando escasseia o alimento.

A lagarta-militar (S. frugiperda) (Fig. 2) ocorre nas regiões tritícolas de inverno seco e pouco rigoroso, como por exemplo no Norte do Paraná, Mato Grosso do Sul e latitudes inferiores. Também é uma praga polífaga, que ataca várias espécies de gramíneas e de outras famílias vegetais, destacando-se como uma das pragas mais importantes na cultura do milho. Os adultos são mariposas de coloração geral pardo-acinzentadas, com 2,0 de comprimento e 3,0 cm de envergadura. Cada fêmea pode colocar mais de 1000 ovos, divididos em posturas (massas) sobre as folhas. As lagartas inicialmente são verdes e vão escurecendo à medida que crescem (podem atingir cerca de 4,0 cm de comprimento), adquirindo coloração escura, quase preta; neste espécie, o “Y” invertido na fronte da cabeça é bem evidente. A fase larval dura em torno de três semanas, sendo que a partir de 1,5 a 2,0 cm de comprimento a lagartas duram aproximadamente mais duas semanas, quando consomem em torno de 80% de seu potencial.

A lagarta-militar apresenta comportamento semelhante à lagarta-do-trigo, abrigando-se no solo nas horas mais quentes do dia e agindo mais intensamente ä noite. Também ocorre em focos e apresenta hábitos migratórios, causando danos em manchas da lavoura, cuja tendência é aumentar à medida que as plântulas vão sendo destruídas.

Geralmente, a lagarta-militar ocorre na fase de início de desenvolvimento da cultura de trigo, desde a emergência até o afilhamento, consumindo folhas e plântulas, provocando atrasos no desenvolvimento e redução na população de plantas.

Devido a este hábito de se abrigarem no solo e de se enrolarem sobre si próprias quando molestadas, tanto P. sequax como S. frugiperda são chamadas erroneamente de lagarta-rosca, denominação consagrada para lagartas do gênero Agrotis.

Nessas mesmas regiões onde ocorre S. frugiperda, esporadicamente, o trigo também pode ser atacado pelo curuquerê-dos-capinzais, Mocis latipes (Fig. 2).

Corós topo

Os corós (Coleoptera, Melolonthidae) são larvas de solo de insetos que apresentam desenvolvimento holometabólico. Apresentam o corpo em forma de “C”, de cor esbranquiçada com a cabeça e os três pares de pernas mais escuros. As espécies associadas ao trigo (Fig. 3) são nativas e sua importância econômica cresceu a partir dos anos 80. A espécie Diloboderus abderus (Sturm, 1826) é citada como praga de trigo desde a década de 1950, enquanto que Phyllophaga triticophaga Moron & Salvadori, 1998, foi registrada mais recentemente.

Foto: Paulo R. V. S. Pereira.
coros
Fig. 3. Corós: a) coró-das-pastagens, Diloboderus abderus - adulto macho e larva; b) coró-do-trigo, Phyllophaga triticophaga - adulto e larva (escala= 1 cm).

Os corós constituem problema dos mais sérios para o trigo, no extremo sul do Brasil. Embora a semelhança das larvas possa levar a alguma dificuldade de identificação, estas espécies são facilmente reconhecidas e distinguidas quanto a aspectos morfológicos e biológicos. Os adultos (besouros) diferem claramente no tamanho e na cor, e as larvas (corós) podem ser distinguidas pelo tamanho, se comparadas no mesmo instar (fase larval), cor da cabeça e pela disposição dos pelos e dos espinhos na região ventral do último segmento abdominal.

Os adultos de D. abderus são besouros de coloração quase preta, medindo em torno de 1,3 cm de largura e 2,5 cm de comprimento. Os machos não voam e apresentam um apêndice cefálico na forma de chifre, que se projeta para trás e outro apêndice torácico, bifurcado e mais curto que o anterior, que funcionam como instrumentos de defesa. O ciclo da espécie é anual. Adultos podem ser encontrados de novembro a abril, e a postura é feita nesse período, com mais freqüência em janeiro e fevereiro. Para oviposição, as fêmeas preferem locais com abundância de palha que é utilizada na proteção dos ovos e serve de alimento para as larvas pequenas. Cada fêmea coloca, em média, 14 ovos. A incubação dos ovos dura entre uma e duas semanas. As larvas duram em torno de sete meses, e passam por três instares até empuparem, geralmente a partir de outubro; em seu tamanho máximo atingem 4,0-5,0 cm de comprimento por 1,1 cm de largura, vivem a uma profundidade variável (geralmente entre 10 e 20 cm) e duram cerca de cinco meses, dentro de uma galeria vertical que lhe serve de abrigo.

Os adultos de P. triticophaga são besouros de coloração marrom avermelhada brilhante, com pêlos dourados. Medem cerca de 1,8 cm de comprimento e 0,8 cm de largura. O ciclo desta espécie é bianual. De maneira mais intensa no mês de outubro e início de novembro , à noite, os adultos deixam o solo e vêem à superfície para acasalamento e dispersão. Os ovos são encontrados de novembro a dezembro. A fase larval ocorre desde o final deste primeiro ano, prolonga-se durante todo o ano seguinte e vai até janeiro-fevereiro do terceiro ano, entretanto, a alimentação é interrompida geralmente em novembro. A larva apresenta três instares e atinge 3,0-4,0 cm de comprimento por 0,8 cm de largura; não constrói galerias e vive muito próximo à superfície do solo (concentrando-se nos primeiros 10 cm de profundidade). As pupas são encontradas nos meses de janeiro a abril e a partir de março se transformam em adultos, forma na qual sobrevivem ao inverno, enterrados e sem se alimentarem.

Ambas as espécies alimenta-se na fase larval, consumindo sementes, raízes e plantas que puxam para dentro do solo, após consumirem o sistema radicular. Um único coró, em atividade plena e em seu tamanho máximo, é capaz de consumir em torno de 2 plântulas de trigo em uma semana. Por serem polífagas podem atacar diversas espécies de plantas cultivadas ou não, incluindo plantas daninhas. Todavia, devido a coincidência fenológica, ocasionam maiores danos em culturas de inverno, embora também possam danificar culturas de verão semeadas precocemente (especialmente milho) ou em final de ciclo (especialmente P. triticophaga em soja). Em qualquer caso, os ataques iniciam em manchas, podendo evoluir para áreas maiores.

A ocorrência de corós na cultura do trigo não está generalizada em todas as regiões produtoras. Além disso, numa mesma área, as populações flutuam naturalmente. O não revolvimento do solo para fins de plantio das culturas favorece a sobrevivência dos corós. A crescente adoção de sistemas conservacionistas de manejo do solo, como o plantio direto e o preparo reduzido, apesar de todas as demais vantagens que apresentam, têm contribuído para o aumento da incidência de corós.

O coró-das-pastagens está amplamente disseminado no Rio Grande do Sul e em algumas áreas de Santa Catarina, claramente associado ao não revolvimento do solo. O coró-do-trigo ocorre no norte do Rio Grande do Sul, nas regiões do Planalto Médio, Alto Uruguai, Campos de Cima da Serra e Missões, assim como em Santa Catarina, tanto em plantio direto como em solos preparados convencionalmente para semeadura.

Maiores danos às culturas podem ocorrer anualmente, no caso do coró-das-pastagens, ou em anos alternados, no caso do coró-do-trigo. Em função do tamanho e da capacidade de consumo das larvas de terceiro instar, o período mais crítico para as culturas vai de maio a outubro, e às vezes, a novembro. Os danos de corós em trigo são potencialmente grandes, e decorrem da morte de plantas nas fases de emergência e de perfilhamento e da redução da capacidade de produção das plantas que sobrevivem ao ataque.

Outras espécies de corós têm sido relatadas na cultura do trigo, embora também não sejam pragas específicas. No estado do Paraná, Phyllophaga cuyabana, denominado coró-da-soja pode causar danos em trigo. Em Mato Grosso do Sul, Lyogenis suturalis, conhecido pelo nome comum de coró-do-milho também pode ser praga na cultura de trigo.

Percevejos topo

Os percevejos (Hemiptera) são insetos sugadores, de desenvolvimento paurometabólico, passando pelas fases de ovo, ninfa e adulto. As espécies mais comumente encontradas em trigo pertencem à família Pentatomidae como os percevejos-barriga-verde, Dichelops melacanthus e D. furcatus, o percevejo-verde, Nezara viridula e o percevejo-do-trigo, Thyanta perditor, e à família Miridae, como o denominado percevejo-raspador, percevejo-do-capim ou percequito, Collaria scenica (Fig. 4).

Foto: Paulo R. V. S. Pereira.
percevejos
Fig. 4. Percevejos: percevejos-barriga-verde, a) Dichelops furcatus e b) D. melacanthus; c) percevejo-raspador, Collaria scenica; d) percevejo-verde, Nezara viridula; d) percevejo-do-trigo, Thyanta perditor.

Os percevejos-barriga-verde que historicamente eram citados apenas como pragas secundárias em soja (fase reprodutiva), recentemente passaram a ocorrer em trigo, como pragas de início de ciclo. Os cultivos de safrinhas de milho e a presença de palha na superfície do solo têm sido associados com este fato, fazendo com que os insetos se mantenham na área e busquem o trigo para se alimentarem logo após a emergência das plantas. D. melacanthus, de ocorrência mais comum no Paraná e em latitudes menores, é a espécie que provoca maiores danos exigindo, frequentemente, controle químico. Plântulas atacadas apresentam folhas com perfurações transversais, inclusive com necrose do tecido. As folhas dobram ou quebram nas linhas de perfuração; algumas ficam enroladas e deformadas. Ocorre problemas no afilhamento, no desenvolvimento das plantas e redução no rendimento de grãos. D. furcatus ocorre mais ao sul e não tem sido tão problemática, em função da ocorrência em níveis populacionais menores, até o momento.

O percevejo-verde é uma espécie reconhecidamente polífaga, importante praga da cultura de soja. O adulto apresenta diapausa facultativa no inverno, quando se refugia na vegetação natural. Passado o período mais frio, migra na busca de alimento em plantas hospedeiras, como trigo, colza, linho e leguminosas. Em trigo, a alimentação na espiga em formação, quando as plantas estão em fase de emborrachamento, causa morte da espiga ou de parte dela (espiguetas). As espigas que emergem apresentam-se deformadas, secas e brancas, com sintomas semelhantes aos de dano por geadas.

O percevejo-do-trigo é mais comum nas regiões em que o clima, na época de cultivo de trigo, caracteriza-se por pouca chuva e temperatura relativamente maior, onde também ataca a cultura de arroz.

O percevejo-raspador tem sido encontrado em trigo e em diversas outras gramíneas, cultivadas ou não, como aveia, cevada, triticale, milho, arroz, papuã, festuca, quicuio, azevém, entre outras. Por ser um inseto de tamanho relativamente pequeno (0,8 a 1,0 cm de comprimento) e ao introduzir os estiletes bucais nos tecidos vegetais para sugar o conteúdo celular, provoca morte de células e aparecimento de sintomas típicos de “raspagens”. As manchas esbranquiçadas, que podem evoluir para secamento do tecido, em folhas, colmos e espigas. A população cresce a partir do mês de setembro, quando, normalmente, o trigo está emborrachado ou em espigamento. Altas populações na fase de enchimento dos grãos, como 10 percevejos por planta podem comprometer a folha bandeira e provocar redução no rendimento de grãos.

Manejo das principais pragas topo

Do ponto de vista econômico, o inseto só é considerado praga para uma determinada cultura quando atinge níveis populacionais, cujos danos potenciais superam o gasto que seria necessário para evitá-los. As pragas que com maior frequência atingem essa condição na cultura do trigo a campo, são os pulgões, a lagarta-do-trigo, a lagarta-militar, o coró-das-pastagens, o coró-do-trigo e o percevejo-barriga-verde. Para este último, apesar de sua importância econômica, especialmente no estado do Paraná, ainda não há recomendações quanto ao nível populacional no qual deve ser feito o controle, nem quanto ao método de amostragem. O percevejo-barriga-verde pode ser controlado pela aplicação de inseticida em pulverização ou via tratamento de sementes de trigo com inseticidas sistêmicos.

Para controle químico das pragas de trigo devem ser utilizados apenas produtos registrados para tal no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Recomenda-se que, preferentemente, sejam empregados produtos referendados pela Comissão Brasileira de Pesquisa de Trigo e Triticale e que, entre estes, sejam preferidos os que têm menor efeito tóxico sobre inimigos naturais das pragas, outros animais não visados e para o homem.

Também é necessário considerar que, por força de fatores climáticos e da ação de inimigos naturais (predadores, parasitóides e entomopatógenos), as pragas-chave da cultura de trigo flutuam naturalmente dentro da estação de cultivo ou mesmo de um ano para outro. Este fato dá sustentação ao MIP no sentido de racionalizar o controle químico.

Pulgões Lagartas desfolhadoras
Corós  
Pulgões topo

O manejo integrado dos pulgões do trigo, no extremo sul do Brasil, fundamentado no controle biológico e no uso criterioso do controle químico, se constitui num dos exemplos mais expressivos de sucesso, em culturas não perenes.

Entre o final da década de 1960 e meados da década de 1970, apesar da presença de inimigos naturais dos pulgões nas lavouras, o controle biológico natural não era suficiente para evitar os danos causados em trigo. M. dirhodum e S. avenae desenvolveram altas populações nos trigais do Sul do país, exigindo a adoção de medidas de controle para evitar que ocorressem severas reduções na produtividade das lavouras. O controle era feito com aficidas químicos, por meio de duas a quatro aplicações, em toda a área tritícola.

Em 1978, em colaboração com a FAO e a Universidade da Califórnia (EUA), a Embrapa Trigo iniciou um programa de controle biológico dos pulgões de trigo. Foram introduzidas no país 14 espécies de microimenópteros parasitóides e duas espécies de joaninhas predadoras. O programa deu ênfase aos parasitóides que passaram a ser produzidos massalmente para liberação nas lavouras de trigo. Paralelamente, foi desenvolvido um trabalho de conscientização de técnicos e de triticultores para a adoção do manejo integrado dos pulgões, com base no controle biológico, no conceito de nível de dano econômico e no uso de inseticidas mais seletivos.

O resultado superou todas as expectativas. Certas espécies de parasitóides introduzidos adaptaram-se e passaram a se reproduzir no novo ambiente, alterando a situação de desequilíbrio caracterizada pelos constantes surtos de pulgões. As populações de M. dirhodum e de S. avenae e de seus inimigos naturais se reequilibraram, reacomodando-se em níveis tais que a utilização de inseticidas para o controle dessas espécies reduziu significativamente. Esta situação persiste até hoje, todavia, como já era de se esperar, pelo caráter dinâmico do controle natural, o uso de inseticidas não foi totalmente abolido, sendo porém usado como medida emergencial e não mais generalizada como era na fase anterior à introdução dos inimigos naturais dos pulgões.

Os pulgões são facilmente controlados com inseticidas diluídos em água e aplicados via pulverização da parte aérea das plantas. O tratamento de sementes com inseticidas apropriados também é tecnicamente viável e apresenta os melhores resultados no controle do complexo pulgões/VNAC.

Como critérios para a tomada de decisão na aplicação de inseticidas para o controle de pulgões, em pulverização da parte aérea do trigo, recomenda-se utilizar os parâmetros e critérios apresentados na (Tabela 1). O nível de infestação deve ser avaliado através de inspeções semanais da lavoura, amostrando-se aleatoriamente locais na bordadura e no interior das lavouras, que proporcionem um resultado médio representativo da densidade de pulgões.

Tabela 1. Monitoramento e critérios para tomada de decisão no controle das principais pragas em trigo.
Espécies Monitoramento1
Tomada de decisão
(média)
Pulgão-verde-dos-cereais (Schizaphis graminum1 ),
pulgão-do-colmo (Rhopalosiphum padi),
pulgão-da-folha (Metopolophium dirhodum) e
pulgão-da-espiga (Sitobion avenae)
Contagem direta (emergência ao afilhamento). 10% de plantas infestadas com pulgões
Contagem direta (elongação ao emborrachamento). Média de 10 pulgões/afilho
Contagem direta (espigamento ao grão em massa). Média de 10 pulgões/espiga
Lagarta-do-trigo (Pseudaletia sequax, P. adultera) Contagem direta no solo a partir do espigamento. 10 lagartas maiores 2 cm/m2
Lagarta-militar Spodoptera frugiperda Contagem direta no solo a partir da emergência das plantas No início da infestação
Coró-das-pastagens (Diloboderus abderus) e Coró-do-trigo (Phyllophaga triticophaga) Amostragem de solo antes da semeadura 5 corós/m2
Fonte: REUNIÃO DA COMISSÃO BRASILEIRA DE PESQUISA DE TRIGO E TRITICALE, 2., 2008, Passo Fundo. Informações técnicas para a safra 2009: trigo e triticale. Passo Fundo: Comissão Brasileira de Pesquisa de Trigo e Triticale: Embrapa Trigo: Embrapa Transferência de Tecnologia, 2008. 172 p.
1 Mínimo de 10 pontos amostrais por talhão.
2 Trincheiras de 50-100 cm x 25 cm x 20 de profundidade.

Lagartas desfolhadoras topo

As lagartas que atacam o trigo possuem um número apreciável de inimigos naturais predadores, parasitóides e patógenos, que impedem que surtos de lagartas ocorram todos os anos e de forma generalizada. No manejo das lagartas do trigo deve-se procurar preservar os inimigos naturais e usar o controle químico apenas quando necessário e de forma bastante criteriosa (Tabela 1).

O monitoramento das lagartas com o objetivo de avaliar a densidade populacional e identificar a necessidade de controle deve ser feito por meio de amostragens semanais. Deve ser contado o número de lagartas grandes, médias (2,0 a 3,0 cm de comprimento) e pequenas vasculhando-se cuidadosamente o solo (sob torrões e restos vegetais, fendas etc.) e as plantas. No caso de S. frugiperda, o monitoramento deve começar logo após a emergência das plantas e a aplicação de inseticida tem melhor resultado quando feita no início das infestações, com lagartas de pequeno tamanho. Já para Pseudaletia spp., o monitoramento deve ser intensificado a partir do espigamento e, além do número de lagartas, deve ser avaliado o grau de redução da área da folha bandeira, cuja integridade até o enchimento dos grãos, é fundamental para o máximo rendimento da cultura.

Uma vez constatada a necessidade de controle, preferência deve ser dada a inseticidas específicos, para preservar os organismos não visados, e com período de carência compatível com a situação, especialmente no caso de Pseudaletia spp., cuja ocorrência pode ser próxima à colheita. Os inseticidas devem ser aplicados em pulverização da parte aérea das plantas e, sempre que possível, apenas nos focos de infestação. Em princípio, tendo em vista o alto potencial de danos que as lagartas apresentam, seja por atacarem plântulas (S. frugiperda) ou por atacarem espigas (Pseudaletia spp), a aplicação de lagarticidas não deve ser deixada para quando as lagartas já estão em seu tamanho máximo, quando ainda podem durar em torno de 7 a 14 dias e apresentar grande capacidade de consumo. O tamanho das lagartas também deve ser considerado em relação ao modo de ação do inseticida a ser escolhido. Quando predominam na população lagartas grandes, produtos de ação mais rápida devem ser os preferidos. Inseticidas reguladores de crescimento devem ser usados para lagartas de tamanho pequeno e/ou médio.

Corós topo

De modo geral, quanto maior a população de corós-pragas, maior é o potencial de danos e maior a dificuldade de controle. Densidades superiores ao nível de ação ou nível de controle (Tabela 1) implicam no emprego de maiores doses de inseticidas, diminuindo a probabilidade de sucesso e de retorno econômico para a prática de controle. Eventualmente, o controle pode ser aplicado apenas nas manchas de ataque (reboleiras).

Por se tratarem de insetos de ciclo longo, para o manejo dos corós é fundamental que seja feito o monitoramento periódico das áreas, tanto no inverno como no verão, visando constatar o início e a evolução das infestações e identificar e quantificar as espécies. O monitoramento deve ser feito ao longo de todos o ano, antes da semeadura, durante o desenvolvimento das plantas e após a colheita das culturas, por meio da abertura de trincheiras, da observação da ocorrência de sintomas em plantas (morte de plântulas ou de afilhos, desenvolvimento reduzido) e da ocorrência de perdas na produtividade (Tabela 1). Esses registros sistemáticos em relação aos corós e seus danos, permitem o mapeamento das infestações e a elaboração de uma espécie de histórico da área, que facilitará o planejamento da lavoura e as decisões de manejo.

A correta identificação das espécies de corós presentes nas lavouras é essencial uma vez que nem todos os corós presentes no solo são rizófagos. Os corós-pragas, apesar de poderem ocorrer simultaneamente, diferem quanto a biologia e hábitos alimentares.

No caso específico de D. abderus, que requer restos culturais para cumprir, normalmente, seu ciclo biológico, culturas de inverno que proporcionam pouca disponibilidade de palha no período de oviposição do inseto (verão), desfavorecem o estabelecimento ou crescimento populacional na área, a longo prazo. Assim o sistema onde se cultivam leguminosas (ervilhaca, tremoço etc.) ou crucíferas (colza) no inverno e milho no verão, são menos adequados para D. abderus do que a sucessão aveia preta/soja. No caso de P. triticophaga, em decorrência do ciclo biológico de dois anos, o uso da área pode ser planejado para minimizar danos, como por exemplo, produzindo grãos no ano com menor risco e palha, pasto, adubo verde etc., no ano mais sujeito ao ataque de corós.

O fato dos corós serem polífagos limita o uso da rotação de culturas como método de controle. Certas culturas, porém, como a aveia-preta, são menos danificadas e se cultivadas sem expectativa de retorno financeiro direto (plantio para proteção de solo contra a erosão, produção de palha, alimentação animal, melhoria de solo etc.), toleram maior nível populacional de corós.

Pela eficiência e pela facilidade de aplicação, o tratamento de sementes com inseticidas é o método de controle químico mais indicado para controle de corós em cereais de inverno. Entretanto, além da escolha do inseticida e da dose adequada, o tratamento de sementes pode não proporcionar o resultado esperado se aplicado isoladamente, fora do contexto de MIP. Por outro lado, a viabilidade econômica do tratamento de sementes depende do potencial de produtividade da lavoura. Assim, o tratamento de sementes com inseticidas para controle de corós deve ser aplicado integradamente com as demais práticas do MIP, especialmente com a realização de monitoramento e amostragens para identificação das espécies e determinação da densidade de infestação (nível de ação ou de controle).

 
 
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