Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 2
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Jan/2003

Uvas Americanas e Híbridas para Processamento em Clima Temperado

Francisco Mandelli
Alberto Miele

Início

Clima
Preparo do solo, calagem e adubação
Porta-enxertos e cultivares
Obtenção e preparo da muda
Sistema de condução
Poda
Doenças fúngicas e medidas de controle
Doenças causadas por vírus, bactérias e nematóides e medidas de controle
Pragas e medidas de controle
Normas gerais sobre o uso de agrotóxicos
Maturação e colheita
Custo e rentabilidade
Produção e mercado
Referências
Glossário



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.Poda

     A videira, em seu meio natural, pode atingir grande desenvolvimento. Nessas condições, a produtividade não é constante e os cachos são pequenos e de baixa qualidade. Ao limitar o número e o comprimento dos sarmentos, a poda seca proporciona um balanço racional entre o vigor e a produção, regularizando a quantidade de uva produzida e sua qualidade. A poda verde constitui-se num importante complemento da poda seca para melhorar as condições do dossel vegetativo do vinhedo.

Poda seca
Escolha do sistema de poda

Localização e tipos de gemas

Princípios fundamentais da poda
Informações adicionais aos princípios da poda
Época da poda
Elementos da poda
Sistemas de poda
Localização dos cortes de poda
Tipos de poda
Poda verde

Poda seca

     Os principais objetivos da poda seca são: a) propiciar que as videiras frutifiquem desde os primeiros anos de plantio; b) limitar o número de gemas para regularizar e harmonizar a produção e o vigor, de modo a não expor as videiras a excessos de produção que podem levá-las a períodos de baixa frutificação; c) melhorar a qualidade da uva, que pode ser comprometida por uma elevada produção; d) uniformizar a distribuição da seiva elaborada para os diferentes órgãos; e) proporcionar à planta uma forma determinada que se mantenha por muito tempo e que facilite a execução dos tratos culturais.

Escolha do sistema de poda

     A eleição de um sistema de poda depende da cultivar, das características do solo, da influência do clima e de aspectos sanitários.

Cultivar: pode-se adotar a poda mista (vara e esporão) em determinadas cultivares, como na Niágara Branca, e a poda em cordão esporonado, como na Isabel. Em condições similares de clima e solo, as diversas cultivares apresentam desenvolvimento vegetativo diferenciado. Nas vigorosas, deixa-se um maior número de gemas/vara.
     O sistema de poda depende também da localização das gemas férteis ao longo do sarmento. Se as gemas estiverem situadas em sua base, normalmente faz-se a poda em cordão esporonado; as cultivares que apresentam gemas inférteis na base do sarmento exigem poda mista. O comprimento dos entrenós também deve ser considerado para a realização da poda.

Características do solo: o vigor da planta está relacionado com a fertilidade do solo. Videiras em solos de baixa fertilidade não são muito vigorosas e, por isso, normalmente adota-se a poda curta; solos férteis propiciam grande desenvolvimento às videiras, sendo então utilizada a poda longa.

Influência do clima: uma mesma cultivar, plantada em solos similares, comporta-se segundo as características climáticas do local. Em áreas sujeitas a geadas tardias, a videira deve ser conduzida mais alta. Em climas úmidos, as gemas da base do sarmento geralmente são inférteis. Climas secos proporcionam maior fertilidade das gemas da base do sarmento. É importante, ainda, considerar a predominância dos ventos.
     Nas regiões onde a incidência direta do sol não é favorável à qualidade da uva, deve-se fazer a poda de forma que os cachos fiquem sombreados; nas regiões frias e úmidas, a poda deve facilitar a incidência dos raios solares nos cachos.

Aspectos sanitários: as partes da videira com umidade persistente e pouco arejadas propiciam o desenvolvimento de doenças fúngicas. Para evitar a proliferação de doenças nas videiras, deve-se eleger o sistema de poda que assegure o máximo de circulação de ar e penetração de luz.

Localização e tipos de gemas


     Na videira não se distinguem gemas vegetativas e gemas frutíferas, como em muitas espécies, mas sim somente gemas mistas, que originam brotos com inflorescências e folhas ou somente folhas. A gema da videira é composta, sendo a principal chamada de primária, que dá origem a um broto frutífero; as outras duas são chamadas de secundárias, que geralmente brotam quando ocorrer algum dano com a gema primária (geada, granizo, vento, dano nas gemas superiores), as quais dão origem a brotos que podem ser férteis ou não. Em geral, são mais férteis nas variedades americanas e híbridas que nas viníferas.
     As gemas da videira se localizam nas axilas das folhas, na posição lateral do ramo, inseridas junto aos nós (Figura 1).


Gemas prontas: formam-se na primavera-verão, cerca de uma dezena de dias antes das gemas francas. Assim que formadas podem dar origem a uma brotação chamada feminela ou neto (ramo antecipado), que pode ser estéril, pouco ou muito fértil, segundo a cultivar. Localiza-se, também, na axila das folhas, ligeiramente descentralizada e abaixo da gema franca.

Gemas francas ou axilares: formam-se na base das gemas prontas, junto à inserção do pecíolo foliar e permanecem dormentes durante o ano de formação, mas sofrem uma série de transformações. A formação do esboço dos cachos se completa somente na primavera seguinte. Durante a brotação e desenvolvimento dos ramos, as gemas francas não germinam porque são inibidas pela atividade dos ápices vegetativos (dominância apical) e das gemas prontas (inibição correlativa). Essas gemas podem produzir de um a qautro cachos, e até cinco como por exemplo na Couderc 13.

Gemas latentes: são gemas não muito desenvolvidas, localizadas na madeira velha, que foram cobertas pela sucessiva formação de tecidos. Quando brotam dão origem a ladrões estéreis, que surgem quando se realiza uma poda drástica; ocorre danos por geadas tardias nas outras gemas; há problemas com a circulação da seiva.

Gemas basilares, da coroa ou casqueiras: são um conjunto de gemas não bem diferenciadas que se formam na base do ramo, junto à inserção do broto do ano com a madeira do ano anterior. Somente brotam quando se fizer poda curta, aplicação de regulador de crescimento ou ocorrer problemas com as gemas francas. Geralmente são férteis nas cultivares americanas e inférteis nas viníferas.

Gemas cegas: são as mais desenvolvidas das gemas basilares, sendo as primeiras gemas visíveis localizadas logo acima dessas. Geralmente elas são férteis nas americanas.


Fig. 1. O sarmento da videira e suas partes (Segundo Chauvet & Raynier, 1979).

Princípios fundamentais da poda

     Mesmo que os sistemas de poda sejam transmitidos durante gerações, de forma empírica ou intuitiva, é importante que o podador conheça as bases racionais nas quais se sustenta a difícil técnica de podar. Os princípios da poda são os seguintes:

  • A videira normalmente frutifica em ramos do ano que se desenvolvem de sarmentos do ano anterior.
  • O ramo que proporcionou um broto frutífero não produz novamente, por isso deve ser substituído por outro que ainda não tenha produzido. A preocupação deve ser o presente (próxima safra), mas não se pode esquecer o futuro (safras subseqüentes).
  • A frutificação é em geral inversa ao vigor, pois a produção de uva reduz a capacidade da videira para a próxima safra ou safras. As videiras com altas produções apresentam menos vigor e terão menores produtividades no ano seguinte ou nos anos seguintes.
  • O vigor individual dos ramos de uma videira é inversamente proporcional ao seu número.
  • Quanto mais o ramo se aproximar da posição vertical, maior será o seu vigor. A brotação se inicia pelas gemas das pontas das varas ou esporões (brotação mais precoce e mais vigorosa); as gemas da parte mediana e da base das varas brotam posteriormente. A curvatura da vara, as amarrações e o uso de reguladores de crescimento alteram essa dominância.
  • Uma videira só tem condições de nutrir e maturar de forma eficaz uma determinada quantidade de frutos.
  • Os ramos mais afastados do tronco são, em igualdade de condições, os mais vigorosos. As gemas mais afastadas da base do ramo têm, em geral, maior fertilidade.
  • O tamanho e o peso dos cachos, nas mesmas condições de cultivar, solo, clima e poda, aumentam quando se faz desbaste de cachos após o pegamento do fruto.
  • Qualquer que seja o sistema de poda aplicado, o viticultor deverá vigiar para que a futura área foliar e a produção tenham as melhores condições de aeração, calor e luminosidade.
  • Para continuar um braço se elegerá o sarmento situado mais baixo e mais próximo da base.
Informações adicionais aos princípios da poda

  • A dominância apical é variável em função da variedade (as que possuem forte dominância apical devem ser podadas curtas), do vigor da videira (plantas fracas apresentam dominância apical mais marcada), do rigor do período de repouso (inverno deficiente a favorecem) e do tipo de sustentação (orientação dos ramos).
  • A adequada nutrição de carboidratos, o crescimento moderado do ramo e a produtividade normal favorecem a maturação do ramo e propiciam a formação de gemas frutíferas. Os sarmentos maduros armazenam maior quantidade de reservas (amido e sacarose) que sarmentos parcialmente maduros.
  • O comprimento do entrenó está relacionado com o vigor da planta (velocidade de crescimento). Ramos formados no início do ciclo e com crescimento regular terão entrenós com comprimento normal, o que significa dizer boas condições para o desenvolvimento das gemas frutíferas e para a maturação; entrenós muito longos indicam excesso de vigor e de crescimento, induzindo à formação de sarmentos imaturos e deficiente desenvolvimento das gemas frutíferas; entrenós muito curtos ocorrem quando há nutrição deficiente, falta de água, pragas ou doenças.
  • Os ramos ladrões com crescimento normal podem ser utilizados como elementos da poda. Quando o desenvolvimento é rápido, com excessivo vigor, apresentam gemas pouco férteis ou geralmente estéreis.
  • O podador deve selecionar as varas e os esporões pela sua condição (vigor e sanidade) e, após, pela sua posição na planta.
Época da poda

    A época depende de vários fatores, entre os quais a cultivar, tamanho do vinhedo, topografia do terreno (riscos de geadas tardias), disponibilidade de mão-de-obra qualificada, concorrência com outras atividades na propriedade, umidade do solo e objetivos da produção (indústria, mesa).
     A poda é feita durante o período de repouso da videira, isto é, desde a queda das folhas até pouco antes do início da brotação. Nas regiões expostas a geadas tardias poda-se tarde; nos climas temperados, durante o inverno; e podam-se tarde as videiras vigorosas e cedo, as fracas. As podas excessivamente precoces ou demasiadamente tardias são debilitantes para a videira e retardam a brotação.
     Para as condições da Serra Gaúcha, a poda tardia é recomendável pois apresenta as seguintes vantagens: a brotação tardia é mais uniforme; há menor incidência de antracnose e menor probabilidade de danos por geadas; propicia maior produtividade do vinhedo; e a temperatura é mais adequada para o desenvolvimento dos tecidos e órgãos da videira.

Elementos da poda

     Os elementos da poda são o esporão e a vara. O esporão desempenha duas funções na poda, ou seja, frutificação e produção de sarmento para a futura poda. Quando adotada a poda mista, sua função principal é a produção de sarmentos. A função da vara é a frutificação.

Sistemas de poda

    Há grande variabilidade de sistemas de poda, em função da cultivar, clima, solo e porta-enxerto. Mas, podem ser agrupados em poda curta (cordão esporonado) e mista (vara e esporão). A poda é considerada curta quando o esporão tem até três gemas francas, e mista quando permanecem esporões e varas na mesma planta.
     Em função do número de gemas deixadas na videira a poda pode ser rica, média ou pobre. Uma poda é considerada rica quando permanecem mais de 120 mil gemas por hectare e pobre, quando esta quantidade é de 50 mil a 60 mil gemas por hectare. Existe uma carga ótima para cada planta, dependendo das condições existentes. Se a quantidade de gemas for menor daquela que a planta exigir, os brotos serão muito vigorosos, haverá maior número de ladrões e, eventualmente, surgirão problemas com a floração; caso a quantidade de gemas for exagerada, resultará numa produção excessiva de frutos que debilitará a planta. O equilíbrio entre a parte vegetativa e a produtiva pode ser expresso pela relação peso fresco do fruto/peso da poda. Um vinhedo equilibrado apresenta valores entre 5 e 10.
     O sistema de poda seca recomendado para as cultivares americanas e híbridas depende principalmente do hábito vegetativo de cada variedade.
     A Isabel e a Bordô devem ser podadas deixando-se esporões com uma gema. Entretanto pode-se também fazer uma poda rasa, que consiste em podar rente à madeira. No caso de haver necessidade de renovação de parte da planta, deve-se deixar varas contendo um certo número de gemas, determinado principalmente pela posição do esporão que deu origem a essa vara em relação aos fios de sustentação da folhagem, que serão utilizadas para substituir as partes comprometidas da videira.
     A Niágara Branca e demais cultivares com hábito vegetativo similar às viníferas, deve ser podada no sistema poda mista. Se o sistema de condução adotado é o latada, deixam-se de 5 a 6 varas e de 12 a 15 esporões por planta; mas se o sistema for o espaldeira, deixam-se 2 varas, uma para cada lado do fio de sustentação da produção, e 3 ou 4 esporões por planta.

Localização dos cortes de poda

    Quando o corte for realizado no tronco ou nos braços da videira, geralmente ocorre a morte dos tecidos subjacentes à secção do corte se ele for efetuado próximo à parte que permanece. Isto por que pode haver infiltração de água da chuva, que pode provocar a decomposição e a necrose do tecido caso não forem adequadamente protegidos até que se forme a cicatriz que o isola dos agentes externos. É importante deixar um pouco de madeira, a qual contribuirá para melhorar a cicatrização.
     Os cortes nas varas e esporões não devem deixar a medula exposta, pois pode ocorrer acúmulo de água da chuva e a entrada de insetos e fungos parasitas da videira. Geralmente poda-se logo acima da última gema que se quer deixar, a fim de que permaneça uma pequena porção da medula. O corte deve ser em bisel, com a parte mais comprida do lado da última gema.

Tipos de poda

     Há três tipos de poda da videira: formação, frutificação e renovação, realizadas em função da idade da videira.

Poda de formação: tem por finalidade dar a forma adequada à planta, de acordo com o sistema de sustentação adotado.
     Desde o plantio da muda ou da enxertia é importante que ocorra um bom desenvolvimento da área foliar e, conseqüentemente, do sistema radicular. Por isso, toda a vegetação da planta deve ser mantida em boas condições.
     A formação da planta deve ser bem planejada e posta em prática no início da brotação. Para a Serra Gaúcha recomendam-se os seguintes procedimentos: o broto de maior vigor do enxerto ou da muda (Figura 2A) é conduzido mediante sucessivas amarrações junto ao tutor (Figura 2B); quando esse broto alcançar a estrutura da latada ou o primeiro fio da espaldeira, será despontado cerca de 10 cm abaixo desta (Figura 2C), para eliminar a dominância apical e estimular a brotação e o desenvolvimento das feminelas; os brotos das últimas duas feminelas são conduzidos no arame, mediante amarrações no sentido da linha de plantio, um para cada lado (Figura 2D). Esses brotos serão os futuros braços da videira. Caso eles tiverem o vigor suficiente, poderão ser novamente despontados.
     A poda de formação consiste em podar os futuros braços das videiras que foram despontadas, deixando no máximo seis gemas (Figura 2E). As mudas que não foram despontadas, mas que apresentam vigor suficiente, são podadas na altura da estrutura de sustentação. As mudas fracas devem ser podadas a duas gemas.
     Normalmente, a poda de formação é concluída até o terceiro ano. A poda de formação adequada proporciona maior facilidade para a realização da poda de frutificação.


Fig. 2. Poda de formação: A - enxerto ou muda; B - condução da muda; C - desponta; D - condução das feminelas; E - poda seca. (Desenhos: Adriano Mazzarolo)


Poda de frutificação: A poda de frutificação, também chamada de poda de produção, tem por objetivo preparar a videira para a produção da próxima safra. Deve ser feita através da eliminação de sarmentos mal localizados ou fracos e de ladrões, a fim de que permaneçam na planta somente as varas e/ou esporões desejados. A carga de gemas do vinhedo deve ser adequada à maximização da produtividade e da qualidade de uva, sem comprometer as produções dos anos seguintes.
     Nas videiras espaçadas de 2,5 m x 1,5 m, conduzidas em latada e com poda mista, pode-se deixar, em cada braço, três varas com 6 a 7 gemas cada uma e até 6 esporões com duas gemas cada um (Figura 3A). Isso resulta de 60 a 66 gemas/planta. As varas devem estar distanciadas entre si cerca de 0,50 m. Portanto, nos 0,75 m de cada braço permanecem duas varas num sentido e uma no sentido oposto. Os esporões localizam-se próximos às bases das varas. As sucessivas podas de frutificação resumem-se em eliminar as varas que já produziram e substituí-las por outras originadas dos esporões (Figura 3B). Das duas brotações dos esporões (Figura 3C) seleciona-se, na próxima poda, a mais afastada do braço para ser a futura vara (Figura 3D) e a mais basal para ser o esporão (Figura 3E). Desta forma, a carga básica é de 6 varas e 12 esporões por videira.


Fig. 3. Poda de frutificação: A - planta antes da poda, mostrando os sarmentos originados dos esporões e varas deixados no ano anterior; B - planta mostrando as varas e os esporões deixados após a poda; C - brotação das duas gemas do esporão; D - detalhe indicando a posição dos cortes na poda mista de inverno; E - detalhe mostrando a vara e o esporão após a poda. (Desenhos: Adriano Mazzarolo)

Poda de renovação: a poda de renovação consiste em eliminar as partes da planta, principalmente braços e cordões, que se encontram com pouca vitalidade devido a acidentes climáticos, danos mecânicos, doenças ou pragas, e substituí-los por sarmentos mais jovens. É utilizada, também, para rebaixar partes da planta que se elevaram em demasia em relação ao aramado, bem como as partes que, devido a sucessivas podas, se distanciaram dos braços ou cordões.
     Para a renovação de toda a copa, utiliza-se a brotação de uma gema latente do tronco (ladrão) bem localizada e a partir dela se reconstitui a planta. Essa prática é pouca utilizada sendo preferível a substituição da videira.

Poda verde

     A poda verde é efetuada com o objetivo de complementar a poda seca da videira e de melhorar o equilíbrio entre a vegetação e os órgãos de produção. No manejo do dossel, a poda verde é uma de suas principais atividades. Ela consiste na desbrota, no esladroamento, na desfolha e na desponta de ramos, quando forem verdes ou herbáceos.
     Os objetivos gerais da poda verde na videira são: 1) direcionar o crescimento vegetativo para as partes que formarão o tronco e os braços. Isso é feito com a eliminação de gemas, desponta e eliminação de ladrões; 2) diminuir os estragos causados pelo vento; e 3) abrir o dossel vegetativo de maneira a expor as folhas mais favoravelmente à luz e ao ar.

Desbrota e Esladroamento: A desbrota e o esladroamento consistem em suprimir as gemas, os brotos e os ramos que se desenvolvem nos troncos e nos braços e os ladrões que se desenvolvem no porta-enxerto.
     Essas práticas têm como principais objetivos: eliminar órgãos frutíferos ou não; reduzir os riscos de infecção de doenças fúngicas como o míldio e a podridão do cacho; reduzir os riscos da fitotoxicidade de herbicidas sistêmicos; preparar as operações da poda seca, de maneira a reduzir o tempo para a execução dessa prática; auxiliar no estabelecimento das plantas como complemento da formação de inverno.
     A remoção de gemas inchadas ou de brotos da parte inferior do tronco de uma planta jovem é realizada com o intuito de concentrar o crescimento em um ou mais ramos situados na parte superior, os quais formarão os braços da videira. Nas plantas mais jovens geralmente deixa-se apenas a gema superior, a fim de concentrar o crescimento no único ramo que formará o tronco da videira. Entretanto, em certos casos, é conveniente deixar duas gemas, com o intuito de garantir o desenvolvimento de um dos ramos delas originados.
     A remoção dos ladrões geralmente é feita manualmente, entre a brotação e a floração da videira, em uma ou mais vezes, se necessário. Se houver disponibilidade de mão-de-obra, o esladroamento deve ser executado o mais cedo possível. De um modo geral deve ser realizado nos três primeiros anos, para evitar o surgimento de ladrões a partir do quarto ano.

Desfolha: A desfolha consiste na eliminação de folhas da videira, principalmente as situadas próximas aos cachos.
     Essa prática tem como principais objetivos: aumentar a temperatura, a insolação e a aeração na região dos cachos; melhorar a coloração e a maturação das bagas; reduzir a incidência das podridões do cacho; favorecer a penetração dos fungicidas no dossel vegetativo e nos cachos.
     A desfolha, da mesma forma que a desponta, deve ser feita com cuidado, pois se for inadequada pode comprometer a atividade fotossintética da planta. Deve ser feita durante o pegamento do fruto se os objetivos forem os de dar melhores condições para a maturação da uva e de diminuir as condições de incidência de Botrytis. Mas se o objetivo for acelerar a maturação, ela deve ser feita poucos dias antes da colheita da uva. Deve-se salientar que, em qualquer caso, deve-se eliminar somente as folhas muito desenvolvidas, as mais velhas, para não comprometer o fornecimento de nutrientes para o cacho.

Desponta: A desponta consiste na eliminação de uma parte da extremidade do ramo em crescimento e tem os seguintes efeitos:

  • efeito fisiológico – diminuir a incidência do desavinho em cultivares susceptíveis a este distúrbio fisiológico;
  • efeito prático – facilitar a penetração de materiais e de produtos fitossanitários, o que não seria tão facilmente realizado com uma vegetação densa;
  • efeito sobre o microclima dos cachos - melhorar as condições de insolação e de aeração através da redução da sombra;
  • efeito sobre a sensibilidade às doenças - eliminação de órgãos jovens susceptíveis à infecção de doenças, especialmente do míldio;
  • efeito sobre a morfologia da planta - manter um porte ereto dos ramos no vinhedo conduzido em espaldeira, antes que adquiram uma posição em direção ao solo.

     A desponta deve ser feita manualmente a partir da floração, repassando duas ou três vezes se necessário. Se realizada muito cedo, ela pode estimular o desenvolvimento das feminelas aumentando o efeito da competição por nutrientes; se praticada muito tarde, não apresenta efeito sobre o pegamento do fruto.
     A intensidade da desponta não deve ser muito severa, pois pode causar um importante efeito depressivo na videira. De um modo geral, recomenda-se suprimir em torno de 15 cm do ramo. Supressões mais severas, ou seja, de 30 cm a 60 cm, podem causar os problemas acima mencionados.

    

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