Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 2
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Jan/2003

Uvas Americanas e Híbridas para Processamento em Clima Temperado

Marcos Botton
Saulo de Jesus Soria
Eduardo Hickel

Início

Clima
Preparo do solo, calagem e adubação
Porta-enxertos e cultivares
Obtenção e preparo da muda
Sistema de condução
Poda
Doenças fúngicas e medidas de controle
Doenças causadas por vírus, bactérias e nematóides e medidas de controle
Pragas e medidas de controle
Normas gerais sobre o uso de agrotóxicos
Maturação e colheita
Custo e rentabilidade
Produção e mercado
Referências
Glossário



Expediente
Autores

Pragas e medidas de controle

     A seguir, são apresentadas as principais pragas que podem afetar acultura de videira americana e híbrida na região sul do Brasil, com indicação das medidas de controle que podem ser adotadas pelos viticultores.

Pérola-da-terra - Eurhizococcus brasiliensis (Hempel, 1922) (Hemiptera: Margarodidae)
Filoxera - Daktulosphaira vitifoliae (Fitch, 1856) (Hemiptera: Phylloxeridae)
Cochonilhas da parte aérea

Ácaros da videira

Besouros desfolhadores
Maecolaspis aenea (Fabricius, 1801), M. trivialis (Boheman, 1858) e M. geminata (Boheman, 1859) (Coleoptera: Chrysomelidae)
Vespas e Abelhas

Pérola-da-terra - Eurhizococcus brasiliensis (Hempel, 1922) (Hemiptera: Margarodidae)

     A pérola-da-terra (Figura 1) é uma cochonilha subterrânea que ataca as raízes de plantas cultivadas e silvestres (Tabela 1). O inseto é considerado a principal praga da videira sendo responsável pelo abandono da cultura em várias localidades devido as dificuldades de controle. A sucção da seiva efetuada pelo inseto nas raízes provoca um definhamento progressivo da videira, com redução na produção e conseqüente morte das plantas.


Fig. 1. Pérola-da-terra em raízes de videira.
(Foto: G. Kuhn).

     As seguintes práticas culturais devem ser adotadas pelos produtores para implantar parreirais em áreas infestadas.

  • Fazer análise do solo, corrigir e adubar a área de acordo com as recomendações para a cultura.
  • Realizar o preparo do solo de modo a permitir que as raízes tenham um bom desenvolvimento.
  • Utilizar mudas de boa procedência e livres de viroses. A ausência de viroses auxilia no desenvolvimento das plantas, resultando em maior tolerância ao ataque da praga.
  • Utilizar porta-enxertos mais resistentes à pérola-da-terra como o 39-16 e o 43-43. Mesmo com o emprego destes porta-enxertos, o controle químico é necessário, especialmente nos primeiros anos do plantio quando as plantas são mais sensíveis.
  • Controlar as plantas hospedeiras do inseto presentes na área (Tabela 1). Nos primeiros anos, caso o produtor queira cultivar outras espécies para aproveitar o terreno no interior do parreiral, deve utilizar culturas anuais não hospedeiras da praga, como o alho e o feijão.


Tabela 1.
Relação dos hospedeiros nos quais constatou-se a pérola-da-terra Eurhizococcus brasiliensis (compilação de Gallotti, 1976).

Espécie Nome científico Família
Aboboreira Cucurbita pepo L. Cucurbitaceae
Alecrim Rosmarinus officinalis L. Labiatae
Alface Lactuca sativa L. Compositae
Almeirão Chicorium endivia L. Compositae
Amarilis Amarilis sp. Amarilidaceae
Ameixeira Prunus domestica L. Rosaceae
Amendoim Arachis hipogea L. Leguminosae
Amora Morus nigra, Morus alba L. Moraceae
Batata doce Ipomoea batatas Lam. Convolvulaceae
Batatinha Solanum tuberosum L. Solanaceae
Camomila Matricaria chamomilla L. Compositae
Cana-de-açúcar Saccharum officinarum L. Gramineae
Capim de folha larga Digitaria sp. Gramineae
Carqueja Baccharis genistelloides Pers. Compositae
Carurú-bravo Phytoloca decandra L Phytolaccaceae
Castanheira portuguesa Castanea vesca Gaerth Fagaceae
Cenoura Daucus carota L. Umbelliferae
Cerejeira Prunus cerasus L. Rosaceae
ChicóriaChicorium endivia L. Compositae
Chuchuzeiro Sechium edule Sw. Cucurbitaceae
Chorão Salix humboldtiana Kunth Salicaceae
Cinamomo Melia azedarach L. Meliaceae
Cipó-de-veado Convolvulus ottonis Convolvulaceae
Crisântemo Chrysanthemum sp. L. Compositae
Dália Dahlia sp. Compositae
Erva-de-bicho Polygonum cacre HBK. Poligonaceae
Erva lanceta Solidago microgiossa DC. Compositae
Erva mate Ilex paraguayensis St. Hil. Aquifoliaceae
Funcionária Gazania ringens \hibr.  
Gardênia Gardenia jasminoides Eii. Rubiaceae
Gerânio Pelargonium zonale Willd. Geraniaceae
Goiabeira Psidium guajava L. Myrtaceae
Guaxuma Sida thombifolia L Malvaceae
Língua-de-vaca Rumex sp. Compositae
Lírio-do-brejo Hedychium coronarium Koehne Zingiberaceae
Macieira Malus domestica Borkh. Rosaceae
Mandioca Manihot utilissima Pohl. Euphorbiaceae
Marmeleiro Cydomia vulgaris L. Rosaceae
Melancia Citrullus vulgaris Schard Cucurbitaceae
Melão Cucumis melo L. Cucurbitaceae
Milho Zea mays L. Gramineae
Morangueiro Fragaria vesca L. Rosaceae
Nabo Brassica campestris L. Cruciferae
Nogueira Juglans regia L. Juglandaceae
Nogueira pecã Carya illinoensis Juglandaceae
Palmeira Arecastrum romanzophianum Palmae
Pepino Cucumis sativus L. Cucurbitaceae
Pereira Pyrus communis L. Rosaceae
Pessegueiro Prunus persica (Sieb. et Zucc.) Rosaceae
Pinheiro Araucaria angustifolia Araucariaceae
Quiabeiro Hibiscus esculentus L. Malvaceae
Quina Solanum pseudoquina Solanaceae
Rabanete Raphanus sativus L. Cruciferae
Romãzeira Punica granatum L. Punicaceae
Roseira Rosa sp. Rosaceae
Salsa Petroselinum hortense Umbelliferae
Sálvia Salvia splendes Sellow Labiatae
Sempre noiva Helichrysum sp. Compositae
Soja Glycine max Leguminosae
Uva do Japão Hovenia dulcis Thunb. Rhamnaceae
Vassoura Baccharis sp. DC. Compositae
Videira Vitis sp.. Vitaceae

   
Quando o ataque ocorre em parreirais já implantados, adotar os seguintes procedimentos:
     Realizar a adubação do parreiral conforme as recomendações para a cultura. Não cultivar plantas hospedeiras do inseto no interior do parreiral. É comum os produtores cultivarem espécies como a batata-doce no interior do parreiral ou plantarem figueiras ou roseiras nas bordas, visando aproveitar o espaço. Estas espécies auxiliam a aumentar a população da praga na área, sendo responsáveis pela reposição do inseto que atacará as plantas de videira.
     Manter o parreiral livre de plantas invasoras hospedeiras do inseto. Nas áreas infestadas, é comum encontrar espécies invasoras que também são atacadas pela pérola-da-terra, como a língua-de-vaca. As plantas invasoras servem de reservatório natural do inseto na área, contribuindo para aumentar a infestação do parreiral.
     Evitar a utilização de equipamentos como a enxada rotativa no interior da área, visto que aumenta a dispersão do inseto.
     Preservar a sanidade das folhas da videira após a colheita das uvas, visando ampliar as reservas da planta para a entressafra.
     Com relação ao emprego de inseticidas, o vamidotiom (Kilval 300) foi empregado com sucesso no controle da praga. Entretanto, o inseticida foi retirado do mercado brasileiro na safra 1999/2000. Atualmente, o controle químico é realizado nas áreas infestadas segundo indicação na Tabela 2.


Tabela 2.
Inseticidas registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento recomendados para o controle da pérola-da-terra na cultura da videira. Bento Gonçalves, RS, 2002.

   
Inseticida Idade das plantas Dosagem
(g produto comercial/planta)
Classe toxicológica Carência
(dias)
Actara 10 GR
(Tiametoxam, 1%)
1 ano

2 anos

3 anos
12 a 20

20 a 30

30 a 40
 

IV

 
 

45

 
Premier 700 GrDA
(Imidacloprid, 70%)
1 ano

2 anos

3 anos
0,2 a 0,3

0,3 a 0,5

0,5 a 0,8
 

IV

 
 

60

 

     Os inseticidas devem ser aplicados no solo, durante o mês de novembro, período em que inicia o ataque das ninfas primárias às raízes da videira. Em situações de alta infestação, a dosagem recomendada pode ser dividida em duas, aplicando-se em novembro e janeiro. O índice de controle da praga reduz conforme aumenta a idade das plantas. Por isso, é fundamental estabelecer um programa de controle do inseto na propriedade a partir do primeiro ano de plantio. O tiametoxam, na formulação granulada, deve ser aplicado sobre o solo, incorporando o produto em seguida. O imidacloprid deve ser diluído em água e regado no solo, na região onde se encontra o sistema radicular, aplicando-se de dois a quatro litros de calda por planta. Caso haja necessidade, pode ser empregado o aplicador desenvolvido para esta finalidade, que permite dosar a quantidade de água e produto conforme a idade das plantas (Figura 2). Quando o inseto ataca plantas adultas, a redução na população do inseto não tem sido significativa somente com um ano de tratamento. Nestas situações, a redução na população da praga é gradual, devendo-se realizar o tratamento por mais de uma safra, aumentando-se proporcionalmente a dosagem dos produtos. Em casos de infestação elevada, é conveniente fazer o replantio das mudas com porta-enxertos resistentes, aplicando o programa de tratamento recomendado para plantas novas.
     Os produtos devem ser aplicados quando as plantas estejam em plena atividade, evitando períodos de estiagem. É importante controlar as invasoras próximas às raízes para evitar que as mesmas absorvam o inseticida, reduzindo o controle. Evitar empregar cama-de-aviário com presença de serragem ou maravalha antes da aplicação dos produtos, pois a mesma adsorve os inseticidas reduzindo o efeito do tratamento.
     Caso o inseto não esteja presente na propriedade, adotar as seguintes medidas para impedir que a praga seja introduzida:

  • Evitar o transplante de mudas de uso doméstico com torrão, como flores, fruteiras e condimentos provenientes de áreas infestadas.
  • Ao comprar mudas de videira, dar preferência às de raiz nua, as quais devem ser lavadas para verificar a presença da pérola-da-terra. Em caso de dúvida quanto à presença do inseto, as mudas podem ser tratadas com fosfina na dosagem de uma pastilha de 3g/m3 por 72 horas ou mergulhar o sistema radicular numa solução contendo 0,06% de metidatiom. Ao utilizar máquinas e  equipamentos provenientes de locais onde o inseto encontra-se presente, providenciar a limpeza dos mesmos antes de utilizá-los na propriedade.
 


Fig. 2. Aplicador de inseticida via rega.
(Foto: S. de Salvo).

Filoxera - Daktulosphaira vitifoliae (Fitch, 1856) (Hemiptera: Phylloxeridae)


     A filoxera é um inseto sugador que apresenta diferentes formas, podendo atacar a parte aérea das plantas, principalmente de porta-enxertos suscetíveis (Figura 3) e raízes de cultivares de origem americana implantadas com pé-franco (Figura 4).
     Para o controle desta praga, não existem inseticidas que possam ser empregados de forma econômica para o controle do inseto nas raízes. O emprego de inseticidas neonicotinóides auxilia na redução de infestações no sistema radicular, porém, de forma isolada, não são eficientes para evitar que ocorram prejuízos à cultura, além da possibilidade de selecionar populações resistentes. A maneira mais eficiente para evitar os danos do inseto é através do emprego de porta-enxertos resistentes. De modo geral, todos os porta-enxertos empregados na região de clima temperado são resistentes.
     Embora cultivares americanas (V. labrusca) produzam através de pé-franco, sempre recomenda-se o uso de plantas enxertadas. Nas situações em que cultivares americanas de pé-franco estejam altamente infestadas pela filoxera, recomenda-se a substituição das mesmas por mudas enxertadas ou, em algumas situações, para recuperar o vigor, empregar adubação foliar.
     A forma galícola, quando ocorre em plantas matrizes de porta-enxertos ou plantios novos no campo para posterior enxertia, deve ser controlada sistematicamente, a intervalos quinzenais, a partir do aparecimento das primeiras galhas (Tabela 3). Atentar para a possibilidade de aparecimento de ácaros em função do desequilíbrio causado pela aplicação seqüencial de inseticidas de amplo espectro. Em situações de elevada infestação, os produtos indicados não apresentam eficiência satisfatória, visto o grande potencial biótico do inseto.


Fig. 4. Nodosidades causadas pela filoxera em raízes de videira. 
(Foto: M. Botton).


Fig. 3. Galhas da filoxera em folhas de porta-enxerto. 
(Foto: M. Botton).


Tabela 3.
Inseticidas registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para o controle das principais pragas da videira. Bento Gonçalves, RS, 2002.

Praga Inseticida Dosagem (mL/100 L)
P.C.
Carência
(dias)
Classe toxicológica
Ingrediente ativo Produto comercial
Filoxera (forma galícola)
Daktulosphaira vitifoliae
Fenitrotiom Sumithion 500 150 14 II
Paratiom metil Bravik 600 CE

Folidol 600

Folisuper
100 15 I

I

I
Cochonilhas-da-parte aérea
Parthenolecanium persicae
e Icerya schrottkyi
Paratiom metil + óleo emulsionável Bravik 600 CE

Folidol 600

Folisuper
100 15 I

I

I
Fenitrotiom + óleo emulsionável Sumithion 500 150 14 II
Óleo emulsionável Iharol

Triona
500 a 1000

500 a 1000
SR

SR
IV

IV
Hemiberlesia lataniae
Duplaspidiotus fossor,
D. tesseratus
Paratiom metil Bravik 600 CE

Folidol 600

Folisuper
100 15 I

I

I
Cigarrinha
Aethalion Reticulatum
Fenitrotiom Sumithion 500 150 14 II
Triclorfom Dipterex 500 300 7 II
Mosca-das-frutas
Anastrepha fraterculus
Fenthion Lebaycid 500 100 21 II
Triclorfom Dipterex 500 300 7 II
Besouros desfolhadores
Maecolaspis
Fenitrotiom Sumithion 500 150 14 II
Triclorfom Dipterex 500 300 7 II
Ácaro branco
Polyphagotarsonemus latus
Enxofre Kumulus

Thiovit
200 a 400

200 a 400
SR

SR
IV

IV
Abamectin Vertimec 18 CE 80 a 100 28 III
Ácaro erinose
Eriophyes vitis
Enxofre Kumulus

Thiovit
200 a 400

200 a 400
SR

SR
IV

IV
Ácaro rajado
Tetranychus urticae
Abamectin Vertimec 18 CE 80 a 100 28 III
SR: sem restrições.
P.C.: Produto Comercial



Cochonilhas da parte aérea

     As cochonilhas são insetos que danificam as plantas através da sucção de seiva, provocam fitotoxicidade devido à injeção de enzimas digestivas, depositam excreções açucaradas nas folhas, resultando no aparecimento da fumagina e, às vezes, são responsáveis pela transmissão de agentes patogênicos. As espécies descritas a seguir são importantes em vinhedos da região Sul do Brasil.

Cochonilha-parda ou do ramo-novo - Parthenolecanium persicae (Fabricius, 1776) (Hemiptera: Coccidae): A cochonilha-parda (Figura 5) apresenta uma geração por ano, reproduzindo-se por partenogênese no período de outubro a dezembro. Como medida de controle, recomenda-se a poda de inverno que ajuda a eliminar o inseto dos ramos infestados. Após a poda, deve-se utilizar um inseticida (Tabela 3) associado com 1% de óleo mineral ou vegetal. A adição de óleo visa auxiliar na ação dos inseticidas, porém, dependendo das cultivares, como a Concord, pode ocorrer fitotoxicidade, sendo necessário utilizar menores concentrações. Além disso, atentar que o emprego dos óleos pode acelerar o início da brotação das videiras. É importante que o controle seja direcionado à fase de ninfa, que geralmente ocorre no início da brotação, visto que quando a fêmea está completamente desenvolvida, os inseticidas não atingem os ovos mantidos sob a carapaça, reduzindo a eficiência do tratamento. Além disso, o período de alimentação do inseto é maior, aumentando os danos à planta.
     O tratamento de inverno com calda sulfocálcica a 4º Bé auxilia no controle deste inseto, porém, isoladamente, não é eficaz para reduzir altas infestações. Caso seja utilizada calda sulfocálcica no inverno, observar um período de 40 dias para empregar óleo mineral ou vegetal.

Fig. 5. Cochonilha-parda em ramos de videira.
(Foto: M. Botton)


Cochonilha algodão - Icerya schrottkyi (Hempel, 1900) (Hemiptera: Margarodidae): O ataque desta praga normalmente é de poucos indivíduos por planta, permitindo aos produtores eliminá-las manualmente. Em situações de alta infestação, empregar os produtos indicados na Tabela 2.

Cochonilha-do-tronco - Hemiberlesia lataniae (Signoret, 1869), Duplaspidiotus tesseratus (Charmoy, 1899) e D. fossor (Newstead, 1914) (Hemiptera: Diaspididae): As cochonilhas-do-tronco (Figura 6) estão freqüentemente associadas aos vinhedos, principalmente da cultivar Niágara, sendo muito semelhantes entre si. Nas situações em que ocorrem infestações elevadas do inseto, o controle químico é recomendado (Tabela 3). Entretanto, como a cochonilha normalmente se localiza sob o ritidoma, dificultando o contato com os produtos aplicados, recomenda-se previamente realizar uma limpeza do mesmo. Esta operação pode ser feita manualmente com escovas ou utilizando calda sulfocálcica a 4º Bé durante o inverno. Aproximadamente 30 a 45 dias após o tratamento com a calda, o ritidoma começa a se desprender, facilitando o contato do inseticida sobre as cochonilhas. O uso da calda sulfocálcica encontra restrições pelos produtores devido à ação corrosiva sobre os arames do parreiral. Embora este assunto seja bastante controverso, no caso da aplicação no tronco, é possível utilizar uma haste com dupla saída, adaptada ao pulverizador costal, de modo a atingir os dois lados do caule, evitando o contato com o arame (Figura 7). O aplicador também pode ser utilizado para direcionar o tratamento das cochonilhas somente nas plantas infestadas. Após o uso da calda sulfocálcica, é importante lavar o equipamento de aplicação com uma solução de vinagre a 10% para retirar os resíduos da calda, evitando a corrosão. A limpeza do tronco também pode ser realizada com bombas de pulverização de alta pressão.


Fig. 6. Cochonilha-do-tronco.
(Foto: M. Botton).


Fig. 7. Haste de dupla saída para aplicação de inseticidas 
direcionado ao tronco da videira.

(Foto: M. Botton).

Cigarrinha-das-fruteiras Aethalion reticulatum (L., 1767) (Hemiptera: Aetalionidae): Como este inseto apresenta hábito gregário, as ninfas (Figura 8) são facilmente destruídas manualmente, o que pode ser feito no momento da poda de inverno. Com relação ao controle químico, alguns viticultores preferem carregar conjuntamente com o material da poda, um pequeno pulverizador manual com capacidade para um ou dois litros, contendo solução inseticida para aspergir nas colônias do inseto. A cigarrinha é altamente sensível aos inseticidas (Tabela 3), entretanto, em situações de alta infestação, pode ser necessário tratar todo o parreiral. Nestes casos, o tratamento deve ser repetido após 20 a 30 dias, com o objetivo de atingir as ninfas que eclodiram após a aplicação, visto que os produtos não atuam sobre as posturas.


Fig. 8. Cigarrinha-das-fruteiras em ramo de 
videira.

(Foto: M. Botton).

Ácaros da videira

     Os ácaros que atacam a videira têm sido mais prejudiciais às cultivares viníferas produzidas em regiões tropicais, onde o clima é seco, favorecendo a multiplicação. As espécies mais freqüentes associadas à cultura da videira e que podem ser consideradas pragas são as seguintes:

Ácaro branco - Polyphagotarsonemus latus (Banks, 1904) (Acari: Tarsonemidae): O ácaro branco é uma praga polífaga, sendo que na cultura da videira o ataque resulta num encurtamento dos ramos devido a alimentação contínua nas folhas novas (Figura 9). Nas situações de elevada infestação, o controle deve ser realizado com acaricidas específicos (Tabela 3). Em baixas infestações, pode ser empregado o enxofre, direcionando-se o tratamento às brotações novas. Entretanto, o uso do enxofre pode causar fitotoxicidade em cultivares americanas.

|
Fig. 9. Dano do ácaro branco em ramos de videira.
(Foto: M. Botton).


Ácaro rajado - Tetranychus urticae (Koch, 1836) (Acari: Tetranychidae):
O controle do ácaro rajado deve ser realizado eliminando-se as plantas hospedeiras da praga, presentes no parreiral, antes da brotação da videira. Na região sul do Brasil tem sido comum os produtores utilizarem a ervilhaca como cobertura morta no interior do parreiral, realizando a dessecação no início da brotação. Os ácaros presentes nesta planta acabam migrando para a videira, causando danos à cultura. Outra prática que deve ser evitada é o emprego exagerado de adubos nitrogenados, visto que plantas com altos teores de nitrogênio favorecem o desenvolvimento da praga. Evitar o emprego de produtos pouco seletivos aos inimigos naturais, principalmente inseticidas piretróides, que provocam aumento na população do ácaro. Ao utilizar o controle químico (Tabela 2) as aplicações devem ser direcionadas para a face inferior das folhas.

Besouros desfolhadores - Maecolaspis aenea - (Fabricius, 1801), M. trivialis (Boheman, 1858) e M. geminata (Boheman, 1859) (Coleoptera: Chrysomelidae)

     Os besouros desfolhadores alimentam-se das folhas, causando redução na área folhar do parreiral. O controle normalmente é realizado com a aplicação de inseticidas (Tabela 3), podendo ser necessário mais de uma pulverização dependendo da intensidade de ataque.

Mosca-das-frutas - Anastrepha fraterculus (Wiedemann) (Diptera: Tephritidae): A mosca-das-frutas (Figura 10) tem sido relatada danificando principalmente uvas de mesa, embora em vinhedos destinados ao processamento os danos ainda não tenham sido avaliados. Não existem informações específicas para o manejo e controle da mosca-das-frutas na cultura da videira. As recomendações, adaptadas de outras culturas, são as seguintes:


Fig. 10. Mosca-das-frutas fêmea (esquerda) e macho (direita). 
(Foto: E. Hickel).

  • Monitoramento dos adultos através de armadilhas do tipo McPhail (Figura 11,) contendo atrativo alimentar como proteína hidrolizada (5%) . O atrativo deve ser renovado semanalmente, no momento da avaliação. Como a praga normalmente vem de fora do parreiral, recomenda-se instalar as armadilhas (4/ha) nas bordas do vinhedo.
  • A partir da constatação do inseto, fazer aplicação de isca tóxica em 25% da área do parreiral e repeti-la, semanalmente, ou logo após cada chuva. A isca é formulada com proteína hidrolisada ou melaço a 7%, adicionando-se um inseticida na dosagem 1,5 vezes superior a empregada comercialmente (Tabela 3).
  • quando o número médio de insetos atingir mais de 1 adulto por armadilha/semana, realizar aplicação de inseticida em cobertura total (Tabela 3). Após a pulverização total da área, a isca tóxica deve continuar sendo empregada, bem como o monitoramento da praga. O controle deve ser repetido somente quando a população (detectada através das armadilhas) voltar a atingir o nível de controle, respeitando-se um intervalo mínimo de 15 dias entre as aplicações de inseticidas em cobertura total.
  • Em pequenos parreirais, o ensacamento dos cachos pode ser empregado para controlar a praga.


Fig. 11. Armadilha para o monitoramento de mosca-das-frutas. 
(Foto: A. Kovaleski).

Vespas e Abelhas

     São insetos benéficos ao homem, porém, devido a escassez de alimentos, muitas vezes acabam atacando os cachos de uva. As vespas ou marimbondos possuem mandíbulas bem desenvolvidas e rompem a película das bagas para sugar o suco que, ao extravasar, atrai grande quantidade de abelhas. As abelhas acabam afugentando as vespas das bagas rompidas, levando-as a romper outra baga em seguida, até secar todo o cacho (Figura 12). Por isso, o controle deve ser realizado de forma integrada, envolvendo o plantio de áreas marginais aos vinhedos de plantas, como o trigo mourisco ou girassol, que florescem no mesmo período de maturação da videira. O plantio do trigo mourisco pode ser iniciado na primeira semana de dezembro, escalonando-se o plantio a cada 15 dias. Esta prática irá suprir as abelhas de alimento no período crítico de ataque.
     As matas próximas aos parreirais devem ser reflorestadas com espécies como eucalipto, angico, canela lageana e sassafrás, louro, pau marfim, cambuim, maricá, fedegoso, carne de vaca, palmeiras e butiás, ampliando a fonte de alimento para estas espécies. Também pode ser fornecido alimento artificial às abelhas em comedouros coletivos.
     Quando possível, ensacar os cachos de uva próximo à colheita. Em último caso, empregar fungicidas repelentes às abelhas, como o captan.
    
A destruição dos ninhos de vespas e abelhas deve ser feita com muito critério, pois as mesmas são valiosas auxiliares na predação de pragas e polinização de culturas.


Fig. 12. Dano de vespas e abelhas em cachos. 
de uva (Foto: E. Hickel).

    

Copyright © 2003, Embrapa