Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 5
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Nov./2003
Cultivo da Videira Niágara Rosada em Regiões Tropicais do Brasil
João Dimas Garcia Maia
Umberto Almeida Camargo
Jair Costa Nachtigal
Início

O Clima em Regiões Tropicais do Brasil
Implantação do Vinhedo
Poda e Quebra de Dormência
Adubação da Videira Niágara Rosada
Manejo de Plantas Daninhas
Doenças e seu Controle
Insetos Pragas e seu Controle
Normas Gerais sobre o Uso de Agrotóxicos
Irrigação em Regiões Tropicais
Colheita, Embalagens e Classificação da Uva
Produção e Mercado
Custos e Rentabilidade
Referências

Expediente
Autores
Implantação do Vinhedo

Escolha da área
Preparo do solo
Formação de quebra ventos
Escolha do porta-enxerto
Formação das mudas de porta-enxertos
Espaçamento
Preparo das covas
Plantio dos porta-enxertos
Plantio de mudas prontas
Construção da latada
Condução dos porta-enxertos
Enxertia
Formação das plantas

Escolha da área

    Áreas de meia encosta, aptas a mecanização, próximas a fonte de águas para a irrigação devem ser preferidas. Áreas de baixadas, também podem ser usadas, porém a formação de orvalho mais freqüente nesses locais favorece a ocorrência de doenças como o míldio e a antracnose. Os solos profundos e de textura média devem ser os preferidos, pois facilitam o desenvolvimento do sistema radicular, sendo contudo, mais susceptíveis à erosão. Deve-se evitar solos com impedimentos subsuperficiais, mal drenados ou com lençol freático raso, pois estes favorecem a ocorrência de doenças do sistema radicular como a fusariose da videira, principalmente se tiver matéria orgânica em decomposição.

Preparo do solo

    Uma vez definido o local, faz-se o preparo do solo. Inicialmente deve-se fazer a limpeza da área, eliminando-se ou retirando-se os restos culturais. Em seguida procede-se às amostragens do solo para análises, caso necessário faz-se as correções da acidez e dos teores de fósforo e potássio, e a marcação das curvas de nível para definir a posição dos terraços para contenção das águas de chuva. Quando é construída mais de uma parreira, no mesmo sentido da declividade é necessário fazer um terraço de base estreita entre as mesmas com dimensão suficiente para captar toda a água de chuva, devendo-se considerar o maior índice pluviométrico histórico do local. Após a confecção dos terraços, o solo deve ser arado e gradeado. A correção da fertilidade é feita nesta etapa, conforme é detalhado no item sobre adubação de correção.

Formação de quebra ventos

    A formação de quebra-ventos no contorno da latada se faz necessário para diminuir a velocidade do vento. O vento provoca a quebra de brotos, dificulta a orientação dos ramos durante a formação dos braços causando deformações na estrutura da planta. Algumas espécies para esta finalidade são: capim elefante (Pennisetum spp.), cana-de-açúcar (Saccharam oficinarum), grevilea (Grevilea robusta), eucalipto (Eucaliptus spp.), leucena (Leucaena leucocephala), bananeira (Musa spp.), e Guandu (Cajanus cajan).

Escolha do porta-enxerto

    Atualmente os principais porta-enxertos para a viticultura tropical brasileira são as cultivares desenvolvidas pelo Instituto Agronômico de Campinas, IAC-313 'Tropical' (Figura1), IAC-572 'Jales'(Figura2) e IAC-766 'Campinas' (Figura3). O IAC-572 'Jales' que foi introduzido na região noroeste paulista como sendo Tropical (IAC 313), sem vírus, na verdade constatou-se que não se tratava do IAC-313 (Camargo, 1998). Este fato tem causado alguma confusão entre os viticultores, pois o porta-enxerto conhecido na região como sendo Tropical sem vírus, na verdade não se trata da cv. Tropical e nem pode ser garantido que o material esteja livre de vírus.
    As três cultivares adaptam-se bem às condições tropicais do Brasil, porém apresentam diferenças quanto ao vigor. As mais vigorosas são a IAC-572 e a IAC-313, seguidos pelo IAC-766. Entre estes porta-enxertos, o IAC-572 é o mais indicado para o cultivo da cv. Niágara Rosada no sistema em latada. A diferença de vigor entre o IAC-572 e o IAC-766 é bem pronunciado como pode ser observado na Figura4. Devido à necessidade de formação de uma boa estrutura da planta já no primeiro ano após a enxertia, o IAC-572 é o que oferece a maior possibilidade de sucesso, uma vez que confere bom vigor à copa. O IAC 766 também pode ser usado, porém confere maior suscetibilidade às cochonilhas do tronco. Das três cultivares apenas o IAC 766 poderá ser indicado para cultivo da 'Niágara Rosada' em sistema de espaldeira devido ser o menos vigoroso.

Figura 1
Fig. 1. Broto do porta-enxerto IAC-313 'Tropical'. (Foto: J. Dimas G.M).

Figura 2
Fig. 2. Broto do porta-enxerto IAC-572 'Jales'. (Foto: J. Dimas G.M)

Figura 3
Fig. 3. Broto do IAC-766 'Campinas'. (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 4
Fig. 4. Plantio de IAC-572 (D) e IAC-766 (E). Observa-se a diferença de vigor. (Foto: J. Dimas G.M.)

Formação das mudas de porta-enxertos

    Para a formação de mudas são retirados ramos lignificados com 10 a 12 meses de idade, com 0,75 cm a 1,25 cm de diâmetro, de plantas sadias livres de vírus, no período seco ('inverno'). Os ramos devem ser limpos (retirada de folhas, gavinhas e brotos laterais), devendo ser utilizados o mais rápido possível. O período ideal para iniciar a formação das mudas de porta-enxertos é nos meses de junho a agosto quando o material está dormente. Se os ramos não forem utilizados imediatamente, devem ser conservados em ambientes refrigerados com temperatura de 5ºC e umidade relativa igual a 95%. Se a câmara fria não dispuser de controle de umidade relativa, os ramos devem ser envolvidos com papel úmido e acondicionados em sacos de plástico, fechados para não desidratar, ou serem estratificados em areia grossa úmida em lugares sombreados. Os ramos estratificados em areia grossa conservam-se por cerca de 21 dias, enquanto que em condições refrigeradas por até um ano.
    Para a formação das mudas de porta-enxerto, os ramos são cortados com 40 a 45 cm de comprimento, com 4 a 5 gemas, sendo o corte basal horizontal a cerca de 1 cm abaixo do nó e o superior a cerca de 3 cm a 4 cm acima da última gema. As estacas podem ser colocadas diretamente nos saquinhos plásticos para enraizamento (Figura 5a), onde são introduzidas em torno de 15 cm de profundidade, ou serem colocadas para formação de calos em canteiros com uma camada de areia grossa, em lugares sombreados. Neste caso, coloca-se os feixes de estacas com as bases voltadas para baixo, deixando-se parcialmente cobertas com areia (Figura 5b), mantidas úmidas durante três semanas através de irrigações diárias para formação de calos. Após este período, as estacas são introduzidas parcialmente nos saquinhos com o substrato. Em ambos os casos, os saquinhos plásticos de polietileno preto perfurados devem ter 15 cm x 25 cm e serem encanteirados em viveiros com cerca de 50% a 60% de sombra até os primeiros 60 dias (Figura 6). Após este período, os canteiros podem ser descobertos totalmente para a aclimatação das mudas.
    O substrato para o enchimento dos saquinhos deve ser preparado na proporção de 150 L de esterco de curral curtido para 850 L de terra de barranco livre de nematóide, caso o solo apresente baixos teores de matéria orgânica (< que 2,5%). A essa mistura deve-se acrescentar mais 1 kg de calcário dolomítico, 0,50 kg de superfosfato simples e mais 150 g de cloreto de potássio, se na análise de sólo der fósforo-resina (< 12 mg/dm-3), e potássio (<0,15 mmol dm-3). Se o solo apresentar baixos teores de boro (<1 mg/kg-1) deve se dar preferência para adubos fosfatados que contenham micronutrientes, inclusive B na formulação.

Figura 5a
Fig. 5a. Estacas colocadas para enraizamento. (Foto: J.Dimas G.M.)

Figura5b
Fig. 5b. Feixes de estacas de porta-enxertos para formação de calos.
(Foto: J. C. Nachtigal)

Figura 6
Fig. 6. Viveiro coberto com tela para formação das mudas.
(Foto: J. Dimas G.M)

Espaçamento

    O espaçamento para a cv. Niágara Rosada conduzida no sistema de latada é menor que a recomendação para as uvas finas de mesa. O espaçamento entre linhas deve ser de 2,50 m a 3,00 m, com 1,50 m a 2,00 m entre plantas. Dentro destes intervalos, o espaçamento de 2,75 m x 2,0 m resulta em 1.900 plantas por hectare (Figura 7). Este espaçamento possibilita a mecanização por pequenos tratores e é adequado ao uso de irrigação por microaspersão, em função do raio de alcance dos microaspersores.

Figura 7
Fig. 7. Espaçamento (2,75 x 2,0 m) - Dois braços no mesmo sentido da rua. (Foto: J. Dimas G.M)

Preparo das covas

    O preparo das covas deve ser efetuado pelo menos um mês antes do plantio dos porta-enxertos, seguido de irrigação, evitando-se, assim, possíveis danos às raízes durante o processo de decomposição do esterco. As covas devem ser abertas com enxadão e ter dimensões em torno de 50 cm x 50 cm x 50 cm; ou com sulcador, necessitando-se, neste caso, ajustar as dimensões com o enxadão. Em áreas com teor de matéria orgânica inferior a 2,5% aplicar 80 t/ha de esterco de bovinos, o que corresponde a cerca de 50 litros/cova no espaçamento de 2,50 m x 2,00 m. O mau preparo de covas leva à formação de plantas com estrutura deficitária, no que se refere ao número de varas por planta (Figura8), sendo necessário, neste caso, uma poda de reforma (Figura9) cerca de 45 dias após a aplicação de matéria orgânica enterrada em sulcos. Recomenda-se neste caso, o uso de esterco de galinha (10 a 15 t/ha). A falta de vigor na formação das plantas no primeiro ano seguido de poda de reforma no segundo faz perder uma safra.

Figura 8
Fig. 8. Planta mal formada, estrutura deficitária no 1º ano, falta de vigor. (Foto: J. Dimas G.M)

Figura 9
Fig. 9. Planta reformada, com boa estrutura no 2º ano. (Foto: J. Dimas G.M)

Plantio dos porta-enxertos

    O sistema tradicional de implantação de novas parreiras de uva em regiões tropicais consiste no plantio dos porta-enxertos já enraizados no início do período chuvoso e realização da enxertia diretamente no campo no início do período seco seguinte. O plantio deve ser realizado preferencialmente nos meses de outubro a dezembro podendo ser dispensada a irrigação até 15 dias antes da enxertia em anos normais de precipitação, o que possibilitará a realização da enxertia madura em junho ou julho do ano seguinte. No caso da cv. IAC-766, o plantio deve ser realizado até o mês de novembro. Quanto mais cedo for o plantio do porta-enxerto, assim como a realização da enxertia em cada período, melhor será, porque assim será possível a formação das plantas ainda no período de poucas chuvas, quando a ocorrência de doenças é menor. Além desta vantagem, a enxertia mais cedo permite a realização das primeiras podas de produção já em março ou abril do ano seguinte, época adequada para o início das podas de produção. Durante o plantio, os saquinhos devem ser apoiados com uma das mãos e cortados com cuidado para não desmanchar o torrão, momento em que são eliminadas as pontas de raízes fora do torrão. Em seguida as mudas são passadas para a outra mão para a retirada do saquinho, fazendo-se uma leve compactação da terra adjacente ao torrão, sem desmanchá-lo. O plantio de estacas diretamente no campo não é recomendado devido à dificuldade em se obter bom pegamento, principalmente em áreas não irrigadas ou irrigadas inadequadamente.

Plantio de mudas prontas

    O plantio de mudas de raiz nua ou enxertadas no saquinho, deve ser feito, preferencialmente, nos meses de julho à agosto, para ter tempo suficiente para a formação das plantas e maturação dos ramos até o início do período seco do ano seguinte, época de inicio de podas de produção. Mudas prontas só devem ser adquiridas em viveiros registrados, com garantia de qualidade pelos órgãos de defesa sanitária vegetal do Estado. A irrigação é fundamental para garantir o pegamento desse tipo de mudas no período seco.

Construção da latada

    A latada deve estar pronta antes da época da enxertia, para evitar danos aos enxertos durante a sua construção. Deve-se utilizar materiais duráveis (madeira de eucalipto tratado ou postes de concreto; arames com galvanização pesada e alta resistência mecânica) para garantir boa longevidade da estrutura. O aramado deve ficar situado numa altura de 1,8 m a 1,9 m do solo para facilitar o trabalho de máquinas e de operários.
    Passos para construção de uma latada:

  • Demarcar os quatro cantos do parreiral.

  • Fincar os cantoneiros (palanques) no solo a 1,5 m de profundidade.

  • Colocar os três rabichos de quatro fiadas com arames n° 6 em cada cantoneiro a 1,5 m de profundidade, sendo os dois laterais posicionados na projeção do alinhamento das duas respectivas laterais e o terceiro no meio.

  • Esticar o fio de contorno, cordoalha de 7 fios, através de uma talha na altura preconizada e prendê-lo pelas presilhas.

  • Fincar os postes laterais a 0,70 m de profundidade, com as bases alinhadas no perímetro do parreiral, com seus respectivos rabichos de duas fiadas feitos com arames nº 8, posicionados nas projeções perpendiculares das respectivas laterais. Outra opção é usar chapas âncoras, tirantes, cordoalhas e alças pré-formadas com galvanização pesada e alta resistência mecânica . Se for usar a tela para cobrir o parreiral, os postes externos devem ser de 2,5 m e 3,0 m de comprimento, dispostos de forma alternada no contorno da latada. Neste caso, são necessários postes de 3 m para esticar os arames que sustentarão a tela.

  • A ordem de colocação dos arames é a seguinte: primeiro coloca-se arames n° 12, ou ovalado com bitola de 2,4 mm x 3,00 mm e galvanização pesada, no mesmo sentido da rua. Depois, os porta fios com arames n° 12 ou ovalado, com bitola de 2,4 mm x 3,00 mm e galvanização pesada, sobre os anteriores, no sentido perpendicular ao da rua, para sustentar os de n° 14 comum ou de 2,10 mm de bitola, no mesmo sentido da rua, os quais sustentarão as varas.

  • Independente do espaçamento entre plantas, os arames da malha simples sempre serão esticados na cordoalha externa, passando-os por cima de todos os arames que cruzam a latada no sentido perpendicular, deixando-se uma distância entre eles de 30 cm a 35 cm. Esta distância visa facilitar a grampeação dos ramos.

  • Amarrar os arames da malha fina nos pontos sobre os arames porta fios, através de arame n° 18, objetivando-se mantê-los eqüidistantes, para não haver aglomeração dos mesmos durante a retirada do material de poda. Em áreas onde há riscos de granizo, ataque de pássaros, é necessário a cobertura do parreiral com tela de polietileno especial, com aditivos anti-raios ultravioletas e 18% de sombreamento.

  • Para colocar a tela é necessário fixar os balancins de 1,5 m x 0,03 m x 0,04 m em todos os postes internos, onde serão esticados e fixados em suas extremidades superiores os fios n° 14 ou com 2,10 mm de bitola, galvanização pesada, abaixo e acima da tela, nos dois sentidos, e amarrados na cabeça dos postes de três metros para a sustentação da mesma. A tela deve ficar posicionada a 1,0 m acima do aramado.

Figura 10
Fig. 10. Sistema de condução em latada, coberto com tela antigranizo.
(Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 10b
Fig. 10b. Demonstração de um croqui simplificado para a construção de uma latada para o espaçamento de 2,75 m x 2,00 m. No croqui está representado a colocação dos postes, dos arames, assim como o sentido das ruas e dos braços. (Ilustração: J. Dimas G.M.)

Condução dos porta-enxertos

    Os porta-enxertos devem ser tutorados em um sarrafo posicionado verticalmente onde são conduzidos três a quatro ramos por planta, até o aramado (Figura11). Durante a condução dos ramos é necessário fazer o desnetamento (retirada de brotos laterais ainda jovens). O tutoramento visa possibilitar a obtenção de troncos eretos, o que melhora a estética das plantas e possibilita o uso de implementos tipo roçadeira em uma faixa maior nas entrelinhas. Os tutores podem ser de madeira (sarrafos de 3,0 cm x 3,0 cm x 3,0 cm), ou de bambu seco e ter vida útil mínima de dois anos.

Figura 11
Fig. 11. Plantas de porta-enxertos tutoradas.
(Foto: J. Dimas G.M)

Enxertia

    Para a formação das copas utiliza-se o método de enxertia garfagem simples, aérea, diretamente no campo, podendo ser com ramos verdes ou maduros. Na figura 12 estão apresentados os materiais para a enxertia verde (herbácea) e madura (lenhosa). Os garfos devem ser cortados com uma gema e ter 4 cm a 5 cm de comprimento, sendo 1,5 cm acima e o restante abaixo da gema. Na base do garfo devem ser feitos dois cortes com um canivete afiado começando a 1 cm abaixo da gema, despontando-se na parte central da base, e dando um formato de cunha. No preparo dos garfos, elimina se gavinhas e pecíolos.
    No campo escolhe-se os dois melhores ramos do porta-enxerto, os quais são podados cerca de 40 cm a 50 cm do solo. Em suas extremidades faz-se outro corte a 5 cm acima do último nó onde, então, na parte central é feita uma fenda vertical de 2 cm de comprimento, onde será encaixada a cunha do garfo. A cunha do garfo deve ser introduzida totalmente dentro da fenda, justapondo-se suas superfícies, pelo menos de um lado. Em seguida cobre-se o enxerto com uma fita plástica de 2 cm de largura, iniciando-se a 1 cm abaixo da extremidade da cunha, seguindo-se o contorno do enxerto com uma leve pressão, exceto a gema, até o topo do garfo onde é vedado, retornando em direção ao início, onde é presa a extremidade da fita. Tanto na enxertia verde como na enxertia madura é necessário que os porta-enxertos apresentem bom vigor, que haja bom fluxo de seiva, boa justaposição dos tecidos e boa cobertura do garfo, exceto a gema.

Figura 12
Fig. 12. Materiais necessários para a realização da enxertia verde e madura. (Foto: J. Dimas G.M)

Enxertia madura

    Para a enxertia do tipo madura (com ramo lenhoso), utiliza-se garfos e ramos lignificados com diâmetros semelhantes. Os ramos maduros devem ser retirados com idade de 6 a 8 meses após a ultima poda, em plantas sadias, podendo ser utilizados imediatamente ou conservados até a data de enxertia, através da estratificação em areia grossa úmida por até três semanas, ou em câmaras frigorificadas (T = 5°C, U.R =95%), por até um ano. Durante a enxertia devem ser obtidos ou selecionados, bacelos com espessura de 0,7 cm a 1,2 cm de diâmetro com uma gema intacta, para a realização de dois enxertos por planta a uma altura de cerca de 50 cm do solo (Figura 13). A enxertia deve ser realizada nos meses de junho a agosto, época quando se tem menos problemas com doenças na formação da planta. Entretanto, o sistema de irrigação já deve estar instalado e as plantas estarem sendo irrigadas a pelo menos três semanas antes do início da enxertia. A brotação pode demorar de 20 a 75 dias, dependendo da temperatura ambiente, variedade de porta-enxerto e se o material foi utilizado imediatamente ou passou por conservação em areia ou câmaras frigoríficas. A brotação no IAC 766 pode demorar até 75 dias nos meses de maio, junho e julho (Figura 14) . A brotação muito rápida não é desejável, pois pode ocorrer antes da formação do calo entre os tecidos do porta-enxerto e do enxerto, levando à morte precoce do broto. Em enxertos maduros, logo após a cicatrização, é necessário afrouxar a fita para que não haja estrangulamento do caule, através de um corte no ponto onde se prendeu a ponta da fita.

Figura 13
Fig. 13. Enxertia madura. (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 14
Fig. 14. Brotação de enxerto maduro sobre o IAC 766 aos 75 dias. (Foto: J. Dimas G.M.)

Enxertia verde

    Para realizar a enxertia herbácea ou verde os garfos e os ramos do porta-enxerto devem estar verdes, firmes, não muito jovens, tão pouco em início de maturação, com espessura de 0,7 cm a 1,0 cm. Os garfos devem ser colhidos de ramos com 40 a 60 dias após a poda na porção intermediária, entre a quarta e a décima segunda gema, podendo ser utilizados imediatamente ou conservados em geladeiras por cerca de uma semana dentro de sacos de plástico bem fechados e úmidos. A enxertia verde pode ser feita em qualquer época do ano. É conveniente, porém que seja o mais cedo possível, ou seja, assim que for constatado o fracasso da enxertia lenhosa, ainda no período seco. Neste caso são deixados três brotos no tronco do porta-enxerto, os quais são tutorados para a realização de dois enxertos. A enxertia verde no período de chuvas exige um programa rigoroso de controle de doenças, principalmente de míldio, havendo necessidade da aplicação de fungicidas sistêmicos para garantir a sanidade das plantas em formação. O pegamento do enxerto verde, utilizando-se filme de PVC para cobrir o garfo, pode alcançar índices acima de 95%. Neste caso cobre-se totalmente o garfo, exceto a gema (Figura15). Em regiões onde as temperaturas máximas diárias excedem a 35°C é necessário cobrir os enxertos com saquinhos de papel contra a radiação solar por 5 a 7 dias. O início da brotação ocorre cerca de 8 a 10 dias após a enxertia (Figura16). Após a cicatrização do enxerto verde há necessidade de cortar a extremidade do garfo acima do broto, pois nesta posição o filme de PVC não se desprende por si só após a cicatrização (Figura17).

Figura 15
Fig. 15. Enxertia verde, com filme de PVC, uma gema. (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 16
Fig. 16. Brotação do enxerto verde (8 a 10 dias após a enxertia). (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 17
Fig. 17. Enxerto verde realizado com filme de PVC, após cicatrização. (Foto: J. Dimas G.M.)

Formação das plantas

    Esta é uma etapa muito importante porque é nesta fase que se forma a estrutura da planta. Após a brotação dos enxertos, seleciona-se o melhor, o qual é conduzido até atingir o aramado da latada. Quando o enxerto ultrapassar cerca de 30 cm acima do aramado ele é despontado na altura do aramado para iniciar a formação dos braços. Antes do broto atingir o aramado, todos os brotos laterais ou netos que surgem do principal são retirados, exceto os dois últimos imediatamente abaixo do aramado, os quais são deixados para a formação dos braços. Estes dois brotos deixados serão grampeados em sentidos opostos, podendo ser no mesmo alinhamento da rua (sistema A) ou perpendicular a mesma (sistema B). O comprimento dos braços terá a metade do espaçamento entre plantas se conduzidos no sistema A (Figura 18) ou a metade do espaçamento entre ruas se no sistema B (Figura9). O desponte dos brotos (futuros braços), deve ser realizado quando ultrapassar cerca de 30 cm da metade dos espaçamento. O sistema de formação (A) apresenta as seguintes vantagens em relação a formação (B): menor gasto de mão-de-obra para realizar a poda madura, a massagem das varas, a aplicação de dormex, a desbrota, a grampeação, e para a poda verde (desbrota, desponte, desfolha, etc.), além de possibilitar a aplicação de produtos mais dirigidos aos cachos e proporcionar melhor distribuição espacial das varas sobre o aramado, o que melhora o aproveitamento da radiação solar e exposição das folhas e cachos aos produtos pulverizados. No sistema B , é possível obter ao redor de 45.000 varas/ha já no primeiro ano, porém demanda mais mão-de-obra que o sistema A. No sistema A é possível obter cerca de 25.000 a 30.000 varas por hectare no primeiro ano, porém nos ciclos seguintes de formação (poda curta), o número deve ser aumentado para cerca de 50.000 varas por hectare, deixando-se em cada lado na extensão dos braços: uma, duas, uma, duas, varas, de forma alternada, ou seja: 1,2,1,2,1,2, e assim por diante.

Figura 18
Fig. 18. Sistema de formação A. (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 19
Fig. 19. Sistema de formação B. (Foto: J. Dimas G.M.)

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