Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 5
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Nov./2003
Cultivo da Videira Niágara Rosada em Regiões Tropicais do Brasil

João Dimas Garcia Maia

Início

O Clima em Regiões Tropicais do Brasil
Implantação do Vinhedo
Poda e Quebra de Dormência
Adubação da Videira Niágara Rosada
Manejo de Plantas Daninhas
Doenças e seu Controle
Insetos Pragas e seu Controle
Normas Gerais sobre o Uso de Agrotóxicos
Insetos, Irrigação em Regiões Tropicais
Colheita, Embalagens e Classificação da Uva
Produção e Mercado
Custos e Rentabilidade
Referências

Expediente
Autores
Poda e Quebra de Dormência

    Em regiões tropicais, onde as temperaturas mínimas raramente baixam para valores inferiores a 10°C, é necessário realizar duas podas anuais objetivando controlar os ciclos vegetativos da videira, uma vez que a planta não hiberna. As podas da videira podem ser madura (longa, curta ou mista), ou verde, que consiste de todas as operações de retirada de partes verdes da planta (melhor descrição no item poda verde).

Poda madura
Época de poda
Quebra de dormência
Poda verde
Retirada de brotos ladrões
Abaixamento de cachos

Poda madura

    A poda madura é realizada quando os ramos estão lignificados, com idade de 5,5 a 7 meses após a última poda. Há três possibilidades de podas na cv. Niágara Rosada quanto ao comprimento: curta ou de formação, com 2 a 3 gemas (Figura 1), longa ou de produção, com 6 a 8 gemas (Figura 2) e mista (Figura 3), quando é realizado no mesmo ciclo, a poda curta e a longa para produção e formação dos ramos na mesma planta, no mesmo ciclo. Do ponto de vista da produção e da formação de ramos na mesma planta, o melhor sistema é o que combina uma poda curta de formação, alternada com uma poda longa de produção, devendo esta última ser programada para a produção na entressafra. Este sistema permite a obtenção de 30 t/ha/ano, deixando-se ou não, uma safrinha no ciclo de formação (poda curta). Os sistemas de produção com ciclos sucessivos de poda curta ou de poda mista não é adequado, pois a produtividade destes sistemas é menor na entressafra do que o sistema de poda longa e poda curta, alternado.

Figura 1
Fig. 1. Poda curta com duas a três gemas para formação de ramos.
(Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 2
Fig. 2. Poda longa com sete a oito para produção - 7 a 8 gemas. (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 3
Fig. 3. Poda mista (curta e longa). (Foto: J. Dimas G.M.)

Época de poda

    Considerando a variação de preços e oferta de uva Niágara Rosada ao longo do ano, e a possibilidade de entradas de massas de ar frio em determinados períodos do ano em algumas regiões, há duas situações distintas quanto à época de podas: em regiões onde não há limitações pelo frio, ou seja, onde as temperaturas mínimas não caem abaixo de 15ºC, a poda longa deve ser realizada no período de 01de março a 20 de julho, sendo o período ideal de 01 de abril a 15 de julho, neste caso, a poda curta é programada para o período de 15 de agosto a 31 de dezembro; já em regiões onde há limitações pelo frio, ou seja, onde as temperaturas mínimas caem para valores inferiores a 15°C, a poda longa deve ser programada para o período de 01 de março a 20 de abril ou de 01 a 20 de julho. Neste caso a poda curta seria programada para o período de 15 de agosto a 20 de setembro para o primeiro intervalo e de 15 de dezembro a 15 de janeiro para o segundo intervalo, respectivamente, Estas são as épocas mais adequadas às podas, para ambas situações, objetivando-se diminuir os riscos de má brotação e obter melhores preços na entresafra nos grandes mercados atacadistas, como CEAGESP, e mercados dos estados da região Sul do Brasil. Se a produção for pequena e destinada a mercados regionais, as épocas de podas podem ser ajustadas de acordo com essa demanda. A cv. Niágara Rosada é sensível ao frio, portanto é necessário ficar atento às previsões meteorológicas de médio prazo, principalmente em relação ao fenômeno La Ninã, o que condiciona invernos mais intensos.

Quebra de dormência

    A brotação da cv. Niágara Rosada é prejudicada em regiões onde a entrada de massas de ar frio provoca queda da temperatura para valores inferiores a 15°C. Em condições normais de temperatura (TºC mínima >18°C), a aplicação de cianamida hidrogenada a 3,64% por imersão das gemas após a massagem de varas tem apresentado bons resultados (Figura 4). Esta dosagem, porém, não é suficiente para superar os efeitos negativos do frio, onde a temperatura mínima atinge valores inferiores a 15ºC, durante ou logo após a poda (Figura 5). Dosagens maiores, de até 5,20% de cianamida hidrogenada, já foram usadas por produtores na região noroeste paulista em uma ou duas aplicações seguidas, porém sem sucesso. As baixas temperaturas têm sido prejudiciais, tanto na quebra de dormência quanto no desenvolvimento dos brotos (Figura 6). Quando o frio prejudica a brotação no ciclo de poda longa e, consequentemente poucas gemas brotam nas extremidades das varas (Figura 7), uma solução é refazer a poda assim que terminar o frio, eliminando-se a porção terminal das varas e repetir a aplicação de cianamida hidrogenada nas últimas três gemas intactas. A quebra de dormência de gemas de ramos com seis a sete meses de idade, em épocas ou regiões que não ocorrem a queda da temperatura mínima para valores inferiores a 18 °C pode ser feita com dosagens de 2,10% de cianamida hidrogenada, sem massagens das varas. A aplicação do produto pode ser feita através de um tubo de plástico, pulverizador costal manual ou com pincel. A aplicação por imersão, através de tubo plástico (Figura 8), apresenta as seguintes vantagens em relação aos outros sistemas de aplicação: economia de produto, aplicação do produto somente nas gemas onde se deseja a brotação e menor risco para o aplicador. Para aplicar o produto por imersão, no ciclo de poda longa, um operário vai soltando as varas do aramado após a poda, passando-as para baixo, ao mesmo tempo em que é feita a massagem nas últimas 4 gemas, ou seja, uma leve torção nos entrenós da vara onde se deseja a brotação. Na seqüência, outro operário faz a imersão das últimas 4 gemas da vara na solução. Em seguida, as varas são retornadas à posição original sobre o aramado onde serão grampeadas. No ciclo da poda curta, a aplicação pode ser feita com pulverizador costal manual ou com pincel adaptado, feito de espuma ou de sisal, (Figura 9). A aplicação deve ser feita, no máximo, em 48 h após a poda, devendo o aplicador tomar o cuidado de não ingerir bebida alcoólica durante 24 h antes ou depois da aplicação. A aplicação não deve ser realizada em períodos inferiores a 2 h que antecede as chuvas, pois diminui a eficácia da aplicação. Quando possível deve ser evitado também as horas mais quentes do dia quando a evaporação é muito rápida.
    Para melhorar a brotação da videira quando as podas são realizadas nos meses de abril, maio, junho e julho na região sudeste, pode se usar o ethrel 240® (9 L/ha) ou ethrel 720® (3 L/ha) cerca de 15 a 25 dias antes da poda. A aplicação deve ser feita com 1000 L de água/ha quando as plantas estiverem com mais de 50 % de folhas para absorção do produto e ramos com 5,5 a 6 meses de idade. A aplicação do produto promove o amarelecimento das folhas e queda das mesmas. A poda e a aplicação do dormex é realizada quando ocorrer a queda de cerca de 80 a 90 % de folhas, momento em que as gemas encontram-se inchadas, antes do ponto de 'algodão', pois neste estádio, o produto pode queimar as gemas. Em áreas onde se usar o ethrel, o dormex® deve ser usado na dosagem de 6,0 %.

Figura 4
Fig. 4. Brotação normal após a massagem, e aplicação de cianamida hidrogenada a 3,64%. (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 5
Fig. 5. Brotação deficitária devido a baixas temperaturas após a poda. (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 6
Fig. 6. Paralisação do crescimento do broto devido a baixas temperatura. (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 7
Fig. 7. Varas com brotação deficitária devido a frio, sujeitas a repoda. (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 8
Fig. 8. Tubo para aplicação de cianamida hidrogenada. (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 9
Fig. 9. Haste de sizal para aplicação de dormex.
(Foto: J. Dimas G.M.)

Poda verde

    A poda em verde consiste de várias práticas indispensáveis para se obter bons ramos produtivos e uvas de boa qualidade. Na cv. Niágara Rosada consta de: desbrota (retirada de brotos fracos, mal posicionados ou em excesso), quando os brotos estiverem com cerca de 15 cm a 20 cm de comprimento; desfolha (retirada de folhas opostas aos cachos), em brotos com cachos quando as bagas estiverem no estádio de 'ervilha'; desponte apical (retirada de cerca de 1 cm no ápice do broto, estádio fenológico n° 15 de acordo com Eichom & Lorenz (Figura 10), na véspera do florescimento; desponte terminal (retirada de cerca de 20 cm a 30 cm na ponta do ramo); retirada de gavinhas; desbaste de cachos (retirada de cachos pequenos e ou em excesso ). A poda verde melhora a aeração e a insolação nos ramos, e, também a eficácia dos tratamentos fitossanitários na formação da planta e em todos os ciclos conforme é detalhado abaixo.

Figura 10
Fig. 10. Poda verde- ciclo de produção, desponte apical.
(Foto: J. Dimas G.M.)

Na formação das plantas

    Durante o crescimento do broto do enxerto, faz-se a retirada de brotos laterais (netos), exceto os dois últimos logo abaixo do aramado, os quais serão deixados para a formação dos dois braços. Nestes dois brotos são deixados todos os brotos laterais (netos) para a formação das primeiras varas de produção. Na condução destes brotos, futuras varas de produção, é realizada: a retirada de brotos laterais (netos ou feminelas, Figura 11), ainda jovens, de gavinhas, e é feito o desponte terminal das varas quando estiverem com 1,60 m de comprimento (Figura 12). Se ocorrer a brotação da última gema, este broto originado deve ser despontado com três a quatro folhas. Outra possibilidade para conter o crescimento é deixar o último neto ao se realizar o desponte terminal, sendo este despontado com cinco folhas (Figura 13).

Figura 11
Fig. 11. Poda verde- retirada dos netos ou feminelas.
(Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 12
Fig. 12. Poda verde - ciclo de formação, desponte terminal. (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 13
Fig. 13. Ramos despontados duas vezes para conter o crescimento.
(Foto: J. Dimas G.M.)

Nos ciclos de produção (poda longa)

    A poda verde neste ciclo consta de: desbrota (deixar dois brotos por vara); retirada de gavinhas; desfolha (retirada de duas a três folhas basais logo após o pegamento dos frutos, principalmente as opostas aos cachos); desponte apical dos brotos com cachos na véspera do florescimento e desnetamento após o florescimento, desbaste de cachos (deixar dois cachos por ramo). O objetivo do desponte apical de brotos é melhorar o pegamento de frutos para obter cachos mais compactos, com maior peso e melhor padrão. Após o pegamento dos frutos, deve-se deixar dois cachos por broto eliminando-se o menor. Após o pegamento dos frutos deve-se deixar o último neto desenvolver para aumentar o número de folhas no broto, sendo este despontado com 5 a 6 folhas, resultando em 13 a 16 folhas por ramo (Figura 14).

Figura 14
Fig. 14. Poda verde - dois despontes no broto com cacho.
(Foto: J. Dimas G.M.)

No ciclo de formação (poda curta)

    Neste ciclo faz-se a desbrota, desnetamento, retirada de folhas basais dos brotos com cachos (desfolha), e desponte terminal, quando as varas estiverem com cerca de 1,50 m a 1,60 m. Durante a desbrota deixa-se 60.000 brotos por hectare, objetivando-se, no final cerca de 50.000 a 55.000 varas por hectare. Neste sistema preconiza-se retirar todos cachos neste ciclo vegetativo, objetivando-se obtenção de varas com maior espessura para produção no ciclo de poda longa. Caso o produtor decida por uma safrinha, deve deixar somente um cacho por broto, porque se deixar todos os cachos, a espessura dos ramos após o último cacho é reduzida ocasionando menor produção e tamanho de cachos no ciclo seguinte.

Retirada de brotos ladrões

    Consiste na retirada de brotos dos troncos no porta-enxerto, e é realizada quando os brotos ainda estão jovens, quando são mais fáceis de retirar. Os brotos ladrões (Figura 15), além de prejudicar a variedade copa da videira, tornam as plantas sujeitas a fitotoxidez por herbicidas, como é o caso da intoxicação por glifosato (Figura 16).

Figura 15
Fig. 15. Ramos ladrões nos troncos. (Foto: J. Dimas G.M.)

Figura 16
Fig. 16. Fitotoxidez causada por aplicação de glifosato nas folhas. (Foto: J. Dimas G.M.)

Abaixamento de cachos

    O abaixamento de cachos deve ser feito quando a uva estiver entre os estádios de 'chumbinho´ e de 'ervilha', quando, então, são liberados de arames, ramos, ou pecíolos. Na figura 36, observa-se cachos presos à arames, não abaixados, o que provoca perdas durante a colheita.

Figura 17
Fig. 17. Cachos de 'Niágara Rosada' presos à arames. (Foto: J. Dimas G.M.)

Topo

Copyright © 2003, Embrapa