Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 9
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Dez./2005
Sistema de Produção de Uvas Rústicas para Processamento em Regiões Tropicais do Brasil
José Carlos Fráguas
Preparo do solo, calagem e adubações

Calagem

Devido ser o solo a base de sustentação e desenvolvimento das plantas, deve-se dedicar especial atenção desde a escolha do local até os últimos preparativos para a implantação de vinhedo. A produção e qualidade das uvas estão diretamente relacionadas com as condições físicas e de fertilidade do solo. A análise do solo servirá de orientação para o preparo e correção da acidez e da fertilidade do solo. Como a videira é uma planta perene, o preparo esmerado do solo tem grande importância, principalmente por ser esta a melhor oportunidade de condicionar o ambiente para as raízes terem o seu normal desenvolvimento. O solo não deve ser muito arenoso e nem com excesso de argila, pois o primeiro é fraco em fertilidade e retenção de umidade e nutrientes, enquanto o segundo pode se tornar compactado e dificultar, ou restringir, o crescimento das raízes. Em relação à matéria orgânica, quando a produção for para vinificação não é aconselhável o plantio em locais com alto teor (acima de 3,5% ou 35 g/kg), pois havendo excesso de Nitrogênio (N) ocorre uma fermentação desordenada, prejudicando a qualidade final do vinho. Nesta situação é recomendado o plantio de uma cultura anual (milho), para um desgaste da matéria orgânica.
    Para o bom desenvolvimento do vinhedo é importante seguir os seguintes passos para o preparo do solo e adubações:

  • Limpeza do local: esta etapa é realizada com a roçagem, retiradas de restos vegetais, pedras e destocamento se necessário;
  • Coleta de amostras de solo: nesta etapa seguir as recomendações para a coleta de solo para análises. É uma atividade de muita importância, porque qualquer erro na amostragem incidirá nos resultados da análise, que ocasionará erros na correção da acidez e da fertilidade do solo. Em locais onde não se fará a subsolagem deve-se coletar amostras a duas profundidades, de 0 a 20 cm e de 20 a 40 cm, para melhor conhecer o perfil do solo onde se desenvolverão as raízes. Se for realizada a subsolagem a amostragem pode realizada em apenas uma profundidade, 0 a 20 cm, logo após esta atividade. Deverão ser coletadas de 15 a 20 sub-amostras/ha, dependendo da homogeneidade do solo, que constituirão a amostra composta, da qual é retirado 250 g para envio ao laboratório.
  • Preparo do solo e calagem: se a área não tiver problemas de compactação, uma aração profunda pode ser suficiente. No entanto, na presença de camada compactada, ou se a área foi cultivada por muito tempo com pastagem, para o melhor desenvolvimento radicular das videiras, é recomendável a subsolagem. Também é aconselhável realizar duas arações profundas ou subsolagens, que deverão ser cruzadas, sendo a primeira no sentido do declive e a segunda transversal à primeira. Isto tornará o solo bem descompactado, facilitando o crescimento das raízes. A profundidade da aração ou subsolagem deve ser de mais de 40 cm. Em solos de textura média e arenosa esta prática é dispensável. Após o preparo do solo é necessária nova limpeza com as retiradas de prováveis restos vegetais e de pedras.

Com o resultado da análise do solo em mãos, passa-se aos cálculos da calagem, que deve ser feita empregando-se o método da saturação por bases (V%), procurando elevar o valor para 80%, que tem oferecido melhores resultados na correção da acidez do solo para a videira. O cálculo é feito por: NC (t/ha) = T (V2 - V1) / 100, onde NC é a necessidade de calcário; T é a capacidade de troca de cátions a pH 7,0; V2 é a porcentagem de saturação por bases desejada, V1 é a porcentagem de saturação por base fornecida pela análise do solo. Além desse cálculo, deve ser considerada, também, a profundidade de incorporação (PF) (dada pela aração profunda ou pela subsolagem); a superfície a ser coberta (SC) pela distribuição do calcário e o PRNT do calcário. Assim, o cálculo da quantidade corrigida (QC) do calcário será: QC = NC x PF/20 x SC/100 x 100/PRNT. Deve ser dada a preferência para o calcário dolomítico. Para uma melhor distribuição do calcário e a correção da acidez, tanto no sentido horizontal da área como no vertical do perfil do solo, deve-se atuar da seguinte maneira : aração profunda ou subsolagem cruzadas - distribuição uniforme do calcário na superfície da área - gradagem superficial (5 a 10 cm) para realizar uma pré-mistura do solo com o calcário - aração profunda com arado de discos para incorporação do calcário - gradagem final para nivelamento ou destorroamento da área. Quando a quantidade corrigida do calcário passar de 5,0 t/ha, a distribuição do calcário deve ser em duas vezes, sendo a primeira logo após a aração profunda ou subsolagem, seguida da gradagem e incorporação profunda com arado de discos, distribuição da outra metade, gradagem e incorporação com o arado de discos. A correção da acidez é considerada efetiva por cinco anos, sendo que no quarto ano da aplicação do calcário deve ser realizada nova amostragem e análise do solo, para reavaliação da calagem e correção da fertilidade do solo. A época de realizar a calagem é de três meses (90 dias ) antes do plantio, no mínimo, para ocorrer as correções necessárias da acidez e da fertilidade do solo.

Adubação corretiva

O complemento do preparo do solo e da calagem é feita com a adubação corretiva para Fósforo (P2O5) e Potássio (K2O). De acordo com os resultados da análise do solo, seguindo as normas estaduais ou regionais, estabelecem-se as quantidades dos adubos fosfóricos e potássicos. Nas regiões de solos sob cerrados, na adubação corretiva para Fósforo (fosfatagem) o cálculo da quantidade pode ser feito com base no teor de argila do solo, sendo recomendado usar de 3 a 5 kg de P2O5 solúvel para cada 1% de argila. É aconselhável usar metade do adubo na forma de um Fosfato Natural Reativo (Fosfato de Gafsa, Fosfato da Carolina do Norte e outros), aplicado três antes da calagem, em área total e incorporado, para melhor reação e liberação do Fósforo. A outra metade deve ser usada com um fosfato solúvel (Superfosfato simples, Superfosfato triplo ou Termofosfato) e misturada ao solo da cova ou sulco de plantio. Para o Potássio usa-se o Cloreto de Potássio ou Sulfato de Potássio. Nesta fase dever ser colocado o adubo para Boro, caso a análise do solo o mostre em nível baixo, sendo considerado como bom a faixa de 0,6 a 1,0 mg/kg ou mg/dm3. Na faixa de 0,2 a 0,5 mg/kg pode ser utilizado entre 70 e 30 kg de Bórax /ha, conforme o nível de Boro no solo. Esta adubação deve ser realizada três meses após a calagem e três meses antes do plantio, para uma melhor eficiência na correção dos nutrientes em questão. O Quadro 1 mostra uma sugestão de adubação para Fósforo e Potássio

Quadro 1. Adubação corretiva para Fósforo, Potássio e Boro
Época Disponibilidade de P1 (g P2O5 cova-1) Disponibilidade de K1 (g K2O cova2) Disponibilidade de B1 (g B cova-1)
Baixa Média Boa Baixa Média Boa Baixa Média Boa
3 meses após a calagem
60
40
20
120
80
40
10
5
0
1 Extrator Melich. Faixas segundo Comissão de Fertilidade do Solo do estado de Minas Gerais (1999).
2 Extrator Água Quente. Faixas de B no solo (mgdm-3) : Baixa = < 0,3; Médias = 0,3-0,6; Boa = 0,6-1,0 .
Fonte: Embrapa Uva e Vinho

Adubação de plantio

Após a adubação corretiva segue-se a adubação de plantio, utilizando-se de adubo nitrogenado. Essa adubação se faz por ocasião do preparo das covas ou dos sulcos. Nesta fase deve ser recomendado o uso de adubo orgânico, como o esterco curtido de gado e/ou o adubo mineral, como a Uréia ou Sulfato de Amônio, o Nitrato de Amônio, Nitrato de Cálcio e outros. O esterco curtido de gado pode ser empregado até 40 t/ha, em solos com menos de 2,5% (20 g/kg) de matéria orgânica, ou 40 litros/cova. Não havendo disponibilidade de esterco de bovinos pode se fazer o uso de esterco de aves, cerca de 15 t/ha, que dá bons resultados. Solos arenosos usar maior quantidade de esterco e solos argilosos usar menor quantidade do esterco. Em uvas para vinho é preciso muito cuidado para não se exceder no uso do Nitrogênio, para não prejudicar a fermentação do mosto e a qualidade final do vinho. O excesso de Potássio pode provocar o desequilíbrio na absorção de Cálcio e Magnésio, prejudicando a maturação das uvas e chegar a causar o chamado dessecamento do cacho ou da ráquis, que deprecia totalmente as uvas para a vinificação. O excesso de potássio nas uvas para vinificação pode prejudicar a qualidade do vinho alterando o pH para valores acima do ideal. O Quadro 2 mostra uma sugestão de adubação de plantio.

Quadro 2. Adubação de Plantio
Época Dose de N
(g N cova-1)
% M.O
Esterco curtido de gado
(litros cova -1)
% M.O
< 2,5 2,5 - 3,5 > 3,5 < 2,5 > 2,5
Abertura das covas
0
0
0
40
20
15 dias após brotação
40
20
0
-
-
30 dias após brotação
40
20
0
-
-
60 dias após brotação
20
20
0
-
-
Fonte: Embrapa Uva e Vinho

Adubação de crescimento ou formação

Essa adubação é praticada a partir do primeiro ano após o plantio das mudas ou da enxertia, seguindo até o terceiro ano. Nessa fase usam-se adubos para o Nitrogênio, o Fósforo e o Potássio, com o objetivo de formar a estrutura produtiva das plantas nos dois primeiros anos. As sugestões de adubações estão contidas no Quadro 3.

Quadro 3. Adubação de formação ou crescimento (1º até 2º ano após plantio)
Época Dose de N
(g N cova-1)
Disponibilidade de P
(g P2O5 cova-1)
Disponibilidade de K
(g K2O cova-1)
Baixa Média Boa Baixa Média Boa
Inchamento das gemas-402010604020
15 dias após brotação40------
30 dias após brotação20------
60 dias após brotação20---302010
Fonte: Embrapa Uva e Vinho

Adubação de produção ou manutenção

Essa fase inicia-se no segundo ano após o plantio das mudas ou da enxertia, sendo repetida nos anos subseqüentes. A adubação Nitrogenada deve ser aplicada de 15 a 20 dias após a brotação, enquanto a de Fósforo e de Potássio deve ser realizada pouco antes da poda. Sugestões estão contidas no Quadro 4.

Quadro 4. Adubação de produção ou manutenção
Época Dose de N
(g N cova-1)
Disponibilidade de P
(g P2O5 cova-1)
Disponibilidade de K
(g K2O cova-1)
Baixa Média Boa Baixa Média Boa
Inchamento das gemas-6040209060 30
15 dias após brotação40------
30 dias após brotação30------
60 dias após brotação30---603015
Pós - Colheita30------
Fonte: Embrapa Uva e Vinho

Adubação Foliar

Esta adubação é utilizada para correção de deficiências minerais na safra ou para a safra seguinte, conforme a época que surjam os sintomas. Para este tipo de adubação os produtos mais eficientes são aqueles complexados com quelantes ou contendo polihexoses.
    As - deficiências mais comuns nas videiras são as de Nitrogênio, Potássio, Magnésio, Boro e Zinco. As correções podem ser feitas com os seguintes produtos:
    N - Uréia na concentração de 0,2 a 0,4%.
    K - Nitrato de Potássio de 0,8 a 1,0%; Sulfato de Potássio a 0,25%.
    Ca - Usar produtos quelatizados ou com polihexoses. A calagem eleva o nível de Ca e Mg no solo.
    Mg - Sulfato de Magnésio a 2,0% (32% de MgO) ou a 4,0% (16% de MgO).
    B - Bórax de 0,2 a 0,5%
    Zn - Óxido de Zinco a 0,1% ou Sulfato de Zinco de 0,5 a 1,0%.

Quando ocorre o dessecamento do cacho, ou da ráquis, que é o excesso de K em relação ao Ca e, principalmente, ao Mg, devem ser feitas duas pulverizações com o Sulfato de Magnésio, espaçadas de 10 dias, sendo a primeira no início da maturação das uvas.
    No caso de deficiência de B, devem ser feitas duas pulverizações, podendo usar o Bórax, Ácido Bórico, Solubor, produtos quelatizados ou com polihexoses, desde o início da brotação até próximo a floração. Com os adubos comuns misturar um espalhante adesivo e com os quelatizados ou com polihexoses não há necessidade. Quando for usar o Sulfato de Zinco ele deve ser misturado com Hidróxido de Cálcio a 0,2% para neutralizar a calda e não queimar as folhas.
    O tratamento pós-colheita, usando Uréia + Bórax, ambos a 0,2 - 0,4%, em duas a três aplicações quinzenais, normaliza a brotação e melhora a floração e frutificação para a safra seguinte.
    Para o melhor conhecimento da evolução dos nutrientes nas plantas, recomenda-se o uso da diagnose nutricional, realizada através da análise foliar, que permite detectar até níveis baixos dos nutrientes, que ainda não tornaram visíveis seus sintomas. Os procedimentos para o uso da diagnose foliar são os seguintes:

  • Coleta de material: coletar em torno de 100 folhas completas, ou 100 pecíolos, conforme a metodologia de avaliação a ser empregada. As folhas devem ser de plantas de mesma idade e da mesma cultivar. Não misturar folhas atacadas por pragas, doenças e nem com sintomas de deficiências (essas devem ser amostradas em separado).
  • Tipo de material: a coleta deve ser realizada para folhas completas (pecíolo mais o limbo) ou para pecíolos.
  • Época de coleta: tanto para folhas completas como para pecíolos, a época de coleta é o início de maturação das uvas (mudança de cor e amolecimento das bagas).
  • Local da amostragem: devem ser retiradas folhas completas opostas aos cachos ou até a quinta gema do ramo. Para a coleta do pecíolo o local é na metade do ramo, onde se coleta a folha completa e separa o limbo do pecíolo neste momento.
  • Limpeza: tanto folhas como pecíolos devem ser lavados com água corrente e, após, com água destilada ou desmineralizada, se houver, e secadas à sombra. Após a seca o material deve ser enviado ao laboratório para análises em sacos de papel, devidamente etiquetados.

De posse dos resultados a interpretação dos mesmos pode ser feita conforme os seguintes padrões (Quadro 5):

Quadro 5. Interpretação de resultados de análise foliar para videiras
Macronutrientes
Material Faixa de Interpretação N P K Ca Mg
% (dag Kg-1)
Pecíolos Insuficiente < 0,40 < 0,09 < 0,80 < 0,50 < 0,15
Abaixo do normal 0,40-0,65 0,09-0,15 0,80-1,50 0,50-1,0 0,15-0,25
Normal 0,65-0,95 0,15-0,25 1,50-2,50 1,0-2,0 0,25-0,50
Acima do normal 0,95-1,25 0,25-0,40 2,50-3,50 2,0-3,0 0,50-0,70
Excessivo > 1,25 > 0,40 > 3,50 > 3,0 > 0,70
Folhas completas Abaixo do normal < 1,6 < 0,12 < 0,8 < 1,6 < 0,2
Normal 1,6-2,4 0,12-0,40 0,8-1,6 1,6-2,4 0,2-0,6
Acima do normal > 2,4 > 0,40 > 1,6 > 2,4 > 0,6
Micronutrientes
Material Faixa de Interpretação Fe Mn Zn B
  mgKg-1
Pecíolos Insuficiente < 15 < 20 < 15 < 15
Abaixo do normal 15-30 20-35 15-30 15-22
Normal 30-150 35-900 30-50 22-60
Acima do Normal 150-300 900-1500 50-100 60-100
Excessivo > 300 > 1500 > 100 > 100
Folhas completas Abaixo do normal < 60/td> < 20 < 25 < 30
Normal 60-180/td> 20-300 25-60 30-65
Acima do Normal > 180/td> > 300 >60 > 65
Fonte: Embrapa Uva e Vinho

Obs: Faixas de interpretação para resultados obtidos de amostras retiradas no início do amolecimento de bagas.

Manejo da Cobertura do Solo

Em vinhedos com mais de um ano é importante manter o solo coberto por uma vegetação espontânea ou semeada, como sistema de proteção contra erosão e melhoria de algumas propriedades física e química do solo. O efeito se dá de médio a longo prazo, mas é eficiente no desenvolvimento das plantas. Para alcançar os benefícios da cobertura verde sugere-se o seguinte procedimento:

  1. No final do ciclo vegetativo - fazer a análise do solo para acompanhar a evolução da fertilidade e realizar as correções necessárias. Nesta fase deixa-se vir a relva natural (vegetação espontânea) ou cima algumas espécie para a cobertura do solo do vinhedo. É aconselhável fazer a adubação para a videira nesta fase, somada com a adubação para as plantas de cobertura que, não se tendo informações, pode aumentar de 20 a 30% a recomendação para a videira. O procedimento indicado é o seguinte: calagem (se necessário) - adubação orgânica ou mineral para N, mais a recomendação para o P e o K - semeadura da espécie de cobertura (se for usá-la) - incorporação com capina ou gradagem superficial. Se o período até a próxima brotação for seco é recomendável realizar irrigações para o bom desenvolvimento da cobertura verde.
  2. Antes da poda - fazer uma roçagem ou dessecamento da cobertura verde do solo com herbicida sistêmico (glifosato ou similar).
  3. Após a brotação - quinze dias após a brotação realizar a adubação nitrogenada, seguindo as sugestões nos referido quadro de adubações. As adubações para Fósforo e Potássio só serão realizadas se houver sintomas de deficiências. No uso da Uréia realizar sua incorporação para não perder o N por volatilização.
  4. No final do ciclo vegetativo - repetir o procedimento descrito em 1) e realizar as correções nas adubações caso ocorra alguma deficiência.

As espécies para a cobertura verde podem ser as regionais ou outras que se adaptem às condições locais, podendo ser trevos, tremoço, azevém, nabo forrageiro, crotalárias e outras. Elas não devem ser arbustivas e nem trepadeiras, porque irão sombrear as videiras e prejudicar seu desenvolvimento.

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