Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 9
ISSN 1678-8761 Versão Eletrônica
Dez./2005
Sistema de Produção de Uvas Rústicas para Processamento em Regiões Tropicais do Brasil
Leandro Vargas
Odoni Loris P. de Oliveira
Manejo da vegetação e cobertura

Introdução

As plantas daninhas competem com as culturas pelos recursos do ambiente. A competição é a luta que se estabelece entre a cultura e as plantas de outras espécies existentes no local, principalmente por água, luz e nutrientes. A necessidade de impedir a competição entre as culturas e espécies que ocorrem naturalmente (vegetação de cobertura) existe desde que o homem passou a cultivar seu alimento. A competição afeta negativamente a quantidade e a qualidade da produção. A importância da competição é maior em situações que envolvam solos com baixa fertilidade, pouco profundos e com baixa disponibilidade de água.
    O controle da vegetação em vinhedos é especialmente importante na fase de implantação da cultura ou seja, nos primeiros 4-5 anos de cultivo. As plantas jovens apresentam sistema radicular pouco desenvolvido tornando-se mais suscetíveis a competições por água e nutrientes. Em geral, após o terceiro ano de crescimento as plantas de videira já apresentam bom volume de raízes e de folhas, adquirindo uma maior capacidade de exploração do solo e de sombreamento das plantas daninhas. As espécies que ocorrem próximo a planta da videira são as que mais competem com esta por nutrientes e podem criar ambiente favorável ao desenvolvimento de pragas e doenças.
    A vegetação em vinhedos normalmente é manejada com uso de herbicidas e/ou com capina na linha da cultura e com roçada nas entrelinhas. O método de controle a ser utilizado deve proporcionar bom controle das invasoras, não provocar danos a cultura e favorecer a diversidade de espécies nas entrelinhas.
    O manejo da vegetação de cobertura é apenas um dos componentes do sistema de produção da viticultura. Assim, é necessário que os técnicos e produtores possuam visão holística do sistema, levando em consideração que a vegetação de cobertura, por exemplo, pode influenciar significativamente na ocorrência de pragas, doenças e inimigos naturais. Além disso, a vegetação pode atrapalhar a aplicação dos tratos culturais.

Manejo da Vegetação

As práticas de manejo da vegetação variam consideravelmente entre vinhedos, uma vez que as características ambientais e as espécies presentes podem apresentar grande diversidade. A época de início do manejo da vegetação também é bastante variável e depende das espécies presentes na área e das características do solo, como umidade, fertilidade e profundidade. Em determinadas situações em que ocorram na área espécies de difícil controle, como a grama seda (Cynodon dactylon L.), a língua-de-vaca (Rumex obtusifolius L), a tanchagem (Plantago tomentosa Lam.) e a tiririca (Cyperus rotundus L.) o manejo deve ser iniciado antes da implantação do vinhedo e empregado mais de um método de controle dessas espécies.

Monitoramento

O número de espécies que compõem a vegetação de cobertura em pomares é bastante grande e varia entre as estações de cultivo. O grande número de espécies é importante para manter o equilíbrio, uma vez que muitos inimigos naturais de pragas e doenças utilizam essas espécies como hospedeiros.
    A diversidade de espécies que compõem a vegetação de cobertura é uma resposta às práticas culturais aplicadas, sendo que, dependendo da prática utilizada, enquanto algumas espécies aumentam sua população outras podem diminuir, chegando ao extremo de se ter altíssima diversidade ou apenas uma espécie no local. O uso repetido de herbicidas ou outro método de controle resulta em alterações profundas na composição da vegetação do local, assim a melhor alternativa para manter a diversidade é a utilização alternada e de diferentes métodos de manejo.
    A determinação do método de controle a ser adotado deve levar em consideração as espécies presentes e a resposta destas aos métodos ou práticas adotadas nos anos anteriores. O aumento do número de plantas de uma espécie na área significa que os métodos utilizados estão beneficiando de alguma forma esta espécie e indica a necessidade da alteração do método de manejo. Dessa forma o monitoramento surge como uma importante ferramenta de auxílio na escolha do melhor método de manejo. O objetivo do monitoramento é conhecer a resposta das espécies aos métodos de manejo adotados a fim de evitar a seleção de espécies na área. Portanto, o monitoramento permite ao produtor identificar e conhecer as espécies presentes na área, qual o melhor método e quando este método deve ser aplicado.
    Vale salientar que o controle eficiente de plantas daninhas não implica na inexistência destas no pomar. A cultura "tolera" certo grau de interferência, sem resultar em perdas significativas na produção, ou ainda existem situações onde o controle possui custo superior às possíveis perdas. Assim, existe a necessidade de se conhecer as espécies que ocorrem no pomar, quais as proporções e suas implicações, pois só assim será possível usar racionalmente os diferentes métodos de controle disponíveis em cada sistema de produção.

Manejo da vegetação antes da implantação da cultura

Existem diversas estratégias que podem ser adotadas para reduzir a infestação das plantas daninhas antes da implantação do pomar; dentre elas destacam-se:

  1. Escolha da área - deve-se dar preferência ao uso de áreas livres ou com baixa infestação de plantas daninhas ou, ainda, de áreas com espécies de fácil controle.
  2. Preparo do solo - esta prática elimina as plantas daninhas estabelecidas, facilita a aplicação de corretivos, tornando o ambiente favorável ao recebimento das mudas da cultura. O preparo do solo em épocas de deficiência hídrica é um método para controle de espécies perenes.
  3. Preparo antecipado do solo - esta prática visa induzir a germinação das sementes e a emergência das plântulas, que poderão ser controladas mecanicamente ou com herbicidas antes da implantação da cultura.
  4. Uso de cobertura morta - o efeito físico da cobertura morta reduz a germinação de sementes de plantas daninhas e a emergência de plântulas.

A eliminação de espécies de difícil controle como a grama seda (Cynodon dactylon L.) e a língua-de-vaca (Rumex obtusifolius L), deve ser feito antes da implantação da cultura. O controle destas espécies neste momento amplia as oportunidades de controle que podem ser utilizados, permitindo uso de produtos, como os herbicidas totais, e métodos que seriam impossíveis de serem empregados após a implantação da cultura.

Métodos de controle de plantas daninhas

Controle preventivo

O controle preventivo possui como objetivo evitar a infestação e a reinfestação das áreas em que as plantas daninhas são economicamente indesejáveis, quando o produtor deve reduzir as possibilidades de introdução e multiplicação de propágulos das espécies indesejáveis na área. O controle preventivo visa na sua essência reduzir a infestação e não o controle ou a eliminação das espécies que infestam a área.
    A prevenção da infestação engloba todas as medidas adotadas para se evitar a introdução e disseminação das plantas daninhas. Para implementar o controle preventivo de plantas daninhas, o produtor deverá: usar mudas certificadas, evitar trânsito de animais de áreas infestadas para áreas livres de plantas daninhas, limpar os equipamentos após trabalho em áreas com plantas daninhas indesejáveis e controlar essas espécies em canais e margens da lavoura e nos caminhos. Portanto, o produtor deverá lançar mão de todas as formas para evitar a introdução, disseminação e aumento da infestação das plantas daninhas.

Controle cultural

O controle cultural consiste em usar as condições ambientais ou procedimentos que promovam o rápido crescimento da cultura, favorecendo esta em relação às plantas daninhas. Este método está baseado em dois princípios: as primeiras plantas que ocupam uma área tendem a excluir as demais e a espécie melhor adaptada ao ambiente predominará no local.
    Este método de controle usa, principalmente, as características da cultura para inibir o desenvolvimento das plantas daninhas. Assim, se as práticas culturais favorecem o crescimento rápido e vigoroso da cultura, a tendência é de que as plantas daninhas sejam inibidas, tendo o seu desenvolvimento reduzido, e/ou eliminadas. Os fatores que podem proporcionar grande vantagem para a cultura são: a adubação correta, a adequação da densidade e do espaçamento entrelinhas. Nos espaçamentos tradicionalmente utilizados somente após o segundo ano de cultivo é que a videira apresenta capacidade produzir de folha suficiente para garantir boa cobertura do solo e conseqüente sombreamento das plantas invasoras. A estratégia para obter cobertura antecipada é reduzir o espaçamento entre plantas.

Controle mecânico

O controle mecânico consiste no uso de equipamentos que eliminam as plantas daninhas através do efeito físico de corte, como a enxada, cultivadores e a roçadeira. Os principais mecanismos responsáveis pelo controle das plantas daninhas por meio do método mecânico são: enterrio (as plantas morrem por falta de luz para fotossíntese); corte (consiste na separação da parte aérea das raízes); dessecação (as raízes, rizomas e estolões são expostos ao ambiente e acabam morrendo por desidratação); e exaustão (a estimulação repetida da brotação das gemas leva à exaustão das reservas e morte das gemas, o que é de grande importância para controle de plantas perenes). Em pomares a capina na linha e a roçada na entrelinha são práticas comuns.
    A roçada é o método mais utilizado para manejar a vegetação da entre linha. Esta prática elimina a parte aérea das plantas, reduzindo o crescimento, o uso da água e a massa verde da vegetação, proporcionando maior facilidade para aplicação dos tratos culturais e movimentação. Entretanto, o uso repetido da roçada tende a eliminar algumas espécies sensíveis a operação e beneficiar outras.
    O grau de favorecimento ou de dano da roçada à uma espécie esta estreitamente relacionado com a freqüência e a altura do corte. A freqüência das é importante para manter a vegetação dentro de certos limites de altura de forma a não dificultar os tratos culturais, e varia de acordo com as características ambientais. A fertilidade e a disponibilidade de água favorecem o rápido crescimento da vegetação de cobertura criando a necessidade de maior freqüência de roçadas. Por outro lado, situações de solos com baixa fertilidade e anos secos reduzem a freqüência das roçadas.
    A manutenção da diversidade da vegetação de cobertura é obtida com a aplicação de roçadas com altura não inferior a 10 cm.

Cobertura morta

A cobertura morta é uma prática agrícola que consiste em cobrir a superfície do solo, preferencialmente nas entrelinlas, com uma camada de material orgânico, geralmente com sobras de culturas como a palha ou cascas. A palhada forma uma camada protetora sobre o solo, exercendo efeito físico sobre as sementes e a população de plantas daninhas, principalmente as jovens, atuando sobre a passagem de luz e liberando substâncias alelopáticas, desta forma, proporciona condições adversas para a germinação e o estabelecimento de espécies indesejadas e favoráveis ao desenvolvimento da cultura.
    A cobertura morta pode ser formada a partir de culturas, principalmente gramíneas, consorciadas ou não com leguminosas, com alta capacidade de produção de matéria seca, semeadas para este fim na própria área onde se deseja ter a cobertura ou com uso de materiais ou palhadas transportadas de outros locais.
    O cultivo de culturas de cobertura em vinhedos é uma prática viável e eficiente para reduzir a infestação de invasoras. As espécies utilizadas devem ser adaptadas a região (recomenda-se dar preferência para espécies nativas), produzir grande quantidade de matéria seca e não competir em nenhum momento com a cultura da videira. Estas culturas devem proporcionar no final do ciclo quantidade de matéria seca capaz de formar uma camada de cobertura morta com espessura superior a 8 cm.
    A cobertura morta também pode ser formada no local com materiais orgânicos transportados de outros locais, como cascas, sabugos, palhas, serragem entre outros. A espessura da camada deve ser suficiente para formar uma barreira física capaz de impedir a emergência das invasoras. Em geral isso é possível com camadas de 8-10 cm de espessura. Entretanto, vale salientar que algumas coberturas podem favorecer a ocorrência insetos e pragas indesejadas, até mesmo ratos e cobras. A cobertura morta não controla espécies invasoras perenes.

Controle químico

Os herbicidas são uma importante ferramenta para manejo da vegetação. Entretanto, é importante a consciência de que estes produtos são apenas uma alternativa de manejo e não a única. Assim, em conjunto com a aplicação de herbicidas deve-se usar o método mecânico de cultivo, como a catação com a enxada e a roçada.
    Os herbicidas registrados para videira (Tabela 1) são classificados em duas classes: os pré-emergentes (aplicados antes da emergência das invasoras) e os pós-emergentes (aplicados após a emergência das invasoras).
    Os herbicidas são afetados pelas características do solo e de clima. A textura do solo afeta grandemente o comportamento dos herbicidas pré-emergentes, sendo que solos argilosos e/ou com altos teores de matéria orgânica requerem maiores doses desses produtos.
    As condições climáticas afetam o desempenho dos herbicidas aplicados em pré e pós-emergência. Os produtos aplicados em pré-emergência sem incorporação necessitam de umidade adequada no solo para se difundir e se distribuir naturalmente no perfil, prevenindo-se, assim, perdas por volatilização e fotodecomposição. Já os herbicidas aplicados em pós-emergência, necessitam de condições climáticas que favoreçam sua absorção e translocação na planta. Para isso, em geral, a temperatura mínima é de 10 oC (a ideal entre 20-30 oC) e a máxima de 35 oC. A umidade relativa mínima é de 60% (a ideal entre 70-90%) e a máxima de 95%. Não se deve aplicar herbicidas na presença de ventos com velocidade superior a 10 km h-1, sobre plantas estressadas e em situações de chuva iminente, sob pena de perda da eficiência do tratamento e/ou de causar danos às culturas vizinhas. A aplicação de herbicidas em dias com vento forte poderá provocar deriva, e as gotículas podem não atingir o alvo e sim a cultura. Deve-se evitar aplicações nas proximidades da videira de herbicidas a base de 2,4-D, pois esta cultura é altamente sensível a este produto em determinados estádios vegetativos (Fig. 1).

Fig. 1. Sintomas de fitotoxidez de 2,4-D na cv. Isabel
Foto: João Dimas Garcia Maia

Quando for usar o glifosato deve se ter o cuidado em fazer a desbrota antecipada de brotos no troco do porta-enxerto para evitar fitotoxidêz das plantas (Fig..2)

Fig. 2. Sintomas de fitotoxidêz causado por glifosato
Foto: João Dimas Garcia Maia

A aplicação do herbicida sobre plantas estressadas reduz a absorção e translocação do produto e pode reduzir o metabolismo das moléculas herbicidas na planta, reduzindo a seletividade do produto. A ocorrência de chuva logo após a aplicação pode lavar as moléculas do herbicida da superfície das folhas e impedir a sua absorção. Alguns herbicidas ou formulações usados em vinhedos, como o glyphosate, necessitam de até seis horas sem chuva após a aplicação, para ser absorvido em quantidade suficiente para controlar a planta daninha

Tabela 1. Grupos e nomes comuns de herbicidas registrados para videira.
  Grupo químico Nome comum1
Herbicidas não seletivos
(Dessecação)
Glicina substituída Glyphosate
Homoalanina amônio-glufosinato
Bipiridílio Paraquat
Controle seletivo Triazina Simazine
Ametryn
Uréia Diuron
Linuron
Dinitroalinina Oryzalin
Misturas Uréia + bipiridílio diuron + paraquat
1 Registrado com diferentes nomes comerciais. Nem todos as marcas comerciais possuem registro para a uva.
Fonte: Embrapa Uva e Vinho

Resistência de plantas daninhas a herbicidas

Os primeiros casos de resistência a herbicidas foram relatados em 1957, nos Estados Unidos e no Canadá. Muitos outros casos foram relatados desde então, e hoje há aproximadamente 300 biótipos, pertencentes a mais de 120 espécies, de plantas daninhas que apresentam resistência a um ou mais mecanismos herbicidas em vários países.
    No Brasil existem atualmente treze espécies reconhecidamente resistentes a diferentes mecanismos herbicidas e um destes casos é o de biótipos de azevém (Lolium multiflorum L.) resistente ao glyphosate, identificado em pomares de maçã. O uso repetido do glyphosate é considerado a principal causa do surgimento do biótipo resistente.
    A constatação da resistência do azevém ao glyphosate em pomares assume grande importância, uma vez que esta molécula é utilizada pela maioria dos produtores e não possui uma alternativa equivalente para substituição.
    A prevenção e o manejo da resistência podem ser implantadas com a adoção das seguintes práticas: utilizar herbicidas somente quando e onde realmente for necessário; utilizar herbicidas com diferentes mecanismos de ação; realizar aplicações seqüenciais; realizar rotação de mecanismo de ação; limitar aplicações de um mesmo herbicida; usar herbicidas com menor pressão de seleção (residual e eficiência); fazer rotação de métodos de controle; acompanhar mudanças na flora (monitoramento) e evitar que plantas suspeitas produzam sementes.

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