Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 8
ISSN 1678-8761, Versão Eletrônica
Dez.2005
Uvas Sem Sementes
Cultivares BRS Morena, BRS Clara e BRS Linda
Fagoni Fayer Calegario
Colheita e armazenamento

Pré-colheita
Colheita
Pós-colheita

    O aspecto visual é o fator que mais influi no valor comercial das uvas. Frutos limpos, sem danos mecânicos, firmes, sadios e uniformes quanto ao tamanho, cor, forma, maturação e bem embalados possuem maior valor agregado.     Além do aspecto visual, os consumidores atualmente exigem produtos seguros, sem a presença de resíduos que possam colocar sua saúde em risco. Assim sendo, todas as etapas de pré-colheita, colheita e pós-colheita devem ser realizadas com extremo cuidado e nas mais perfeitas condições higiênico-sanitárias.

Pré-colheita

    Alguns cuidados devem ser observados antes da colheita, visando garantir a qualidade das uvas apirênicas:

  • reduzir a quantidade de água disponível à planta, considerando propriedades e cobertura do solo;
  • realizar uma pré-limpeza da fruta, para reduzir o trabalho de toalete e a perda de água conseqüente de ferimentos ocorridos, quando as frutas já estiverem na empacotadora;
  • aferir o diâmetro das bagas e a concentração de açúcares, bem como avaliar as condições gerais da fruta;
  • programar colheitas e preparar o material necessário;
  • preparar a empacotadora, limpando e sanitizando instalações, equipamentos e materiais e
  • treinar colhedores e operadores para exercer adequadamente suas funções.

Colheita

    Para que as uvas tenham potencial para serem armazenadas, transportadas e comercializadas, chegando ao consumidor com excelente qualidade, deve-se realizar a colheita nas horas mais frescas do dia, evitar colher frutos molhados e sempre respeitar o ponto de colheita.
    As uvas são consideradas maduras quando atingem condições apropriadas para o consumo.
    O ponto de colheita é determinado associando-se: tamanho das bagas, coloração da casca e teor de açúcar, sendo que essas características variam de acordo com as cultivares.
    O teor de açúcar nas uvas das cultivares BRS Clara e BRS Morena pode atingir mais de 20°Brix, porém o ponto de colheita recomendável é em torno de 18oBrix a 19°Brix, quando a relação açúcar/acidez é superior a 24. A cultivar BRS Linda apresenta menor teor de sólidos solúveis, podendo chegar a 14°Brix a 15°Brix, quando deve ser colhida.
    A colheita não deve ser realizada quando o teor de açúcar for inferior aos indicados, uma vez que as uvas não amadurecem depois de colhidas. O teor de sólidos solúveis só aumenta enquanto a uva estiver ligada à planta-mãe.
    Não se deve esperar que as bagas da cultivar BRS Linda fiquem tão amareladas quanto as bagas da cultivar BRS Clara, uma vez que essas duas cultivares possuem colorações características diferentes. Enquanto a cv. BRS Linda apresenta bagas com película de cor verde até a maturação, tornando-se amarelada somente quando exposta ao sol, a cv. BRS Clara apresenta bagas de coloração verde-amarelada, chegando a amarelo mais intenso quando também exposta ao sol.
    Higiene e cuidado no manuseio da fruta na colheita são procedimentos que muito contribuirão para agregar valor e garantir a qualidade das uvas, sem significar elevação de custos.
    Os cachos devem ser colhidos com cuidado, realizando o corte em um ponto rente ao ramo de produção, utilizando tesouras adequadas. Deve-se evitar o contato das bagas com as mãos, segurando o cacho pelo pedúnculo. Além disso, o pessoal envolvido na colheita deve ter as mãos limpas e unhas bem cortadas.
    Ainda no campo, deve-se realizar a primeira toalete (limpeza do cacho), retirando restos de folhas, ramos, gavinhas e bagas com defeitos. Os cachos devem ser cuidadosamente acondicionados em contentores (caixas utilizadas para colheita dos frutos), distribuídos ao longo das linhas de plantio, evitando seu contato direto com o solo. Esses contentores devem ser forrados com material para evitar choques, raspões ou batidas e mantidos à sombra até serem transportados para o local de embalagem.
    O transporte para o local de embalagem também deve ser feito com cuidado, a fim de evitar amassar ou danificar os cachos de uvas ou mesmo provocar degrana intensa das bagas.
    Se possível, os contentores devem ser paletizados no campo para facilitar o transporte. Se o veículo de transporte for aberto, deve-se cobri-lo com lona, deixando espaço entre a cobertura e os frutos para ventilação, mas o ideal é realizar o transporte em veículos fechados e dotados de sistema de nebulização.

Pós-colheita

    Após a colheita, a uva deve ser enviada para o setor de embalagem (packing house) o mais rapidamente possível, para evitar desidratação das uvas, com seca dos engaços e desprendimento das bagas (degrana), que causarão grande prejuízo à qualidade.
    No packing house, que deve estar em perfeitas condições higiênico-sanitárias e bem iluminada, será feita a limpeza, seleção, classificação e embalagem do produto.
    Cuidados especiais são recomendados na manipulação durante colheita, transporte e embalamento a fim de se evitar a degrana, principalmente na cultivar BRS Morena, onde a aderência ao pedicelo é menor do que as outras cultivares. As bagas da cultivar BRS Clara e BRS Linda, por sua vez, têm boa aderência ao pedicelo, sendo bastante resistentes à degrana, mesmo após a seca do engaço. Mesmo assim, o manuseio cuidadoso dos cachos é sempre recomendado para manter a qualidade.
    Após a classificação dos cachos por cor, classe (peso dos cachos) e categoria (qualidade da uva e demais parâmetros como cor, engaço e formato dos cachos), as caixas de uvas devem ser pesadas.
    No embalamento, sempre cuidadoso, é necessário procurar obter o melhor aspecto visual possível. É muito importante que as embalagens escolhidas estejam de acordo com a Instrução Normativa Conjunta n°009, de 12/11/2002, que determina que as embalagens devem:

  • ser paletizáveis, com dimensões que permitam empilhamento padrão de 1,00 m x 1,20 m;
  • não causar danos aos produtos;
  • se descartáveis, devem ser recicláveis ou permitir a incinerabilidade limpa;.
  • se retornáveis, devem sofrer desinfecção a cada uso e
  • conter todas as informações de rotulagem que permitam a rastreabilidade do produto.

    Depois de embaladas, as uvas devem ser resfriadas o mais rápido possível. O ideal seria que o calor das uvas fosse retirado através do pré-resfriamento, onde a temperatura é reduzida rapidamente nos chamados túneis de pré-resfriamento. Depois de pré-resfriadas, as uvas devem ser encaminhadas a câmaras de refrigeração, cuja função é manter a temperatura baixa.
    A refrigeração permite que o produto seja armazenado por tempo muito mais prolongado que o produto mantido à temperatura ambiente. A temperatura ideal para conservação das uvas é de 0°C a 3°C, com umidade relativa do ar em torno de 90%, para evitar desidratação intensa. Nas cultivares BRS Clara e BRS Morena, por exemplo, o engaço desidrata relativamente rápido após colheita em condições de ambiente natural. Face ao exposto, o embalamento em sacolas de plástico ou cumbucas, que depois são acondicionadas em caixas, é uma providência importante para a comercialização dessa cultivar.
    A BRS Linda é a cultivar de maior potencial de armazenamento após a colheita. Destaca-se pela alta aderência ao pedicelo, com alta resistência à degrana e engaço forte e resistente a murchamento, características importantes no período pós-colheita.
    Além de baixa temperatura e alta umidade relativa no armazenamento, algumas tecnologias podem ser associadas para aumentar o potencial de conservação das uvas sem sementes, permitindo que elas atinjam mercados distantes, em épocas mais interessantes para a comercialização, como no caso do processamento mínimo.
    O dióxido de enxofre (SO2) tem sido empregado comercialmente para proteger uvas de mesa contra podridões por Botrytis cinerea e outros fungos. Além de controlar fungos, possui ação antioxidante, influenciando nos processos fisiológicos. Pode ser aplicado como fumigante ou na forma de sachês contendo metabissulfito de sódio (Na2S2O5) que reage com a umidade, produzindo SO2. Quando usado como fumigante para uvas de mesa, o SO2 é oficialmente definido como pesticida, sendo obrigatório, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), que esteja presente em níveis abaixo de 10mg.L-1.

    O importante para a garantia de qualidade e segurança do produto é que todas as etapas sejam realizadas com rapidez, cuidado e higiene.

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