Embrapa Embrapa Uva e Vinho
Sistema de Produção, 8
ISSN 1678-8761, Versão Eletrônica
Dez.2005
Uvas Sem Sementes
Cultivares BRS Morena, BRS Clara e BRS Linda
Gilmar Barcelos Kuhn
Thor Vinícius Martins Fajardo
Doenças causadas por vírus

    A videira pode ser afetada por inúmeros vírus, alguns de forma latente, ou seja, a planta afetada não mostra os sintomas da doença, ou semi-latente quando os sintomas aparecem somente em determinadas fases do ciclo da planta, o que dificulta bastante as atividades de seleção de plantas sadias no campo. Entretanto, de um modo geral, as viroses consideradas economicamente importantes mostram os sintomas característicos, embora possam variar em intensidade e, até mesmo, se tornarem latentes, dependendo da espécie, da cultivar, do clima, etc.
    Essas doenças nem sempre despertam a preocupação dos viticultores, talvez por desconhecimento da sintomatologia, ou devido aos seus efeitos mais graves, geralmente, aparecerem a médio prazo. Porém é bom lembrar que algumas viroses podem causar a morte de mudas com idade entre um e três anos. Outro aspecto importante a considerar é que a videira, por ser propagada vegetativamente (gema, estaca, enxertia), facilita a disseminação das viroses, pois os vírus são levados em qualquer material de propagação originado de planta doente, mesmo que seja uma pequena gema.
    A produção da muda pelo viticultor, utilizando material vegetativo do seu próprio vinhedo ou de vizinhos, sem o conhecimento do estado sanitário (presença ou não de vírus), tem favorecido a disseminação dessas doenças e, com muita freqüência, o acúmulo de mais de um tipo de virose na mesma planta.
    A seguir, são descritas as principais viroses de relevância econômica nos países vitícolas do mundo e que ocorrem de forma intensa nos vinhedos brasileiros e que podem afetar as cultivares sem sementes, embora ainda não se tenha nenhuma informação sobre a presença ou sobre o comportamento dessas cultivares em relação às doenças causadas por vírus.

Enrolamento da folha

    A virose do enrolamento da folha ocorre de forma generalizada em todos os países vitícolas do mundo, provavelmente por não ser uma doença letal e por ocorrer de forma latente nos porta-enxertos. É causada por um complexo de nove vírus (Grapevine leafroll-associated virus, GLRaV), embora cada um dos vírus do complexo possa ocorrer de forma isolada. No Brasil, a virose ocorre em todas as regiões vitícolas tanto de clima temperado como tropical, onde já foram identificados os vírus GLRaV-1, 2, 3 e 6, sendo o GLRaV-3 o mais comum. A doença causa sérios prejuízos podendo afetar o número , peso e tamanho dos cachos, além de diminuir o teor de açúcar da uva e a longevidade da planta.

Sintomatologia: As plantas afetadas pela doença apresentam sintomas que variam com as condições climáticas, época do ano, fertilidade do solo, estirpe do vírus e com a cultivar. São facilmente reconhecíveis em cultivares sensíveis, em especial no fim do ciclo vegetativo, antes da queda das folhas. Em plantas muito afetadas, os sintomas podem começar a partir da floração, porém o mais comum é próximo à maturação da uva.
    O sintoma mais característico da doença é o enrolamento dos bordos da folha para baixo, observado com relativa facilidade nas cultivares viníferas tintas e brancas, embora possa ocorrer infecção sem ocorrer enrolamento dos bordos. Nas viníferas tintas, o limbo adquire uma coloração vermelha-violácea, permanecendo o tecido, ao longo das nervuras principais, com a cor verde normal (Figura 1). Nas viníferas brancas infectadas, o limbo adquire uma leve coloração amarelo-pálida, às vezes mais pronunciada no tecido ao longo das nervuras principais (Fig. 32). Se a infecção é severa, os sintomas são facilmente observados em mudas com um ou dois anos de idade.

Figura 1. Sintoma da virose do Enrolamento da folha em cultivar de uva tinta. Foto: Gilmar Barcelos Kuhn.

    Dependendo do vírus e da sua agressividade, pode ocorrer apenas leve enrolamento e variação na intensidade da coloração vermelha das folhas. Independente da cultivar, as folhas podem apresentar o limbo com aspecto rugoso, quebradiço e de consistência mais grossa. Os sintomas aparecem sempre a partir da base dos ramos, evoluindo para as demais folhas da extremidade. Dependendo do nível de infecção, os sintomas podem se restringir às folhas da base dos ramos. Porém, as plantas com sintomas severos tornam-se totalmente definhadas.
    No cacho, o sintoma mais comum é a maturação irregular e atrasada da uva, chegando até a não se completar em plantas muito afetadas. Além disso, nas plantas com estádio de infecção mais avançado, o número e o tamanho dos cachos são menores e, na vegetação, verifica-se um acentuado enfraquecimento e definhamento.
    Sintomas de avermelhamento ou amarelamento das folhas, semelhantes aos causados por essa virose, podem ser induzidos por outras causas como a deficiência de potássio, magnésio ou boro; ataque de cigarrinhas e ácaros; asfixia da planta devido ao excesso de umidade; infecção por outros vírus, fitoplasmas e fungos radiculares; efeito fitotóxico de pesticidas e outras causas que interrompam a circulação normal da seiva da planta.

Transmissão: A disseminação do vírus ocorre por meio do material propagativo infectado (mudas, estacas, gemas) na formação das mudas, independentemente do método de enxertia. Não há informação de transmissão desse vírus por meio de ferramentas (tesoura de poda, canivete). Em outros países vitícolas, os vírus GLRaV-1 e GLRaV-3 já foram transmitidos experimentalmente entre videiras pelas cochonilhas algodonosas (Planococcus ficus, P. citri, Pseudococcus longispinus, P. calceolariae, P. affinis (Sin. P. viburni), Heliococcus bohemicus e Phenacoccus aceris) e pelas cochonilhas de carapaça (Pulvinaria vitis e Parthenolecanium corni), indicando a possível disseminação natural da doença nos vinhedos. No Brasil, tem se verificado significativa disseminação da doença no campo, possivelmente pelas espécies de cochonilhas que ocorrem em nossos vinhedos, assunto que está em estudo atualmente.

Complexo rugoso

    Essa doença provoca alterações no lenho e é causada por um complexo de quatro vírus, sendo: Intumescimento dos ramos (Grapevine virus B, GVB), Acanaladura do lenho de Kober (Grapevine virus A, GVA), Caneluras do tronco de Rupestris (Rupestris stem pitting-associated virus, RSPaV) e Acanaladura do lenho de LN33 (vírus não identificado). Porém essas viroses podem ocorrer isoladamente, onde as três últimas causam alterações no lenho do tipo 'caneluras' e a primeira provoca como sintoma principal, o 'intumescimento dos ramos'. Na prática, nas atividades de seleção de campo, esse complexo viral é conhecido por 'caneluras do tronco', por ser esse, o sintoma típico da doença.
    A seguir são descritos, separadamente, os sintomas e transmissão da doença do intumescimento dos ramos e do grupo das três viroses que causam caneluras.

Intumescimento dos ramos

Sintomatologia: O intumescimento dos ramos é uma virose de ocorrência comum na maioria dos países vitícolas e no Brasil, tendo sido identificada nas principais regiões vitícolas, afetando cultivares comerciais de produtoras e de porta-enxertos. O sintoma principal da doença é intumescimento dos ramos que somente ocorre nas cultivares mais suscetíveis como as americanas Niágara e Isabel. Em cultivares de uvas viníferas, embora o sintoma de intumescimento não apareça, a doença pode causar prejuízos como a morte de ramos e de mudas novas (um a três anos), queda progressiva de produtividade, maturação incompleta e redução no teor de açúcar da uva.
    Nas cultivares viníferas, as plantas afetadas podem apresentar a brotação retardada e fraca. As folhas tendem a cair mais tardiamente no outono. A uva não amadurece regularmente, e a planta definha gradativamente, ocorrendo a morte de ramos em cultivares mais sensíveis. Em cultivares viníferas e híbridas tintas, no decorrer do outono, pode ocorrer o avermelhamento das folhas que abrange toda a área foliar (Figura 2). Na base do ramo do ano podem ocorrer fissuras e a formação de tecido corticento na região de inserção, facilitando a quebra dos ramos. As mudas formadas com material doente apresentam, na região da enxertia, a formação excessiva de tecidos de consistência esponjosa que, ao amadurecerem, adquirem um aspecto corticento com fendilhamentos longitudinais (Figura 3).

Figura 2. Sintoma da virose do Enrolamento da folha em cultivar de uva branca. Foto: Gilmar Barcelos Kuhn.
 
Figura 3. Sintoma de avermelhamento das folhas em cultivar vinífera de uva tinta afetada pelo vírus do Intumescimento dos ramos. Foto: Gilmar Barcelos Kuhn

Transmissão: O vírus é transmitido pelo material propagativo infectado (mudas, estacas ou gemas) e pela enxertia. Há comprovação experimental da transmissão do vírus pelas cochonilhas Planococcus ficus, P. citri, Pseudococcus longispinus e P. affinis. Não há constatação de transmissão por meio de ferramentas (tesoura de poda, canivete).

Caneluras do tronco

    Essa doença ocorre na maioria das áreas vitícolas do mundo. No Brasil, é conhecida com o nome de caneluras do tronco ou cascudo. A severidade dos sintomas depende da suscetibilidade e da combinação produtora/porta-enxerto, virulência e espécie do vírus. Nas combinações mais sensíveis, a doença causa o declínio e a subseqüente morte da planta. O declínio sempre é acompanhado de uma progressiva e acentuada redução da produção.

Sintomatologia: Os sintomas da doença em cultivares sensíveis são observados com certa facilidade quando se retira a casca do tronco da videira. Verifica-se, sobre a superfície do lenho, a formação de reentrâncias longitudinais (caneluras) que correspondem ao local onde a casca penetra no lenho do tronco, prejudicando a formação dos vasos condutores da seiva (Figura 4). O número de caneluras, bem como seu comprimento e largura, variam muito, possivelmente devido à sensibilidade da cultivar afetada e da espécie e/ou estirpes virais.
    As plantas doentes, em geral, apresentam diminuição do vigor e atraso na brotação das gemas de uma a duas semanas. A casca do tronco é mais grossa e de aspecto corticento (Figura 5). Os porta-enxertos, normalmente, mostram sintomas nítidos da doença. As caneluras podem ser observadas até nas raízes, especialmente em cultivares muito suscetíveis, como é o caso do porta-enxerto Rupestris du Lot. Também pode ocorrer em plantas adultas, na região da enxertia, uma diferença de diâmetro entre o enxerto e o porta-enxerto. Muitas cultivares viníferas têm se mostrado altamente suscetíveis.
    As folhas das cultivares tintas podem apresentar avermelhamento mas plantas muito afetadas, em função da formação deficiente dos vasos condutores na região afetada. A morte de plantas, normalmente, ocorre entre seis e dez anos de idade e, até mais cedo, quando ambas as cultivares (porta-enxerto e enxerto) são muito sensíveis. Em algumas cultivares, a doença permanece em estado latente, ou seja, as plantas são portadoras da doença, mas não mostram sintomas.

Transmissão: A disseminação da virose das caneluras do tronco ocorre pelo material propagativo infectado e a transmissão através da enxertia. Em outros países vitícolas, verificou-se que o vírus GVA é transmitido entre videiras pelas cochonilhas Pseudococcus longispinus, P. affinis, Planococcus citri, P. ficus e Neopulvinaria innumerabilis. Não há relato de vetores envolvendo o vírus RSPaV ou a virose Acanaladura do lenho de LN33. Também não se tem relato da transmissão das caneluras do tronco de uma videira a outra por meio de ferramentas.

Figura 4. Engrossamento na região da enxertia de muda de cultivar vinífera afetada pelo vírus do Intumescimento dos ramos. Foto: Gilmar Barcelos Kuhn.
 
Figura 5. Tronco sem a casca mostrando os sintomas da virose das caneluras do tronco. Foto: Gilmar Barcelos Kuhn.

Degenerescência

É uma das mais antigas e bem caracterizadas viroses da videira, causada pelo vírus Grapevine fanleaf virus (GFLV). É uma importante doença viral na Europa e nos Estados Unidos, onde é conhecida como "dégénérescence infectieuse" e "grapevine fanleaf", respectivamente. No Brasil, não tem grande importância, apresentando baixa incidência. Já foi encontrada no Estado de São Paulo, onde é conhecida por Mosaico do Traviú e no Estado do Rio Grande do Sul.

Sintomatologia: A doença afeta todos os órgãos da videira. Nas folhas, ocorrem deformações com distribuição anormal das nervuras e assimetria foliar com dentes pontiagudos, além de mosaico e manchas translúcidas de formas variadas. Nos ramos, observam-se entrenós curtos, bifurcações, achatamentos, nós duplos e proliferação de gemas (Figura 6). Nos cachos, o número e tamanho das bagas são menores e há formação de bagas que permanecem pequenas e verdes. As plantas doentes são menos desenvolvidas.

Figura 6. Sintomas da virose das Caneluras no tronco: Tronco sem a casca (A) e tronco mostrando o aspecto da casca (B). Foto: Gilmar Barcelos Kuhn.

Transmissão: O vírus é transmitido pelo material propagativo e pela enxertia e, nos vinhedos, pelos nematóides Xiphinema index e X. italiae. No Brasil, já foram constatadas quatro espécies de Xiphinema em videira, X. americanum (Sin. X. brevicolle), X. index, X. brasiliensis e X. krugi, entretanto a incidência dessas espécies nas principais áreas de vinhedos do país e a possível atuação como vetor ainda não são conhecidas. Os restos de raízes de plantas doentes que ficam no solo permanecem viáveis por alguns anos e podem servir de fonte de inóculo em áreas infestadas por nematóides vetores. Não há informação de transmissão por meio de ferramentas.

Manchas das nervuras

   Essa doença é causada pelo vírus Grapevine fleck virus (GFkV) e conhecida na maioria dos países vitícolas do mundo, inclusive no Brasil. É uma doença latente (plantas doentes não mostram sintomas) em praticamente todas as cultivares de produtoras e de porta-enxertos. Embora seja uma virose considerada de pouca importância econômica, ela está bastante disseminada nos vinhedos, motivo pelo qual faz parte dos programas de seleção sanitária no Brasil e nos demais países vitícolas.

Sintomatologia: A doença não causa sintomas nas cultivares comerciais de produtoras e nem na maioria dos porta-enxertos. Essa virose somente causa sintomas característicos nas folhas novas do porta-enxerto Rupestris du Lot e, com menos intensidade, em Kober 5BB, evidenciando-se como manchas translúcidas sem forma definida que acompanham as nervuras (Figura 7). As plantas muito afetadas são menos desenvolvidas e podem apresentar as folhas com os bordos voltados para cima.

Figura 7. Sintomas de deformação dos ramos causados pela virose da degeneração da videira. Foto: Gilmar Barcelos Kuhn.

Transmissão: O vírus é disseminado pelo material propagativo infectado e transmitido pela enxertia. Não há constatação de contaminação de plantas por meio de ferramentas.

Necrose das nervuras

    A doença é considerada de origem viral, apesar de ainda não se ter determinado o agente causal, e conhecida nas principais regiões vitícolas do mundo, além de afetar ampla gama de cultivares. Nas cultivares afetadas, os efeitos negativos parecem ter expressão econômica limitada. Por ser uma doença latente na quase totalidade das cultivares comerciais e por sua alta ocorrência nos vinhedos comerciais, também está incluída nos programas de seleção sanitária do Brasil e demais países vitícolas.

Sintomatologia: A virose não causa sintomas nas cultivares comerciais de produtoras. Dos porta-enxertos, somente o Richter 110 mostra sintomas da doença que se caracterizam por necrose nas nervuras, visível na página inferior das folhas da base, evoluindo para outras folhas com o crescimento do ramo (Figura 8). Quando a necrose é muito intensa, pode induzir enrugamento e assimetria da lâmina foliar. Na superfície dos ramos verdes e no pecíolo da folha ocorrem estrias necróticas. Nas plantas muito afetadas, a coloração verde das folhas é bem menos intensa e a necrose das nervuras pode evoluir para manchas necróticas que abrangem grande parte da área foliar, em especial nas folhas da base dos ramos.
    No Brasil, foi verificado que o porta-enxerto Solferino (porta-enxerto regional do RS) reage à infecção com escurecimento em forma de estrias nos ramos e pecíolos e o franzimento das folhas. Nestas duas cultivares (R 110 e Solferino), quando as plantas estão muito afetadas, ocorre severa redução do crescimento, que evolui para o definhamento total das plantas. Nas demais cultivares, a doença é latente.

Figura 8. Porta-enxerto Rupestris du Lot afetado pela virose das manchas das nervuras. Foto: Gilmar Barcelos Kuhn.

Transmissão: O patógeno perpetua-se no material propagativo e é transmitido pela enxertia. Não há constatação de transmissão por meio de ferramentas.

Técnicas de diagnose

    Infecções múltiplas envolvendo diversos vírus são comuns em videiras, o que torna o diagnóstico baseado em sintomas de campo muito difícil. Muitas cultivares não apresentam sintomas evidentes, seja porque a infecção é latente ou porque a cultivar é mais tolerante. Deve-se considerar, também, outros fatores que causam sintomas semelhantes aos das viroses como carência ou excesso de nutrientes e ataque de outras doenças e pragas. Desse modo, as técnicas de diagnóstico são ferramentas indispensáveis para a identificação de infecções virais. As técnicas aqui mencionadas são executadas pelo Laboratório de Virologia da Embrapa Uva e Vinho em suas atividades de diagnose.

Indexagem biológica em plantas indicadoras lenhosas

    Nessa técnica, os testes de transmissão são realizados por enxertia verde ou de mesa, e os resultados demoram até dois anos. É uma técnica indispensável para a seleção de plantas livres de vírus.

Testes sorológicos

    O teste mais empregado é o ELISA. Esse teste é especialmente adequado para o monitoramento em programas que visam selecionar, manter e propagar material básico livre de vírus. Também são utilizados os métodos moleculares que têm por fundamento o estudo dos dois constituintes básicos da partícula viral, a proteína capsidial e o ácido nucléico, sendo tais métodos complementares às técnicas biológicas e sorológicas para o diagnóstico e a caracterização viral.

Controle das viroses

Utilização de material propagativo sadio

    Quando uma planta está contaminada por vírus, no vinhedo não há meio de controle. Deve-se mantê-la, enquanto produtiva, ou eliminá-la. O controle das viroses da videira somente é viável, no campo, através da utilização de material propagativo sadio (mudas, estacas e gemas) do porta-enxerto e da produtora.
    Como em muitas cultivares, alguns vírus podem ser latentes (planta doente não mostra sintomas), é impossível selecionar plantas sadias pela simples observação no campo. Faz-se necessário obter material propagativo certificado ou fiscalizado, ou seja, que tenha identidade varietal e garantia de sanidade. Esse tipo de material pode ser obtido em órgãos oficiais que desenvolvam programas de produção de material propagativo de videira livre de vírus, ou em viveiristas que multipliquem material sadio originado de órgãos oficiais. Outra opção é a aquisição de mudas, via importação pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, de viveiristas que forneçam o certificado de sanidade expedido por órgão oficial do país de origem.
    Não se recomenda que o viticultor produza suas mudas a partir da seleção de material vegetativo do seu próprio vinhedo ou de outros produtores, pois, como mencionado, os sintomas de infecção viral no campo nem sempre são evidentes. No entanto, caso o viticultor faça a opção de produzir sua própria muda, ele deve observar épocas adequadas para selecionar plantas matrizes. Para os vírus do Complexo do Enrolamento da Folha, a melhor época é no fim do ciclo vegetativo da planta, antes da queda das folhas, enquanto que para as viroses do Complexo Rugoso a melhor época é no período de repouso da planta, embora nas plantas adultas (acima de oito anos) em qualquer época do ciclo podem ser observados os sintomas.
    A maioria dos viticultores e viveiristas está consciente do risco que as viroses representam para sua atividade econômica. Uma vez infectada por vírus, é impossível curar uma planta no campo pelos métodos tradicionalmente utilizados para outras doenças. Somente pela adoção de técnicas laboratoriais, como a cultura de tecidos e a termoterapia, é possível a obtenção de plantas sadias a partir de uma planta infectada por vírus.
    Em países onde a viticultura tem longa tradição, há muito estabeleceram sistemas de limpeza clonal e distribuição de material propagativo. No Brasil, instituições oficiais têm desenvolvido programas de seleção de material vegetativo livre de vírus. A Embrapa Uva e Vinho, no Rio Grande do Sul, vem, ao longo de mais de 20 anos, desenvolvendo um programa de produção e comercialização de material propagativo e matrizes de videira livre de vírus.

Controle de vetores

    No Brasil, ainda não está definido se as espécies de cochonilhas que ocorrem nos vinhedos transmitem vírus. Mesmo assim, como tem sido constatada a disseminação de viroses, especialmente nas regiões vitícolas tradicionais, deve-se fazer o controle eficiente desses insetos.
    No caso da cochonilha considerada como praga, a cultura pode até conviver com certo nível de infestação sem sofrer prejuízos econômicos significativos e, portanto, sem justificar a interferência com defensivos químicos. Quando o mesmo inseto é vetor de vírus, essa consideração não se aplica plenamente, pois mesmo uma reduzida população de insetos poderia eficientemente disseminar o vírus entre as plantas no vinhedo.
    O controle de insetos vetores de vírus é um tema importante que demanda estudos adicionais, específicos para cada situação, procurando definir questões como a eficiência e o alcance dessa prática.

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